Da comoção ao ódio
Esta semana, o ator Michael J. Fox, ídolo dos anos 80 que sofre de doença de Parkinson, comoveu o público ao participar do anúncio abaixo em apoio à candidata democrata do Missouri para o Senado, porque ela é a favor da pesquisa com células-tronco embrionárias (rejeitada pelo seu oponente republicano).
Mas como a extrema-direita americana não tem limites, ética ou respeito humano, começou a atacar o comercial usando um dos mais famosos radialistas reacionários, Rush Limbaugh. No seu programa de 23 de outubro, Limbaugh acusou Michael J. Fox de estar "fingindo e exagerando" seus sintomas da doença para as câmeras no anúncio: "This is really shameless of Michael J. Fox. Either he didn't take his medication or he's acting, one of the two." Esse é o tipo de nojeira que parte da direita americana nos meios de comunicação.
Ontem à noite, no jornal da noite da CBS, Katie Couric ouviu Limbaugh acusar o Partido Democrata de explorar "vítimas" em suas campanhas políticas. Em seguida, entrevistou Michael J. Fox ao vivo (veja aqui). Dando uma lição de dignidade, Michael J. Fox respondeu:
"Em primeiro lugar, ele usou a palavra "vítima". Em outra ocasião, ele usou a expressão "de dar pena". Entenda, ninguém nessa posição quer pena. Não dou a mínima para a pena de Limbaugh e ninguém mais. Eu não sou uma vítima. Eu sou uma pessoa que vive essa situação. Estou nessa situaçào com outros milhões de americanos, e nós temos o direito de, se há possibilidade de cura, perseguir essa possibilidade com o total apoio de nossos políticos. Então eu não preciso da permissão de ninguém para fazer isso."
Michael declarou ainda na entrevista que não é partidário democrata ou republicano. Ele apóia os candidatos que abracem a causa da pesquisa de células-tronco embrionárias.
Comments
Não que a gente não possa contar com the likes of Rush Limbaugh para descer aos piores níveis, mas essa do MJF foi uma das coisas mais enojantes que eu já vi na vida.
Essas pessoas têm a compaixão de um psicopata. Be very afraid.
Posted by: Cam Seslaf | novembro 2, 2006 12:48 PM
Rush Limbaugh should be beaten severely by a throng of furious cripples.
Posted by: Capt. K | outubro 30, 2006 11:37 AM
Leila, eu fiquei tão revoltada com isso, é muito triste ter um problema de saúde e ainda ter de enfrentar cretinos como esse diretóide a dizer que o cara tá ingindo. A baixaria da imprensa daqui não tem limites, mesmo. Mas o Michael J. Fox tem tido sempre muita dignidade quando dala sobre sua condição e, mesmo depois disso tudo, tem respondido com muita classe.
Posted by: Denise Arcoverde | outubro 29, 2006 2:44 PM
Leila, penso como o Flávio.
Legal o que vc disse lá sobre o convite para dançar eu não sabia. :)
Bj
Posted by: laura | outubro 28, 2006 10:56 AM
Leila, sempre aprendo com seus posts e depois de um tempo sem visitá-lo, estou aqui de novo.
Gosto do modo como você trata os assuntos e gostaria, se me permite, que se dedicasse, de vez em quando, a temas relacionados a família, etc.
Afinal, você tem um filho pequeno e está imersa neste mundo de mamãe, criança, escola, etc..
Eu trabalho e escrevo sobre famílias em litígio. Muitas vezes, estes litígios são internacionais, envolvendo disputas entre cidadãos dos ricos países centrais e mulheres brasileiras que se envolveram com um "gringo".
A legislação de alguns países é muito dura, impedindo que uma mãe ou pai visitem uma criança.
Enfim, isto é apenas uma sugestão, quando você quiser ou estiver inspirada...
Continuo lendo e aprendendo com seu blog.
Grande abraço, Maria Luiza
Posted by: luiza valente | outubro 28, 2006 5:43 AM
O mais legal é que a Claire MacCaskill deve ganhar a eleição no Missouri no Senado por causa dessa questão das células-tronco.
Aliás, você viu que os republicanos no Missouri estão dizendo que a pesquisa com celulas-tronco permite a clonagem?
Posted by: André Kenji | outubro 27, 2006 8:52 PM
Observadora Anatenta, entendi teu ponto de vista. Ou melhor, acho que entendi. Aqui na Italia no ano passado houve um plebiscito onde fomos chamados e confirmar ou nao a lei que regulamenta a matéria. Foi rejeitada a lei e hoje na Italia nao se pode fazer inseminaçao artificail de embrioes desenvolvidos "in vitro". Isso levou a o que? Quem tem dinheiro, atravessa a fronteira e vai fazer na Suiça, ou Alemanha. Quem nao tem, vai carregar a frustraçao de saber que os meios existem e que a sua liberdade de escolher foi cerceada. O engraçado é que o método permitido, de estimulaçao hormonal, segundo médicos, produz uma quantidade maior de embrioes que serao destruidos naturalmente, além de riscos enormemente maiores para as maes. Veja que aqui se fala da escolha do péssimo no lugar do meio ruinzinho. O debate foi todo centrado na questao moral e a tropa pelo não foi capitaneada pelos cardeais e bispos de plantão. Talvez seja por isso minha associação de idéias. Mas o que eu sei é que a Igreja, que vende a idéia de vida eterna, não poderá por isso mesmo, abrir mão de mistificar o argumento até as últimas consequencias e contribuindo com isso, ainda que indiretamente, a formar na cultura a idéia de inicio da vida a que voce se referia. Voce sabe que no antigo testamento está escrito que nem o esperma pode ser desperdiçado? Eu não gostaria de ter que economizar isso também. Outro exagero, para ilustrar: os testemunhas de jeová não fazem tranfusões de sangue, ainda que com risco de morte. O sangue para eles é como o embrião nesse caso.
E posso citar uma infinidades de coisas que foram enormes tabus no passado e que hoje sao fundamentais e ou corriqueiras. Por isso que penso que a cultura deva discutir seus caminhos de forma desapaixonada. Acho que estamos fazendo isso. Bom debate esse.
Posted by: Flavio Prada | outubro 27, 2006 2:31 PM
Só para complementar: eu sou bastante fascinada com a definição do que é "vida" para uma cultura e quais os desdobramentos disso. E também as contradições, que muitas vezes coexistem pacificamente. E acho interessante analisar o impacto disso numa cultura como um todo. É mais ou menos por aí que vão meus pensamentos e dúvidas sobre essas coisas. Um dia eu resolvo, espero. :-)
Posted by: Observadora Atenta | outubro 27, 2006 1:57 PM
Flavio, você se enganou. Minha motivação é plenamente racional. Eu realmente acho que, quando uma cultura estabelece coisas a nível legal, isso muda valores a longo prazo. Questões como aborto, eutanásia, clonagem, células tronco de embriões etc são delicadas porque envolvem exceções. Leis, infelizmente, não cobrem exceções e nesses casos raramente vão ser justas para ambos os lados em "guerra". Eu entendo que parece absurdo encarar como pessoa plena de direitas algumas celulazinhas - minha cautela vai para o que se fazer com essas idéias, entende? Porque isso tem zilhões de desdobramentos e marca uma cultura.
Por exemplo, o que a Leila disse para me chamar a atenção faz muito sentido. Os embriões de poucos dias são jogados fora há muitos anos, já; por que não usá-los para a pesquisa? Muito mais digno, sem dúvida. Mas eu estava pensando no escopo geral, não no imediato. Aprovações de leis e etc. Eu ainda não li o suficiente sobre o assunto para ter uma posição, entende? Por isso fico dividida. Não sou categórica a ponto de dizer "libera aí" e pronto. Há questões que preciso resolver nessa coisa toda.
Não tem nada de religioso nisso, não. Eu penso bastante nos dois lados, sim. E acho que tem muita assim como eu, por mais que exista gente doida e de direita babona que pense o mesmo que eu.
Posted by: Observadora Atenta | outubro 27, 2006 1:54 PM
Observadora, voce é realmente atenta. Voce tem razão, eu generalizei, mas com o objetivo de criar uma imagem contrastante. Generalizar é sempre perigoso sim, principalmente porque a mesma pode ser pinçada e descontextualizada. Voce tem toda razão, mas meu crime foi levíssimo e justificado.
O fato de voce se comover com guerras e estar dividida com a questao dos embrioes, só comprova mesmo que a minha foi uma generalização. Mas também não quer dizer que tua dúvida tenha uma motivação racional. Não quero fazer a apologia do racionalismo puro, até porque isso não existe, mas chamar a atenção para o quanto de dogma e tradiçoes religiosas ainda temos impregnando a cultura leiga. Quero dizer, nao vamos tratar do assunto em modo frio e indiferente, mas também nao vamos chegar ao ponto de atribuir direitos de cidadania a embrioes de poucas dezenas de células, como querem os bispos.
Posted by: Flavio Prada | outubro 27, 2006 1:24 PM
Leila, Howard Stern criticou Rush Limbaugh esta semana por conta disso, e botou no ar a gravacao aonde ele critica Michael J Fox. Fiquei inojada do Rush Limbaugh, que teve a capacidade de ir ao ar falar essas asneiras. Nao sabia que o Michael havia respondido. Ponto pra ele! Vou agora assistir o video.
Beijos
Posted by: Laurinha | outubro 27, 2006 12:09 PM
Observadora, as células-tronco embrionárias são as que realmente têm promessa de cura. Dizer que é a favor das pesquisa com células adultas apenas é uma cortina de fumaça.
A questão ética sobre os embriões usados na pesquisa... Esses embriões estão sendo JOGADOS FORA nas clínicas de fertilidade. Usar esses excedentes numa pesquisa que pode curar pessoas já vivas e sofrendo é uma forma muito mais nobre e ética de se desfazer desses aglomerados de células. Até porque o projeto-de-lei exige que os doadores dos embriões (os pais que passam por tratamento IVF) assinem um termo consentindo que os embriões excedentes sejam usados na pesquisa.
Posted by: Leila | outubro 27, 2006 11:23 AM
Nossa, sem querer ser chata e monopolizar sua caixa, Leila, mas reli o que escrevi lá embaixo e meti os pés pelas mãos. "nível estadual, não federal. A mesma coisa pensa o senador Jim Talent, o cara que ele menciona aí e que é contra a medida."
Na verdade eu quis dizer que o Talent também pensa a mesma coisa, ou seja, acha que deve ser algo federal e não estadual, e portanto não concordo com ele também nesse aspecto.
Pra quem não gosta de ler blog político eu sou bem politizada, diz aí. Hehehehe. :-D
Posted by: Observadora Atenta | outubro 27, 2006 11:23 AM
Flavio Prada, vou comentar uma coisa que vc disse: "O que intriga é que quem tenta bloquear as pesquisas o faz em nome de crenças irracionais a respeito de embriões fecundados, mas não se comove nem um pouco com genocídios e guerras por exemplo."
Veja o meu caso: eu me comovo com genocídos, guerras, mortes, o que for. Sou gente, tenho coração. Quero menos sofrimento no mundo, pra todo mundo e pra quem sofre com doença. Mesmo assim, sou bem dividida com essa coisa da pesquisa com células tronco embrionárias.
O que você disse só comprova o que eu disse: esse tipo de generalização é bem usada em política, mas é muito preto & branco, pra pintar mocinho e bandido.
Posted by: Observadora Atenta | outubro 27, 2006 9:57 AM
Errei ali embaixo: "isso *não* é inteiramente verdade"
Posted by: Observadora Atenta | outubro 27, 2006 9:52 AM
Outra coisa também que o Fox fala no vídeo é que o Jim Talent é contra a pesquisa com células-tronco. Isso é inteiramente verdade: o Talent, pelo que sei, é totalmente a favor de pesquisas com células-tronco que não sejam embrionárias.
Mas política é isso aí: vale uma mentirinha aqui ou uma generalização falsa acolá para conseguir convencer quem já tem "opinião formada". Vide a política do Brasil com o Alckmin e o Lula, né?
Posted by: Observadora Atenta | outubro 27, 2006 9:50 AM
Leila, ontem morreu aqui na Italia Bruno Lauzi, um autor e cantor famoso nos anos 60 e 70 e que vinha há anos lutando contra a doença e em favor das pesquisas com as células tronco embrionárias. O que diz o Fox, sobre não precisar da pena de ninguém, é mais ou menos o que dizia o Lauzi. Inclusive, depois de doente empreendeu a própria carreira, fundou sua gravadora e cantava normalmente.
Mas morreu cedo demais. Alguém impediu que uma maior esperança de cura fosse possível. O que intriga é que quem tenta bloquear as pesquisas o faz em nome de crenças irracionais a respeito de embriões fecundados, mas não se comove nem um pouco com genocídios e guerras por exemplo. Vai entender.
Posted by: Flavio Prada | outubro 27, 2006 9:41 AM
Realmente absurda a coisa do Rush Limbaugh. Minha irmã era daquelas apaixonadas pelo Michael J. Fox. Já leu a biografia dele. Ele mesmo já admitiu que parou de tomar a medicação quando foi apoiar democratas sei lá quando. Mas aí é que está: e daí? Se o cara quer acordar as pessoas pro mal de Parkinson, eu quero é que ele apareça mostrando o que é a doença. Afinal, o que ele quer é PARAR de tomar remédio, oras. Essa discussão de que o cara tomou ou não tomou antes de fazer o comercial é ridícula, na minha opinião. Se o cara quer fazer da doença um meio de lutar por uma causa que por sua vez luta pelo fim da doença dele, que ele mostre a doença como é. Né não?
Mas só discordo dele numa coisa (sem entrar no mérito da questão da pesquisa com células tronco): acho que é uma questão que devia ser resolvida a nível estadual, não federal. A mesma coisa pensa o senador Jim Talent, o cara que ele menciona aí e que é contra a medida. Não gosto dessas medidas draconianas. Acho bacana que nos EUA muita coisa seja decidida a nível estadual e não federal. Muito mais a ver com o espírito da democracia dos tais Founding Fathers.
E, só para dizer mais uma vez: Rush Limbaugh, como você é babaca. Vai lá tomar teu tarja preta que tu toma todo dia, anda.
Posted by: Observadora Atenta | outubro 27, 2006 9:34 AM