E a vida seria linda. Eu moraria em um apê gracinha, decorado meticulosamente com roupas espalhadas pelo quarto, um vaso de plantas na janela, muitos livros, muitos filmes, e um cachorro. A vida seria boa, e ele estaria por perto.
Não só estaria por perto, ele seria lindo, mas do meu jeito. Cuspiria, coçaria o saco e falaria mal do Flamengo, mas seria lindo, porque eu sou do tempo em que as garotas ainda gostavam de meninos que são meninos, e não os que roubam o shampoo caro que eu comprei essa semana. Enfim, ele seria lindo e teria um humor ácido, e eu seria escritora, porque eu sou idiota e penso demais, mas estaria tudo certo, porque aos 22 anos a vida estaria resolvida, e eu me bancaria, e teria acabado de voltar de Paris, e estaria publicada, feliz, com a pele bonita, ganhando dinheiro e amando um cara que falaria mal do Flamengo. Mas não foi bem assim.
O que Copacabana tem de mais parecido com Paris é o francês que faz crepes originais a 20 reais na Avenida Atlântica com a Paula Freitas, e por mais que eu vá até lá de cachecol ouvindo Piaf no IPod ainda não me convence. O Apê bonito, decorado com flores na janela só tem a Samambaia semi-morta e as roupas no chão do quarto, o cachorro virou um gato de nome elegante (Leopoldo Pedro Lobinho) e sobre o amor, bem, o amor que eu tenho, basta por mim e para ele, e eu sinto tudo, sinto até o fim, e é por isso que Copacabana me basta, e que a vida pensada há quatro anos atrás, recém vinda do feudalismo, ainda não chegou. Euquerotantoserfelizquedói. Comendo crepe na Paula Freitas ou num bistrô na cidade luz, com o amor ao lado reclamando do Flamengo ou não dizendo absolutamente nada. Não me conformo com pouco e sempre digo que minha maldição enquanto mulher é não aceitar menos do que tudo, mas aceito de bom grado “a parte que me cabe nesse latifúndio”, mas que os meninos continuem meninos, e que Paris não esteja tão longe.
DATE: 5:11 PM
É engraçado, e até mesmo estranho, perceber como esta mulherzinha é grande: ela cresce, cresce, para se tornar cada vez "mais pequena" (não é o caso de se usar "menor"), mais infantil, pueril, verdadeira. Criança é o único tipo de humano que, por estar cronologicamente posicionada em estação anterior à da puberdade (fase decisiva), foi ainda muito pouco corrompido. E eu acho que, num dia qualquer, a sua mulherzinha pode até vir a morrer, e eu não quero isto. Se esta criancinha que eu vi ali, que entende e gosta de meninos-meninos, e que gosta de biscoito Globo, e que quer Paris, e que sonha, e que quer, e que sente... Se esta criancinha continuar viva, estou certo de que a mulherzinha vai crescer cada vez mais, e mais, e mais, até que, com papel e caneta, descreva em um livro o amor que ela encontrou na Chans Elisée, e que durou apenas um dia, só o mais longo de todos eles.