*Ouvindo Obstacle 2 do Interpol
"If you can fix me up we'll go a long way
If you can fix me up, girl, we'll go a long way.
(Take my love in real small doses.)
(...)
But it takes a long time just to get this all straight
In my mind, this is my free time...
To let it all away Spend it all today
Spend it all today
It took time then
I found you. " (Obstacle 2)
A uma certa hora da noite ele olhou pra ela (aquela pose blaseé,cigarro na mão) e disse,como se soasse original: Eu gosto é do gasto.Ela ria dele.Se divertia com o mundo que ele criava para si,achava divertido a forma com que ele olhava tudo por uma lente especial,mas aquilo pra ela não colava.Não colava porque ela sabia muito bem que não queria ser personagem daquela história totalmente platônica que ele criava para si,e até porque,ela já tinha sido.Não queria mais,então ela ouvia,ria,e correspondia quando era confortável todo aquele sentimento falso que ele demonstrava para ela (toda a história do cigarro e da pose blaseé que eu falei) e era divertido olhar os dois daquele jeito,um alimentando o ego do outro,num eterno retorno (que ele achava que tinha resolvido) e ela na verdade só tinha curiosidade.Diziam que Ana era fria,ela não era,fingia que,pra ele soava charmoso,a verdade é que ela sabia fingir muito bem.Já ele era extremamente galanteador,e na realidade,era ele que era o grande frio da história,fazia com que as pessoas se apaixonassem perdidamente,para depois cansar delas,e partia então para uma nova história de amor fulminante que duraria 60 minutos.A deles durou 6 anos.Ironicamente nunca se deram bem com outras pessoas,e nem com eles próprios,tinham um amor muito grande nas mãos,não sabiam o que fazer com ele.Na verdade nunca souberam lidar com grandes responsabilidades,se formaram na faculdade com o mínimo de pontos,trabalhavam e pagavam suas contas com o mínimo de dinheiro e ao longo dos anos arrumavam o máximo de desculpa para se encontrarem.Passaram por várias fases,já conheceram namorados alheios,já tomaram chopes juntos depois do trabalho,fizeram sexo casual algumas vezes por ano sempre rindo falando que aquilo jamais iria influenciar a relação que eles tinham.Sempre influenciou.Ana e Pedro são dois grandes hipócritas,dois grandes canalhas,dois grandes filhos da puta que se amavam com o corpo inteiro e a alma também,mas eram egoístas demais (medrosos demais) para deixar com que um invadisse por inteiro a vida do outro.Hoje Ana está em londres estudando moda.Pedro continua no Brasil com uma namorada média ganhando dinheiro pela primeira vez na vida como redator publicitário.É claro que ainda se falam,mandam e-mails todos os dias e sim,continuam escrevendo amenidades e matando um ao outro com sadismo absurdo ao contar de todas as relações que estão tendo enquanto estão longe.São dois mentirosos como sempre foram,dois imaturos como sempre foram.Agora por exemplo Ana compra um bilhete aéreo pela internet,volta para o Brasil em dois dias,enquanto Pedro fuma displicente um cigarro olhando a janela imaginando “onde é que aquela sem vergonha está agora”.Mal sabe ele que ela chega em dois dias,com coragem o suficiente para ocupar seu apartamento e sua vida por inteiro,enquanto ele com certeza vai encontra-la com a nova namorada,uma gostosa da academia que ele freqüenta.Eles ainda não sabem,mas vão ficar mais uns anos sem se ver,até se frustrarem ao ponto de o orgulho próprio ser menor do que o amor.E no caso deles é.Nem que seja daqui a outros 6 longos anos.
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