Dancing with myself

De madrugada tudo soa mais claro. E eu não falo da realidade da insônia nem dos pensamentos que se deitam ao meu lado quando eu não consigo dormir, e sim do cheiro de cigarro no vestido, dos resquícios da vodka e dos pés sujos de lama, e assim eu entendo cada escritor bêbado e todo sentimento que jorra de toda essa clareza. (De uma hora para outra, ainda com os resquícios da vodka grita consigo mesma e reclama o fato da extra-sensibilidade que a irrita mais do que a qualquer outra pessoa.) Esse todo físico que só eu entendo, esse doer das coisas, esse sentir demais, para depois soltar toda a ladainha da busca do equilíbrio, já disse uma vez, eu só funciono no excesso, nos amigos que gesticulam e gritam, nos berros comigo, vindo das pessoas que eu amo, em uma cena qualquer na rua ou um texto que me soque o estômago, na música que me faz chorar, na saudade insuportável da família que está longe, das contas e cantos da minha casa que está pra ser trocada por outra, nos ecos das coisas passadas. Tudo isso incomoda mais a mim do que aos outros, o físico que só eu entendo, o excesso no qual eu me proponho, essa extra-sensibilidade com que eu passo o dia, coisas que só eu vejo, que só eu quero, que eu só sei acalmar dessa forma e da minha indignação de criança por todo o resto que não é assim. Eu funciono desse jeito e “por afrontamento do desejo, insisto na maldade de escrever”. Mesmo que extremamente egoísta, mesmo que só pra expurgar o que tem dentro, mesmo que todos os textos falem da mesma coisa, mesmo que pelo menos este mundo, gire em torno do meu umbigo, então essa é a minha forma de fugir dos meus próprios medos, de encarar tudo que me sobra, de continuar me mantendo sã. E eu não saberia viver de outra forma.

2 Comments

DATE: 12:37 PM

Ah, a madrugada, é aí que acontece. São as melhores horas de um dia, os melhores pensamentos, as melhores conversas, as melhores soluções.

Melhor ainda é poder escrever, extravasar as emoções e jogar os pensamentos assim, desse jeito bom.

“A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda; e como recorda para contá-la.”

(Gabriel García Márquez, em Viver para Contar)

DATE: 5:34 PM

e não é pra ser, paulinha. você é bonita assim, e é interessante assim.
mas fazia tempo que eu não vinha aqui...
beijão!

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Esta página contém um post de Paula Gicovate publicado em outubro 26, 2007 10:55 PM.

Sobre (o) tudo que transborda. é a postagem anterior.

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