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Antônio_Xerxenesky

Ele foi um dos finalistas ao Prêmio Açorianos de Melhor Romance do Ano em 2008 com seu livro de estréia, Areia nos Dentes. É um dos editores da gaúcha Não Editora, que em um ano de vida ganhou o Prêmio Açorianos e, com seus romances e as coletâneas de literatura fantástica Ficção de Polpa, tem tudo para se firmar em 2009 como uma das melhores editoras brasileiras quando o assunto é a nova literatura que se faz aqui hoje. O Pós-Estranho saúda o ano que se inicia apresentando uma entrevista inédita e exclusiva com Antônio Xerxenesky.


Pós-Estranho: Primeiro, as perguntas de lei: como foi que você se interessou pela escrita? O que é que te motivou? E quando você começou a escrever?

Antônio Xerxenesky: Pois, como a maioria de escritores, me interessei pela escrita porque lia muito. A pergunta que deve vir antes é: por que eu lia muito? Bom, minha mãe é formada em crítica literária, e nossa casa sempre portou uma grande biblioteca. Pode-se dizer que sou um cara de sorte por isso. Comecei a escrever com 16 anos, embora só tenha escrito com um mínimo de seriedade a partir dos 18. Fui motivado por duas coisas: o livro Dentes Guardados, do Daniel Galera, que me provou que um garoto jovem podia escrever uma literatura interessante, e o livro Bestiário, de Julio Cortázar, que foi uma verdadeira aula de contos. O engraçado é que hoje em dia, por mais que eu continue gostando desses escritores, os dois livros que mencionei não me dizem muito.

PE: Quais são suas influências literárias? O que é que você gosta de ler e o que é que você sente que te inspira? Quando você escreve, pensa em que escritor ou escritores, se é que pensa?

AX: Claro que penso em outros autores quando escrevo. Não sofro a tal da angústia da influência, nem acredito em criação pura. Uma produção literária carrega dentro de si todo um mosaico de outros textos digeridos, carrega todas as minhas leituras. Sendo assim, admito sem medo que sou fã dos escritores ditos "pós-modernistas" norte-americanos e ingleses, como Thomas Pynchon, Ian McEwan e Cormac McCarthy. Eles foram as principais influências do meu romance Areia nos Dentes. Entretanto, recentemente tenho lido muito Enrique Vila-Matas, Roberto Bolaño, Alan Pauls, e acho que meu próximo livro refletirá essa "mudança de gosto".
Não listei clássicos, mas sou entusiasta dos mais óbvios: Moby Dick, Dom Quixote, Ulisses, Memórias Póstumas de Brás Cubas...

PE: O personagem do conto On/Off (FdP 2) assume que sempre teve "uma queda por ficção científica e bula de remédio". E você? Antônio Xerxenesky tem essa queda? (tanto pela FC quanto por bula de remédio)? O que você leu ou lê em termos de FC?

AX: Embora o conto On/Off tenha sido publicado só agora, escrevi o texto há alguns anos atrás. Quando escrevi, lia muito mais ficção-científica do que leio agora. Era obcecado especialmente por Philip K. Dick, devo ter lido mais de metade de sua obra. Também era apaixonado pela série Rama, do Arthur C. Clarke, pelos contos do Ray Bradbury e por alguns livros do Gibson, como Idoru. Ainda tenho um grande carinho por esses autores, mas confesso que estou um tanto defasado em termos de produção contemporânea de sci-fi (embora tenha coletado várias dicas com o pessoal do Invisibilidades para reparar esse problema). Não obstante, o tema, a ambientação, as idéias da ficção-científica sempre me atraíram e continuarão me atraindo.
Agora, se formos pensar em ficção-científica em termos mais abrangentes, para além dos clássicos, continuo lendo muita coisa interessante. O já-citado Pynchon, por exemplo, e um livrinho maravilhoso do David Mitchell chamado Cloud Atlas (que tem dois segmentos que podem ser chamados de ficção-científica brincando). Se fosse para dizer "que tipo de sci-fi eu gosto hoje", diria que gosto daquele que transcende os conceitos do próprio gênero.
E quanto às bulas de remédio... bom... o que eu posso dizer? Já tive meu passado hipocondríaco...


PE: Areia nos Dentes: como surgiu esse livro?

AX: Essas perguntas de "origem" sempre me detonam. Como surgiu? O que leva alguém a escrever um "faroeste com zumbis"? Não sei. O western sempre foi uma grande paixão minha. Sergio Leone é meu diretor favorito desde que me conheço como cinéfilo. O desejo de escrever algo do gênero sempre me interessou, mas somente depois de ler Cormac McCarthy que vi que era possível uma literatura que rompesse a obviedade e as limitações de trabalhar-se com o gênero faroeste. A mescla com o horror (no caso, os filmes de zumbis) também veio por meio dessas paixões naturais.
Mas isso é pensar apenas nos temas. A vontade de escrever Areia nos Dentes veio de outras fontes. Eu queria trabalhar, em especial, com a idéia de "necessidade de matar o pai" da qual Freud tanto fala. Somei isso à noção central da pós-modernidade de mesclar alta e baixa cultura: ou seja, tentei colocar Freud no Velho Oeste, um Oeste construído, artificial e mitificado. E mais, experimentei com o desejo de romper com um realismo estéril: usei um narrador mentiroso, nada confiável, que pode ficar embriagado, que pode esquecer detalhes, que pode fingir. Um verdadeiro manipulador. Lição que tirei de Pynchon.
Seria minha história um faroeste com zumbis? Duvido muito. Claro que tem esses elementos aos montes, claro que trabalha com toda essa carga cultural que me inspirou desde a adolescência, mas a verdade é que uso o termo "faroeste com zumbis" mais como método de despertar o interesse do leitor. Sempre acho que escrevi um romance sobre o ato de escrever, sobre como a literatura não pode corrigir ou alterar a realidade, mas como ela é uma boa maneira de aliviar o seu peso. Se não conseguimos matar o pai (metaforicamente) na vida real, devemos tentar por meio da arte. O narrador pode fracassar, mas escrever é esse tentar constante. E os leitores mais atentos perceberão que até a dedicatória antes do livro ajuda a compor essa visão da escrita.

PE: Você se considera um escritor pop?

AX: O que é um escritor pop? Na minha cabeça, penso na prosa de Nick Hornby, autor de "Alta Fidelidade", ou, nacionalmente, em Clarah Averbuck. Não sei, acho que meu estilo é bem diferente. Admito que um "faroeste com zumbis", com todo seu exagero, sua mitificação, seja uma premissa bem digna de Quentin Tarantino ou Robert Rodriguez. Mas, ao mesmo tempo, tento visitar "lugares discursivos" que eles não freqüentam. A verdade é que não sei responder essa pergunta. Pop é popular. Eu, pessoalmente, não acho que meu livro agrade a todos, ou a um grande público. Quem me dera agradasse, estaria com a carteira cheia de grana. Porém, como não estou nessa para ganhar dinheiro ou fazer carreira, me dou o luxo de ser um tanto esquisito e complicado. Acho (talvez seja otimista demais) que meu livro tem vários níveis de leitura, e múltiplas possibilidades de interpretação. Se lido simplesmente como um pastiche de western, talvez sim, seja um livro pop.

PE: Qual é o teu próximo projeto? Ou projetos?

AX: Já reescrevi cinco vezes um primeiro capítulo do meu novo romance. Estou com uma caderneta lotada de idéias que não vão a lugar nenhum e com a cabeça mais cheia ainda de planos. Alguma hora desencalho, e então sai meu novo romance. A única coisa que é certa é que o próximo livro será uma narrativa longa. E acho que o enredo vai se passar no futuro, talvez em 2022. Como eu disse antes, as referências apontarão mais para os novos escritores latino-americanos, como Bolaño, Pauls e Fresán. Enquanto isso, os leitores terão acesso ao meu conto que será publicado no Ficção de Polpa 3, um texto do gênero fantástico que trabalha com a figura do duplo, bem inspirado em William Wilson do Poe.

SamirMachadodeMachado

Ele é um escritor gaúcho que, juntamente com os amigos e colegas de profissão Antonio Xerxenesky, Luciana Thomé, Guilherme Smee, Rafael Spinelli e Rodrigo Rosp, criou uma das editoras mais bacanas e ousadas que o Brasil já viu nos últimos anos: a Não Editora, cujo objetivo é dizer 'não' ao que é convencional no mercado editorial.

E eles conseguiram: em um ano, publicaram nove livros, entre poemas, contos, weird westerns e duas coletâneas assumidas de literatura fantásticas (incluindo ficção científica e horror). Três de seus livros concorreram ao Açorianos, o maior prêmio literário do Rio Grande do Sul e um dos maiores do Brasil. Os livros não ganharam (deveriam), mas a editora ganhou o prêmio de Melhor Editora do Ano. Mais do que merecido.

A entrevista que vocês vão ler a seguir (e que se concentra nas duas coletâneas fantásticas da Não, os dois volumes da Ficção de Polpa) foi realizada por e-mail alguns dias antes da divulgação dos ganhadores do Prêmio Açorianos - o que não nos impediu, claro, de enviar às pressas um e-mail ao Samir para que ele pudesse falar um pouco sobre a importância do prêmio para a Não Editora. Com vocês, Samir Machado de Machado:


Pós-Estranho: Como surgiu a idéia do Ficção de Polpa? Em que ano a primeira edição foi publicada?

Samir: A idéia surgiu, se é para ser bem específico, quando eu estava folheando Superman: The Complete History, de Les Daniels, e lendo uma parte que falava da importância das revistas pulps para o surgimento do primeiro super-herói e, por consequencia, da industria de quadrinhos norte-americana. Uma rápida pesquisa e não apenas os quadrinhos, mas inumeros autores que surgiram a partir dessas revistas - Lovecraft para inaugurar o modo atual de se ver o horror, Bradbury, Asimov e Clarke para a ficção científica, e por consequencia, toda a influencia cultural (o cinema, só para começar) que um meio tão desacreditado na época teve, e a frustração de ver que não chegou a ocorrer nada semelhante no Brasil.

Isso tudo serviu para me dar o tema.

Tendo recém saído de uma oficina de criação literária, ministrada pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, e tendo participado de uma coletanea com meus colegas de oficina - uma coletanea que, por sua própria natureza de livro reunindo autores completamente desconhecidos, provavelmente só vendeu para familiares e amigos - eu senti que, se quisessemos investir na idéia de nos tornarmos escritores, era preciso encontrar um modo de driblar o desinteresse natural que se tem por autores novos, e um modo de fazer isso seria colocar o tema, a história, acima do autor. Um dos motivos pelo qual acredito que coletaneas de contos, sejam de um ou de vários autores, e que não tenham um eixo temático fixo, não tem razão de existir, a não ser que se seja um autor de renome.

Assim surgiu a idéia de criar a coletanea de Ficção de Polpa, em 2006, e planejei 1 ano de prazo para juntar os textos, conseguir o ilustrador, juntar a grana pra bancar o projeto e reunir as pessoas que seriam necessarias pra fazer a coisa sair do papel.

PE: Pelo prefácio, o que dá a entender é que você e o pessoal da coletânea pouco ou nada conhecia da FC que se fazia no Brasil, salvo pelo livro do Roberto Causo. É isso mesmo? O que você e os demais escritores conheciam do que já havia sido feito de FC (e horror, fantasia, etc) no Brasil até então?

Samir: Praticamente nada. Mesmo o livro do Causo, acabei entrando em contato com o livro do modo mais aleatório possível, pesquisando no site da Livraria Cultura por "ficção científica brasileira", e quando fiz isso o livro já tava praticamente pronto. Até hoje, se alguem pesquisar no google pelo tópico, a primeira coisa que vêm é uma entrada da wikipedia dizendo "a ficção científica no Brasil é um segmento literário que nunca demonstrou popularidade ou constância". Claro, eu tinha noção de que alguma coisa já devia ter sido feita, mas não conseguia encontrar referencias. Só fui descobrir a existência do CLFC, por exemplo, depois do livro já lançado, que foi o momento do choque, de saber que existia um grupo grande de pessoas organizadas em torno do tema. Se existe algo assim semelhante no Rio Grando de Sul, não sei ainda.

A maioria dos autores do primeiro volume não eram acostumados ao gênero, e acredito que esse foi o motivo de quase todos partirem pro lado do horror num primeiro momento e, na prática, so dois encararam de frente escrever um texto de FC, eu e o Rafael Jacobsen. O que, em nenhum momento, vi como um impeditivo, na verdade. Fazia parte da proposta forçar esses escritores a se aventurar num genero que não estavam acostumados.


PE: Como você avalia o FP1 e o FP2? qual era o objetivo de vocês ao lançar esses volumes? Ele foi atingido?

Samir: Meu objetivo inicial era, ingenuamente, acender uma lâmpada num ambiente que eu pensava estar escuro, pra descobrir que havia mais gente ali há bem mais tempo. Eu tinha dois objetivos claros: publicar histórias de generos que eu gosto, e publicar literatura que pudesse ser chamada de entretenimento sem o sentido pejorativo que a idéia de entretenimento geralmente é vista. Também imaginava que, se o projeto tivesse boa visibilidade, ajudaria a divulgar os autores envolvidos. Meu terceiro objetivo, que talvez fosse, de certo modo, o mais importante, era não ter prejuízo. Me impus que só lançaria o volume seguinte de um ficção de polpa se o anterior cobrisse seus custos de produção. O que acabou ocorrendo, em ambos os volumes, em menos de seis meses após o lançamento, garantindo a continuidade do projeto.


PE: Como surgiu a Não Editora? Vocês tiveram algum incentivo do governo do estado ou do município ou algum patrocínio particular?

Samir: A Não Editora surgiu de um modo meio "Capitão Planeta": a certo momento, logo após o lançamento do primeiro volume, percebemos que com a união das habilidades de cada um tinhamos todos os meios para criarmos uma pequena editora. O Guilherme Smee eu conheci na faculdade, a Luciana Thomé foi minha colega na oficina do Assis Brasil. O Antônio Xerxenesky, o Rodrigo Rosp e o Rafael Spinelli, foram meus colegas num seminário de criação literária ministrado pela Léa Masina.

E não, não contamos com nenhum patrocínio, nem do governo do estado, nem do município, nem da fruteira do bairro. Na verdade, não fomos atrás de nenhum patrocínio em particular.


PE: Qual é a sensação de ter vários livros concorrendo ao Prêmio Açorianos, para uma editora com tão pouco tempo de vida?

Samir: Muito boa, claro. As indicações ao Prêmio Açorianos são um sinal de reconhecimento do que fizemos nesse primeiro ano de atividade, e mais do que isso, um reconhecimento do trabalho dos autores indicados, o Antonio na categoria romance, a Carol nos contos, e o Diego na poesia.

PE: Estou sabendo que vocês já estão abarrotados de projetos e livros para publicar em 2009. Você pode falar um pouco do que virá por aí no ano que vem? E para 2010?

Samir: Nós decidimos que, por causa da nossa estrutura pequena, pelo espaço e pela visibilidade que queremos dar a cada livro, seria precipitado lançar mais do que um livro a cada três meses, então restringimos nossos projetos em 2009 a um número limitado.

O que posso falar com total certeza é que o terceiro volume de Ficção de Polpa vai sair entre maio e junho.

(após a premiação, um pequeno pequeno depoimento sobre a importância do prêmio para a editora):

Samir: Vejo o prêmio como um reconhecimento ao trabalho que desenvolvemos ao longo do ano, ao projeto de lançarmos autores novos (que inclui a nos mesmos) fazendo um trabalho profissional e de qualidade em termos editoriais, condizente com a qualidade literária dos livros. Em termos de repercussão, só o tempo vai dizer, mas espero também que isso se reflita em dar maior projeção aos livros da editora, e que ajude a abrir espaço nas livrarias para nossos livros. A isso, soma-se outros fatores: Pó de parede, de Carol Bensimon, que lançamos em junho, foi listado como o 7º melhor livro nacional pelo jornal Zero Hora.

Ele conseguiu o que só Henrique V. Flory havia conseguido: publicar dois livros seguidos em dois anos. (E, se vocês, meus leitores, não sabem quem é Henrique V. Flory, não os culpo, pois ele parou de escrever FC e hoje escreve livros de Administração, mas mesmo assim vocês perderam uma parte importante da história da FCB dos anos 1980/1990).

Estamos falando de Tibor Moricz, um dos autores mais comentados dos últimos tempos na comunidade de ficção científica brasileira. Depois de lançar Síndrome de Cérbero no começo de 2007, Tibor encerra 2008 com fome, ou melhor, com FOME, seu livro mais recente. Abaixo, uma entrevista inédita que Tibor concedeu exclusivamente para este blog, por e-mail.



Pós-Estranho - Para os leitores que não o conhecem: quem é Tibor Moricz? Fale um pouco de você.

Tibor Moricz - Nasci em São Paulo e morei aqui até os 14 anos, quando minha família se mudou para Araçatuba. Ficamos por lá até que eu fizesse 20 anos, viemos então para o Litoral de São Paulo, onde meus avós tinham uma pensão. Até hoje alterno momentos em Sampa e no Litoral. Mas minha residência fixa, hoje, é em Solemar na Praia Grande.
Sou um otimista por definição. Acredito que coisas boas virão (espero sempre que venham, espero... espe...ro...zzzzz) (risos).
Sou confiante, resoluto e firme nas minhas convicções. Sou um cara em constante mutação. Fica difícil ter um registro de mim mesmo nessas circunstâncias. Me adapto ao ambiente, sou camaleônico.


PE - Qual é o seu método? Você tem alguma disciplina para escrever?

TM - Sou completamente indisciplinado.
Escrevo quando me dá na telha e geralmente sem nenhuma idéia pré-concebida, nem argumento, nem roteiro, nem porra nenhuma. Simplesmente sento e começo a bater no teclado. Romances exigem um pouco mais de disciplina e para eles dedico algum tempo construindo um esqueleto que servirá sempre para firmar o capítulo seguinte (jamais a história toda).


PE - O que você acha da FC aqui e lá fora?

TM - Lá fora tenho muito pouco para achar. Meu inglês é bom para navegar pela Internet sem tropeços, mas fraco para a literatura. Além dos clássicos não conheço ninguém, fora o pouco que é traduzido aqui no país.
Me sirvo então do cardápio variado que a FC brasileira me oferece. Temos excelentes autores e um mercado que vai se abrindo ao gênero gradativamente.
Cada vez mais títulos vão sendo despejados, não só de FC, mas também de Fantasia. Tem muita coisa ruim, mas também muita coisa boa. Destaque para a Christie com seu excelente Fábulas do tempo e da eternidade.


PE - Quais são seus autores preferidos (tanto de FC quanto de qualquer outro gênero)?

TM - Não tenho autores preferidos. O melhor é aquele que está na leitura da vez. Sou um leitor atípico, não me prendo a autores, nem gêneros. Não conseguiria elaborar uma lista de preferências.

PE - Que autores influenciam sua escrita?

TM - Se sofro influências, elas vem de uma sopa primitiva, formada pela leitura de vários autores desde minha adolescência. Não consigo definir isso, não conseguem definir isso.


PE - Quais são seus próximos projetos literários?

TM - Sou um escritor indisciplinado, um leitor atípico e um péssimo projetista. Não faço projetos. Tenho um romance em avaliação numa importante editora em regime de exclusividade e outra obra em andamento; um romance que mistura discos voadores e aparições religiosas. Além disso, apenas um quadro negro, alguns gizes e muita disposição. Mas cada coisa a seu tempo. Não projeto nada para o futuro. Cada obra, seja conto ou romance, nasce ao sabor do acaso.


PE - Você tem fome de quê?

TM - De ver a literatura de gênero receber no país a importância que deveria ter. De encontrar colunas nas mídias mais importantes, discutindo o gênero. De ver a boa literatura vencer e a má definhar, vencida pelas engrenagens de mercado. De ver excelentes autores como você, Fábio, e outros, publicados e fazendo o sucesso que tanto merecem.

Além de Síndrome de Cérbero e Fome, Tibor terá um conto inédito publicado no número três da revista TERRA INCOGNITA, que estará online ainda esta semana.

E não sou eu quem está afirmando (embora concorde mil por cento): é o pessoal do Conselho Steampunk - Loja São Paulo, que acaba de colocar online uma entrevista com o autor do genial A Mão que Cria. Altamente recomendados - o site, a entrevista e o livro do Octavio, claro.

Eu não disse no meu último post sobre leituras, mas o caso é que ando me apaixonando pela literatura infanto-juvenil - ou o que dizem que é literatura infanto-juvenil, ou YA (young adult), pelo menos nos países de língua inglesa. E que eu não acho que seja tão infanto assim - ou, melhor, que já deixou de ser faz tempo.

Não vou escrever nenhum ensaio aqui agora, mas o caso é que eu recentemente publiquei no Fantasy Book Critic (e em breve também no Post-Weird) uma resenha do EXCELENTE e IMPERDÍVEL livro The Knife of Never Letting Go, do inglês Patrick Ness.

Tendo acabado de ler também outra pequena pérola (ok, eu sei que é clichê, mas o que é que eu possa fazer se é verdade?), The Graveyard Book, da dupla Neil Gaiman/Dave McKean, e também lendo agora Un Lun Dun, o infanto-juvenil do mestre da New Weird, China Miéville (quem ainda não leu a GRANDE entrevista que meu amigo e sócio Jacques Barcia fez com ele, faça o favor de clicar aqui, ora pipocas).

E ainda tenho mais um livro na fila (End of the Century, de Chris Roberson, que tem um conto escalado para uma edição futura da TERRA INCOGNITA). Enfim, é livro que não acaba mais.

Mas o que todos esses livros têm em comum? Todos (com talvez a exceção do livro de Neil Gaiman) apresentam adolescentes que fogem aos estereótipos nos quais os adultos (ou seja, nós, estes ex-adolescentes que vêem essa fase da vida como se pertencesse a outra era geológica, e não há uma ou duas décadas, tão pouco tempo na vida do nosso universo) os tentam enquadrar. Os livros são pé-na-cara, pé-em-deus-e-fé-na-taba, com histórias sobre ritos de passagem, onde os protagonistas sofrem, amam, têm desilusões, mas conseguem se virar no mundo sem os adultos (bom, talvez com a little help de vez em quando), e saem de suas experiências com outro olhar sobre o mundo, outra visão, outro Weltanschaaung, como se diz em filosofia e psicanálise.

Aguardem em breve resenhas desses livros e mais considerações sobre essa nova literatura para jovens que serve, hoje mais do que nunca, para adultos.

UPDATE: A resenha de The Graveyard Book que fiz para o Fantasy Book Critic acabou de sair, aqui.

Foi em 1999. Pouco antes de morrer, o escritor José J. Veiga, autor de clássicos da literatura fantástica brasileira como A Hora dos Ruminantes e Os Cavalinhos de Platiplanto, concedeu uma entrevista a mim e a meu amigo Octavio Aragão.

Depois, ficaríamos sabendo que essa foi a penúltima entrevista dada pelo mestre. O que nos deixou tristes por um lado, mas por outro felizes por termos conseguido falar com ele (que nos recebeu tão bem e com tanto bom-humor e cordialidade, apesar de já bastante debilitado pelo câncer no pâncreas que o mataria) e conhecer melhor o mestre, saber um pouco mais sobre seu processo de criação e suas influências literárias.

A entrevista foi publicada originalmente no falecido fanzine Megalon, e mais tarde no site da Intempol. Octavio acaba de republicar a entrevista na íntegra aqui. Fundamental para leitores e escritores.


Recebi do Tibor Moricz uma cópia de seu livro FOME, que a Tarja Editorial lançará no começo de dezembro. Eric Novello fez uma boa resenha do livro aqui no Aguarrás.

Aguardem em breve aqui uma resenha não só do FOME como também de Síndrome de Cérbero, e uma entrevista com Tibor - que terá um conto publicado na próxima edição da TERRA INCOGNITA.

Adriana Amaral canta a pedra: tem entrevista recente (datada de 1o de outubro, but this escriba só foi conferir agora, so sorry) do mestre cyberpunk William Gibson no Void Manufacturing.

Gibson fala sobre YouTube, livros, arte moderna, orixás afrocubanos, eleições americanas e tudo de comum e de bizarro que nos cerca. Enfim, é Gibson fazendo o que Gibson faz de melhor: ponderando e recombinando tendências passadas e presentes (sem deixar de pensar no futuro).

Meu sócio, parceiro de crime, amigo-quase-irmão Jacques Barcia lavrou um tento, como se dizia em tempos steampunk de antanho: conseguiu entrevistar o escorregadio China Miéville, autor de um dos top ten de FC e Fantasia de todos os tempos: Perdido Street Station.

A entrevista pode ser lida aqui, no Post-Weird Thoughts. Em inglês.

Acabei de ver a chamada: Edney Silvestre se rendeu ao charme do escritor britânico de Fantasia Neil Gaiman (criador da premiada série Sandman e autor, entre outros, dos livros Deuses Americanos e Os Filhos de Anansi), e o entrevistou em Paraty, durante a Feira Literária Internacional.

A entrevista irá ao ar hoje, às 21:30, na Globonews (Canal 40 da NET), no programa Espaço Aberto Literatura. Vale a pena!

(e quem quiser ver uma EXCELENTE leitura de um conto inédito de Gaiman pelo próprio pode clicar aqui.)

Quem avisa é o Fernando Trevisan:


Caros,

É com prazer que anuncio que o Somnium Nº 101 - e-zine do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC) - está on-line para download em:

http://is.gd/OIe
ou, se preferirem o endereço "longo":
http://clfcbr.org//index.php?option=com_content&task=view&id=17&Itemid=41

Nesta edição, temos quase 100 páginas de contos, resenhas, entrevistas, um dossiê especial sobre os rumos da FCB, entre outros.

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Também colocamos para download o nº 1 da revista Kaliopes, editada pelo Jacques Barcia:

http://is.gd/OMT
ou:
http://clfcbr.org/index.php?option=com_content&task=view&id=83&Itemid=1

com textos de Fábio Fernandes, Ana Cristina Rodrigues, Hal Duncan, Antonio Luiz C. M. Costa e Tibor Moricz, além de entrevista com a Cris Lasaitis.

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Quero aproveitar para anunciar que estou assumindo oficialmente como webmaster do portal do CLFC.

Agradeço à Ana o convite. Estou conversando bastante com nossa presidente sobre o Portal, que deve receber adições e sofrer algumas mudanças nas próximas semanas.

Conforme as coisas forem saindo do forno, prometo informá-los aqui na lista e lá no Orkut. Aos que quiserem participar/ajudar, basta entrar em contato comigo (enviando e-mail para fernandotrevisan@gmail.com) que, havendo necessidade, entrarei em contato.

Abraço a todos!


Quem foi à FANTASTICON 2008 teve a oportunidade de baixar em seu pen drive, em primeira mão, a Kalíopes (metade da platéia sacou seu pen drive assim que o Jacques anunciou que tinha o arquivo .PDF em seu notebook: quem disse que não vivemos em tempos cyber?)

Ambas as revistas já estavam sendo anunciadas há alguns meses, e sua publicação agora vem em excelente hora. A ficção científica e a fantasia brasileiras nunca tiveram um momento tão bom. Material não falta - e agora não faltam revistas. Parabéns à Ana Cristina Rodrigues, presidente do CLFC e editora do SOMNIUM, e ao Jacques Barcia, editor da Kalíopes.


Agora só falta uma. Conforme anunciamos na nossa mesa da FANTASTICON, eu e Jacques Barcia vamos lançar uma nova revista, voltada para a ficção científica: a TERRA INCOGNITA. Aqui mesmo no condomínio Verbeat. Em agosto. Aguardem.


Recebi hoje o seguinte e-mail da minha amiga e colega pesquisadora Adriana Amaral, a Lady A e repasso com o maior prazer:


Caros amigos e colegas,
Repasso para vocês a entrevista que dei ao programa Cybercubo gravado em abril na TV Feevale (Novo Hamburgo - RS) sob orientação da professora Paula Puhl. O tema foi cyberpunk e cibercultura e o formato do programa foi bem interessante e inovador, buscando algumas referências como o Roda Viva. Espero que gostem. Seguem as 4 partes postadas no youtube:


Parte 1


Parte 2


Parte 3


Parte 4


Acabei de ver as quatro partes e adorei. A Adriana, que além de professora e pesquisadora do Mestrado em Comunicação e Linguagens da UTP-PR, é autora do ótimo
Visões Perigosas: uma arque-genealogia do cyberpunk, dá um show de bola na entrevista. Fundamental para quem quer saber mais sobre cibercultura e cyberpunk. Check it out!

Eu estava deixando para avisar no meio da semana, mas as coisas aqui estão tão corridas que - pecado dos pecados - acabei esquecendo. Mas o Horacio Corral, da Livraria Cultura, um grande entusiasta da FC e da Fantasia e responsável pela aquisição de várias obras importantes para essa livraria nos últimos tempos, organizou uma mesa redonda de ficção científica com a participação de muita gente boa, inclusive este que vos digita. Então, segue abaixo o anúncio conforme enviado pelo Horacio, que também fez uma excelente divulgação em outros sites e no Orkut:

Mesa Redonda de FC-Livraria Cultura-Sábado-29/03
Novos Rumos da Ficção Científica Brasileira

Olá a todos!

Na Mesa Redonda irá se discutir os rumos da ficção científica brasileira: seus autores e obras, o mercado editorial na ficção científica, os novos movimentos literários e o cenário brasileiro, o papel da internet e as novas mídias na produção literária e nos direitos autorais entre outros temas.

A mesa redonda será mediada por Ana Cristina Rodrigues (Presidente do CLFC - Clube de Leitores de Ficção Científica), com a participação dos escritores:

Fábio Fernandes (autor de A Construção do Imaginário Cyber)

Roberto de Sousa Causo (Os melhores contos brasileiros de ficção científica)

Clinton Davisson (Hegemonia)

Cristina Lasaitis (Visões de São Paulo - Ensaios Urbanos)

Richard Diegues (Visões de São Paulo - Ensaios Urbanos)

Carlos Orsi (Tempos de Fúria)


Participação especial:

Gerson Lodi-Ribeiro (Outros Brasis e TaikoDom).


Onde fica?
Livraria Cultura - Market Place Shopping Center
Av. Chucri Zaidan, 902 - São Paulo/SP

Quando ir?
Sábado, 29 de março, às 17:00hs

Quanto custa?
Nada. A entrada é franca e gratuita!


Apareçam lá no dia, iremos sortear alguns livros...

Obrigado a todos!!!


Reitero o agradecimento e faço a observação: após a mesa, ficaremos por lá para autografar nossos livros e bater um papo informal com quem chegar. Como dizia Jorge Amado, se é de paz pode entrar. Vamos confraternizar e nos divertir.

A dica é de Matt Staggs, do Skullring: Jeff VanderMeer, co-editor da antologia The New Weird, entrevistou Jay Lake, um dos autores, que disponibilizou seu conto The Lizard of Ooze para download grátis. Altissimamente recomendado: é um dos melhores da antologia.

Eu estava tentando me lembrar onde mais já havia lido alguma coisa semelhante ao que está acontecendo nestes últimos dias em São Paulo (sim, porque uma das REGRAS FUNDAMENTAIS DA FICÇÃO CIENTÍFICA é: TUDO já foi abordado - nosso único problema nas discussões e nos posts de blogs é descobrir em que livro), e aí lembrei: há anos, quando eu trabalhei na Tribuna da Imprensa, fui solicitado a resenhar um livro de um coleguinha que na época trabalhava no Jornal do Brasil, Mário Pontes.

Nã-nã-ni-na-não, senhores e senhoras, não foi jabá-tipo-revista-Veja (encontrado por intermédio do Pedro Dória: final dos anos 1990, jornal pequeno (embora já tenha sido de grande influência no passado distante, com um breve retorno à glória em 1982, quando Brizola se candidatou para o governo do Rio - e foi bem antes do meu tempo lá, portanto vocês vêem que eu também não tive nada a ver com isso), a editora do caderno Tribuna BIS na época dava a nós, repórteres, total liberdade para escrever (ou não) sobre o livro ou CD que quiséssemos. Eu havia recebido uma pilha de livros e entre eles estava o fino livro de contos Andante com Morte, do Mário, lançado pela Bertrand.

Quando peguei o livro, não me pareceu uma grande obra, mas os contos eram bem escritos. Apenas um, entretanto, ficou na minha memória (o que é mais do que eu posso dizer de muitos outros que li ou resenhei naquela época): A Nova Rota da Seda. Este conto é ambientado em meados do século XXI, e mostra um mundo que entrou em colapso graças à escassez dos recursos naturais. Esse mundo revertido a um estado tribal-global (no pior dos sentidos) tem um grande símbolos, que foi aliás o primeiro grande sintoma de que havia alguma coisa muito errada no sistema: o colapso total da malha rodoviária das grandes cidades.

O tipo de situação que Mário escreveu nesse conto já tinha sido abordado por autores como o nunca pouco mencionado J.G.Ballard, além de Kurt Vonnegut e Robert Silverberg, entre uma infinidade de outros dos quais não vou me lembrar agora (mas give me time). O que me chamou a atenção foi um brasileiro fazer isso e ser publicado por uma grande editora. Nem é preciso dizer que elogiei o livro, claro, com foco nesse conto.

E não é o que está acontecendo agora? Eu não acredito que escritores de ficção científica sejam profetas - o que acontece é que de vez em quando eles sintonizam outras realidades. Como o Mário, que nem costuma escrever nada desse gênero, acabou fazendo. Para quem quer saber um pouco mais sobre ele, uma entrevista concedida no ano passado para a ABI.

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Pós-estranho

  • escrever dói
    por Fábio Fernandes

  • Jornalista, tradutor. Escritor, roteirista e dramaturgo. Pesquisador de cibercultura e professor do cursos de Tecnologia e Mídias Digitais e Jogos Digitais da PUC-SP. Interesses de pesquisa: comunicação e cibercultura, semiótica, teoria literária, ficção científica, tribos e subculturas, novas mídias, games.
  • foto: Pisco del Gaiso


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