abril 2009 Archives

neve.jpgOutro dia nevou em Paris. Aí eu perguntei pro meu pai o que que era a neve. Ele disse que era o gelo bem fino que caía do céu. E eu perguntei se tinha congelador nas nuvens, pra poder fabricar o gelo. Meu pai disse que não era preciso, pois ficava tão frio lá em cima que a água congelava sozinha. Aí eu me lembrei que na nossa geladeira a água congelada vira uma pedrona de gelo e perguntei se no céu tinha uma máquina pra quebrar esse gelo em um montão de pedacinhos, pra virar neve fininha. Ele disse que queria ver o jornal e que falava sobre isso depois.

Percebi que o meu pai não sabia nada sobre neve e fui perguntar pro meu irmão mais velho, que é tão grande que consegue encostar o pé no chão quando senta na cadeira. Ele falou que a neve era um fenômeno meteorológico que fazia cair cristais de gelo. Aí eu perguntei pra ele o que era meteorológico e ele disse que eu era burra. Então eu chorei bem alto e forte e minha mãe veio perguntar o que tinha acontecido. Eu disse que o João tinha me chamado de burra e minha mãe falou pra ele ir pro quarto. Mas aí eu fiquei sem saber o que é meteorológico.

E quando minha mãe fazia um café com leite bem quentinho pra mim eu perguntei também pra ela o que era a neve. Ela me explicou que eram os vapores de água que se congelavam, lá em cimão, nas nuvens bem altas. Aí é que eu não entendi nada mesmo, pois pra mim o vapor é quente. Pelo menos é o que a minha mãe sempre me diz quando eu chego perto do fogão pra ver a chaleira soltando aquela fumaça. Ela diz "sai daí, Gabriela, esse vapor vai acabar te queimando". Eu também começo a achar que a minha mãe não entende muito das coisas. Se o vapor é quente, como é que ele não derrete a neve?

Sabe, eu nunca desisto de uma pergunta. A professora da escola diz que eu tenho espírito de cientista, porque eu gosto de saber tudo em detalhes. Mas não é nada disso. É que os adultos falam bobagens para as crianças, talvez com medo de que a gente não entenda a explicação de verdade. Mas o que eu acho mesmo é que eles nunca sabem as respostas, então inventam uma história qualquer. Ou então dizem "olha, é complicado explicar isso", "você ainda não tem idade pra saber", "depois da novela a gente conversa", "pergunta pro seu pai", "pergunta pra sua mãe" e esse tipo de coisa.

Por isso eu fui perguntar pro Mathieu, que é meu amiguinho da escola. O Mathieu é muito inteligente. Ele já consegue até amarrar o cadarço do tênis sozinho. Outro dia eu consegui também, mas depois minha mãe ficou reclamando comigo, dizendo que eu tinha dado tantos nós que mais parecia uma teia de aranha aquele cadarço e que ela ia ter que cortar tudo com a tesoura e comprar um novo. Pra mim estava bem bonito.

E o Mathieu falou que a neve era o que os adultos usavam para fazer o sorvete. Mas que eles guardavam esse segredo bem guardado que era pras crianças não tomarem sorvete o tempo todo. Aí eu perguntei pra ele como é que o sorvete chegava em um país quente como o Brasil sem derreter. E ele disse que todo o sorvete do mundo era feito nos países frios e depois era transportado em geladeiras muito grandes dentro de navios muito grandes.

Aí eu tive uma idéia muito muito boa. Falei pro Mathieu que quando a gente for grande pode pegar um avião, voar bem lá no alto e jogar sabores diferentes em cima das nuvens. Aí não vai nunca mais cair neve. Vai cair sempre sorvete, já prontinho. O Mathieu adorou a idéia e até já falou que vai ser piloto de avião pra gente poder fazer isso sem pedir a ajuda de ninguém. Aí eu falei que já que a gente ia ficar rico podia se casar e ter muitos filhos. E nessa hora ele saiu correndo pro parquinho. O Mathieu pode ser muito inteligente, mas às vezes ele ainda é um pouco imaturo.

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nasal.jpgComo todos sabem, a França foi fundada por Asterix, o herói narigudo que tinha Obelix como parceiro. Obelix não possuía uma fuça tão avantajada como a de seu comparte, mas compensava o fato com a grandeza de sua pança. Os três, Obelix, Asterix e seu narix, derrotaram os romanos e preservaram a integridade do território gaulês.

A partir da idade média, o país passou a ser governado por reis. Um deles, Luís XIV, adorava enfiar o nariz onde não era chamado. E um dia soltou a famosa frase "quem peidou aqui?", seguida de outra menos conhecida, "o estado sou eu". Mas foi seu herdeiro, Luís XVI, quem pagou o pato, quando veio a Revolução Francesa e o monarca perdeu o nasal e a cabeça. Ao mesmo tempo.

Nesse interim (texto com pretensão histórica tem que ter a palavra interim, para passar um mínimo de credibilidade) nasceu Napoleão. Dizem que ele colocou as ventas pra fora de sua mãe e falou "isso não está cheirando bem". Depois deram um banho na progenitora, o que amenizou um pouco o problema. Mas a impressão de que algo fedia na França continuou nas idéias e nas narinas do sujeito, e ele decidiu que seria imperador. Não contente com aquele cheiro de camembert que imperava no país, Napoleão saiu atrás de novos ares, conquistando tudo o que encontrava pela frente. Exatamente por olhar apenas para as próprias ventas, não percebeu que os ingleses chegavam por trás. E dançou.

Mas os franceses têm uma capacidade de entrar em confusão comparável apenas ao tamanho de suas fuças, e meteram-se em duas guerras mundiais. Na segunda, foram salvos graças à intervenção do General De Gaulle, dotado de uma capacidade estratégica e de uma tromba invejáveis. Dizem que De Gaulle metia muito medo nos seus adversários, principalmente quando ameaçava espirrar.

E após tantas batalhas, eles decidiram investir em outras áreas, como cinema e esportes. Na primeira, o ator Gérard Depardieu fez suspirar metade das mulheres do mundo, com seus dois órgãos sexuais, um deles pendurado entre os olhos. E na segunda, viram surgir o campeão de fórmula 1 Alain Prost, que faturou quatro títulos mundiais. Devido à sua napa, Prost largava sempre em primeiro, mesmo que estivesse na última fila. Depois dele, as regras do esporte foram mudadas. Para ser declarado vencedor, passou a ser exigido que o carro atingisse antes a linha de chegada. E não o piloto.

Hoje em dia, a França continua honrando sua tradição de criar personalidades com um grande sugador de oxigênio, tanto que é presidida por Nicolas Sarkozy. E mesmo que muitos dos franceses já torçam o nariz para ele, ao se casar com a Carla Bruni o baixinho mostrou que pelo menos para as mulheres tem um ótimo faro.



v e r b e a t b l o g s

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