Ele foi um dos finalistas ao Prêmio Açorianos de Melhor Romance do Ano em 2008 com seu livro de estréia, Areia nos Dentes. É um dos editores da gaúcha Não Editora, que em um ano de vida ganhou o Prêmio Açorianos e, com seus romances e as coletâneas de literatura fantástica Ficção de Polpa, tem tudo para se firmar em 2009 como uma das melhores editoras brasileiras quando o assunto é a nova literatura que se faz aqui hoje. O Pós-Estranho saúda o ano que se inicia apresentando uma entrevista inédita e exclusiva com Antônio Xerxenesky.
Pós-Estranho: Primeiro, as perguntas de lei: como foi que você se interessou pela escrita? O que é que te motivou? E quando você começou a escrever?
Antônio Xerxenesky: Pois, como a maioria de escritores, me interessei pela escrita porque lia muito. A pergunta que deve vir antes é: por que eu lia muito? Bom, minha mãe é formada em crítica literária, e nossa casa sempre portou uma grande biblioteca. Pode-se dizer que sou um cara de sorte por isso. Comecei a escrever com 16 anos, embora só tenha escrito com um mínimo de seriedade a partir dos 18. Fui motivado por duas coisas: o livro Dentes Guardados, do Daniel Galera, que me provou que um garoto jovem podia escrever uma literatura interessante, e o livro Bestiário, de Julio Cortázar, que foi uma verdadeira aula de contos. O engraçado é que hoje em dia, por mais que eu continue gostando desses escritores, os dois livros que mencionei não me dizem muito.
PE: Quais são suas influências literárias? O que é que você gosta de ler e o que é que você sente que te inspira? Quando você escreve, pensa em que escritor ou escritores, se é que pensa?
AX: Claro que penso em outros autores quando escrevo. Não sofro a tal da angústia da influência, nem acredito em criação pura. Uma produção literária carrega dentro de si todo um mosaico de outros textos digeridos, carrega todas as minhas leituras. Sendo assim, admito sem medo que sou fã dos escritores ditos "pós-modernistas" norte-americanos e ingleses, como Thomas Pynchon, Ian McEwan e Cormac McCarthy. Eles foram as principais influências do meu romance Areia nos Dentes. Entretanto, recentemente tenho lido muito Enrique Vila-Matas, Roberto Bolaño, Alan Pauls, e acho que meu próximo livro refletirá essa "mudança de gosto".
Não listei clássicos, mas sou entusiasta dos mais óbvios: Moby Dick, Dom Quixote, Ulisses, Memórias Póstumas de Brás Cubas...
PE: O personagem do conto On/Off (FdP 2) assume que sempre teve "uma queda por ficção científica e bula de remédio". E você? Antônio Xerxenesky tem essa queda? (tanto pela FC quanto por bula de remédio)? O que você leu ou lê em termos de FC?
AX: Embora o conto On/Off tenha sido publicado só agora, escrevi o texto há alguns anos atrás. Quando escrevi, lia muito mais ficção-científica do que leio agora. Era obcecado especialmente por Philip K. Dick, devo ter lido mais de metade de sua obra. Também era apaixonado pela série Rama, do Arthur C. Clarke, pelos contos do Ray Bradbury e por alguns livros do Gibson, como Idoru. Ainda tenho um grande carinho por esses autores, mas confesso que estou um tanto defasado em termos de produção contemporânea de sci-fi (embora tenha coletado várias dicas com o pessoal do Invisibilidades para reparar esse problema). Não obstante, o tema, a ambientação, as idéias da ficção-científica sempre me atraíram e continuarão me atraindo.
Agora, se formos pensar em ficção-científica em termos mais abrangentes, para além dos clássicos, continuo lendo muita coisa interessante. O já-citado Pynchon, por exemplo, e um livrinho maravilhoso do David Mitchell chamado Cloud Atlas (que tem dois segmentos que podem ser chamados de ficção-científica brincando). Se fosse para dizer "que tipo de sci-fi eu gosto hoje", diria que gosto daquele que transcende os conceitos do próprio gênero.
E quanto às bulas de remédio... bom... o que eu posso dizer? Já tive meu passado hipocondríaco...
PE: Areia nos Dentes: como surgiu esse livro?
AX: Essas perguntas de "origem" sempre me detonam. Como surgiu? O que leva alguém a escrever um "faroeste com zumbis"? Não sei. O western sempre foi uma grande paixão minha. Sergio Leone é meu diretor favorito desde que me conheço como cinéfilo. O desejo de escrever algo do gênero sempre me interessou, mas somente depois de ler Cormac McCarthy que vi que era possível uma literatura que rompesse a obviedade e as limitações de trabalhar-se com o gênero faroeste. A mescla com o horror (no caso, os filmes de zumbis) também veio por meio dessas paixões naturais.
Mas isso é pensar apenas nos temas. A vontade de escrever Areia nos Dentes veio de outras fontes. Eu queria trabalhar, em especial, com a idéia de "necessidade de matar o pai" da qual Freud tanto fala. Somei isso à noção central da pós-modernidade de mesclar alta e baixa cultura: ou seja, tentei colocar Freud no Velho Oeste, um Oeste construído, artificial e mitificado. E mais, experimentei com o desejo de romper com um realismo estéril: usei um narrador mentiroso, nada confiável, que pode ficar embriagado, que pode esquecer detalhes, que pode fingir. Um verdadeiro manipulador. Lição que tirei de Pynchon.
Seria minha história um faroeste com zumbis? Duvido muito. Claro que tem esses elementos aos montes, claro que trabalha com toda essa carga cultural que me inspirou desde a adolescência, mas a verdade é que uso o termo "faroeste com zumbis" mais como método de despertar o interesse do leitor. Sempre acho que escrevi um romance sobre o ato de escrever, sobre como a literatura não pode corrigir ou alterar a realidade, mas como ela é uma boa maneira de aliviar o seu peso. Se não conseguimos matar o pai (metaforicamente) na vida real, devemos tentar por meio da arte. O narrador pode fracassar, mas escrever é esse tentar constante. E os leitores mais atentos perceberão que até a dedicatória antes do livro ajuda a compor essa visão da escrita.
PE: Você se considera um escritor pop?
AX: O que é um escritor pop? Na minha cabeça, penso na prosa de Nick Hornby, autor de "Alta Fidelidade", ou, nacionalmente, em Clarah Averbuck. Não sei, acho que meu estilo é bem diferente. Admito que um "faroeste com zumbis", com todo seu exagero, sua mitificação, seja uma premissa bem digna de Quentin Tarantino ou Robert Rodriguez. Mas, ao mesmo tempo, tento visitar "lugares discursivos" que eles não freqüentam. A verdade é que não sei responder essa pergunta. Pop é popular. Eu, pessoalmente, não acho que meu livro agrade a todos, ou a um grande público. Quem me dera agradasse, estaria com a carteira cheia de grana. Porém, como não estou nessa para ganhar dinheiro ou fazer carreira, me dou o luxo de ser um tanto esquisito e complicado. Acho (talvez seja otimista demais) que meu livro tem vários níveis de leitura, e múltiplas possibilidades de interpretação. Se lido simplesmente como um pastiche de western, talvez sim, seja um livro pop.
PE: Qual é o teu próximo projeto? Ou projetos?
AX: Já reescrevi cinco vezes um primeiro capítulo do meu novo romance. Estou com uma caderneta lotada de idéias que não vão a lugar nenhum e com a cabeça mais cheia ainda de planos. Alguma hora desencalho, e então sai meu novo romance. A única coisa que é certa é que o próximo livro será uma narrativa longa. E acho que o enredo vai se passar no futuro, talvez em 2022. Como eu disse antes, as referências apontarão mais para os novos escritores latino-americanos, como Bolaño, Pauls e Fresán. Enquanto isso, os leitores terão acesso ao meu conto que será publicado no Ficção de Polpa 3, um texto do gênero fantástico que trabalha com a figura do duplo, bem inspirado em William Wilson do Poe.


