julho 31, 2005
O novo filme de Meirelles

Rachel Weisz e Ralph Fiennes
A excelente carreira internacional do filme brasileiro Cidade de Deus rendeu bons frutos para o diretor Fernando Meirelles. Convidado para dirigir o filme inglês The Constant Gardener em 2004 (estréia no final deste mês nos Estados Unidos), Meirelles desempenhou a missão com total segurança, até mesmo para esnobar a atriz Nicole Kidman para o papel da mocinha do filme (achou-a mais velha do que a personagem deveria ser). Em seu lugar, entrou a lindinha morena inglesa Rachel Weisz, que aparece inclusive numa cena de nu frontal -- a fofoca em Hollywood é que ela tem uma certa barriguinha, o que só me faz admirá-la mais por assumir seu corpo de mulher normal e não perseguir o ideal anoréxico das atrizes americanas.
The Constant Gardener, baseado no livro homônimo do escritor best-seller inglês John le Carré, foi filmado no Quênia, cenário original da história, apesar da inicial má vontade do governo do país. É que o livro fala da época do corrupto ex-presidente Daniel arap Moi, e o atual governo não estava muito interessado em passar uma imagem negativa do país no exterior, mas acabou se rendendo à insistência de Meirelles de que filmar lá seria um bom negócio para o Quênia.
Críticos e outras pessoas que já tiveram oportunidade de ver o filme elogiam muito a maneira realista e ao mesmo tempo comovente com que Meirelles filmou a pobreza das favelas e as cenas de violência da história (mais sutis que em Cidade de Deus), que trata do assassinato de uma ativista inglesa (Weisz, sorry...) e a luta de seu marido, o diplomata Justin Quayle (Fiennes) para descobrir a verdade encoberta por uma poderosa rede de interesses internacionais.
Um detalhe interessante é que os atores principais do filme, Weisz e Fiennes, chocados com a pobreza das favelas do Quênia, decidiram criar um trust fund em benefício das comunidades onde filmaram. Os demais membros do elenco e da equipe de produção e filmagem se juntaram a eles, e o dinheiro já ajudou na construção de uma ponte, estradas, além de gerar renda para escolas e associações comunitárias.
Posted by leilac at 7:09 AM | Comments (29)
julho 29, 2005
O blog novel de Pecus
Guilty pleasure ou um futuro sucesso de crítica? Who cares! O livro que está sendo publicado post a post, quer dizer, capítulo a capítulo, no blog do escritor (ainda) anônimo Pecus Bilis, é incrivelmente excitante, daqueles que você começa a ler e não consegue parar. Quem acompanha a história há mais tempo já alcançou o capítulo mais recente e fica esperando ansiosamente a próxima etapa do “amor corrompido, patológico, metódico, quase um esporte ou uma segunda profissão” do paulistano Renato, investidor no mercado de capitais e casado, pela universitária Clarissa. Os leitores fiéis do blog comentam a trama empolgados, mas também criticam clichês no texto ou algum comportamento que não combine com um personagem. Vejam esse divertido trecho de “O Stalker”:
Foi cumprimentando rapidamente os três e sentando, e logo pegou o que parecia um ovinho de codorna empanado numa travessinha de inox engordurada, e enfiou na boca, mordeu e aquilo era pegajoso e borrachento e o sabor, o sabor tinha alguma parecença com um cheiro conhecido, perguntou com a boca cheia o que é isso e os três caíram na gargalhada depois de Wagnão avisar que era testículo de galo. Aquele gosto era de porra! Renato ficou bastante enojado, quase nauseado e começou a suplicar com gestos um copo pra lavar a boca com cerveja enquanto tentava mastigar aquele troço, e drenou um copinho americano de um gole só. Depois de mais três cervejas em quatro, Renato achou que esse ritual de virilidade era adequado para a ocasião e pediu mais uma porção de testículos de galo e de boi, que, comendo quentinho e acompanhado de grandes goles de cerveja até que não era nada mal. Além de Wagnão, compunham a mesa um advogado tributarista ensebado, com cara de comprador de fiscal, e um comerciante de veículos usados ali da área, possivelmente um receptador, ou fraudador de seguros.
Durante quase uma hora e meia ficaram ali tomando cerveja e comendo testículos, falando de mulher e putaria e dando altas gargalhadas. Renato se sentiu um deles, e não gostou muito, mas por outro lado, a incorporação do cafajeste escroto era uma boa atitude para efeito do ataque que haveria de fazer, corajoso e macho que estava, graças ao álcool da cerveja e aos testículos. Lembrou Nietzsche afirmando que você é aquilo que come, traçando paralelos entre a alimentação de um povo e sua filosofia e cultura. Ali, comendo a comida do cafajeste escroto, junto aos cafajestes escrotos, ele era um cafajeste escroto. Apontou o relógio, pagou sua parte na conta com uma estimativa de sobra, chamou Wagnão e foram para o Sesc Pompéia, no seu carro, para não ter que vir buscar depois.
Posted by leilac at 7:14 AM | Comments (13)
julho 28, 2005
Como Bush trata a imprensa (e o público)

Bush foi flagrado ontem mandando os repórteres "para aquele lugar", em mais uma demonstração de classe, maturidade e comportamento cristão. Veja o vídeo completo aqui.
Quem sabe assim os jornalistas que cobrem o preznit não comecem a sentir um pouquinho mais de indignação e parem de agir como meros repetidores do spin da Casa Branca.
Posted by leilac at 10:17 AM | Comments (18)
julho 27, 2005
Freedom of speech: down the toilet?

O quadro acima foi pintado pelo advogado Stephen Pearcy, que atua entre Berkeley e Sacramento, e está em exposição aqui na cidade, nos corredores do Departamento de Justiça do Estado. Faz parte de uma exposição promovida pela California Lawyers for the Arts. Como era de se esperar, este quadro e outras obras de protesto exibidas provocaram a ira do Partido Republicano e dos reacionários de plantão, não muito afeitos ao dissenso e à liberdade de expressão. A entidade über-direitista Move America Forward já está conclamando um protesto para amanhã contra a exposição. Mas várias entidades militantes em defesa da liberdade de expressão, capitaneadas pela ACLU (American Civil Liberties Union), estão se unindo para organizar, no mesmo dia, uma vigília contra o pedido de censura pela Move America Forward, dia 28 de junho, entre 11 da manhã e 6 da tarde, no Departamento de Justiça.
A coisa é feia por aqui. Qualquer crítica à política do governo Bush é condenada pela direita como sendo não-patriótica e ofensiva. O próprio George W. Bush já afirmou, em um dos mais célebres bushismos: "There ought to be limits to freedom".
A mídia americana, por enquanto, tem dado mais cobertura aos críticos da exposição do que aos seus defensores. Mas a estratégia da esquerda na manifestação de amanhã será a de tentar roubar a cena diante dos flashes e câmeras. Espero que funcione.
Posted by leilac at 10:27 AM | Comments (11)
julho 25, 2005
Protesto Anti-Bush em Sacramento
Estivemos neste protesto no último fim de semana. Não era estilo "fechar a rua", e sim uma coisa bem comum aqui na cidade, em que as pessoas fazem cartazes em casa e vão pra uma esquina protestar, enquanto os motoristas que passam e apóiam o protesto, buzinam. Neste, achamos o máximo quando um policial dentro de um daqueles carrões nos cumprimentou com um "thumbs up". Ah, como eu é que estou fotografando, vocês não vão me achar em nenhuma das fotos.
Posted by leilac at 6:03 PM | Comments (18)
Minority Report
Uma das opiniões que tenho lido muito por aí, em blogs brasileiros ou estrangeiros, é a de que Jean Charles de Menezes foi o grande culpado por sua própria morte, já que correu da polícia apesar das ordens para ele parar. Bem, mesmo que você aceite a hipótese de que uma pessoa mereça morrer simplesmente por burrice, pela seleção natural de Darwin, ainda assim pare e questione essa versão dos fatos. Familiares de Jean Charles afirmam que o rapaz já havia sido parado pela polícia inglesa duas vezes. Deixou-se revistar, mostrou sua identidade e voltou para casa. Por que, então, ele iria desta vez tentar desafiar e fugir de um grupo de policiais? Alguma coisa cheira mal.
Alguns dos depoimentos de testemunhas até agora já se provaram errados. Disseram que o rapaz morto era um "asiático", que tinha levado cinco tiros (foram oito). Não duvido que outras contradições serão descobertas durante o curso da investigação.
Mas o que já se pode discutir desde agora é a validade desta política de "atirar para matar", condenando um suspeito imediatamente à morte sob o pretexto de proteger o grande público. Lembra um pouco a premissa do filme Minority Report (da dupla Spielberg/Tom Cruise), em que uma polícia do futuro neutralizava para sempre os sujeitos que estariam prestes a cometer um crime - segundo a inteligência obtida junto a um grupo de videntes. O problema é que essas visões das precogs eram muito subjetivas, e pior ainda, os motivos do Poder Policial para considerar um indivíduo culpado por antecipação nem sempre eram corretos ou éticos.
A população da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos precisa se perguntar se realmente deseja viver num tipo de sociedade em que é lícito matar alguém baseado em meras suspeitas e paranóias.
Posted by leilac at 12:05 PM | Comments (11)
julho 23, 2005
Tragédia anunciada

Ontem, quando ouvi as notícias da execução de um "suspeito" de terrorismo pela polícia de Londres, após uma perseguição dentro do metrô, eu tinha quase certeza que iam descobrir sua inocência. Agora, não só isso se confirma como sabemos também que o rapaz era um eletricista brasileiro, natural de Minas Gerais.
A ação da polícia, antes mesmo de se confirmar a identidade do morto, já era vista com revolta por muitos, testemunhas ou não do tiroteio. O medo e a vontade de prender terroristas antes que eles ajam, não justificam ações arbitrárias e precipitadas, que colocam em risco as liberdades e a própria vida dos cidadãos comuns.
O brasileiro morto, Jean Charles Menezes, tinha apenas 26 anos e morava há 3 na Inglaterra, com outros quatro primos. Residia no país legalmente e falava bem inglês. Aparentemente, a Scotland Yard o seguira porque ele saiu de um prédio onde moravam outros "suspeitos".
Testemunhas estavam dizendo que se tratava de um homem "asiático", mas não sei se na Inglaterra isso se aplica, por exemplo, a paquistaneses. Ainda não vi uma foto de Jean, mas não duvido que ele fosse moreno e facilmente confundido com alguma etnia sul asiática ou então árabe. (Update às 11:25 p.m. - já conhecemos agora o rosto dele, postei as fotos acima.)
Como estou escrevendo enquanto o assunto ainda é breaking news, muitas coisas ainda devem ser esclarecidas no decorrer desse dia. Mas sem dúvida, isso é um alerta para os povos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. Os moradores muçulmanos já sentem o problema do racial profiling e das prisões injustas desde o 11 de setembro. Agora, está claro que basta estar no dia errado, no lugar errado, e ser um pouco mais moreninho, para acabar vítima da paranóia antiterrorista.
Update às 6 da tarde na California: O prefeito de Londres, Ken Livingstone, perdeu uma boa oportunidade de ficar calado. Dizendo que a polícia agiu da "maneira necessária" para proteger a população, culpou os terroristas pela morte do brasileiro. "Essa tragédia só vem adicionar mais uma vítima ao total de mortes pelas quais os terroristas são responsáveis". A organização de defesa dos direitos humanos britânica Liberty pediu uma investigação completa do caso.
Posted by leilac at 12:32 PM | Comments (19)
julho 22, 2005
Land of the Flip-Flop
Desde que cheguei aqui na California, no verão de 2000, eu estranho essa mania das mulheres americanas, especialmente as jovens, de usarem chinelinhos como sapato de sair. Vale combinar com calça, saia arrumadinha, vestido, usar de manhã ou à noite. É certo que algumas moças são tão bonitas e bem transadas que ficam bem com qualquer tipo de loucura fashion, mas, via de regra, chinelo NÃO É CHIQUE e muito menos formal. É desleixado, e faz um barulhinho ridículo quando você anda. Daí o nome em inglês: flip-flop.
A minha impressão é que as americanas não sabem se vestir bem no verão. É só ver o termômetro subir acima dos 75 graus F, que terninhos e outfits inteligentes são substituídos por lamentáveis barrigas flácidas em tops alguns números menores que o tamanho da moça, ou camisetinhas básicas deixando a alça do sutiã (preto) aparecendo por fora. E tem coisa mais mondronga que calça capri? É o que mais se vê por aqui, todo verão. É o jeito Gap ou Abercrombie & Fitch de ser. Aliás, até a Jenna Bush usou chinelinhos em pela corte de Justiça, quando foi condenada pela infração de ser menor de idade em posse de bebida alcóolica, aos 19 anos, em 2001.
Por isso é possível que Bush, na foto acima com seu ar aparvalhado de sempre, provavelmente nem tenha estranhado quando metade das meninas do time de Lacrosse da Northwestern University apareceram para esta photo-op na Casa Branca usando chinelinhos do tipo que uma brasileira hesitaria até em usar na praia. Mas parte do público americano considerou a escolha das moças um fashion faux-pas. Na cidade delas, Chicago, teve até matéria na imprensa sobre a polêmica. A mãe de uma das meninas confessou o seu embaraço: "nem me fale desses chinelos! Logo eu, que não saio de casa sem meia-calça!" Uma das jogadoras se deu ao trabalho de comprar um vestido caro na Ann Taylor, e usar um colar de pérolas, mas na hora de escolher o sapato, não pensou duas vezes: chinelinho de dedo. O irmão dela lhe mandou um e-mail horrorizado: "Você foi à CASA BRANCA de CHINELOS??????" Mas as meninas se defendem, dizendo que estavam usando chinelos novinhos, do tipo que se usa para sair. "Eu pensei em algo que combinasse com minha roupa, fosse confortável, e ao mesmo tempo não desrespeitasse a Casa Branca", justifica-se Kate Darmody, 22 anos. Bem, pode até ser que o chinelo da Kate fosse mais arrumadinho, encrustado de lantejoulas, mas o que dizer daquela moça de minissaia e blusa de manga comprida (parece a Lucia Mala, não?), com uma sandália de surfista, parecendo que acabou de sair da piscina? Ou aquela de saia amassada cáqui, e chinelão branco, um figurino típico que se vê nas salas de aula de high school e universidades? Sei não, mas de repente essas meninas estavam fazendo, além de um fashion statement, um political statement: "Esse presidente é um tremendo pé-de-chinelo".
Posted by leilac at 11:30 AM | Comments (33)
julho 21, 2005
Tortura nunca mais
Hoje é minha estréia aqui no Verbeat e é uma pena que sejamos todos amigos virtuais, morando longe uns dos outros, porque adoraria estar fazendo uma festinha de comemoração na minha casa e aproveitando a ocasião para tomar um vinhozinho e relaxar. Porque, gente, vocês não podem imaginar o que eu passei hoje de manhã.
Fiz um procedimento médico para avaliar o grau da minha Síndrome do Túnel do Carpo, uma espécie de LER em que o nervo que vai do antebraço até os dedos das mãos (nervo mediano) fica comprimido na passagem pelo pulso, por alguma inflamação dos tendões, causando dormência nos dedos e na mão. O tal procedimento consiste em aplicar uma série de eletrochoques ao longo do seu pulso, dedos, cotovelo... Havia a possibilidade também de um teste ainda mais doloroso, usando agulhas para estimular a resposta dos nervos. Eu já cheguei no consultório tensa, querendo arrumar qualquer desculpa para desmarcar e fugir dali. Quando o neurologista finalmente apareceu, alto, jovem e gatíssimo, pensei que talvez não fosse de todo mau. 'Bora encarar essa.
Bastou a primeira estimulação pelo eletrodo para eu concluir que o médico podia até ser o próprio George Clooney, que ia ser uma merda. Mal humorada, respondi como uma verdadeira bitch quando ele tentou me distrair puxando um papo sobre como o Brasil devia ser um lugar lindo. "É, mas não adianta querer me fazer pensar sobre coisas agradáveis, isso aqui é tortura pura", rosnei. E ele ainda me fez repetir metade do teste do lado direito, porque minha mão estava meio fria, e tive que ficar mais uns 5 minutos com a mão debaixo de uma torneira de água quente, para depois começar tudo de novo. E ainda tinha a mão esquerda depois.
Exausta e com os nervos literalmente em frangalhos, mal acreditei quando ele disse que eu não iria precisar fazer o tal teste com as agulhas. Despedi-me do doutorzinho rapidamente, peguei a minha bolsa e saí correndo sem olhar para trás, embora estivesse curiosa em saber por que eu não precisei fazer o outro procedimento. Será que os eletrochoques eram suficientes para o meu diagnóstico, ou ele ficou com pena de mim e resolveu me poupar? But I don't really care. O pior é que a minha STC é bem forte, especialmente na mão direita. Talvez não dê para escapar da cirurgia no pulso num futuro próximo, sob pena de perder até tecido muscular na mão e não conseguir mais fechar o punho. Bem, mas lidarei com essa possível nova tortura num outro momento. E aí será motivo para mais um post assustador para o Sergio Leo, assim como foi aquele relatando a minha cirurgia nos olhos em janeiro passado.
Posted by leilac at 12:33 PM | Comments (36)
