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As férias começaram ma non troppo: hoje retomo os estudos de doutorado (uma análise do conceito de pós-humano na ficção científica) e continuo trabalhando em projetos e escrevendo. E, claro, lendo bastante. Abaixo, uma lista do que tenho lido:

Perdido Street Station, de China Miéville - relendo este já clássico que inaugurou o subgênero literário chamado de New Weird. Miéville, que já escreveu mais dois livros ambientados no universo bizarro de New Crobuzon: The Scar e Iron Council, além de uma ótima coletânea chamada Looking for Jake, que contém uma história de New Crobuzon mas outras igualmente incríveis, lançou recentemente um infanto-juvenil que de bobo não tem nada: Un Lun Dun, que narra a incrível viagem de duas meninas por uma Londres oculta - algo no mesmo tom de Neverwhere, de Neil Gaiman, mas ao mesmo tempo bem diferente. Vale a pena conferir. Aguardem resenha em breve, além de uma surpresa no Post-Weird Thoughts.

Dreamsongs, Vol. 1, de George R. R. Martin - Comecei agora; o grande barato é ler os primeiros contos que o cara publicou em zines na década de 1960. Coisas meio lovecraftianas, mais para Old Weird que para New, mas também o cara tá com quase 70 anos, né? Muito bom

Mad Scientist Meets Cannibal, de Robert T. Jeschonek. Autor de livros de Star Trek, Jeschonek estreia com uma minicoletânea que faz parte do showcase da PS Publishing. O livro ainda não saiu, mas recebi uma ARC (Advance Reviewer Copy) para resenhá-lo no The Fix. Esse cara eu não conhecia, mas até agora estou adorando os contos da minicoletânea. Jeschonek lembra Frederic Brown e William Tenn. Bárbaro!!

A Magia das Máquinas - John Wilkins e a origem da mecânica moderna, de Ana Maria Alfonso-Goldfarb. Excelente livro, fruto da dissertação de mestrado da Professora Goldfarb, da PUC-SP, para pesquisa no romance que estou escrevendo agora (mais sobre isso depois).

São fragmentos de uma história do futuro que venho escrevendo há algum tempo. Com a criação do ótimo Letra e Vídeo, da Ana Cristina Rodrigues, aproveitei a oportunidade para reescrever algumas passagens e costurá-las numa narrativa que faz sentido, mas não tem um começo específico e está bem longe de terminar. Talvez não termine no blog, e certamente não terei tempo para escrever mais passagens nas próximas semanas, portanto deixo abaixo os links para os fragmentos, batizados com nomes de músicas de David Bowie:

Fragmento 1 - Ashes to Ashes

Fragmento 2 - Starman

Fragmento 3 - Space Oddity

Pessoal, este é só pra avisar que, na esteira do Pós-Estranho, criei um novo blog, o POST-WEIRD THOUGHTS. Nele, eu estou em parceria com o Jacques Barcia, meu mais novo grande amigo (que nunca vi pessoalmente, pasmem vocês, mas por quem ponho a mão no fogo). O PWT é um blog exclusivamente em inglês, basicamente para resenhas de livros. Mas não pensem que vou abandonar o Pós-Estranho não, pelo contrário. Isto é só o começo da dominação mundial. ;-)

scifi2-med.jpgThere´s a new review of mine in The Fix: an appreciation of The Solaris book of New Science Fiction, Vol. 2. Great reading, highly rewarding.

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Tem resenha nova na revista online The Fix: um texto que escrevi sobre o volume 2 da antologia de contos inéditos de FC da editora inglesa Solaris. Muitos autores novos desconhecidos no Brasil (como os ótimos Neal Asher, Kay Kenyon e Eric Brown), além de alguns que já foram publicados por aqui, ainda que apenas de passagem (Paul Di Filippo, salvo engano na falecida Isaac Asimov Magazine brasileira, e Michael Moorcock, criador de Elric, aqui apresentando uma história inédita de seu anti-herói Jerry Cornelius. Vale a dica para as editoras brasileiras.

FF_136_bladerunner5_f.jpgAcabei de ver pela TV, no programa Esporte Espetacular, da TV Globo, a história de Oscar Pistorius, velocista sul-africano que não tem as duas pernas. Pistorius nasceu sem as fíbulas (que antigamente chamávamos de perônios) e teve as duas pernas amputadas pouco abaixo do joelhos aos 11 meses de idade.

Pistorius sempre foi praticante de esportes, desde canoagem até (pasmem!) rúgbi. Mas em 2004, uma lesão num dos joelhos fez com que ele abandonasse esse rude esporte bretão e se dedicasse exclusivamente ao atletismo. Desde então, o sujeito só acumula títulos: é o atual campeão pára-olímpico na categorias de 100, 200 e 400 metros.

Até aí tudo bem. Mas Pistorius quer mais: ele quer correr em Pequim. Foi proibido: a decisão seria baseada num estudo segundo o qual as próteses flexíveis de carbono que Pistorius para substituir as pernas podem lhe dar uma significativa vantagem em relação aos velocistas sem deficiência.

Pistorius afirma que consultou diversos cientistas que lhe asseguraram que essa vantagem não existe. Mas, ao que parece, isso não foi confirmado. De qualquer maneira, a decisão do Comitê Olímpico é irrevogável, mas Pistorius já disse que não vai desistir.

Estamos assistindo ao começo de um momento muito interessante da história da humanidade: o advento do pós-humano. Não como superior ou inferior ao humano sem próteses, apenas diferente. Mas que exige o direito de ser tratado como igual. Quantas vezes já não vimos isso na história da ficção científica?

A diferença (que até pouco tempo atrás a FC não havia imaginado) é que não estamos falando de robôs, homens bicentenários e alienígenas solicitando tratamento igualitário. Estamos falando de algo que incomoda a humanidade desde o começo dos tempos: o direito do diferente.

Foi por não reconhecer o status de humanidade dos judeus que Hitler provocou o Holocausto na Segunda Guerra Mundial. Foi por não reconhecer o status de humanidade dos kosovares que Slobodan Milosevic promoveu a "limpeza étnica" na década de 1990.

Claro, esta discussão não se aproxima um milésimo dos genocídios descritos acima. Mas, como lembrou Hal Duncan no post abaixo, nunca é demais lembrar. É através da lembrança da intolerância que nos preparamos para aceitar (aceitar mesmo, e não apenas tolerar) aqueles que não são iguais a nós. Pois, se você se olhar no espelho, vai perceber que não é igual a ninguém. Todos somos humanos, pré- ou pós-. E é bom que nos abracemos e aceitemos a todos como somos. Porque estamos todos juntos nesta canoa (furada ou não) que é a Terra.

UPDATE 23:13 - Ao fazer a pesquisa para os links, bati o olho numa coisa mas não registrei direito. Agora tracei o caminho de volta e descobri que, sim, eu também uso a Lei de Godwin.

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