- Alô?
- Alô.
- Quem fala?
- Mais fácil você dizer pra quem ligou.
- É o Hugo, mexicano?
- Não. É o Daniel, brasileiro.
- Brasileiro?
- Sim, do Brasil.
- Não é o mexicano?
- Não, esse vem do México, por acaso.
- Mas você fala espanhol?
- Não.
- Claro, claro. Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
- Também não.
- E você fala o quê, afinal?
- Português.
- Como em Portugal?
- Vejo que a senhora pega as coisas rápido.
- Tem certeza de que não é brasileiro?
- Até onde eu sei é português mesmo.
- Português?
- Sim.
- Ah, Hugo, você quase me enganou dessa vez. Quase mesmo.
- Acho que a senhora está realmente se confundindo.
- Deixa de bobagem. Reconheço esse seu sotaque mexicano em qualquer lugar. Jacques, Jacques, escuta aqui a nova do Hugo...

- Alô?
- Alô.
- Hugo?
- Daniel.
- Daniel? Essa é boa. Há quanto tempo, Hugo!
- É. Parece que nunca nos falamos.
- Hugo, a sua capacidade de imitar sotaques me impressiona.
- Tem coisa nessa conversa que me impressiona bem mais.
- Incrível. Quase chego a acreditar que você consegue falar brasileiro.
- Português.
- Espera aí que eu vou te passar pra alguém que quer muito ouvir sua voz. Marie, corre, é o Hugo no telefone.

- Alô?
- Alô.
- Hugo?
- Eu mesmo.
- Tudo bem?
- Indo.
- E essa história de Brasil, hein?
- A gente tem que inovar.
- Então fala um pouco de brasileiro pra eu ouvir.
- "Caipirinha?"
- Nem está tão bom assim.
- Não?
- Eu vi o Julio Iglesias na TV. Ele puxa mais o "r".
- Mas o Julio Iglesias não é brasileiro.
- Hugo, você precisa se informar melhor. Tenho certeza que você vai falar brasileiro perfeitamente se escutar os discos do Julio Iglesias.
- Deixa os discos pra lá.
- Bom, Hugo, a família toda te abraça e deseja um feliz ano novo.
- Em espanhol a gente diz "feliz año nuevo".
- E em brasileiro?
- Não faço idéia.
- Viu? Precisa estudar mais.
- Eu vou, juro.
- Beijos.
- Beijos. E muchas gracias.
- Esse Hugo...

torre.jpgEu sou o Daniel. Moro em Paris. Paris fica na França. A França é o país
da torre Eiffel. A torre Eiffel foi construída para a exposição universal
de 1889. A exposição universal de 1889 foi feita em homenagem aos
100 anos da queda da Bastilha. A Bastilha era uma prisão que foi destruída
na Revolução Francesa. A Revolução Francesa foi quando os parisienses
tomaram gosto pela trilogia de liberdade, igualdade e fraternidade,
e também pela decapitação real. Na decapitação real dançaram feio
o rei Luis XVI e sua esposa Maria Antonieta. Maria Antonieta foi aquela
que falou ao povo: "já que não há pão, comam brioches". O brioche nasceu
na região da Normandia. A Normandia tem ótimos crepes e foi o local
do desembarque das tropas aliadas, decisivo para o fim da II Guerra Mundial.
Na II Guerra Mundial a França do Marechal Petáin colaborou com o bigodudo
Hitler e os alemães. Os alemães disputaram e perderam para os franceses,
no século XIX, o controle de Estrasbourgo. Em Estrasbourgo moraram
Mozart, Pasteur, Gutemberg e Calvino, este um dos líderes da reforma
da igreja católica. A igreja católica é aquela que fala sobre desprendimento,
mas nunca deixou de cobrar o dízimo. O dízimo também era exigido por muitos
reis da antiguidade. A antiguidade é um tempo que passou há muito tempo.
O tempo, dizia o francês Nostradamus, é apenas a decomposição da matéria.
Entre as matérias da escola, eu detestava biologia vegetal, mas adorava geometria.
A geometria deve muito a René Descartes, um dos pais da filosofia moderna.
A modernidade é um tempo que ainda está passando. Quem passa as roupas na
casa dos meus pais é a Dona Evandete, toda 5a feira. 5a feira em francês se diz
jeudi, que significa "dia de Júpiter", em latim. O latim é a língua que deu origem,
entre outros, ao português, ao espanhol, ao romeno, ao catalão, ao francês e
ao italiano. Franceses e italianos não se cansam de se agredir mutuamente.
Uma agressão recente foi a cabeçada de Zidane no zagueiro Materazzi.
Materazzi foi um dos destaques da seleção italiana campeã de 2006. 2006 foi
o ano do rato. O francês Blek, o Rato usa estêncil para fazer incríveis grafites
na rua. A rua é o lado de fora da casa. Minha casa é um apartamento, mas antes
era um "apertamento". Um "apertamento" é uma piada sem graça. Outra piada
sem graça é a do "não, nem eu". Eu sou o Daniel. Moro em Paris.

neve.jpgOutro dia nevou em Paris. Aí eu perguntei pro meu pai o que que era a neve. Ele disse que era o gelo bem fino que caía do céu. E eu perguntei se tinha congelador nas nuvens, pra poder fabricar o gelo. Meu pai disse que não era preciso, pois ficava tão frio lá em cima que a água congelava sozinha. Aí eu me lembrei que na nossa geladeira a água congelada vira uma pedrona de gelo e perguntei se no céu tinha uma máquina pra quebrar esse gelo em um montão de pedacinhos, pra virar neve fininha. Ele disse que queria ver o jornal e que falava sobre isso depois.

Percebi que o meu pai não sabia nada sobre neve e fui perguntar pro meu irmão mais velho, que é tão grande que consegue encostar o pé no chão quando senta na cadeira. Ele falou que a neve era um fenômeno meteorológico que fazia cair cristais de gelo. Aí eu perguntei pra ele o que era meteorológico e ele disse que eu era burra. Então eu chorei bem alto e forte e minha mãe veio perguntar o que tinha acontecido. Eu disse que o João tinha me chamado de burra e minha mãe falou pra ele ir pro quarto. Mas aí eu fiquei sem saber o que é meteorológico.

E quando minha mãe fazia um café com leite bem quentinho pra mim eu perguntei também pra ela o que era a neve. Ela me explicou que eram os vapores de água que se congelavam, lá em cimão, nas nuvens bem altas. Aí é que eu não entendi nada mesmo, pois pra mim o vapor é quente. Pelo menos é o que a minha mãe sempre me diz quando eu chego perto do fogão pra ver a chaleira soltando aquela fumaça. Ela diz "sai daí, Gabriela, esse vapor vai acabar te queimando". Eu também começo a achar que a minha mãe não entende muito das coisas. Se o vapor é quente, como é que ele não derrete a neve?

Sabe, eu nunca desisto de uma pergunta. A professora da escola diz que eu tenho espírito de cientista, porque eu gosto de saber tudo em detalhes. Mas não é nada disso. É que os adultos falam bobagens para as crianças, talvez com medo de que a gente não entenda a explicação de verdade. Mas o que eu acho mesmo é que eles nunca sabem as respostas, então inventam uma história qualquer. Ou então dizem "olha, é complicado explicar isso", "você ainda não tem idade pra saber", "depois da novela a gente conversa", "pergunta pro seu pai", "pergunta pra sua mãe" e esse tipo de coisa.

Por isso eu fui perguntar pro Mathieu, que é meu amiguinho da escola. O Mathieu é muito inteligente. Ele já consegue até amarrar o cadarço do tênis sozinho. Outro dia eu consegui também, mas depois minha mãe ficou reclamando comigo, dizendo que eu tinha dado tantos nós que mais parecia uma teia de aranha aquele cadarço e que ela ia ter que cortar tudo com a tesoura e comprar um novo. Pra mim estava bem bonito.

E o Mathieu falou que a neve era o que os adultos usavam para fazer o sorvete. Mas que eles guardavam esse segredo bem guardado que era pras crianças não tomarem sorvete o tempo todo. Aí eu perguntei pra ele como é que o sorvete chegava em um país quente como o Brasil sem derreter. E ele disse que todo o sorvete do mundo era feito nos países frios e depois era transportado em geladeiras muito grandes dentro de navios muito grandes.

Aí eu tive uma idéia muito muito boa. Falei pro Mathieu que quando a gente for grande pode pegar um avião, voar bem lá no alto e jogar sabores diferentes em cima das nuvens. Aí não vai nunca mais cair neve. Vai cair sempre sorvete, já prontinho. O Mathieu adorou a idéia e até já falou que vai ser piloto de avião pra gente poder fazer isso sem pedir a ajuda de ninguém. Aí eu falei que já que a gente ia ficar rico podia se casar e ter muitos filhos. E nessa hora ele saiu correndo pro parquinho. O Mathieu pode ser muito inteligente, mas às vezes ele ainda é um pouco imaturo.

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Leia também: Paris para crianças

nasal.jpgComo todos sabem, a França foi fundada por Asterix, o herói narigudo que tinha Obelix como parceiro. Obelix não possuía uma fuça tão avantajada como a de seu comparte, mas compensava o fato com a grandeza de sua pança. Os três, Obelix, Asterix e seu narix, derrotaram os romanos e preservaram a integridade do território gaulês.

A partir da idade média, o país passou a ser governado por reis. Um deles, Luís XIV, adorava enfiar o nariz onde não era chamado. E um dia soltou a famosa frase "quem peidou aqui?", seguida de outra menos conhecida, "o estado sou eu". Mas foi seu herdeiro, Luís XVI, quem pagou o pato, quando veio a Revolução Francesa e o monarca perdeu o nasal e a cabeça. Ao mesmo tempo.

Nesse interim (texto com pretensão histórica tem que ter a palavra interim, para passar um mínimo de credibilidade) nasceu Napoleão. Dizem que ele colocou as ventas pra fora de sua mãe e falou "isso não está cheirando bem". Depois deram um banho na progenitora, o que amenizou um pouco o problema. Mas a impressão de que algo fedia na França continuou nas idéias e nas narinas do sujeito, e ele decidiu que seria imperador. Não contente com aquele cheiro de camembert que imperava no país, Napoleão saiu atrás de novos ares, conquistando tudo o que encontrava pela frente. Exatamente por olhar apenas para as próprias ventas, não percebeu que os ingleses chegavam por trás. E dançou.

Mas os franceses têm uma capacidade de entrar em confusão comparável apenas ao tamanho de suas fuças, e meteram-se em duas guerras mundiais. Na segunda, foram salvos graças à intervenção do General De Gaulle, dotado de uma capacidade estratégica e de uma tromba invejáveis. Dizem que De Gaulle metia muito medo nos seus adversários, principalmente quando ameaçava espirrar.

E após tantas batalhas, eles decidiram investir em outras áreas, como cinema e esportes. Na primeira, o ator Gérard Depardieu fez suspirar metade das mulheres do mundo, com seus dois órgãos sexuais, um deles pendurado entre os olhos. E na segunda, viram surgir o campeão de fórmula 1 Alain Prost, que faturou quatro títulos mundiais. Devido à sua napa, Prost largava sempre em primeiro, mesmo que estivesse na última fila. Depois dele, as regras do esporte foram mudadas. Para ser declarado vencedor, passou a ser exigido que o carro atingisse antes a linha de chegada. E não o piloto.

Hoje em dia, a França continua honrando sua tradição de criar personalidades com um grande sugador de oxigênio, tanto que é presidida por Nicolas Sarkozy. E mesmo que muitos dos franceses já torçam o nariz para ele, ao se casar com a Carla Bruni o baixinho mostrou que pelo menos para as mulheres tem um ótimo faro.

carnaval-1.jpgVocê sabia que o carnaval como conhecemos hoje no Brasil é inspirado em um modelo surgido em... Paris?

Mais ilógico do que isso, só mesmo o cálculo do dia em que começa essa festa. Pra mim, tão complexo quanto ciência de lançamento de foguetes. Se não me engano, a data é fixada no momento em que o Rei Momo come 36 acarajés de uma só sentada. Ou será que é quando consegue digerir? Bem, não importa. Eu nunca vou entender mesmo.

Porém, depois de descobrir isso, peguei-me imaginando: e se as famosas marchinhas que animam nosso carnaval tivessem sido escritas na França, como elas seriam?

Eu tenho alguns palpites.


Cabeleirra do Louis

Olha a cabeleirra do Louis
Serrá que ele ri?
Serrá que ele ri?

Serrá que ele ri da nobrreza?
Serrá que ri do camponês?
Só a Revolução Frrancesa
Prra dar um jeito nesse rei

Corta a cabeça dele!
Corta a cabeça dele!


É de fazer chorrar

É de fazer chorrar
Quando o dia amanhece
E tá um frrio de rachar
Ó, que inverno ingrrato
Chega tão deprressa
E demorra a passar
Quem é de fato um bom parrisiense
Já pertence
A toda essa geleirra
Porrém quem veio de um país que é quente
Não fica, não, contente
Em se sentir na geladeirra


Yes, nós temos baguetes

Yes, nós temos baguetes
Baguetes prra todo frreguês
Baguete normal, baguete integrral
Só não temos o pão frrancês


Edith

Se você falasse pouco
Ô ô ô ô Edith
Nos poupava do sufoco
Ô ô ô ô Edith

Um encontrro na prraça
Ou no hall do elevador
É tudo o que basta
Prra causar um atrrasô
- "Se tinha um comprromisso
Cancele, não hesite"
Ô ô ô ô Edith


Mamãe eu querro

Mamãe eu querro, mamãe eu querro
Eu querro manifestar
Querro um comício, ou passeata
Querro um motivo prra poder prrotestar

Dors mon petit, dorme meu rapaz
Pega a mamadeirra e não esquece do cartaz
Eu tenho um slogan que vai arrasar
"Frrancês que é frrancês adorra reivindicar"


Allah-lá-ô

Allah-lá-ô-ô-ô-ô
Mas que frriô-ô-ô-ô
Atrravessando os bulevarres de Parris
O vento estava frrio e congelou o meu narriz

republique.jpg
Um dia desses tive um sonho bem estranho. Tomava uma taça de vinho na place de la République, com uma mulher que não conhecia. O papo era agradável, mas de repente surgiu uma contagem regressiva no alto da minha, digamos, tela mental. E indicava que aquele sonho terminaria em 5 segundos. Caramba, 5 segundos? No melhor da conversa? Quando já começávamos a virar fumaça como o gênio da lâmpada, tive a idéia.

- A gente se reencontra amanhã, aqui mesmo, às 14h.
- Mas onde?
- Na esquina em frente ao KFC.
- Combinado!

Nunca reparei se havia realmente um KFC em République. Fui conferir no dia seguinte, na internet, e para a minha surpresa havia mesmo um, exatamente em uma das esquinas. Nem preciso dizer que a minha manhã foi simplesmente a espera da hora do encontro. Até cheguei adiantado, como não é do meu costume.

Os termômetros marcavam 5 ºC. Moleza para quem já enfrentou - 8ºC. Tanto que fiquei sentado nas mesas do lado de fora, na esquina combinada, um pouco admirado da minha nova condição de imune ao frio. Aí lembrei que estava disfarçado de urso polar, com um grosso casaco de lã e um sobretudo. Bom, quase imune, digamos.

Eu não tinha muita certeza se ela viria mesmo. E além do mais, não seria muito fácil reconhecer um rosto que havia visto apenas uma vez, e em um sonho.

Uma senhora passa e pára em frente ao cardápio. Não era ela. Uma mais jovem vem em seguida, escutando seu iPod no último volume. Olhamo-nos nos olhos. Por um instante, pensei que poderia ser. Mas ela não me reconheceu, então não era.

Observo a paisagem ao redor. No meio da praça, a estátua construída em homenagem à volta da república na França, após o período dos imperadores. As árvores ainda estão secas. A fumaça sai da boca das pessoas quando elas falam. E elas falam os mais diferentes idiomas. Inglês, italiano, espanhol, português, línguas orientais, eslavas e tantas outras que não conseguiria entender nem aqui e nem na China. Muito menos na China, aliás.

Acredito tê-la visto, saindo de um café ao lado. Mas essa passa por mim sem nem me notar. Observo uma outra, parada, exatamente no lugar onde combinamos. Parece esperar alguém. Olha impaciente para o relógio e, depois, na minha direção. Passo a mão nos cabelos, disfarçando um aceno tímido. Mas logo pára um carro na sua frente, e ela salta pra dentro. Dommage.

O dia está bonito. Céu quase azul. O sol bate nas janelas dos prédios, revelando uma luz transversal e fraca. Apenas o suficiente para fazer dessa uma agradável journée d'hiver.

E é nesse exato momento que percebo que ela está ao meu lado. Na verdade, já estava quando eu cheguei. Reconheço seu rosto. É o rosto de todos que passam por aqui. É o negro, o japonês, o escandinavo, o latino, todos. São os carros, os ônibus, as vélibs, as motos. O KFC e o McDonald's ao lado de tradicionais cafés e brasseries. A senhora fumando, o senhor com as compras, a moça de óculos fashion, a mãe e a filha levando flores para alguém, os adolescentes com guitarras, o cachorro na coleira, o viajante e suas malas pesadas, o casal abraçado e apaixonado, os pombos misturando-se às pessoas, a velha de cabelo tingido de vermelho, as guimbas de cigarros ainda acesas pelo chão, o jovem pai empurrando um carrinho de bebê.

São 14h30. Já estou aqui há mais de meia hora. E ela, Paris, há muito mais tempo do que isso.

eiffel.jpg - Tem passarinho em Paris?
- Tem muito.
- Eles falam francês?
- Eu acho que já percebi um sotaque.
- E eles voam perto da Torre Eiffel?
- Voam. E perto da Notre Dame também.
- Mas as gárgulas não os comem?
- E você nessa idade sabe lá o que é uma gárgula?
- Vi no Google.
- Então você devia saber que elas estão petrificadas.
- Deve ser cansativo ficar petrificado.
- Elas nem sentem. São obras de arte, como a Mona Lisa.
- A Mona Lisa é aquele quadro de uma mulher?
- Isso mesmo. Ele está em Paris. Tem filas para vê-lo.
- Por quê?
- Porque é o mais famoso do mundo.
- Quando eu crescer eu quero ser famosa e quero que tenha fila pra me ver, mas não quero ser um quadro não.
- E quer ser o quê?
- Presidente da França.
- Pra fazer o quê?
- Pra comer escargot.
- Você sabe o que é escargot?
- Não.
- É um caramujo.
- Eca.
- Os franceses comem.
- É por isso que eles fazem aquele biquinho?
- O biquinho é por causa do sotaque.
- Eu acho bonito o biquinho.
- Eu também.
- Só não quero mais comer escargot.
- Você pode comer pain au chocolat.
- O que é isso?
- É um pão com chocolate.
- Deve ser bom.
- É sim.
- Se eu morasse em Paris eu comeria pão com chocolate o tempo todo.
- Não seria legal pra sua saúde.
- Aí eu tomaria vinho depois. Eu vi na TV que é bom pro coração.
- ...
- Lá tem praia?
- Tem o rio Sena.
- É bonito?
- É. Só não dá pra tomar banho.
- Meu irmão já tinha me falado que francês não toma banho.
- Não é verdade. Todo mundo que eu conheço na França toma banho.
- E você conhece todo mundo na França?
- Não.
- Eu queria viajar pra Paris.
- E o que você iria visitar primeiro?
- A EuroDisney!
- Tem o Parque Asterix também.
- Quem é Asterix?
- É um desenho francês.
- Ele é amigo do Mickey?
- Acho que não.
- Eu prefiro o Mickey.
- Mas o Mickey não fala francês.
- Mas o Pato Donald fala.
- Como você sabe?
- Por causa do biquinho, né?

Quando cheguei a Paris meu francês não era grandes coisas. E mesmo quando não entendia o que falavam, sempre mantive a pose de totalmente fluente, fruto de algumas técnicas que desenvolvi.

É verdade que existem livrinhos de consulta rápida com frases prontas em diversas línguas. Normalmente divididos por temas, como 'chegando na cidade', 'saindo pra jantar' ou 'pedindo informações', são ótima opção para garantir ao menos uma comunicação básica.

Mas se o que você quer é fazer todos acreditarem que você aprendeu francês na Sorbonne, anote as dicas a seguir. Para ser tão didático quanto o Monsieur Gérard, dividi os ensinamentos em capítulos.


Cinq minutes de merde

O que é

A primeira técnica, batizada de "Cinq Minutes de Merde", foi criada por causa de um fato estranho que acontecia comigo. Mesmo que o assunto fosse fácil e as pessoas não falassem muito rápido, eu demorava cinco minutos pra dar um boot no meu sistema operacional interno e ajustar o cérebro à conversa. Era como um rádio meio fora da estação, onde você pesca algumas palavras mas não consegue entender o contexto.

O que fazer

Primeiro, fique com um leve sorriso na cara o tempo todo. Dá um ar de quem está por dentro do assunto. Mas não exagere, pra não ter expressão de idiota. Olhe para quem está falando, mas não muito, pois ele pode te pedir uma opinião. O ideal é balançar um pouco a cabeça e ficar atento às outras pessoas da roda. Se elas rirem, ria também. Se fizerem cara de espanto, coçe o queixo.

Quando entender um pouco, solte um "je vois" ou um "oui" de tempos em tempos. São os equivalentes ao nosso "sei, sei...", que não quer dizer nada, mas diz tudo.

Mas quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j'ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas NUNCA peça pra repetir. É o momento ideal de procurar o banheiro.


Faisant des ronds dans l'espace

O que é

É o tradicional circular pelo ambiente. Técnica fundamental, pois ninguém te pega no canto pra tentar desenvolver uma conversa. Se for uma festa é mais fácil. Mas se for uma mesa de bar o problema é maior.

O que fazer

Há duas possibilidades para essa situação: ambientes onde você pode e onde você não pode se locomover.

Na primeira categoria encaixam-se festas, aperitivos, recepções e afins. É moleza se livrar. Basta circular com um copo quase vazio na mão. Quando alguém se aproximar, antecipe o passo e pergunte se ainda tem vinho. A frase-chave é "il y a encore du vin?". Sirva-se e depois dê o sumiço. Claro que você pode trocar pela sua bebida preferida. Um rápido guia de referência: cerveja é bière, água é eau e coca é coca mesmo.

A segunda possibilidade é mais complicada, e ocorre em jantares, mesas de bar e ocasiões onde todo mundo fica sentado. Torça para ninguém te perguntar nada. E quando houver uma pausa na conversa, lance você um assunto. Aliás, lance e em seguida vá ao banheiro. O banheiro é fundamental em todas as situações descritas aqui. É lá que você vai se refugiar por alguns preciosos minutos. O tempo suficiente para que se esqueçam um pouco da sua presença. Mais detalhes sobre lançar um assunto no capítulo seguinte.


En disant des courgettes

O que é

Conhecida em português como "falando abobrinhas", é uma técnica avançada, para aqueles que já têm ao menos uma pequena noção de francês. Consiste em preparar alguns tópicos para usar no momento certo.

O que fazer

Se você souber que vai sair, separe 30 minutos do seu dia para buscar umas palavras no dicionário e organizar um ou dois temas com os quais você tenha familiaridade. Uma boa dica é falar de futebol, pois eles não perdem a chance de se vangloriar em cima dos brasileiros, e você não precisará dizer muita coisa. Frases fundamentais: "C'est vrai, mais le Brésil est cinq fois champion du monde" (é verdade, mas o Brasil é cinco vezes campeão do mundo) e "Pelé a marqué plus de mille buts. Et Zidane?" (Pelé marcou mais de mil gols. E o Zidane?). Solte na hora em que você desconfiar que todo mundo está falando das derrotas de 1998 e 2006.

Um outro tema interessante é caipirinha. Os franceses adoram a bebida. Se algum deles não provou ainda, certamente conhece alguém que já o fez e contou maravilhas a respeito. Boa pra soltar ali pelo meio da noite, quando o nível alcóolico das pessoas deverá estar mais elevado. Frases fundamentais: "J'aime bien boire de la caipirinha sur la plage d'Ipanema" (eu adoro tomar caipirinha na praia de Ipanema) e, se você for do tipo polêmico, solte uma "la caipirinha c'est mieux que le vin" (a caipirinha é melhor do que o vinho). Mas aí você vai precisar estar preparado pra responder.


Com essas técnicas, aplicadas nas horas certas, posso garantir que seu francês será elogiado por todos. Quando isso acontecer, faça um ar meio blasé e tenha outra frase na ponta da língua: "merci beaucoup, mais j'espere que la prochaine fois on parlera en portugais" (muito obrigado, mas tomara que da próxima vez a gente converse em português). E saia.