
Em meados dos anos vinte e contando até meados dos anos trinta eu fui, entre outras coisas menos notáveis, um motoqueiro. Claro, estou falando dos meus anos 20, 30, i.e, quando eu tinha essa idade, cês entenderam.
Mas o Brasil, ou Minas, não é um país de motoqueiros, ou para motoqueiros. Muita gente por aqui anda de moto com sandália havaiana. Ou de bermuda. Ou sem camisa, com os braços magrelos flexionados de tal forma que os cotovelos ficam junto ao corpo, o que dá a impressão de que tem um frango depenado pilotando a moto. Que na maioria das vezes é uma 125, igualmente magrela.
Em meados dos meus anos vinte eu me imaginava um motoqueiro tipo assustador, quer dizer, eu tentava fazer o tipo. Tudo em cima, da jaqueta de couro aos jeans levemente sujos. E botinas, ou tênis de cano longo, pelo amor de deus. Não tinha graça pra mim andar de outra forma porque meu parâmetro era a velha imagem dos motoqueiros outsiders. Em outras palavras eu gostava, pelo menos gostava da imagem geral dos Angels da California.
Tive um grande amigo, W., já morto, que me contava com detalhes, quando eu lhe pedia (porque o cara não falava muito), o encontro ocasional que ele teve com um grupo de Hell's Angels. Esse cara era escoladão e passou alguns anos clandestino nos EUA. Ficava lá circulando, entre caronas e pequenos serviços. Foi até a costa oeste desse jeito e numa daquelas cidadezinhas satélites de Los Angeles entrou num bar com um punhado de Angels lá dentro.
Esses caras tem divisões e essa turma era da divisão de Berkeley, California, terra do lendário, dizem, Sonny Barger, líder geral dos Angels. Trataram W. com toda a consideração possível num Angel. Quer dizer, o ignoraram a maior parte do tempo, mas um deles, um Angel com uma disposição mais fraterna, talvez reconhecendo a natureza outsider de W., que era verdadeira, fez um brinde com ele. Bateram as garrafas de cerveja quando o Angel estava saindo do boteco.
A caveira com asas foi pra mim, durante um bom tempo, uma espécie de ícone. Assim como algumas pessoas carregam a imagem da nossa senhora dos desvalidos na carteira, eu tinha no meu quarto um canto da parede, perto da minha cama, com o desenho (que eu suei pra fazer) da caveira alada. Olhava pra ele antes de dormir.
É preciso reconhecer, meio penosamente, que a juventude promove um certo retardamento mental na maioria das pessoas. Eu inclusive, claro. Mas olhando o desenho, ainda assim, dá uma certa saudade do idiotinha semi feliz que eu fui. Putz.
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