sydney em tópicos # prisioneiro

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● Dois leoninos juntos é uma combinação explosiva. Essa é uma das poucas verdades esotéricas em que acredito. Quando decidi vir morar na Austrália, há pouco mais de dois anos atrás, não sabia que Sydney era de leão. Isso ficou claro já no nosso primeiro encontro. A cidade chegou exuberante, usando um vestido decotado valorizando as praias e os pontos turísticos. Antes mesmo de se apresentar, ela se aproximou confiante e sussurrou no meu ouvido em tom provocativo obscenidades inimagináveis, coisas que ninguém espera ouvir de alguém que recém conheceu. Um legítimo convite VIP à luxúria. Não acredito em amor à primeira vista, pensei, mas quem sabe uma exceção à regra é o que preciso?! Então aceitei o convite e pequei. Como consequência, fui condenado a viver esse romance com Sydney até que eu desvende os seus porquês. É como uma versão pós-moderna do enigma da esfinge: decifra-me ou te devoro em ritmo fast-food, te vomito, faço um video e coloco no youtube. Achei que a pena pudesse ser diminuída por bom comportamento. Aparentemente é o contrário que faz efeito. Por isso, está decidido: a partir de hoje vou surtar todos os dias. Quem sabe assim a cidade me dá um pé na bunda e me liberta dessa prisão que é viver na indecisão.

● Nada é por acaso. Nem você aí, nem eu aqui, nem os brasileiros vindo em bando pra a Austrália. Com certeza essa migração tem alguma coisa a ver com o fato de os dois países já terem sido vizinhos de continente. Na época da pangéia, quando nosso querido planeta era formado por um único bloco de terra há milhões de anos atrás, Brasil e Austrália não eram tão distantes. Daria até pra pegar um ônibus pinga-pinga de Porto Alegre pra Sydney, com paradas na África, pra uma sopa de elefante no almoço, e na Antártica, pra um rodízio de pinguim no jantar. Isso tudo se você acredita em geografia.

● O Australia Day (dia da Austrália, em tradução óbvia e desnecessária) é um bom ponto de partida pra se entender esse lugar. Nesse dia se comemora a data em que os britânicos chegaram em Sydney pra ficar. Não confunda com o descobrimento do país. Dia 26 de janeiro foi o dia da mudança, dia em que os europeus estacionaram suas perucas imperiais na Oceania. Mas a grande ilha perdida no pacífico não virou casa da praia do rei. O Capitão Arthur Phillip veio pra transformar Sydney em colônia penal, uma espécie de big brother compulsório para criminosos. A idéia era esvaziar as cadeias superlotadas da Inglaterra mandando os prisioneiros pra cá e dar uma oportunidade pra essas pessoas de *reputação duvidosa* começarem vida nova. Quem completasse sua pena ganhava terra pra plantio. E foi assim, como num conto de fadas rural, que começou a expansão do continente.

● Grande erro estratégico fazer da Austrália um campo de prisão. Os britânicos deviam ter se mudado pra cá e transformado a Inglaterra em cárcere. Quer castigo maior do que aquele clima?!

● A primeira frota de navios britânicos vindo pra Austrália fez escala no Rio de Janeiro pra pegar comida. Diz que a feijoada não caiu bem e que eles tiveram que parar numa lojinha de conveniência no meio do oceano Índico pra comprar papel higiênico.

● O site Convicts to Australia tem todos os nomes dos prisioneiros que foram mandados pra cá. Dá pra refinar a busca pelo nome do navio e ano da chegada. Quem tem parentes australianos pode procurar pelo sobrenome e ver se eles têm antepassado safadinhos.

● Antes da Revolução Americana, quando as colônias se uniram e lutaram por independência e pela criação de Hollywood, era pros Estados Unidos que os britânicos mandavam seus prisioneiros. Se a revolução tivesse acontecido alguns anos antes, vários americanos seriam australianos e, quem sabe, o Mickey Mouse seria um canguru.

● A independência da Austrália foi bem diferente e já dava sinais da cultura local. Não teve guerra, revolução ou queimada de sutiãs. Foi um processo democrático, debatido e consentido. Tudo politicamente correto. Freud ajuda a entender o indivíduo, a história ajuda a entender a cultura e as Polianas australianas ajudam velhinhas a atravessar a rua.

● O principal símbolo da independência do Brasil é o grito do Ipiranga, o que explica muito sobre nossa cultura. O filme homônimo, recém lançado, oferece insights interessantes sobre o que é ser brasileiro. Assita ao trailer.

● Quem descobriu a Austrália? Pasme, os portugueses. A estátua no Hyde Park é do Capitão britânico James Cook, que chegou aqui em 1770. Mas encontraram recentemente em uma biblioteca de Los Angeles uma carta náutica que mapeia com precisão detalhes geográficos da costa leste da Austrália em português, pois pois. Segundo o livro *Beyond Capricorn* (algo como *Além do /trópico de/ Capricórnio*) Cristóvão de Mendonça liderou uma frota de 4 navios que passaram por aqui em 1522. A teoria do autor Peter Trickett também se apoia no fato de que foram encontrados artefatos portugueses do século 16 na costa do país, incluindo um cd do Roberto Leal.

● Se os portugueses tivessem colonizado a Austrália, o Brasil seria seu ciumento e ressentido irmão mais velho que tem certeza que foi adotado.

● O que me assusta é que muitos dos prisioneiros trazidos pra Austrália, mesmo os condenados por pequenos crimes, tiveram suas penas transformadas em prisão perpétua. Eles foram condenados a viver nesse novo universo, longe de casa, deixando pra trás tudo aquilo que tinham construído até então. Não são barras de ferro, muros altos ou algemas que me impedem de voltar pra o Brasil. O que me prende aqui é a dúvida. E se aguardar o momento certo para tomar uma decisão é inevitável, melhor esperar ganhando em dólares.

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Sensacional negrinho!
Teu texto esta ficando cada vez melhor. E tenho certeza que, se tu morasse aqui na Italia, tu teria muuuuuita, mas muuuita historia pra contar!

Abracao
Rogerio.

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This page contains a single entry by Diego published on abril 24, 2008 4:12 AM.

dois anos de austrália em poeminha repetitivo e de rima pobre was the previous entry in this blog.

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