Le seul jour aú je n'ai pas parle d'amour

Ficava falando de David Lynch dizendo que o cara é totalmente genial, depois emenda no Gainsbourg e no vinho pela bagatela de 80 reais. Bagatela só se for em outra vida, na minha não, e disse que achava super interessante esse negócio de estudar Latim, me fez balbuciar as quatro frases de francês que eu sei até agora,meio bêbada,de gim tônica.
Numa certa hora da madrugada veio me perguntar o que eu achava sobre fidelidade, pegou na minha perna e eu tive um certo nojo.Lembrei de Bukowski.A minha mãe diz que morre de medo de me ver escritora junkie em Copacabana.Ele ri.Eu explico (sem muita paciência) que só escrevo o que dói e de mim não sai verbalmente,mas que a vida anda muito bem,obrigada.Tocou com o dedo a minha blusa na altura do peito com um jeitinho meio cafa.Tirou um cílio,colocou no dedão e estendeu para mim,pra fazer um pedido.Disse que dá sorte.Eu disse que no momento não preciso de nada e percebo que é a primeira vez que falo isso.Eu não preciso de mais nada,penso. Me indagou sobre a cena Indie e eu disse que só sei do que gosto e ele me disse que é bacana uma mulher beber gim e ouvir Velvet. Na mesma hora penso em mim deitada na cama bebendo vinho e ouvindo Cat Power. Mulherzinha pra caraleo,uma verdadeira farsa.Por último,conta paga,madrugada friorenta andando pela Atlântica.Copacabana é ironicamente calma quando as prostitutas estão ocupadas e os pombos já se esconderam.Na mesma hora lembro de Lygia Clark dizendo que as prostitutas são estrangeiras (“sem pátria, sempre chegando e saindo,esperando homens que nunca ficam”) E que nisso existe uma certa beleza.Eu concordo.
Na porta de casa ele me cobra um texto ( “que não seja sobre amor”) e ironiza o fato de eu não ter feito um pedido.
Eu digo (já quase acreditando) que no momento não preciso mesmo de nada e que quanto ao monotemático dos meus textos, que não se preocupasse,eu não tinha mais nada a escrever sobre o assunto.
Fechei a porta de casa tendo vontade de ligar pra ele e dizer que no dia em que eu parei de falar sobre o amor,finalmente comecei a senti-lo.

3 Comments

DATE: 7:33 PM

vc escreve de um jeito q, sem defeito, parece prever o final. e o final é de um jeito... eh... um jeito sensacional.

DATE: 9:07 AM

"Ela é incrível" pensava sozinho o infante ao reparar em tais palavras...

DATE: 5:14 PM

Muito bom...

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Esta página contém um post de Paula Gicovate publicado em agosto 22, 2007 3:07 PM.

Apenas te peço que aceite, o meu estranho amor é a postagem anterior.

é a próxima postagem.

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