
Os desenhos de Marcelo d'Salete já tinham chamado minha atenção quando eu os vi na revista Graffiti 76% Quadrinhos.
Há poucos dias, mais precisamente no dia seis deste mês, na HQMIX Livraria, em São Paulo, eu conheci o cara. Tive uma surpresa, rapidamente deletada, porque a princípio eu não associei o desenho, que eu julguei "europeu", com a figura do próprio Marcelo, um cara negro, simpático, discreto - aquela discrição que nada tem a ver com timidez, mas com auto-confiança - , que sorria educadamente mas tinha o olhar de um avaliador de arte profissional. Olhos que observam atenta e calmamente as coisas em redor.
E deve ser isso mesmo porque o desenho do Marcelo é uma síntese, muito esquemática e muito artística do mundo ao redor - ou do mundo que ele resolveu retratar, não importa. O que importa é que essa síntese só é possível com um poder de observação muito apurado. Já vi isso em outros raros artistas - me ocorreu agora um Flavio Colin como exemplo.
Alguém sugeriu Muñoz, o desenhista argentino, como parâmetro da arte do Marcelo. É, tem a ver. Mas ele me lembra mais Jacques Loustal, o francês meio solitário da antiga Metal Hurlant. Elegância e solidão, duas coisas que exalam dos desenhos de ambos. Apesar da temática, que é a realidade urbana brasileira da grande maioria desfavorecida - e que muitas vezes resvala para a marginalidade crua e simples - , a arte de Marcelo não é marginal. Marcelo dispensa, com muita propriedade, o fascínio infantil pela escatologia, que é a tônica de centenas de publicações "marginais" que pululam por aí.
Nada de cu-caralho-buceta-maconha-merda-fuder-tripas-vômito, o foco obssessivo, hedonista e raso na genitália do mundo, ou o foco - meio nauseante - do ególatra no próprio umbigo sujo. Aqui o cordão umbilical já foi devidamente cortado há muito tempo e o bebê chorão não existe mais. Existe a maturidade de um mundo adulto, a visão adulta desse mundo - mais contundente que o berreiro infantilóide e generalizado porque impõe, pela força de uma arte refinada, uma reflexão, um espelho, uma indagação séria sobre o que estamos vivendo.
Continuo achando que a arte de Marcelo d'Salete é européia, mas na vertente do que a Europa tem de melhor: o refinamento causado por uma evolução artística que cobre já milhares de anos. É meio surpreendente encontrar isso por aqui.
Marcelo me presenteou com seu livro de histórias, NoiteLuz (ed. Via Lettera), devidamente autografado. Li e coloquei na estante, entre um Enki Bilal e um Hugo Pratt. É o lugar de honra da minha estante porque fica na altura dos olhos, fácil de pegar para reler.