Por que apóio a descriminalização do aborto
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Alguém precisa pedir permissão para o governo, a justiça ou a igreja para fazer sexo com alguém? Ufa, felizmente, não. Imagine a aflição do tesão encubado, dias e meses, esperando em filas, preenchendo formulários, pagando plano de seguro, até finalmente ouvir a decisão de uma autoridade sobre o que você pode fazer com seu corpo. Pois então. Faz-se sexo com quem e quando bem se entende. Desejo sexual é difícil de controlar. E, guess what, muitas vezes o produto do sexo é a gravidez, desejada ou não. Gravidez por acidente acontece a todo momento, até para pessoas que usaram anticoncepcionais – nenhum contraceptivo é 100% eficaz. Mas aí soam as sirenes da hipocrisia. O que era produto de um acontecimento natural e íntimo se transforma em caso de polícia. Na hora de decidir sobre a gravidez de uma mulher, politicos, papas e terroristas domésticos se acham no direito de interferir. A questão, meus senhores, é que aquilo que acontece no interior do corpo de uma mulher, e que terá conseqüências unicamente na vida particular dela e de sua família, é uma decisão pessoal, de foro íntimo. O que o Papa Bento XVI ou o Reverendo Pat Robertson dizem pode ser importante para influenciar a escolha de muitas mulheres, mas para muitas outras, é um amontoado de tolices. O estado é separado da Igreja e por isso não se pode impor a lei religiosa de um grupo a todos os cidadãos de um país.
Para começar, a ciência prova que o embrião, no primeiro trimestre da gravidez, é um aglomerado de células sem qualquer consciência; pesquisa da Universidade da California em San Francisco, publicada em agosto, mostra que o feto é incapaz de sentir dor até os 7 meses de gestação. Portanto, o aborto sendo feito logo no início da gravidez não é de forma alguma uma crueldade, é basicamente a interrupção de um processo antes que o embrião se transforme num ser humano completo. O procedimento médico é extremamente simples e muito seguro, se realizado por profissionais competentes e dentro de um ambiente esterilizado.
Abortos tardios, no final do segundo ou no terceiro trimestre, já podem causar sofrimento ao feto, e portanto só devem ser permitidos por motivo de ameaça à saúde da mãe ou por defeito genético grave ou inviabilidade da sobrevivência fora do útero. Assim, a descriminalização do aborto, sem qualquer exigência de autorização judicial, é positiva também para evitar uma demora desnecessária na realização de abortos inevitáveis (no Brasil, a exigência de permissão de autoridades para abortos em caso de estupro ou inviabilidade da criança atrasa abortos que poderiam ter sido feitos mais seguramente para a mãe no primeiro trimestre, e sem traumas para um feto mais desenvolvido).
Para provar que a descriminalização do aborto não implica em aumento da incidência dos abortamentos induzidos, basta ver o que acontece nos Estados Unidos, onde o aborto é legal na maioria dos estados desde 1973. Segundo os dados oficiais do CDC, o número de abortos tem justamente diminuído, consistentemente desde 1990. E o número de mortes decorrentes de abortos praticados legalmente em clínicas e hospitais é considerado mínimo (menos de 1 óbito para cada 100 mil abortos).
Descriminalizar o aborto é dar melhores condições de saúde para mulheres de todas as classes sociais. No Brasil, é óbvio que mulheres da classe média e alta sempre poderão recorrer a clínicas particulares clandestinas que cobram caro pelo serviço. Às pobres, resta o auxílio de açougueiros, o desespero das agulhas de tricô, ou de remédios e poções perigosas. Pela natureza imprevisível das relações sexuais e amorosas, querer punir uma pessoa por uma gravidez indesejada, forçá-la a levar adiante uma gravidez para a qual não tem condições físicas, psicológicas, ou financeiras de suportar, é simplesmente desumano. É ser cruel com quem já sofre, sente medo e dor e anda sobre a Terra, em benefício de um aglomerado de células não muito diferente de uma gema de ovo ou de uma larva. Obrigar mulheres pobres a terem filhos que não podem sustentar é contribuir para o nascimento de mais crianças que irão passar fome, perigo, doença e necessidades.
Por isso e muito mais, eu e meus amigos blogueiros do movimento Nós na Rede estamos botando a boca no mundo para defender o projeto já em tramitação no Congresso Nacional que defende a descriminalização do aborto, até a 12ª semana de gestação e em qualquer idade gestacional quando a gravidez implicar risco de vida à mulher ou em caso de má-formação fetal incompatível com a vida. Se você também é a favor, pressione o seu deputado a votar a favor do projeto.
E não deixe de conferir as outras opiniões nos blogs sobre o aborto. Os links atualizados você pode encontrar na página do Nós na Rede.

Comments
Uau, Guilherme, estou lisonjeada, obrigada mesmo.
Posted by: Leila | setembro 30, 2005 6:13 PM
Oi Leila,
Tudo bem? Cheguei aqui através da nossa querida Denise, do Síndrome De Estocolmo, e achei o teu texto muito, muito bom. A introdução está digna de um filme que eu recentemente vi outra vez: "Brazil", do Terry Gilliam. Visualizei o lance e apesar da seriedade do tema, ri muito.
A idéia de colocar aí o "contate o seu deputado" foi outra bola dentro.
Parabéns e obrigado,
Guilherme.
Posted by: Guilherme | setembro 30, 2005 6:00 PM
Ah, Leiloca, como sempre arrebentando... nossas amigas feministas deviam usar esse texto em seus trabalhos! muito bom!
Detesto a hipocrisia dos grupos pró-vida, como se tudo fosse simples assim e quem engravidasse sem querer fosse sempre irresponsável!
Aliás, vou dar continuidade ao assunto daqui a pouco... escrevi sobre tesão e o que fazer quando já foi e ela foi incontrolável (quase sempre... hehehe...)
Beijão!!!
Posted by: Denise Arcoverde | setembro 30, 2005 4:44 AM
Ó eu aqui atrasado. ;)
Bom, tudo perfeito. Adorei o primeiro parágrafo. Às vezes acho que essas questões do jeito que estão são tão absurdas que só o discurso nessa linha linha dá mesmo conta.
Textos bons de gritar de cima de um caminhão, ou de dedo na cara das carolas. ehhe :)
Beijos!!!!!
Posted by: Gejfin | setembro 29, 2005 4:22 PM
Corrigindo: 'excelentes'.
Posted by: Patrícia Köhler | setembro 29, 2005 11:11 AM
Leila, concordo com suas palavras e com as de todos os que se posicionaram a favor da descriminalização do aborto (embora ainda tenha muitos posts por ler). O que acho curioso é que concordei com alguns pontos-de-vista das 'Nóvoa', que são contra. Os posts delas estão exelentes também. Achei esta discussão muito salutar e pertinente. Quando as pessoas manifestam suas opiniões de maneira mais sensata, sem os mecanismos que cegam alguns (Igreja, basicamente), certamente a discussão tende a ser profícua para todo mundo.
Parabéns pelo post!
Beijos,
Posted by: Patrícia Köhler | setembro 29, 2005 11:09 AM
Excelente post, Leila.Concordo em número, gênero, grau, o que for.A igreja ou o estado não têm que decidir sobre o aborto.Abomino completamente a idéia de que qualquer religião possa interferir na minha vida.
Posted by: Marília | setembro 29, 2005 10:28 AM
Juca, uma pessoa anestesiada é um ser humano completo, racional, posto fora de consciência por um processo exógeno. Um feto de semanas é um aglomerado de células e a questão da dor é apenas um dos critérios para se definir se já é ou não um ser humano no sentido total da expressão. Estou me dando ao trabalho que colocar esse ponto óbvio em palavras apenas para que você busque melhores argumentos contra o aborto. Sei que você não mudará de opinião. Nem quero que mude. Apenas não quero que a sua opinião, que não é a minha, paute, por lei, o meu corpo e as minhas opções.
Posted by: Eliane Azevedo | setembro 29, 2005 7:14 AM
Juca, "sentir dor" não é um critério por si só, mas pode ser um indicativo de que o ser não tem mais (ou nem chegou a ter) consciência. O que é um dado fundamental para as considerações éticas e criminais. Mas, fala sério, isto já estava bem claro, né? Era só pra polemizar, não é mesmo?
Nóvoa, tem mulher que é capaz de preferir ter um filho anencéfalo, mesmo sabendo que ele vai morrer logo. Tem mulher que vai preferir correr risco de vida para manter uma gravidez. Tem mulher que vai preferir ter o filho do estuprador. Tem mulher que vai preferir sempre ter o filho de uma gravidez não planejada.
E tem mulher que vai querer ter outra opção.
Posted by: andre lopes | setembro 29, 2005 5:39 AM
Parabéns pelo belo post, brava Leila. Concordo com absolutamente tudo! E o Juca, aí embaixo, tá equivocadíssimo, coitado. Fixou-se na questão da dor e fez ilações totalmente desparatadas. Se liga aí, meu!
Posted by: Marcio | setembro 29, 2005 5:30 AM
Reli o texto, estou atônito.
Depois de dizer que não há dor, e que isto justificaria um crime, tu falas do tardio que são as leis brasileiros. Aí tu diz que um aborto cedo evitaria traumas num feto mais desenvolvido. What? Aborto com trauma só no 8° e 9° mês, antes pode matar, tu mesma diz que não há dor.
Muito cuidado no futuro, uma cirurgia com anestesia global pode ser a desculpa para um assassinato. Um erro médico seria desculpado pela falta de dor.
Posted by: Juca | setembro 29, 2005 3:26 AM
Pela sua lógica, um pessoa sedada, pode ser morta por não sentir dor?
Quer dizer que uma pessoa anestesiada pode ser morta, na mesa de cirurgia, sem que isto seja um crime, por ela não sente dor, como um feto de 6 meses!!!
E se um estuprador, incadir sua casa, sedá-la com anestésicos bem potentes e depois matá-la, não será crime, pois não houve DOR.
Que lógica absurda.
Deste jeito, o Bush (tão criticado neste blog), poderia inventar um anestésico na forma de vapor, disseminar numa área de conflito e depois permitir que sesu soldados matem a todos, pois não haveria dor, sofrimento,...
Ser incapaz de sentir dor, por causa natural ou artificial (induzida) não pode ser desculpa para um assassinato.
Posted by: Juca | setembro 29, 2005 3:18 AM
Leila, querida,
Chegando a conclusões diferentes, partimos da mesma premissa: a preocupação com a mulher e com a maternidade.
Toda mulher é Vênus e Maria. Quer viver a sua sexualidade e é capaz de dar a vida por seus filhos. Consolidar estes dois princípios não é fácil: eu tento, você tenta, todas nós tentamos.
Neste caminho, há atalhos, encontros e desencontros. Mas o fundamental é que estamos todas numa honesta busca de resposta para enigmas que são milenares.
E, mesmo correndo o risco de errar, não estamos nos omitindo. Arriscamos a nossa resposta.
Parabéns pelo post e um beijo grande!!
Posted by: Maria Helena Nóvoa | setembro 28, 2005 11:58 PM
Leila, achei engracado o "terroristas domesticos", mas gostei mesmo de ver vc falando sobre o fato do feto nao sentir dor, pesquisa linda da UCSF.
Parabens!
Posted by: Lucia Malla | setembro 28, 2005 5:46 PM
Leila, como sempre informativo e direto. Adorei. Assino embaixo. Também gostei da sua resposta ao tarado lá no Smart que quis fazer alguma conexão entre a defesa do livre arbítrio, que você faz muito bem, e o liberalismo econômico. Esse pessoal só pensa naquilo... bjos
Posted by: S Leo | setembro 28, 2005 4:44 PM
Belíssimo post, Leila. O que nós queremos é que haja uma efetiva separação entre Igreja e Estado e que as mulheres tenham liberdade de optar. Ótima idéia de colocar o link para a Câmara dos Deputados.
Posted by: Viva | setembro 28, 2005 2:59 PM
Que belo post Leila!
E obrigada, por comentar, no meu...
Incrivel, o que vc. disse, que com a legalização, diminuiu os indícies de aborto.
Parabens!
Beijos!
Posted by: jucimara | setembro 28, 2005 2:18 PM
Leila, como esbocei no meu post sobre o assunto, a estratégia da igreja de arregimentar adeptos desde o nascimento, levou às praticas de batismo de bebes e consequentemente à mitos de purificação da alma. Se o sujeito não é batizado e morre, vai para o inferno. Isso plasmou não só a idéia da humanidade dos embriões mas também toda a mentalidade restritiva a respeito do aborto. Se voce verificar no mapa, os países pobres são aqueles onde estas idéias ainda tem maior força. Coincidentemente, ou não, é onde a igreja também tem mais poder. A grande sacanagem foi dogmatizar a idéia de que um óvulo fecundado é mais importante no quesito redenção, que a própria mãe. O pior é que estas idéias grudam como pixe na lã. Vixe.
Posted by: Flavio Prada | setembro 28, 2005 1:33 PM
Mandou muito bem. Faco minhas as suas palavras, querida!!
Posted by: Andrea | setembro 28, 2005 1:03 PM
Milton, obrigada, querido; e teu post ficou excelente.
Roberson, isso mesmo, o Tiago ou o Gejfin devem atualizar a lista do Nós na Rede com o seu post; na Denise eu vi que já está. E obrigada pela divulgação nos portais.
Posted by: Leila | setembro 28, 2005 12:02 PM
Sacudindo a blogoseira. Muito, muito legal. Mandei uns emails pros portais Terra, IG e UOL falando sobre a blogagem coletiva mas até agora nenhum deles linkou o Nós na Rede. Seria uma boa não??
Só uma duvidazinha: eu pedi via blogleft pra incluirem meu post na homepage do Nós na rede. É por aí mesmo ??
Beijão.
Posted by: Roberson | setembro 28, 2005 11:52 AM
O link para a Câmara é um achado simples e que pode ser eficiente. Genial, Leila.
Aliás, és a culpada de eu ter convertido meu discurso pró-descriminalização em conto, sabia? Um comentário que escreveste no teu próprio blog era tão completo que pensei que só me sobrava pensar nas circunstâncias, o que não é pouco. Todavia, saiba que consultei algumas vezes aquele teu comentário como se fosse uma espécie de pauta mínima.
Um beijão para ti, guria das boas brigas.
Posted by: Milton Ribeiro | setembro 28, 2005 11:52 AM
Ótima lembrança esse link para os deputados, Leila!
Posted by: Cynthia Semíramis | setembro 28, 2005 10:23 AM
Leila,
gostei de seu post, a luta é por mais responsabilidade, mais respeito aos direitos individuais e menos hipocresia.
abs,
Lilian
Posted by: lilian | setembro 28, 2005 10:19 AM
Aquele sujeito que está em evidência, do Freakonimics, "demonstra" que a descriminalização do aborto reduziu a criminalidade. Infelizes a menos no mundo. Mas não acho a questão simples. Mais cômodo seria o respeito irrestrito à vida, mas não dá. Tem o aborto, a eutanásia, as células tronco...
Posted by: pecus | setembro 28, 2005 10:07 AM
Belo post, Leila. A questão não é só das mulheres. É uma luta que envolve todos nós, seres humanos. E por isso é uma questão social. ABraço.
Posted by: Luiz | setembro 28, 2005 9:25 AM
Muito boa a iniciativa de colocar o link para a câmara de deputados, Leila. Muitas vezes nos esquecemos desse detalhe fundamental: os deputados pensam com o bolso (e para eles, o bolso está relacionado, claro, ao voto e à renovação do mandato). As forças contrárias ao direito de escolha exercem pressão constante sobre eles. Inclusive há inúmeros deputados do PT contrários ao projeto da Dep. Jandira, o que é uma traição aos princípios históricos do PT (um exemplo é Angela Guadagnin do PT-SP). Pressionar os deputados no sentido contrário pode ajudar muito nessa inglória batalha. Beijão.
Posted by: Idelber | setembro 28, 2005 8:34 AM
Por causa da clandestinidade, mesmo as "ricas" podem ir parar nas mãos de crápulas que, embora cobrando caro, farão um serviço porco... Sou a favor!!!
Posted by: Charô | setembro 28, 2005 8:18 AM
Acho que já botei os nós lá, ou não? menina, que cabeça, esqueci, acho que mandei por email só. vou colocar lá.
Vc viu que eu coloquei um em defesa dos gays, acho que a gente tem que botar a boca no trombone mesmo, é mta hipocrisia. bj laura
Posted by: laura | setembro 28, 2005 7:50 AM