DINGBATS BRASIL [1996-2006]

UM DINGBAT É UM ORNAMENTO.
 
Acredita-se que o termo dingbat tenha surgido nas antigas oficinas tipográficas como uma onomatopéia - ding sendo o barulho de quando se batia (to bat) nos ornamentos fixados na rama, antes do entintamento, com o objetivo de preencher alguma incômoda área vazia próxima a um texto ou ilustração.

No livro Elementos do estilo tipográfico, o canadense Robert Bringhurst (na tradução de André Stolarski) aponta que "muitos dingbats são pictogramas, tais como as minúsculas representações de igrejas, aviões, esquiadores, telefones e outras tantas utilizadas pela indústria do turismo. Outros são símbolos mais abstratos - marcas de preenchimento, cruzes, símbolos cartográficos, naipes de cartas, e assim por diante". Como elemento tipográfico, o dingbat passou a acompanhar os alfabetos, seja integrado ao conjunto básico de caracteres, seja de maneira independente. Com os avanços tecnológicos surgidos a partir da década de 1980, observou-se o gradual proliferar de alfabetos digitais exclusivamente compostos por símbolos, formas e ilustrações.

A exposição DINGBATS BRASIL faz um recorte da produção brasileira de dingbats de 1996 a 2006 com trabalhos que em comum apresentam o uso do desenho, da representação pictórica, como principal ferramenta de comunicação. Se por um lado há uma compreensível gama de linguagens e estilos - que reflete a diversidade das artes gráficas brasileiras contemporâneas ao mesmo tempo que encontra paralelos na produção de outros países -, a temática de boa parte dos projetos apresentados se encontra na esfera cultural - de cunho regional e de alcance nacional. Essas iniciativas de resgate ou registro de aspectos da nossa cultura - música, religião, arte, esporte, culinária e até mesmo design - podem ser vistas como um meio, consciente ou não, de democratizar a nossa brasilidade através do design gráfico.

MANGUEBATS
Dispostas em colunas para comparação, as quatro fontes da família MANGUEBATS.

Sem dúvida um dos projetos mais representativos desse discurso é a família MANGUEBATS, de 2003, que explora elementos da iconografia do movimento Mangue Beat, surgido no Estado de Pernambuco na década de 1990. Encomendado pelo SEBRAE para uso pelo empresariado pernambucano da indústria, comércio e prestação de serviços, os Manguebats partiram de uma pesquisa para eleger 26 ícones do movimento, que receberam quatro tratamentos gráficos distintos.

MANGUEBATS

MANGUEBATS 1 - desenvolvido por Leonardo Buggy e Plínio Uchôa Moreira -  é o que mais explora o humor e o traço solto. MANGUEBATS 2 - de Leonardo Buggy e Gustavo Gusmão - segue um caminho mais clean, geométrico, minimalista. Esses mesmos partidos são incrementados com linhas angulosas e referências urbanas, tecnológicas e cibernéticas na MANGUEBATS 3, de Buggy, Bosco e Kboco. A linguagem dos fanzines xerocados, com fotos em preto e branco, no que seria a abordagem mais realista, é encontrada na MANGUEBATS 4, desenhada por Bosco, Buggy, Gustavo Gusmão e Plínio Uchôa Moreira. Em 2004, o projeto foi selecionado e exposto na 1ª Bienal Letras Latinas, no 2º Salão Pernambuco Design e na 7ª Bienal Brasileira de Design Gráfico da ADG Brasil, onde recebeu o Troféu Destaque do júri.

CABRA DA PESTE + ARTESANATO + SERTÃO + RUPESTRE
Emolduradas pela RUPESTRE e dispostas em colunas: CABRA DA PESTE, ARTESANATO e SERTÃO.

O Nordeste brasileiro também é visitado em CABRA DA PESTE (2000), do brasilienese Diego Credidio, e em SERTÃO (2003), do carioca Rafo Castro. Enquanto a primeira mistura personagens características e folclóricas - e algumas aparições de fauna e flora típicas - em tratamento semelhante ao encontrado no artesanato e pinturas populares, a segunda bebe diretamente da fonte das xilogravuras de cordel de artistas pernambucanos como J. Borges e Marcelo Soares. Rafo - que em 2003 desenvolveu o livro Pictorama como projeto de graduação pela UniverCidade com diversas fontes apresentadas nesta mostra - dedica especial atenção às manifestações culturais e de subsistência da regiões Norte e Nordeste em ARTESANATO, de 2003. Nela, retrata peças da cerâmica marajoara e da cestaria, além de figuras e ícones como o berimbau, a figa e a carranca das embarcações amazônicas. Já no desenho da RUPESTRE (1996) para a fonthouse Blindfonts, a carioca Chris Lee usou as imagens produzidas pelo designer Marcello Rosauro de inscrições feitas em pedra há mais de cinco mil anos no Sítio Arqueológico do Ingá, a 26 quilômetros de Campina Grande, na Paraíba.

RODA D'ÁGUA
Logotipo e dingbats RODA D'ÁGUA.

De maneira semelhante, um retrato bastante fiel - embora graficamente estilizado - da mesa brasileira pode ser encontrado na RODA D'ÁGUA, pictofonte de Marcelo Martinez e Fernanda Valverde que integra o sistema de identidade visual do restaurante homônimo em Cabo Frio (RJ), desenvolvido pela Porto+Martinez designStudio em 2000. Todos os itens do cardápio - da pizza de forno a lenha aos frutos do mar, passando por sobremesas mineiras, cafés, sucos, vinhos e cachaças artesanais - foram reunidos nesta fonte para uso exclusivo do cliente em peças promocionais e institucionais. Também feita sob encomenda e com exclusividade para a revista Globo Rural, a RURALDINGS (2000) da tipógrafa paulista Priscila Farias apresenta diversas nuances do universo iconográfico do interior do país de maneira objetiva (com esperada ênfase na fauna), contemplando as necessidades das diferentes seções da publicação.

RURALDINGS
RURALDINGS, exclusiva da revista Globo Rural.

MÁSCARAS ORIXÁS
MÁSCARAS ORIXÁS.

Nossas crenças - outro marcante aspecto cultural - são abordadas de maneiras distintas e até certo ponto antagônicas nas fontes MÁSCARAS ORIXÁS (2003), de Lais Carvalho e Rafo Castro, e FOLCLORE (2003), de Rafo Castro e Paulo Visgueiro. O contraste entre elas é visível, principalmente na escolha de linguagens adotadas. O elegante jogo de rostos possui uma indelével unidade e sensibilidade - o que é bastante apropriado, haja visto que a arte africana, de onde se origina a tradição das máscaras, é reconhecida por sua forma e estética. Já os cartuns-caracteres chegam mesmo a possuir proporções diferentes entre si, uma vez que não foram moldados na mesma fôrma; se em um momento resvalam no tratamento de figuras à la Walt Disney, em seguida assimilam Ren&Stimpy. Não que isso atrapalhe o conjunto, de maneira alguma; promove surpresas ao tornar mainstream o tema principal - os mitos do folclore brasileiro e a sua galeria de vilões: Boitatá, Boi da Cara Preta, Boto, Saci, Cuca, Mula-sem-Cabeça etc.

FOLCLORE + FATOR N
Emoldurada pela FATOR N, as criaturas místicas da FOLCLORE.

Outros monstrengos também podem ser encontrados na cartunesca ÃGLIFEICES (3º lugar na Mostra Tipografia Brasilis 2, de 2001), desenhada por Marcelo Martinez em 1998, ou na viral e virótica FATOR N, que o carioca Filipe Chiminazzo desenvolveu para a fonthouse Subvertaipe em 1997.

ÃGLIFEICES
HERCULES
Diferentes estilos de cartuns em ÃGLIFEICES e HERCULES.

Mas nem todo cartum obrigatoriamente é do mal ou precisa fazer rir. Dando férias ao gestual irregular e ao uso generoso de texturas que caracteriza boa parcela do seu trabalho de ilustração, o cartunista Fabio Zimbres desenvolveu com a colaboração de Priscila Farias a fonte HERCULES (2001). Surpreendentemente geometrizada e mesmo assim leve, a fonte mantém intacto não apenas o seu repertório de estruturas mas também o seu aspecto lúdico. A própria Priscila desenhou a enérgica CRYPTOCOMIX (1997) com uma estrutura que se apropria criativamente da linguagem das histórias em quadrinhos. Na fonte, distribuida pela fonthouse norte-americana T26, as vogais são personagens que mudam de expressão com o uso de acentos e de variação de caixa. Por exemplo: a, A, á e Á são a mesma personagem com expressões diferentes. Já as consoantes são palavras, e a variação de consoante +shift, +option ou +shift-option são sinônimos ou palavras e expressões com um sentido parecido. Algumas teclas de sinais não alfabéticos (virgula, ponto e vírgula, hífen etc) são objetos e cenários de um mesmo ambiente (por exemplo: fundo do mar, peixe, concha, polvo) que também variam com o uso de +shift, +option ou +shift-option.

CRYPTOCOMIX
Personagens e expressões se misturam na complexa CRYPTOCOMIX.

PICTOFONT

Ilustrações editoriais transformadas em dingbats: PICTOFONT.

Também em 1997, o tipógrafo e co-editor da revista Tupigrafia Claudio Rocha fez a sua PICTOFONTE 1, uma coleção de dingbats corporativos-mas-nem-tanto. No mesmo ano, o multitalentoso Guto Lacaz - estimulado pelo próprio Claudio - iniciava a transformação de uma década de suas ilustrações (para a coluna da jornalista Joyce Pascovitch na Folha de São Paulo) na PICTOFONT. As imagens de Lacaz já foram utilizadas em camisetas, recorte de metal e em seu livro de ilustrações Desculpe a letra. Quatro anos depois, a outra mente por trás da Tupigrafia, o ilustrador e tipógrafo da fonthouse paulista Just in Type Tony de Marco, fez o mesmo com as ilustrações vetoriais que produzira para o jornal, transformando-as na REX DINGBATS.

PICTOFONTE 1 + REX DINGBATS
PICTOFONTE 1 em azul, REX DINGBATS em vermelho.

Ainda nesse "grupo", duas fontes complementares de 2000 - FAMÍLIA DINGS e CRIANÇA DINGS - de Rafo Castro, retratam de maneira singela o dia-a-dia da família e o comportamento de seus integrantes.

FAMÍLIA DINGS  + CRIANÇA DINGS
As complementares FAMÍLIA DINGS e CRIANÇA DINGS.

ELETRODOME + AUTORAMA
Oriundos de livretos de instruções, ELETRODOME e AUTORAMA.

Rafo também aborda o cotidiano do lar brasileiro através de seus objetos - incorporando o design industrial ao vocabulário onde o artesanato reinava - nos dingbats de ELETRODOME (2001), AUTORAMA (2003) e CADEIRAS (2003). Diferente das duas primeiras - que são retratadas com rigor de manual técnico - a última fonte faz o registro do mobiliário de designers brasileiros como Sérgio Rodrigues, Joaquim Tenreiro, Humberto e Fernando Campana apenas através de silhuetas.

CADEIRAS
CADEIRAS, apropriadamente no Museu da Cadeira no Rio de Janeiro.

PLANTS OF MINE
As quatro fontes de PLANTS OF MINE.

O mesmo artifício minimalista, que remete ao retrato-silhueta do século XVIII, é utilizado nas quatro fontes PLANTS OF MINE - tema do projeto final de mestrado da paulista Marina Chaccur no London College of Communication, em 2005 (Typographic Ornaments - The evolution of type decoration in print) -, que se baseiam nas formas de plantas suculentas. Isso se repete também aparece na expressão corporal de atividades tão diversas como CAPOEIRA (Rafo Castro, 2003),  KARATÊ (Rafael Dietzsch, 2001), YOGA (Júlio César Aguiar e Rafo Castro, 2003), BHARATA NATYAM (Rafael Dietzsch, em colaboração com Daniel Grilo, 2001) e PUTAS (Rafo Castro, 2003).

CAPOEIRA + KARATÊ + YOGA + BHARATA NATYAM + PUTAS
Interagindo - como na mista sociedade brasileira - as personagens de CAPOEIRA (em verde), KARATÊ (em rosa), YOGA (em amarelo), BHARATA NATYAM (em azul ) e PUTAS (em branco).

Nesses nossos hieroglifos modernos, a arte imita a vida através de imagens artificiais.


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DINGBATS BRASIL

Curadoria, texto e design_ Bruno Porto
Direção de arte_ Bruno Porto + Billy Bacon + Rafo Castro
Design gráfico_ Amanda Lianza + Sarah Stutz
Traduções Inglês/Chinês_ Rafael Freire & Sarah Stutz + Karen Xu & Vanessa Zhao
Produção_ IAV - Instituto de Artes Visuais (RJ) + Lio Flores | Creative Connect (SH)
Impressões_ Studio Alfa (RJ, SP, Colômbia, Venezuela) + NDesign (AM, SC) + Rapid Digiart (SH)
Vitrines da montagem carioca_ YDEA Design (RJ)
Fotografias do catálogo_ João Clávio (RJ) + Raquel Brumana (SP)
BlogMaster-of-the-Universe_ Tiagón El Rey Casagrande
Logo DINGBATS BRASIL desenhado com a fonte No Hole - Eroll de Leonardo Eyer (Nuketype, 1999)

Apoio_ Studio Alfa, ADG Brasil, YDEA Design, VIP Papers, Revista DESIGNE, Revista Tupigrafia, Tipocracia Estado Tipográfico, Associação dos Profissionais de Design de Pernambuco, Instituto de Diseño Darias, Istituto Europeo di Design, Porto+Martinez Booksonthetable, WeDo Encontros com Design, Revista Vizoo, 2AB Editora, Museu da Cadeira do Espaço Cultural Maurice Valansi, Coidigra, NDesign, verbeat.org, Latina, Ypióca, Synergy Group, Build., The Foundry, Creative Connect e Consulado-Geral do Brasil em Xangai.

Agradecimentos especiais a todos citados ou creditados acima + André Stolarski, Andy Lawrence, Adriana Campos, Beatriz Assumpção, Brent Beisher, Bruno Batella, Carlos M. Horcades, Chen Hangfeng, Dan Bignold, David Fox, Domingo Villalba, Edson & Eliane Chaccur, Emerson Lehmann, Eugenio Scoletta, Evando Abreu, Fabiane Medeiros, Fernanda Martins, Françoise Techio, Guilherme Bonder, Gustavo Ferreira, Gustavo Piqueira, Isabel Thees, Itamar Medeiros, Jandira Madeira, João de Souza Leite, João Ferraz, João Lutz, Juan Carlos Darias, Jun Taichi, Leandro Gejfinbein, Leonardo Eyer, Lyn Yang, Luciana Belmok, Luiz Eduardo Carvalho, Marco Kato, Embaixador Marcos Caramuru de Paiva, Marcos Buccini, Milena Benevento, Moema Cavalcanti, Paulo Ji, Priscila Liu, Rafael Camara, Raquel Brumana, Ricardo Leite, Richard Valansi, Ruth Klotzel, Sam Moon 王涌君, Simon Richards, Thiago Martins, Tiagón Casagrande, Todd Gill, Winston Ling, Vanda de Paula & a galera do departamento de Comunicação Visual do Raffles Design Institute de Xangai.


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_ Galeria da Lagoa | Rio de Janeiro RJ Brasil
04.05 - 23.05.2006

_ Istituto Europeo di Design | São Paulo SP Brasil
16.06 - 27.07.2006

_ IV COIDIGRA | Bogotá Colômbia
31.10 - 03.11.2006

_ 17º NDesign | Florianópolis SC Brasil
15.07 - 21.07.2007

_ 18º NDesign | Manaus AM Brasil
01.06 - 07.06.2008

_ Centro Cultural Tulio Febres Cordero | Mérida Venezuela
29.10 - 02.11.2008

_ The Foundry | Xangai China
09.05 - 13.06.2009

_ Icograda World Design Congress | Pequim China
26.10 - 06-11.2009

_ Galeria Venezolana de Diseño | Caracas Venezuela
30.04 - 15.08.2010