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As férias começaram ma non troppo: hoje retomo os estudos de doutorado (uma análise do conceito de pós-humano na ficção científica) e continuo trabalhando em projetos e escrevendo. E, claro, lendo bastante. Abaixo, uma lista do que tenho lido:

Perdido Street Station, de China Miéville - relendo este já clássico que inaugurou o subgênero literário chamado de New Weird. Miéville, que já escreveu mais dois livros ambientados no universo bizarro de New Crobuzon: The Scar e Iron Council, além de uma ótima coletânea chamada Looking for Jake, que contém uma história de New Crobuzon mas outras igualmente incríveis, lançou recentemente um infanto-juvenil que de bobo não tem nada: Un Lun Dun, que narra a incrível viagem de duas meninas por uma Londres oculta - algo no mesmo tom de Neverwhere, de Neil Gaiman, mas ao mesmo tempo bem diferente. Vale a pena conferir. Aguardem resenha em breve, além de uma surpresa no Post-Weird Thoughts.

Dreamsongs, Vol. 1, de George R. R. Martin - Comecei agora; o grande barato é ler os primeiros contos que o cara publicou em zines na década de 1960. Coisas meio lovecraftianas, mais para Old Weird que para New, mas também o cara tá com quase 70 anos, né? Muito bom

Mad Scientist Meets Cannibal, de Robert T. Jeschonek. Autor de livros de Star Trek, Jeschonek estreia com uma minicoletânea que faz parte do showcase da PS Publishing. O livro ainda não saiu, mas recebi uma ARC (Advance Reviewer Copy) para resenhá-lo no The Fix. Esse cara eu não conhecia, mas até agora estou adorando os contos da minicoletânea. Jeschonek lembra Frederic Brown e William Tenn. Bárbaro!!

A Magia das Máquinas - John Wilkins e a origem da mecânica moderna, de Ana Maria Alfonso-Goldfarb. Excelente livro, fruto da dissertação de mestrado da Professora Goldfarb, da PUC-SP, para pesquisa no romance que estou escrevendo agora (mais sobre isso depois).

Como alguns dos meus leitores devem saber, por mais de um ano mantive um blog sobre literatura brasileira no Overmundo. Capitaneado por Hermano Vianna, José Marcelo Zacchi, Ronaldo Lemos e Alexandre Youssef e uma super-equipe de jornalistas, programadores, escritores do maior calibre como Helena Aragão, Thiago Camelo, Viktor Chagas e Saulo Frauches (que tive o prazer e a honra de conhecer pessoalmente e com quem espero ainda poder bater altos papos), o Overmundo presta um serviço de primeiríssima qualidade na divulgação da cultura brasileira. Contendo seções como o overblog (para matérias jornalísticas), o banco de cultura (para falar de cultura e também para quem quiser apresentar suas próprias obras culturais - minha primeira coletânea de contos, Interface com o Vampiro está lá, gratuito para quem quiser baixar), um guia e uma agenda cultural. Todo mundo pode participar. Eu participei ativamente durante a maior parte do anos de 2006, chegando a fazer parte de duas rotações da equipe de conselheiros do site (um sistema de autogestão que acabou não dando certo, mas que gerou discussões muito válidas e pertinentes). Em 2007, por conta de diversas questões pessoais, fui me afastando aos poucos. Cheguei a participar um pouco (muito pouco) das discussões e postar algumas coisas no blog, mas em 2008, nem meia dúzia de posts. Assim, O Viajante Imóvel entrou em coma, foi para o limbo, esperando algo que nem mesmo eu sei o que é.

Ontem recebi um e-mail do Overmundo para me lembrar de que all things must pass, tudo deve passar, todas as coisas um dia chegam ao fim:

Nós, da Equipe de Moderação e Administração do Overmundo, valorizamos muitíssimo o trabalho que você e seus companheiros blogueiros têm feito nos blogs hospedados no Overmundo. Por isso, é não sem algum pesar que comunicamos o cancelamento do serviço de hospedagem desses blogs no próximo dia 15 de julho.

Quando o Overmundo surgiu - e lá se vão mais de dois anos desde então -, avaliamos que uma comunidade de blogueiros que tratasse sempre de temas relacionados à cultura brasileira pudesse agregar valor e atraísse outros colaboradores interessados em manter blogs no mesmo sistema, criando assim uma rede de "blogs parceiros" que se consolidaria como um excelente manancial de informações na internet. Isso de certa maneira aconteceu. Mas os desenvolvimentos de serviços semelhantes (ainda que voltados não apenas para a cultura brasileira), gratuitos, livres e de excelente qualidade, nos fez caminhar aos poucos para a alternativa do Overfeeds, que soma os papéis de agregar e dar visibilidade aos blogs sem demandar a hospedagem no Overmundo. Esta ferramenta atraiu blogueiros que estavam acostumados com outros serviços e interessados em continuar neles. Fomos então levados à percepção de que não faria sentido dedicar tamanho esforço de desenvolvimento tecnológico para aperfeiçoar um sistema de blogs nativos no Overmundo que iria apenas competir com os bons serviços já existentes neste âmbito. Por outro lado, fazia ainda mais sentido nos concentrarmos em melhor oferecer aquilo que hoje é o diferencial do Overmundo: a plataforma colaborativa, a comunidade, a agregação, e por essa razão, demos vazão ao projeto Overmídia .

É claro que gostaríamos muito de continuar a oferecer este serviço, mas avaliando os custos de operacionalidade e a demanda da comunidade por tais serviços, nossa opção, ao menos por ora, é de encerrar o serviço de hospedagem dos blogs. O Overfeeds, no entanto, seguirá funcionando como principal plataforma agregadora de feeds relacionados aos blogs que se cadastraram através do site, e nós recomendamos fortemente que você crie um novo blog e o registre no Overfeeds para continuar tendo seus posts republicados automaticamente seguindo a dinâmica editorial colaborativa dos serviços do Overmundo.

O objetivo desta mensagem é deixá-lo avisado o quanto antes do fim do serviço de hospedagem de blogs do Overmundo, de modo que você possa preparar o terreno para um novo blog e importar para ele todos os posts anteriores de seu blog no Overmundo. Dessa forma, não haverá perda substancial de seu esforço ao longo deste tempo, e seus textos e demais arquivos estarão todos disponíveis no novo blog, que poderá ser hospedado em quaisquer outros serviços, como WordPress, Blogger e outros.

Nós nos dispomos a auxiliá-lo neste processo de exportação e importação de posts tanto quanto possível. Para isso, basta que você entre em contato com a Equipe de Moderação do Overmundo , expondo suas dúvidas e interesses.

Pedimos desculpas pelos eventuais transtornos e contamos com sua compreensão nesta situação, torcendo para que seu blog *O Viajante Imóvel* continue um grande parceiro do Overmundo.


Concordo plenamente. Não só porque o sistema de overfeeds é muito eficiente e não precisa mais hospedar blog algum no espaço do Overmundo, que cresceu muito nesses dois anos. No meu caso, concordo duplamente, porque depois de um ano de posts constantes, acabei abandonando o blog. Não foi intencional, mas simplesmente a vida me levou por outro caminho - no caso dos blogs, o caminho me trouxe até aqui.

Quero aproveitar esse espaço para agradecer ao Hermano, à Helena, ao Thiago, ao Saulo, ao Viktor e a todos os overmanos e overminas com quem tive a oportunidade de ter um contato tão gregário (eu que às vezes não aparento mas sou tão ermitão). Fui muito feliz no Overmundo. Desejo toda a felicidade do mundo, vasto mundo, para todos vocês.

Não pretendo voltar muito ao Overmundo porque sou um cara meio estranho. Quando me afeiçôo a alguém ou alguma coisa e esse contato se interrompe seja qual for o motivo, tenho muita dificuldade de retomá-lo. A nostalgia me dilacera. Mas guardo para sempre no coração a lembrança (será por isso que sempre choro ao ler o poema de Drummond sobre Itabira? Talvez).

Quanto ao Viajante Imóvel, vou salvar o conteúdo, mas ainda não sei se vou criar um blog novo para recolocá-lo. O futuro dirá. E o futuro é tudo o que me interessa, porque o passado, por mais lindo que tenha sido, dói.

Trabalhando muito em ritmo de fim de semestre, mas sempre me atualizando com novas leituras. Aqui, uma lista do que estou lendo neste momento:

Perdido Street Station, de China Miéville - O clássico da New Weird. Relendo. Preciso dizer mais?

The Word of God, de Thomas M. Disch - Tom Disch é um autor clássico norte-americano. Seu livro Camp Concentration é um dos melhores dos anos 1960. Aqui, ele pega onde Philip K. Dick largou e assume para si o papel de divindade. Eu vi a luz e me rendi: só espero que ele perdoe a nós, pobres pecadores, por não termos prestigiado a palestra que ele deu na PUC-RJ em 1990 (quero dizer, vocês é que vão arder no inferno, porque eu e mais meia-dúzia estivemos lá e vimos em seu rosto a tristeza por ter tão poucos interlocutores).

The Plots to Rescue the Tsar, de Shay McNeal - Um interessantíssimo livro e dos planos que foram feitos para o resgate do czar, sua mulher e seus filhos após a Revolução Russa - o que acabou não ocorrendo. Lendo como pesquisa para finalizar meu romance.

Dying of the Light, de George R. R. Martin - o primeiro romance de um dos maiores autores de fantasia de hoje, autor da saga A Song of Ice and Fire. Esse livro é de ficção científica, e é ambientado no mesmo universo da belíssima novela A Flor de Vidro, que traduzi há quase vinte anos para a finada edição brasileira da Isaac Asimov Magazine.

A Game of Thrones, de George R. R. Martin - o primeiro volume da saga de fantasia de Martin. Está começando bem. Há muito tempo eu não lia fantasia dita convencional, mas vários amigos e colegas me recomendaram tanto que acabei comprando para ver no que é que dá. Acho que vai dar samba (ou, no caso, uma canção celta do Clannad).

Aqui, agora, trabalhando e ouvindo no MP3 Player: Protection, Massive Attack. É bom. Todo mundo precisa de proteção de vez em quando.

Agora já posso contar: fui convidado para integrar a equipe do Le Monde Diplomatique online como colaborador mensal. Todo mês, um artigo, uma resenha ou uma crítica. Hoje, uma crítica sobre um livro que provocou muita polêmica aqui mesmo neste blog. No mês que vem, um livro de Vladimir Nabokov. Depois, provavelmente literatura fantástica. E la nave va: o Altíssimo (Chuck Norris, claro) fecha uma porta (com um soco) e abre uma janela (com um roundhouse kick). Muito obrigado ao Rodrigo Gurgel pelo convite. E aguardo vocês por lá também, para críticas e comentários.

ficção de polpa 2

areia nos dentesAcabo de receber, do Samir Machado de Machado, da Não Editora (excelente nome, se eu tivesse uma editora ia querer colocar um nome desses) os livros Ficção de Polpa vol. 2, coletânea de diversos autores, e Areia nos Dentes, de Antônio Xerxenesky.

Nada a comentar neste instante, a não ser a EXCELENTE, embasbacante qualidade gráfica de ambos os livros. O primeiro, uma coletânea original de ficção científica "pulp", com uma capa que homenageia os grandes ilustradores do gênero, como Frank R. Paul. O segundo, um western que, me disseram, é meio weird - bem do jeito que eu gosto.
Aguardem resenha suculenta em breve. Meu obrigado ao Samir pelo envio.

Update 7 / 06: o Bruno Porto postou um comment querendo saber quem são os autores das capas. Muito justo, erro meu que corrijo agora. A capa do Ficção de Polpa 2 é do Samir Machado de Machado, e a ilustração é de Gisele Oliveira. A capa e todo o projeto gráfico do Areia nos Dentes são do Samir.


O convite é da inglesa Victoria Hoyle, que faz parte do coletivo de escritoras do blog Eve´s Alexandria: uma leitura coletiva de Ulysses, de James Joyce, a começar em 16 de junho, no chamado Bloomsday (pra quem não sabe, a data que consta do próprio livro, o dia em que se passa a ação da história).

Ela não chegou a estabelecer nenhuma regra específica, mas pediu que todo mundo que quiser participar escreva um post no dia 16, dando suas primeiras impressões, e depois vá postando em seus blogs periodicamente, do jeito e na freqüência que achar mais conveniente.

Estendo o convite para meus conterrâneos, o que quer dizer: está valendo tanto ler no original quanto em tradução. O importante é ler. E comentar.

Alguém me acompanha nessa?

Terminei ontem de ler um livro que foi uma grata surpresa: On Writing, de Stephen King. Como eu havia dito há algum tempo num post especial sobre a saga da Torre Negra, antes de começar a ler o primeiro volume, The Gunslinger, eu não lia o chamado mestre do terror há cerca de vinte anos.

Perdi o preconceito - preconceito que, aliás, me foi instilado por anos e anos de leituras de livros da dita Literatura com L maiúsculo e, principalmente, pela influência de pessoas (bacanas e bem-intencionadas, faço questão de ressaltar; nenhuma delas é um arauto do mal) que sinceramente acreditavam que King era uma leitura menor. Acabei seguindo o mesmo caminho. Não de forma pró-ativa, como se diz hoje; eu não fazia campanha contra Stephen King. Simplesmente perdi todo o interesse em ler seus livros e em ver seus filmes, coisa que começou a acabar quando vi o excelente The Shawshank Redemption, com Tim Robbins e Morgan Freeman (que, por curiosidade, completa hoje 71 anos de idade).

(agora, pensando bem, fiz uma exceção nesse longo hiato de leituras de King justamente para ler a novela que deu origem ao filme, Rita Hayworth and The Shawshank Redemption, que está na coletânea Different Seasons - mas, ao que me lembre agora, foi a única exceção MESMO em vinte anos.)

Depois da saga da Torre Negra, entrei num processo de, digamos, uma saudável (na minha opinião, pelo menos) Kingmania: comecei a comprar todos os livros de King que eu podia encontrar. (tudo em pockets, claro, que atualmente saem muito mais barato que brochuras em inglês ou em qualquer livro traduzido).

A última aquisição foi justamente On Writing. Mas confesso que, teimoso como sou, eu ainda tinha um preconceito contra King. Acreditava que esse livro não me ensinaria muito, não porque eu seja um grande escritor (porque não sou nem considero como tal), mas porque o estilo do King é tão direto-ao-ponto que eu achava que ele não faria muito mais do que, a exemplo de alguns mestres como Isaac Asimov, descer a marreta em autores mais focados no estilo e privilegiar exclusivamente a narrativa.

Não posso dizer que ele não faz isso de certa forma, mas com uma elegância e uma cultura que a escrita franca e direta de King muitas vezes esconde. Em suma, On Writing me deixou chapado: devorei o livro como quem lê uma história de ficção, daquelas das quais você não consegue desgrudar o olho (e nem dormir) até chegar à última página - e depois ainda fica acometido de uma certa melancolia, pois o livro acabou e não tem mais.

King dá um show de bola nesse livro, e também muitas lições de humildade para quem está começando no ofício. A primeira delas, e com a qual eu mais me identifiquei, foi: um escritor precisa ler muito e escrever muito. Sempre, o tempo todo. Fiquei feliz ao saber que pelo menos uma coisa eu e o mestre temos em comum: nunca saímos de casa sem um livro (eu, com minha paranóia costumeira, sempre levo dois na algibeira; e se eu acabo o primeiro no meio da viagem de ônibus ou metrô?) e lemos um livro em qualquer situação, seja numa fila até mesmo esperando o elevador. E escrever? Bem, King tem uma disciplina férrea, coisa que eu ainda não consigo ter, mas pelo menos eu já consigo escrever todos os dias, o que até pouco tempo atrás para mim era impensável.

Outra coisa que King ensina é não descuidar nunca de pelo menos três pontos: vocabulário, gramática e narrativa. Resumindo muito: conheça bem a sua língua e aprenda a contar uma história. Dá mais trabalho do que parece, mas no fim compensa.

Resolvi escrever este post justamente para dar força aos colegas de ofício que adoram ler mas parecem nunca ter tempo, devido ao estudo, ao trabalho ou à família. Evoé, pessoal!! Ânimo! Ler é gostoso, e faz bem não só à alma como também à carreira literária. Parar de ler é suicídio literário. Quem descobrir que não gosta tanto assim de ler talvez deva repensar as ambições literárias (não estou me referindo aqui a quem escreve RPGs ou roteiros para animes, por exemplo, pelos quais tenho o maior respeito - embora cultura seja igualmente importante para quem escreve em todas as mídias, aqui estou voltando meu foco para quem deseja escrever livros).

E escrever? Cuidado com a ambição desmedida da "trilogia" logo de cara - sem ter escrito pelo menos uns vinte ou trinta contos. Como diz o velho ditado, uma jornada começa com o primeiro passo. E o primeiro passo, no caso da literatura, costuma ser um conto (nem que esse conto fique na gaveta, ou numa pasta de seu computador). Mas nunca façam como uma conhecida minha, que um dia me confidenciou: "gostaria de ter mais tempo para escrever; mas eu trabalho durante o dia e toda noite sou convidada para uma balada, uma noite de autógrafos, um evento... Não tenho tempo algum." (Acho que não preciso dizer nada, não é? ;-)

Pra fechar: não desistam do sonho. Para a maioria das pessoas, ele vai demorar a se realizar. Mas é importante definir o caminho a seguir e ir em frente, sem deixar que nada ou ninguém atrapalhe (mas ao mesmo tempo sabendo ouvir conselhos e dicas, e sabendo também fazer pitstops para respirar fundo, aceitar críticas, reler com olhar desapaixonado as próprias histórias e revisá-las impiedosamente). Tudo vai dar certo no final. Como dizia o saudoso Fernando Sabino, se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim. E boa sorte para todos nós, que precisamos e merecemos.

Não, eu não estou falando de Barack Obama - ao menos não por enquanto. Para quem conhece bem a obra de Monteiro Lobato, o título é claro: é de um de seus livros, publicado originalmente em 1926, portanto há 82 anos (e curiosamente no mesmo ano em que Hugo Gernsback iniciou a publicação de Amazing Stories e cunhou a palavra scientifiction), o que faz todo o sentido do mundo, porque é o livro adulto de Lobato mais "science-fiction" que ele escreveu.

O Presidente Negro, que acabou de ser relançado, é também a história mais polêmica de Lobato, que nos anos 1960 foi acusado de racismo por ela. Injustamente.

Não vou entrar em detalhes agora, porque acabei de comprar o livro e vou começar a relê-lo depois de mais de vinte anos. Mas foi interessante perceber, ao entrar na livraria, que, ao contrário dos demais livros de Lobato que a Editora Globo está relançando, O Presidente Negro é o único que não está exposto à vista de todos, mas enfiado envergonhadamente no fundo de uma prateleira da seção de Literatura Brasileira. Será que os livreiros brasileiros têm vergonha desse livro de Lobato? E será que isso é um reflexo de uma suposta "vergonha" que os brasileiros teriam? Mais sobre isso muito em breve.

Pessoal, este é só pra avisar que, na esteira do Pós-Estranho, criei um novo blog, o POST-WEIRD THOUGHTS. Nele, eu estou em parceria com o Jacques Barcia, meu mais novo grande amigo (que nunca vi pessoalmente, pasmem vocês, mas por quem ponho a mão no fogo). O PWT é um blog exclusivamente em inglês, basicamente para resenhas de livros. Mas não pensem que vou abandonar o Pós-Estranho não, pelo contrário. Isto é só o começo da dominação mundial. ;-)

Os meus leitores já repararam que não estou escrevendo rigorosamente todos os dias, como fazia até bem pouco tempo. Paciência, please, ao menos por enquanto: estou trabalhando muito e as traduções, bem como as aulas, demandam uma grande dedicação.

O que me salva é que minha dedicação aos livros não é menor. A quantidade de livros que estou lendo é grande e vai gerar uma boa quantidade de resenhas muito em breve, algumas para o The Fix (tem uma saindo por esses dias), outras para este blog, outras para um outro blog que está surgindo (pronto, falei). Provavelmente até o fim desta semana ou o começo da próxima estarei abrindo os trabalhos no outro - sem abandonar este nem um pouco, ressalto.

Enquanto isso, lendo os seguintes livros:

The Road, Cormac McCarthy - eu não levava muita fé nesse escritor, muito embora o filme baseado em seu livro No Country for Old Men tenha levado o Oscar, coisa e tal. Mas ontem achei o pocket na Cultura a um preço ridículo de tão barato e comprei. Resultado: quase não dormi esta noite. Não conseguia parar. Extremamente bem escrito. Uma história pós-apocalipse nuclear feita para figurar entre as melhores do gênero, como Damnation Alley, de Roger Zelazny, e The Memoirs of a Survivor, de Doris Lessing.

The Immortalists, de David M. Friedman - um dos melhores livros de não-ficção que li nos últimos tempos, que conta uma história interessante e assustadora ao mesmo tempo: a parceria inusitada entre o herói da aviação norte-americana Charles Lindbergh, responsável pela primeira travessia do Atlântico em 1927, e o cientista francês Alexis Carrel, Prêmio Nobel de Medicina de 1912. O objetivo da parceria: buscar a imortalidade através da perfusão de órgãos, ou seja, a manutenção da vida dos órgãos internos do corpo humano, inicialmente fora do corpo. Um projeto algo frankensteiniano, iniciado em 1930 e que vai se tornando mais assustador quando Lindbergh assume publicamente seu apoio à Alemanha nazista, às vésperas de uma Segunda Guerra Mundial que ele jurava aos militares americanos que jamais aconteceria. Contraditório como todo ser humano, Lindbergh era anti-semita e acreditava na superioridade da "raça" branca (coloco raça entre aspas porque esse conceito já caiu por terra cientificamente), mas ao mesmo tempo era capaz de gestos desprendidos e de uma grande dedicação em projetos que tinham motivação de ajuda humanitária. Foi ele, por exemplo, quem aperfeiçoou um modelo de centrífuga que até hoje é utilizado em laboratórios clínicos, e seu método de perfusão permitiu a evolução de procedimentos científicos para transplantes. Lendo para pesquisa, juntamente com o excelente The Plot Against America, de Philip Roth, uma história alternativa que narra o que poderia ter acontecido aos judeus dos EUA caso Lindbergh tivesse concorrido à presidência em 1940 (isso nunca aconteceu). Roth é sempre uma ótima leitura.

Continuo lendo Vellum, de Hal Duncan, além da biografia de Nietzsche escrita por Rüdiger Safranski, que também é biógrafo de Heidegger. Mais detalhes em breve.

Pedindo licença aos meus fiéis leitores para este marketing pessoal descarado, aviso que acabo de publicar um artigo na versão online do jornal Le Monde Diplomatique. Este artigo é a primeira parte. No máximo em duas semanas sai a próxima, e em breve um conto inédito.

Muito obrigado ao Rodrigo Gurgel pela honra e pela excelente oportunidade de contribuir para uma interlocução sobre a ficção científica como uma literatura sobre a qual vale a pena conversar e debater.

Acabaram de ser anunciados os finalistas do Locus Award, prêmio conferido pela revista Locus, a mais importante do mercado anglo-americano de ficção científica, fantasia e horror. Abaixo, a lista completa:

LIVRO DE FC


The Accidental Time Machine, Joe Haldeman (Ace)
Brasyl, Ian McDonald (Pyr)
Halting State, Charles Stross (Ace; Orbit UK)
Spook Country, William Gibson (Putnam; Viking UK)
The Yiddish Policemen's Union, Michael Chabon (HarperCollins) -

LIVRO DE FANTASIA


Endless Things, John Crowley (Small Beer Press; Overlook)
Making Money, Terry Pratchett (Doubleday UK; HarperCollins)
Pirate Freedom, Gene Wolfe (Tor)
Territory, Emma Bull (Tor)
Ysabel, Guy Gavriel Kay (Viking Canada; Roc)

LIVRO INFANTO-JUVENIL


Extras, Scott Westerfeld (Simon Pulse; Simon & Schuster UK)
The H-Bomb Girl, Stephen Baxter (Faber & Faber)
Magic's Child, Justine Larbalestier (Razorbill)
Powers, Ursula K. Le Guin (Harcourt; Gollancz)
Un Lun Dun, China Miéville (Ballantine Del Rey; Macmillan UK)

LIVRO DE ESTRÉIA


City of Bones, Cassandra Clare (Simon & Schuster/McElderry)
Flora Segunda, Ysabeau S. Wilce (Harcourt)
Heart-Shaped Box, Joe Hill (Morrow; Gollancz)
The Name of the Wind, Patrick Rothfuss (DAW; Gollancz)
One for Sorrow, Christopher Barzak (Bantam Spectra)

NOVELA


After the Siege, Cory Doctorow (The Infinite Matrix Jan 2007)
All Seated on the Ground, Connie Willis (Asimov's Dec 2007)
Memorare, Gene Wolfe (F&SF Apr 2007)
Muse of Fire, Dan Simmons (The New Space Opera)
Stars Seen through Stone, Lucius Shepard (F&SF Jul 2007)

NOVELETA


Dark Integers, Greg Egan (Asimov's Oct/Nov 2007)
The Merchant and the Alchemist's Gate, Ted Chiang (F&SF Sep 2007)
Trunk and Disorderly, Charles Stross (Asimov's Jan 2007)
We Never Talk About My Brother, Peter S. Beagle (Orson Scott Card's Intergalactic Medicine Show Jun 2007)
The Witch's Headstone, Neil Gaiman (Wizards)

CONTO


The Last and Only, or, Mr. Moscowitz Becomes French, Peter S. Beagle (Eclipse One)
Last Contact, Stephen Baxter (The Solaris Book of New Science Fiction)
A Small Room in Koboldtown, Michael Swanwick (Asimov's Apr/May 2007)
Tideline, Elizabeth Bear (Asimov's Apr/May 2007)
Who's Afraid of Wolf 359?, Ken MacLeod (The New Space Opera)

COLETÂNEA


The Dog Said Bow-Wow, Michael Swanwick (Tachyon)
The Jack Vance Treasury, Jack Vance (Subterranean)
Overclocked, Cory Doctorow (Thunder's Mouth)
Things Will Never Be the Same, Howard Waldrop (Old Earth)
The Winds of Marble Arch and Other Stories, Connie Willis (Subterranean)

ANTOLOGIA


The Best of Lady Churchill's Rosebud Wristlet, Kelly Link & Gavin J. Grant, eds. (Ballantine Del Rey)
The Coyote Road, Ellen Datlow & Terri Windling, eds. (Viking)
The New Space Opera, Gardner Dozois & Jonathan Strahan, eds. (Eos)
The Year's Best Fantasy & Horror 2007: Twentieth Annual Collection, Ellen Datlow, Kelly Link & Gavin J. Grant, ed. (St. Martin's)
The Year's Best Science Fiction: Twenty-Fourth Annual Collection, Gardner Dozois, ed. (St. Martin's)

NÃO-FICÇÃO


Brave New Words: The Oxford Dictionary of Science Fiction, Jeff Prucher, ed. (Oxford University Press)
Breakfast in the Ruins, Barry N. Malzberg (Baen)
The Country You Have Never Seen, Joanna Russ (Liverpool University Press)
Gateways to Forever: The Story of the Science-Fiction Magazines from 1970 to 1980, Mike Ashley (Liverpool University Press)
Shadows of the New Sun: Wolfe on Writing/Writers on Wolfe, Peter Wright (Liverpool University Press)

LIVRO DE ARTE

The Arrival, Shaun Tan (Lothian 2006; Scholastic)
Dreamscape: The Best of Imaginary Realism, Claus Brusen & Marcel Salome, eds. (SalBru)
Emshwiller: Infinity x Two, Luis Ortiz, ed. (Nonstop Press)
Mervyn Peake: The Man and His Art, compilado por Sebastian Peake & Alison Eldred, editado por G. Peter Winnington (Peter Owen)
Spectrum 14: The Best in Contemporary Fantastic Art, Cathy Fenner & Arnie Fenner, eds. (Underwood)

EDITOR


Ellen Datlow
Gardner Dozois
David G. Hartwell
Patrick Nielsen Hayden
Gordon Van Gelder

REVISTA


Analog
Asimov's
F&SF
Lady Churchill's Rosebud Wristlet
Subterranean
PUBLISHER
Baen
Bantam Spectra
Night Shade Books
Subterranean Press
Tor

ARTISTA


Stephan Martiniere
John Picacio
Shaun Tan
Charles Vess
Michael Whelan


Destes, alguns já foram resenhados por mim aqui ou no The Fix. A maioria dos contos, noveletas e novelas já está disponível na Web (as revistas estão disponibilizando os contos finalistas gratuitamente, uma tendência ótima que se confirmou de vez este ano e que eu aplaudo). Periodicamente, continuarei postando resenhas dessas histórias aqui - e também em outro blog, que está pintando nos próximos dias, aguardem.

Obrigado ao Larry, do OF Blog of the Fallen, pela lista. / Thanks to Larry, of OF Blog of the Fallen, by the list.

I bought the pocket yesterday and read it in bed that night. I read it entirely, beginning to end, before I could sleep. Okay, it´s not a big book - but so what? It´s pretty damn good. I didn´t read anything by Gerrold in a long time, and when I saw the advertising for the movie starring John Cusack, I got interested at once.

The story of how Gerrold, a gay, single SF writer adopted an abused child and his struggle to bond with him is very touching. Everyone who has a child, of his/her own or adopted, should read it. It´s also a fun story - I mean it´s a story narrated in a very good-humored way. You can´t help laughing sometimes more than you can´t help shedding some tears.

That story also reminded me of a very brief moment in which my life almost touched theirs. I attended the 1995 WorldCon in Glasgow, when Gerrold won the Hugo for the novelette version of The Martian Child. It was my first international convention (it still is, though this situation is due to change soon), and I was so thrilled to meet so many writers I enjoyed reading (like Mike Resnick, with whom I had a great time at the kaffeeklatsch, and Gregory Benford, Geoffrey A. Landis, Iain M. Banks, and Robert Silverberg) that I hardly could even speak (that temporary inability made Terry Pratchett have some good laughs at me when I tried to talk to him).

All in all, that experience was very important to me - exhilarating and fun. I only have two regrets: in the first day of the convention, I was still so amazed I couldn´t bring myself to walk a few steps and talk to John Brunner, which was talking to some friends liks Hal Clement and Forrest J. Ackerman, and also seemed to be in a very good mood. Sadly, later that night, he suffered a massive heart attack and died. To say it was a terrible loss is an understatement.

The second is this: I was near a hot-dog booth at the food court when I saw Gerrold with his son David. It was in the last day, just after the award ceremony. Gerrold was holding the spaceship statuette and buying something for him and his son to eat. For a moment, I felt like going down there just to tell him how much I enjoyed some of his stories, like his classic Star Trek story The Trouble with Tribbles. But I hadn´t read the winning novellette yet, and I was afraid of being inconvenient. So, I didn´t.

I hope he can read these words someday (that´s the good side of the Net; maybe he will) and know that, as the poem of Vladimir Mayakovsky goes, once there was a happy man in Brazil. That was how his book made me feel.

asimovs.jpgAcabo de ler a coletânea comemorativa de 30 anos da Asimov´s Science Fiction Magazine, que saiu no ano passado pela Tachyon Publications. A original americana, é claro, que continua circulando mensalmente até hoje. Sua versão brasileira durou apenas 25 edições.

A edição é grande, mas sua seleção, embora muito boa, deixa o leitor com um gosto de quero mais: afinal, nesses trinta anos de publicação, milhares de histórias foram publicadas, e, como a própria editora Sheila Williams disse no prefácio, seriam necessários vários volumes só para publicar uma seleta contendo a melhor história de cada mês. A coletânea, que contém 17 histórias, não tem sequer a melhor de cada ano.

Mas que isso não desanime o leitor curioso, pois o nível dessas dezessete histórias (quase todas contos, com uma ou outra noveleta - Williams deixou as novelas de fora por uma questão de tamanho) é de primeira água; algumas delas receberam prêmios, como Speech Sounds, de Octavia Butler, mas este não foi o principal critério de seleção das histórias. A escolha parece ter sido feita por representatividade, e esse mérito a antologia possui.

Ela começa com Air Raid, de John Varley, que depois se transformaria no começo do livro Millenium, um grande livro de Varley que não foi publicado no Brasil (mas que chegou a virar um filme fraco com Kris Kristofferson e Cheryl Ladd em 1989). Em seguida, uma história de Robert Silverberg ambientada no universo das Crônicas de Majipoor. Dinner in Audoghast, a primeira história de Bruce Sterling vendida para a Asimov, também está presente, com seu ar exótico e nada cyberpunk; o já clássico Robot Dreams, do Bom Doutor Isaac Asimov; Glacier, de Kim Stanley Robinson, e Cibola, de Connie Willis, ambos publicados na versão brasileira da revista.

A extinta edição brasileira não publicou muitas das histórias que estão neste volume. Para começar, porque ela acabou no início de 1991, e portanto não poderia mesmo ter publicado a maioria dessas histórias. Além das histórias citadas logo acima, Speech Sounds também foi publicada no Brasil. O conto de Asimov saiu numa de suas coletâneas. E mais nada.

As demais histórias constituem um panorama bastante abrangente do melhor que a ficção científica e fantasia americanas têm a oferecer, desde o quase-mainstream Ether OR, de Ursula K. LeGuin, de 1995, até o assustador The Happy Man, de Jonathan Lethem (um dos poucos autores consistentemente publicados por aqui, pela Companhia das Letras). As histórias de 2000 para cá estão entre as melhores, inclusive Lobsters, de Charles Stross, que depois se tornaria a primeira história do livro Accelerando (atualmente disponível para download grátis aqui), bem como o terrível e estranho Children of Time, de Stephen Baxter, de 2005, ambientado num futuro extremamente distante, e o irônico Eight Episodes, de Robert Reed, de 2006, que brinca com o poder da mídia e das séries de TV. É um panorama que dá muito o que pensar.

E, como não poderia deixar de ser, traz sempre uma pergunta à mente (pelo menos à minha mente): e se a Asimov tivesse continuado a ser publicada no Brasil?

Não me entendam mal: este definitivamente não é um post saudosista. Mas a pergunta de fato surge em momentos como esse, e não é só comigo: periodicamente perguntas sobre a Asimov brasileira despontam em listas de discussão e comunidades de Web, e esse tópico acaba sempre se tornando muito cansativo e repetitivo, pois sempre se repetem as mesmas coisas: a primeira delas é a pergunta óbvia mas necessária: por que ela acabou? E em seguida outras perguntas, como qual era a tiragem da revista? Ou: por que a Record ou outra editora não publica a Asimov hoje?

Até algum tempo atrás, eu fazia parte do grupo de ex-colaboradores da revista (traduzi contos e escrevi um artigo para ela) que procurava sempre responder essas perguntas para as pessoas. Hoje não acho mais que isso seja importante. Talvez algum dia alguém possa ou queira escrever uma biografia da Asimov brasileira, contando detalhes sobre como ela começou a ser publicada aqui, e tudo o que aconteceu até o seu fim. Eu não. O que não quer dizer que não possa fazer aqui uma pequena reflexão.

Nos anos 1960, uma peça fez muito sucesso na Broadway e também no Brasil: Os filhos de Kennedy, de Robert Patrick, que abordava a desilusão da juventude americana após a morte de John Kennedy e a Guerra do Vietnã. Alguns anos depois, o tradutor da peça, o cartunista e humorista Millôr Fernandes, não perdoaria a referência e escreveria ele próprio uma espécie de paródia dessa peça, intitulada Os Órfãos de Jânio - mostrando, por puro contraste entre as duas situações, que cada país tem a família que merece.

O que nos leva a uma pergunta fundamental dentro da esfera da ficção científica brasileira: somos filhos ou órfãos da Isaac Asimov Magazine brasileira? (esta pergunta se aplica também a fanzines ou qualquer outra publicação do gênero - o exemplo da Asimov é usado aqui por ser o mais emblemático). O que somos nós? Onde nos encaixamos, se é que existe encaixe ou nicho?

Esta é uma pergunta que não costuma ser muito feita por quem consome ou escreve ficção científica no Brasil, mas que talvez deva ser feita se quisermos nos conhecer um pouco mais e sair do que aparentemente é uma situação-ouroboros, ou seja, a cobra que morde o próprio rabo, gira, gira e não sai do lugar.

Quem somos nós? Somos nós mesmos ou o desejo de alguma outra coisa que nunca vem? Somos um fragmento do passado ou uma vontade de futuro?

Entre passado e futuro, outra pergunta se faz essencial: por que não somos o presente?

Estamos na Web. Temos espaço para todos. Segundo Richard Feynman em sua famosa palestra de 1959, there´s plenty of room at the bottom : há muito espaço no fundo... e em cima e no alto também. A Web não tem direção, é um rizoma, no melhor sentido deleuziano. O que nos levaria também a perguntar: somos deleuzianos, foucaltianos, carnavalescos ou somos apenas nós mesmos?

O que queremos?

Não posso falar por outros. Este blog é meu espaço, onde faço a minha reflexão, e convido os que me lêem a fazerem as suas próprias reflexões, seja aqui nos comentários, seja em seus próprios blogs ou sites. Mas o que posso fazer é falar por mim.

Eu sei o que eu quero. Quero ler e quero escrever. Quero publicar - mas já não sei se em papel. Não sei se esse espaço ainda existe ou se já nos foi fechado. Mas Deus fecha uma porta e abre uma janela, não é esse o ditado? (como diria Nelson Rodrigues, se não é devia ser). Toda vez que uma possibilidade se acaba, vamos para o próximo sonho.

E os meus sonhos irão se realizar. O bom da Internet é que ela permite essa abertura de janelas para o mundo. Hoje podemos ter muito mais revistas que tínhamos naquela época. Tivemos o Magazine de Ficção Científica da Editora Globo no começo da década de 1970 - e mais nada durante e muito tempo depois. Depois, a Asimov brasileira - e mais nada durante e muito tempo depois. Hoje, o que temos?

Na Web, temos a Black Rocket, o retorno do Somnium, agora definitivamente em formato digital no site do Clube de Leitores de Ficção Científica, a revista de fantasia Kaliopes estreando em breve... e vários sites e blogs que publicam periodicamente contos de FC.

Talvez seja preciso uma profissionalização dos editores e dos escritores? Talvez. Mas o mais importante num primeiro momento é - como sempre foi - a qualidade dos trabalhos. Primeiro é preciso escrever. E isso já tem muita gente boa fazendo. Neste momento existem pelo menos mais dois projetos relacionados à FC sendo preparados para lançamento no segundo semestre, Se esses projetos acontecerem, teremos ainda mais espaço, e mais possibilidades.

Mas que não fique nisso. Agora é a hora de todo mundo se juntar e fazer o que estiver a fim, do jeito que quiser - a Internet está aí para isso. O futuro já chegou, já passou e agora estamos vivendo o long now, o longo agora, um eterno presente - que não precisa virar um eterno retorno, uma eterna reclamação do que passou. Agora quer dizer agora, e existe muito espaço a ser ocupado. E vamos ocupá-los todos.

img024.jpgExactly two weeks ago, I queried Tachyon Publications (publisher of The New Weird) on review copies of some books, among them the forthcoming Steampunk (another enterprise of Ann and Jeff VanderMeer which I was itching to read). In 15 days the whole bunch arrived right at my doorstep: the aforementioned Steampunk (an advance reader copy), Thomas M. Disch´s The Word of God, The James Tiptree Award Anthology 3, Year´s Best Fantasy 7 (from the famous series edited by David G. Hartwell and Kathryn Cramer), Asimov´s Science Fiction Magazine 30th Anniversary Anthology, and Michael Swanwick´s new collection of stories The Dog Said Bow-Wow. Thanks to Jill Roberts, Managing Editor for Tachyon, for the swiftness, efficience and very good disposition (and sense of humor, as well).

Nos dias em que estive de cama, não li tanto quanto gostaria, mas consegui finalizar um livro que havia começado há tempos e deixei de lado por causa das traduções e resenhas. Estou me referindo a Accelerando, de Charles Stross. Depois de Neuromancer e Snow Crash, Accelerando é O livro para se ler se você quiser entender um pouco mais sobre as mudanças de paradigma pelas quais o mundo vem passando nas últimas décadas. Accelerando é um fix-up de nove novelas (concebidas desde o começo como romance mas escritas devagar, ao longo de cinco anos) que têm como foco a Singularidade, uma teoria matemática bastante complexa mas que, ao longo das últimas décadas encontrou ressonância no trabalho tanto de físicos como Frank J. Tipler (autor do polêmico mas excelente The Physics of Immortality) quanto o padre e paleontólogo francês Teilhard de Chardin, ambos defensores de uma teoria do Ponto Ômega, literalmente o fim da humanidade para abrir caminho a uma outra inteligência, algo muito explorado em histórias de pós-humanos na New Space Opera. Mas Charles Stross foi um dos que melhor exploraram, em tempos recentes, a complexidade de tamanha empreitada em termos de esforço humano - e impacto na psique e no comportamento da raça. Accelerando precisa ser publicado urgentemente no Brasil.

ontem, mal me recuperando de uma gripe e já começando a sofrer uma recaída (crises de tosse horríveis, dores fortes de garganta e de cabeça - se eu ficar alguns dias sem postar, já sabem; estou de cama), tive o enorme prazer de um rápido encontro ontem ao cair da tarde com Ivan Hegenberg e Nelson de Oliveira. O Ivan eu já conhecia do Orkut e do famoso encontro da FC brasileira na Livraria Cultura. O Nelson, autor de ótimos livros como Naquela Época Tínhamos um Gato e Subsolo Infinito (um excelente livro, meu favorito dele, que poderia ser considerado uma espécie de predecessor nacional do New Weird), eu já conhecia de um evento ou outro, mas nunca havíamos nos falado.

Batemos um gostoso papo regado a muito café (chope nem pensar com esta gripe do cacete) e idéias. Falamos sobre a situação da ficção científica aqui e lá fora, das editoras e da renitência que elas ainda têm para publicar FC explícita, e ficamos pensando em idéias de como tangenciar essa má vontade proverbial dos editores, já que o público existe (estamos confirmando isso dia a dia) e quer ler FC. Falamos de projetos que estamos começando a esboçar (e que por enquanto são apenas projetos, mas se tudo correr bem em breve vocês ouvirão notícias auspiciosas) e percebi, mais uma vez, que todos esses anos em que escrevi não foram em vão. Existe vida inteligente que percorre o underground e que faz pontes com o mainstream. Ten Thousand Maniacs, todos nós - mas como é bom, como é saudável ter uma obsessão literária.

Recebi do Ivan seu primeiro romance, Será, e do Nelson a deliciosa coletânea infanto-juvenil Histórias de Imigrantes, editada por ele (e que já comecei a ler ontem) e Maya´ya (o eXtranho), de S.C.Balder (autora brasileira), o primeiro de uma trilogia de FC juvenil muito bem editada, também capitaneada pelo Nelson. Olhem como tem coisa aí. Ainda que não tivéssemos sonhos, há muita coisa acontecendo ao redor, e, como diz a velha canção, é preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte. Vamos à luta, moçada!!

NoPresent.jpgI´ve just got it: No Present Like Time, the second book in the Castle Trilogy (the first one, The Year of Our War, arrived a week ago - check here). Steph Swainston herself sent me one copy - an autographed one, by the way. Thanks a lot, Steph!

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Acabou de chegar: No Present Like Time, o segundo livro da Trilogia do Castelo (o primeiro, The Year of Our War, chegou há uma semana - veja aqui). A própria Steph Swainston me enviou um exemplar, e autografado. Obrigado, Steph!

torrenegra2.jpgAcabaram de sair novas traduções deste que vos digita: a primeira está na edição número 2 da minissérie de quadrinhos A Torre Negra, de Robin Furth e Stephen King: é um conto sobre a infância do Pistoleiro. É a minha estréia na tradução de quadrinhos, pelas mãos da Mythos/Panini. Aguardem em breve mais novidades: a próxima será o encadernado comemorativo de 70 anos da DC no Brasil do Lanterna Verde. Agradeço ao Fabiano (Oggh) Denardin o convite e a oportunidade de entrar uma área em que sempre desejei trabalhar.

A segunda não é exatamente uma nova tradução, mas uma revisão, feita por mim mesmo, de minha tradução de Reconhecimento de Padrões, para uma nova edição da Aleph. Essa edição foi inteiramente alterada, inclusive com direito a capa nova. Não deixem de conferir.

E, ainda este mês, a minha tradução de Neuromancer para a comemoração dos 25 anos da obra-prima de William Gibson. Este ano vem muita coisa boa por aí, muitas traduções de livros fundamentais que me deram muita alegria e, espero, dêem alegria para vocês também. Porque este ano, vocês já sabem, é o ano da virada.

Você já conhece o TaikoDom, prezado leitor? Não? Pois então vá lá, no site oficial do projeto, e conheça: é um universo ficcional desenvolvido pela empresa catarinense Hoplon Infotainment e criado inteiramente pelo escritor de ficção científica Gerson Lodi-Ribeiro.

O TaikoDom se anuncia como um game -- mais precisamente, um MSG, Massive Social Game, como seus desenvolvedores anunciam no site: "os MSGs mesclam o melhor dos metaversos (mundos virtuais) com o melhor dos games massivos (MMOGs) para oferecer desafio, entretenimento e sociabilização além dos games atuais."

O mais bacana foi o fato de terem convidado o Gerson, escritor conhecido no meio, publicado no Brasil e em Portugal, autor de diversos livros como O Vampiro de Nova Holanda e Outros Brasis. Um dos nomes mais consagrados da ficção científica brasileira, que além de criar esse novo universo ficcional, está terminando de escrever uma trilogia de livros ambientados no universo do game: Sob os Véus de Tau-Ceti, Confronto com Quimera e Guia Tertius do Espaço Humano, a serem lançados até o final do ano.

Enquanto isso, ninguém precisa ficar com água na boca: a Hoplon disponibilizou para download grátis um pacote com várias pequenas narrativas de Gerson, segundo a empresa "uma pequena amostra do vasto acervo já escrito". Baixem aqui e divirtam-se!

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