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junho 23, 2005

não tem ninguém pra dar um teco?

Leandro Konder



Desde que surgiu, no final do século 19, o marxismo despertou forte repulsa em alguns setores e grande entusiasmo em outros. Entre os que foram tomados por intensa admiração pela construção teórica feita pelos discípulos de Marx, houve óbvios exageros, exaltações desmesuradas, leituras fanáticas. Entre os adversários do filósofo socialista alemão, por outro lado, manifestaram-se impulsos furiosos, rancores drásticos e até fantasias homicidas (do tipo: ''Não tem ninguém pra dar um teco entre os olhos desse delinquente?''). Me lembro de ter ouvido uma vez uma pessoa usar essa palavra, há muitos anos, rindo (ambiguamente), mas deixando transparecer uma irritação verdadeira contra o teórico incitador de greves.
O ''delinquente'' era, no caso, o pensador que formulara, com espírito polêmico e inegável originalidade, uma concepção do homem (o sujeito da práxis), uma concepção da história, uma teoria da luta de classes, uma teoria da revolução proletária abrindo caminho para o comunismo (por meio da ditadura do proletariado). Coube-lhe, também, desenvolver um conceito de ideologia que modificou substancialmente o panorama constituido pelas teorias do conhecimento.

Atualmente, está se desencadeando uma nova campanha contra o mesmo Marx, cuja filosofia insiste em sobreviver. Na impossibilidade de dar-lhe ''um teco'' (desde 1883, ele está enterrado no cemitério de Highgate, em Londres), seus desafetos mais renitentes vinham se dedicando a dinamitar a estátua erigida sobre o seu túmulo. Agora, contudo, surgiu um novo filão, mais compensador: aumenta a cada dia o número dos críticos antimarxistas que admitem que, na realidade, o ''delinquente'' não tinha morrido em 1883, porque algo dele havia sobrevivido no pensamento e na ação dos movimentos comunistas vinculados a Moscou, Pequim ou Cuba.

O fim da União Soviética, a guinada da China no plano político-econômico e o isolamento de Cuba é que - definitivamente - liquidaram Marx. A derrubada do Muro de Berlim foi, por assim dizer, seu atestado de óbito. Essa conclusão peremptória é proclamada para enfatizar a necessidade do abandono do marxismo como matéria de estudo. Recomenda-se não perder tempo com cadáveres.

Se houvesse fundamento nas análises da extrema direita, e houvesse procedência na sua caracterização de ''perda de tempo'' para os estudos dedicados às tensões internas do marxismo, a confirmação desse diagnóstico grave deveria vir, necessariamente, numa evidente queda de nível da literatura voltada para esse tema: os textos que insistem em pensar e repensar aspectos da história e da teoria política do marxismo deveriam estar saindo em menor quantidade e com qualidade inferior.

O que temos visto nestes últimos anos, entretanto, não confirma a desqualificação que poderia conferir alguma credibilidade à crítica dos conservadores enraivecidos. A editora Contraponto lançou um livro ''clássico'' sobre O capital de Marx: o ensaio ''Gênese e estrutura de 'O capital' de Marx'', de Roman Rosdolsky. E está lançando O princípio esperança, do famoso marxista alemão Ernst Bloch. A editora Xamã publicou uma excelente coletânea de dois autores lúcidos e combativos: Marxismo, modernidade e utopia, de Michael Löwy e Daniel Bensaid. Pela Record saiu outra coletânea, organizada por Denis de Moraes, abordando os problemas da condição dos intelectuais no mundo atual.

E mais: a Paz e Terra publicou Para ler Raymond Williams, ótima introdução à obra do importante marxista inglês, preparada por Maria Elisa Cevasco. A editora da UFRJ acaba de publicar um belo estudo do marxista francês Jacques Texier sobre Revolução e democracia em Marx e Engels. A editora da UNESP, por sua vez, já havia lançado Hegel, Marx e a tradição liberal, do marxista italiano Domenico Losurdo, que vem submetendo as teorias liberais a críticas muito instigantes. As duas editoras universitárias que acabamos de mencionar se uniram para publicar outro livro de Losurdo: Democracia ou bonapartismo.

E a lista continua: a editora Boitempo está lançando o livro que Michael Löwy escreveu sobre as teses de filosofia da história, que Walter Benjamin ditou para sua irmã pouco antes de morrer. Vai lançar também o estudo sobre Kafka, que Löwy publicou há pouco na França. E está anunciando novos volumes com textos do marxista peruano José Carlos Mariátegui, do filósofo marxista húngaro Georg Lukács e de diversos outros.

A crise em que se debatem os marxistas não os tem esterilizado. O marxismo entrou no século 21 bastante machucado, mas ainda lhe resta uma impressionante vitalidade. A relação das obras publicadas sugere um interesse do público pelas idéias cujas raízes remontam ao velho Marx. Não é uma lista completa, não pude fazer um levantamento minucioso, devo ter incorrido em omissões, cometido injustiças. Não falei, por exemplo, na nova edição dos Cadernos do cárcere, de Gramsci, preparada por Carlos Nelson Coutinho para a editora Civilização Brasileira (tradução feita pelo próprio Coutinho e por Luiz Sérgio Henriques e, em parte, também por Marco Aurélio Nogueira).

Não falei nas traduções de Marcelo Backes para A sagrada família, de Marx e Engels, e de Jesus Ranieri para Os manuscritos econômico-filosóficos de 1844, de Marx, editora Boitempo.

Poderia ter dito algo sobre a revista Praga, que ao longo dos anos 90 divulgou trabalhos de inspiração maxista, escritos por autores nacionais ou estrangeiros (editora Hucitec). E deveria certamente ter falado da revista Margem Esquerda, que nestes últimos três anos vem polemizando com firmeza contra a direita.

Deixei de lado indícios significativos de que também na área acadêmica poderiam ser encontrados muitos trabalhos que não foram transformados em livros e não circularam fora das universidades, porém propuseram questões teóricas dignas de discussão.

De qualquer modo, peço desculpas aos leitores pelo longo elenco de nomes e de títulos. Minha intenção foi a de constatar que, mais uma vez, Marx está sobrevivendo. O ''delinquente'' está mostrando tamanha desenvoltura que dificilmente a direita vai conseguir manter a idéia de que ele morreu. Como suportar o ''abuso'' dessa ''ressurreição''? Imagino que em breve os fanáticos da ordem estarão de novo se perguntando: ''Não tem ninguém pra dar um teco... ?''

Posted by uilson at junho 23, 2005 09:45 AM