
Ars longa, vita brevis. O ditado latino Arte Longa, Vida Breve cabe como uma luva na vida de Edgar Allan Poe. Morto aos quarenta anos de idade (embora sua última foto, o daguerreótipo mostrado no post anterior, mostre um homem com aspecto mais envelhecido), o jornalista, editor, escritor e poeta teve uma vida intensa, uma morte terrível e um reconhecimento muito além do que seus contemporâneos acreditavam possível.
Pensemos no contexto da época: Poe viveu nos Estados Unidos na primeira metade do século XIX, antes mesmo da colonização maciça do Oeste. Nascido em Boston em 19 de janeiro de 1809, filho de pais atores itinerantes, foi mandado para a casa dos avós imediatamente após o nascimento.
A casa de Elizabeth e do "General" Poe ( o avô de Edgar havia participado da Guerra de Independência, mas as aspas vão porque o posto não era exatamente um título militar - ele era um oficial responsável pelo abastecimento de alimentos da cidade) ficava em Baltimore, sul dos EUA. Cercado por escravos, Poe era conservador e defensor da escravidão, embora não se tenha notícia de que tivesse algum dia maltratado um escravo - ao contrário de seus amigos, que sofreram muito em suas mãos. Na verdade, gostava de ouvir as histórias de fantasmas contadas pelos escravos.
Órfão de pai e mãe ainda criança, foi adotado pelo comerciante John Allan e sua esposa, que o levaram para a Inglaterra, onde viveu parte da infância. Cinco anos mais tarde, a família de criação voltaria aos EUA, onde Poe, já no college (uma espécie de pré-universidade nos EUA, sem equivalente no Brasil - embora o curso tivesse sido feito na Universidade da Virgínia), aos dezoito anos, começou a demonstrar um gênio irascível, o vício pelo jogo e o alcoolismo. Isso o levaria a uma espiral descendente que só teria momentos breves de felicidade com a publicação de algumas de suas obras - mas a descoberta da vocação literária não o salvaria da miséria nem da morte trágica e precoce.
Em Poe, a Life Cut Short, a mais recente biografia do autor de O Corvo e de The Narrative of Arthur Gordon Pim, o inglês Peter Ackroyd (famoso também pelas biografias de James Joyce, Shakespeare, Thomas More e até da cidade de Londres e do Rio Tâmisa!) ilumina não só os dados mais conhecidos da vida de Edgar Allan Poe (para o público brasileiro, praticamente nenhum) como desmistifica o que o senso comum e o ouvir-dizer nos passou acerca desse grande poeta americano.
O livro pertence à série Ackroyd Brief Lives, uma coleção publicada pela Random House em que Ackroyd traça o que aqui costumamos chamar de perfis, dado o tamanho curto dos livros (200-250 páginas no máximo), e dos quais já publicou a vida de Isaac Newton e de Geoffrey Chaucer. Mas, no caso de Ackroyd, não dá para dizer que é um mero perfil. 200 páginas de Ackroyd dão de dez a zero em 560 de muito biógrafo brasileiro.
Ackroyd começa o livro contando os últimos dias de Poe, bêbado, doente, desmemoriado, provavelmente sofrendo de delirium tremens, perdido, usando roupas que não eram as suas e sem ninguém de sua já tão escassa família por perto.
Os dois irmãos há muito viviam longe, com suas próprias famílias; seu primo não queria contato com ele; sua prima e esposa, Virgínia, morrera dois anos antes, depois de um longo sofrimento provocado pela tuberculose. Só lhe restava sua tia e sogra, Maria Clemm, a única a ainda se preocupar com ele. Mas ela não chegou a tempo de sua morte ou de seu enterro.
Poe era precoce. Diziam que era capaz de recitar poemas, dançar e se comportar como um perfeito cavalheiro aos três anos de idade. Durante seu tempo na Inglaterra, era sempre um dos melhores alunos da classe. Demonstrava um grande amor pelo conhecimento, tendo aprendido latim e alemão até a adolescência, e era bom também em corrida e ginástica!
Mas, mesmo tendo nascido muito antes de Sigmund Freud, Poe daria pano para manga (várias mangas): a morte da mãe quando ele ainda não contava três anos e o desaparecimento do pai o marcaram profundamente. Ele jamais assumiu isso, mas seus contos são uma psicanálise invejável: não é qualquer escritor que rasga seu coração com a sinceridade absoluta e desavergonhada de Edgar Allan Poe.
A Queda da Casa de Usher, Ligéia, Berenice, The Tell-Tale Heart são apenas alguns dos contos mais famosos que tratam de morte, esse grande tema que é a espinha dorsal da obra de Poe.
Além disso, quem não se lembra dos contos mais tenebrosos, como The Pit and The Pendulum, The Masque of The Red Death, The Black Cat, ou The Cask of Amontillado?
Mas Poe não escreveu apenas contos desesperados; escreveu também muita prosa satírica, em histórias como A Tale of Jerusalem ou The Duc de L´Omelette, que décadas depois influenciaria fortemente Machado de Assis em seus contos irônicos.
Ele também poderia ser considerado santo padroeiro da mídia tática: fez publicar sua noveleta The Unparalleled Adventure of One Hans Pfall como uma história verídica na revista mensal Southern Literary Messenger - em 1835!! A história de Hans Pfall, que viaja de balão até a Lua, é considerada por estudiosos da ficção científica como a inspiração para Da Terra à Lua, de Jules Verne.
A Poe também é creditada a invenção da história de detetive, com a trilogia de contos apresentando o investigador francês C. Auguste Dupin e seu método de ratiocination: The Murders in the Rue Morgue, The Mystery of Marie Rogêt e The Purloined Letter.
Querem mais? Pois não: que tal Four Beasts in One - the Homo-Camelopard, que bem pode ter inspirado Jorge Luis Borges em seu Livro dos Seres Imaginários? Ou The Imp of the Perverse, que se não influenciou Freud em alguma coisa deveria ter influenciado?
Como se diz nos EUA, há muito mais de onde vieram esses - só a prosa ficcional de Poe dá 955 páginas de um volume saboroso com páginas de entrelinhamento pequeno e fonte idem. E nem falamos de ensaios como Filosofia da Composição ou os poemas, como Eureka e O Corvo (mas sobre eles eu falarei mais adiante).
Em 1996, foi divulgado que Poe poderia ter morrido não de problemas relativos à bebida, mas de raiva humana. Contudo, isso jamais foi provado - o que só faz aumentar a curiosidade sobre o homem e o mito.
Ackroyd nos mata um pouco dessa curiosidade, mostrando um Poe voluntarioso, que se dizia sem amigos ao mesmo tempo em que afastava de sua vida os poucos que efetivamente tinha (e aos quais sempre voltava a recorrer quando perdia o dinheiro no jogo ou quando bebia demais e era roubado) e era de uma carência afetiva descomunal.
Prova disso é ter se casado com Virginia Clemm quando esta tinha treze anos de idade (Ackroyd explica que, embora isso não fosse incomum naquela época, mesmo assim não era aceito com bons olhos - mas ele se apressa a explicar que aparentemente não houve sexo entre eles, pelo menos nos primeiros anos do casamento) e, após a morte dela, alternado suas atenções entre nada menos que três viúvas com as quais flertara na adolescência.
Mas a esta altura vocês estão se perguntando: e daí?
É verdade: e daí? Poe sofreu porque era humano. Tinha problemas? Claro, e imensos. Mas foi um bom jornalista, um grande editor e um escritor maior ainda, reconhecido e aclamado ainda em vida. Logo depois da morte, foi alvo de críticas covardes de contemporâneos que sabiam que não receberiam mais respostas - porque Poe nunca fugiu de uma boa briga (a maioria das quais ele mesmo começava, às vezes sem motivo).
Por outro lado, Baudelaire o traduziu e o publicou na França, e o considerou o pai dos Simbolistas. Chegou a ser considerado "um escritor francês nascido por engano nos Estados Unidos".
Hoje, duzentos anos de seu nascimento. Um homem medíocre não teria influenciado tanto a cultura em todos os seus espectros - desde os filmes deliciosamente camp de Roger Corman com Vincent Price até romances como The Poe Shadow, de Matthew Pearl, e a recentíssima coletânea de contos inéditos Poe, editada por Ellen Datlow (que serão resenhados aqui também). Junto com Mary Shelley, Robert Louis Stevenson e Bram Stoker, Poe criou algumas das imagens mais marcantes da literatura, que ainda reverberam por corações e mentes, atormentados, acachapados, loucos ou simplesmente (como se isso fosse simples) criativos.
Perdoem o trocadilho mais do que usado, mas é tão inescapável quanto o Mäelstrom: um criador como Edgar Allan Poe, nunca mais. Nunca mais.
UPDATE 20 / 01: Fiz algumas correções no texto acima, escrito ontem no fim da noite depois de um dia atribulado. Afinal, quandoque bonus dormitat Homerus (numa tradução aproximada, Homero é bom mas não é perfeito... ;-)