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Assim como a ficção científica, nos tempos de Poe as histórias policiais como as conhecemos hoje ainda não existiam. A expressão "história de detetive" só começaria a ser utilizada décadas mais tarde.

Poe chamava seus contos de detetive de "tales of ratiocination", ou "histórias de raciocínio" (uso a tradução mais recente para o português brasileiro, de William Lagos). Escreveu três narrativas que entraram para a história como as primeiras histórias de detetive, os contos de C. Auguste Dupin: The Murders in the Rue Morgue, The Mystery of Marie Rogêt e The Purloined Letter.

Arthur Conan Doyle, pai do detetive mais famoso de todos os tempos, Sherlock Holmes, menciona C. Auguste Dupin no primeiro romance do detetive inglês, A Study in Scarlet, prova inconteste da influência literária de Poe na criação de Holmes (a outra influência seria o Dr. Joseph Bell, professor de Doyle em Edinburgo, que utilizava o método dedutivo, bastante semelhante ao de Holmes, em suas análises forenses).

Dupin é o protótipo do detetive "robótico", um personagem que por pouco não se torna um estereótipo, tão concentrado está em sua função. Mas Poe não permite que isso aconteça. Através da narrativa de seu colega, com quem divide uma casa (e nisso Poe também se torna precursor, ao criar o fiel companheiro e narrador das histórias do detetive, como Watson para Holmes e Hastings para Poirot).

Aparentemente despido de qualquer emoção, Dupin vive para solucionar mistérios. Ora por puro e simples prazer, como no seu conto de estréia, ora pelo dinheiro da recompensa, como no mistério de Marie Rogêt - que foi baseado num caso real, o assassinato de Mary Cecilia Rogers.

Se em The Murders in the Rue Morgue, escrito em 1841, o mistério é considerado insolúvel pela polícia pelas circunstâncias tão absurdas que beiram o surreal (e que não impedem de modo algum o raciocínio de Dupin, que não deixa que o supostamente irracional o detenha), em The Mystery of Marie Rogêt a história tem menos ação e mais explicações, beirando o didatismo. Já em The Purloined Letter, considerada pelo próprio Poe sua melhor história de raciocínio, os diálogos são mais ágeis novamente, com o adicional de praticamente criar um novo subgênero literário: o mistério do quarto fechado, aprimorado quase um século depois por John Dickson Carr.

Mas os três contos de Dupin não são os únicos em que Poe usou sua técnica de raciocínio. Em The Business Man, conto pouco conhecido por estas plagas, Poe constrói um narrador de uma racionalidade que beira o idiotismo (de propósito, claro), mas que no final dá uma mostra de inteligência que é uma rasteira no leitor.

E nem estamos falando dos ensaios. Em Maelzel's Chess Player, Poe expõe um suposto "autômato" jogador de xadrez chamado The Turk (O Turco) que havia ficado famoso na Europa e nos EUA. O falso robô havia sido inventado por um certo Wolfgang von Kempelen em 1769 (alguma dúvida quanto à inspiração para o conto Von Kempelen and His Discovery?).

Esse ensaio foi publicado originalmente na edição de abril de 1836 da revista Southern Literary Messenger, e é considerado o precursor dos "contos de raciocínio" de Poe, não pelo estilo, pois não é um conto, mas porque é nele que Poe começa a criar o método analítico que anos depois usaria em suas "histórias de raciocínio".

Um dos contos mais traduzidos e lidos de Poe é The Gold-Bug, que não só é um conto de raciocínio como mistura a famosa história de tesouro perdido (que já era famosa na época, muito embora A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, só viesse a ser publicado em 1883, três décadas depois da morte de Poe) a outro tema do qual Poe gostava muito: a criptografia. É outra história de Poe em que contar um resumo pode entregar o final - mas fica a sugestão de leitura.

(Uma pequena observação: talvez não seja a toa que Machado de Assis, além de ter traduzido O Corvo e escrito alguns contos na mesma chave satírica de Poe, fosse um enigmista juramentado, ou seja, um fervoroso fã de charadas e enigmas - como, no século vinte, também o foram Georges Perec e Raymond Queneau, apenas para citarmos alguns ilustres escritores.)

Não, eu não escrevi errado. Bicentenari Poe é Bicentenário Poe em catalão, uma das línguas mais lindas do mundo, e uma das mais fáceis de ler para o brasileiro (de ler, não necessariamente de falar).

Qual não foi a minha surpresa quando vi um link para o Pós-Estranho no ótimo Blocs de Lletres (Hiperbloc Català de Literatura), dentro das homenagens a Edgar Allan Poe?

Moltes gràcies, amics! És un bloc molt bo!
Sento no poder fer el comentari en Català correctament!

Hoje não posto resenha - mas a Semana Poe não terá apenas sete dias, meus leitores. A partir de amanhã retorno com mais - e vocês ainda lerão aqui, nos próximos dias resenhas e comentários sobre as histórias de detetive de Poe, seus contos góticos mais famosos e queridos no Brasil, seu único romance, e também resenhas de algumas da muitas histórias escritas em sua homenagem por autores como Ray Bradbury, Rhys Hughes, Matthew Pearl, além da nova antologia de Ellen Datlow.

Enquanto isso, fiquem com os seguintes links sobre Poe:

The Edgar Allan Poe calendar - Rob Vellela criou o EDGAR ALLAN POE BICENTENNIAL CALENDAR, um calendário de mesa de 365 dias comemorando a vida de Edgar Allan Poe ao longo 2009. Rob não é um fanboy: ele começou a estudar Poe a sério em 1999, trabalhando também como guia turístico no Poe National Historic Site, na Filadélfia.

The Edgar Allan Poe Bicentennial - Um blog com tudo o que você quiser saber sobre Poe, de biografia até listas de todos os eventos que acontecerão ao longo de 2009 nos EUA para comemorar o bicentenário de Poe.

The Southern Literary Messenger - Uma versão digital da revista que publicou muitas das histórias mais conhecidas de Poe. Uma observação importante: ela não contém fac-símiles das edições do século XIX, mas é um revival (e aceita colaborações).

The Edgar Allan Poe Society of Baltimore - Informações sobre a a vida de Poe em Baltimore, além de publicações da instituição.

Poe Bicentennial Celebration - O site anuncia "A Year of Events in Poe´s Virginia" (Um Ano de Eventos na Virginia de Poe) - e cumpre: informações sobre eventos, um planejador de viagens para quem estiver pensando em se aventurar pelos EUA para ir às celebrações, um blog e também informações sobre The Edgar Allan Poe Museum in Richmond, ao qual o site é ligado.

A lista está muito longe de ser completa. A intenção é postar mais links aqui depois, mas aqui já tem informação suficiente para vocês pesquisarem e se divertirem bastante. Bom fim de semana!!

Tive medo do escuro até um dia desses.

Não é nada que faça alguém morrer de vergonha quando se tem sete anos. Mas quando tinha de 11 para 12 anos, passei um bom tempo dormindo todo enrolado, com a cabeça debaixo do travesseiro, com medo sabe-se lá do quê, esperando que o sono chegasse antes que uma misteriosa ameaça, vinda sabe-se lá de onde, aparecesse na penumbra e me atacasse, enquanto estava indefeso, os olhos bem abertos, à procura de um vulto que insistia em não se insinuar pela penumbra do quarto.


Esse texto bárbaro é a abertura de um artigo de meu amigo de Orkut, o jornalista Alex de Souza, sobre o bicentenário de Edgar Allan Poe, a quem estou homenageando aqui no Pós-Estranho ao longo desta semana. Alex - que bate um bolão em sua coluna no site Nominuto.com, o maior portal de notícias do Rio Grande do Norte - vai fundo na análise dos horrores provocados por Poe citando dois grandes da literatura que vieram depois e que teciam loas ao mestre criador de O Corvo: H. P. Lovecraft e Charles Baudelaire. Alex lembra dos ótimos O Horror Sobrenatural na Literatura, de Lovecraft e da introdução de Baudelaire para Poemas e Ensaios, de Poe, e faz uma pequena mas preciosa análise das sublimes obsessões de Poe.


Outra visão imperdível é a de Mr. Neil Gaiman, que postou em seu site no último dia 20 um ensaio escrito especialmente para a coleção de Edgar Allan Poe da Barnes & Noble. Gaiman fala de Poe como influência para seu trabalho e para a obra de muitos outros escritores, de Conan Doyle a Ray Bradbury, desenterrando (em se tratando de Poe, esse verbo é sempre adequado) referências que, se não são insuspeitadas, podem às vezes passar despercebidas neste início de século vinte e um onde temos tanta informação na ponta dos dedos mas - ai de nós! - mal sabemos usar o Google.

Hoje deixo vocês com Alex e Neil. Amanhã tem mais - bem mais. Aguardem.

Responda sem pensar: quais os contos mais famosos de Edgar Allan Poe? (Não vale ler o post abaixo). Ou, melhor: quais os contos de Edgar Allan Poe que você já leu?

Provavelmente os contos mais publicados no Brasil: além das histórias de Auguste Dupin, os contos de terror gótico como O Poço e o Pêndulo, O Barril de Amontillado, A Máscara da Morte Rubra ou Uma Descida ao Maelström. Contos que fizeram (e ainda fazem) a cabeça de milhões de leitores no mundo inteiro. Mas que estão longe de compor a maior parte da produção de Poe.

Estamos precisando ler no Brasil alguma coletânea com toda a produção ficcional em prosa de Poe. No mundo anglo-americano não vale: Poe aparentemente só perde para Shakespeare em termos de quantidade de coletâneas e antologias. A que estou usando para esta série de resenhas e comentários é The Complete Stories, da Everyman´s Library britânica.

É uma festa para os olhos. São 68 histórias no total, sendo que uma, The Narrative of Arthur Gordon Pym, é um romance (o único que Poe escreveu). 955 páginas com todos os contos de Poe.

Evidentemente (e infelizmente), não é possível resenhar todos. Mas, ao longo desta semana, vou comentar alguns dos mais interessantes - outra opção difícil, porque Poe pode ter tido uma vidinha miserável, mas com ele não tem conto ruim. Neste post, portanto, a idéia é dar uma pincelada nos contos que, até onde sei, não são republicados no Brasil há muito tempo - e que mereciam.

Por exemplo, temos as sátiras histórico-mitológicas. A Tale of Jerusalem e Four Beasts in One são contos ambientados no passado distante (curiosamente para os dias de hoje, ele fornece a datação judaica, e não a cristã, pois ambas as histórias se passam antes de Cristo). O primeiro é uma piada de péssimo gosto que romanos pregam em dois judeus; o segundo é a descrição de um rei-deus pagão da Síria que é simplesmente um "homo-camelopardo", descrito com riqueza de detalhes, que é venerado por todos os seus súditos, escoiceados por ele sem piedade.

O interessante é que em nenhum momento Poe é venenoso ou agressivo contra seus personagens, mas mordaz e irônico, apontando em todos mais os seus defeitos do que qualidades. Apesar de escravagista, Poe não se mostra racista (não no sentido de considerar brancos superiores a negros), nem anti-semita (os judeus em seus contos não são inferiores a gentios, o que não quer dizer que ele não conte piadas sem medo de ofender este ou aquele grupo - afinal, o politicamente correto ainda não existia).

Mas Poe voltava sua metralhadora giratória para outros temas bem diferentes. Como, por exemplo, em Diddling, onde ele escreve um tratado explicando como ser malandro! O chamado Golpe do Vigário não está ali, mas em compensação os hoje clássicos "confidence games" são todos ensinados por ele no conto. E Philosophy of Furniture, em forma de artigo, onde ele afirma (ironicamente) como se pode "julgar" o temperamento de um povo, ou de um indivíduo, pela maneira como se mobilia uma casa.

E os hilários How to Write a Blackwood Article e Why The Little Frenchman Wears His Hand in a Sling? O primeiro é um show de pseudo-erudição, escrito por uma certa Signora Psyche Zenobia, mais conhecida como Suky Snobbs. Entre idas e vindas e muitas janelas abertas para mudança de assuntos, Suky Snobbs explica o que um autor precisa fazer para publicar seus textos numa "famosa" revista norte-americana. O segundo conto é um tour-de-force: escrito inteiramente em linguagem fonética cockney (ou algo aproximado do falar da classe operária do Reino Unido), é uma história contada em primeira pessoa por um irlandês de maus bofes que se mete numa briga com um gentilhomme francês e trata o sujeito como um cão fila. Falar mais do que isso estraga a história, mas vocês entenderam.

Aliás, com Poe é assim, principalmente com as histórias mais curtas. Descrever demais é correr o risco de contar a história inteira. Poe era um mestre não apenas do final-surpresa, mas também do começo-surpresa e até mesmo do meio-surpresa. Às vezes o fim do conto é abrupto e nos deixa querendo mais, mas quando o escritor é bom isso não importa. (James Joyce, com os contos de Dubliners, é outro belo exemplo de como um conto pode terminar em suspenso e valer pela beleza de suas palavras e tanto pelo que ficou nas entrelinhas quanto pelo que é escrito.)

The Sphinx e Von Kempelen and His Discovery, por outro lado, são contos que têm finais fechados, e engraçados. O primeiro é uma paródia dos próprios contos de horror de Poe, evocando uma imagem monstruosa que certamente deve ter ficado na cabeça de um certo H.P.Lovecraft, mas com uma virada final curta, grossa e totalmente anticlimática - o que é ótimo. A segunda história é escrita como uma notícia de jornal, e mostra o impacto da descoberta de um cientista alemão sobre o mundo - antecipando de certa maneira uma ficção científica que não descuida do caráter tecnológico mas volta seu olhar para as conseqüências sociais que a tecnologia (ou, no caso, uma invenção aparentemente simples) pode ter numa sociedade que já não se espanta tanto assim com "milagres", mas quer saber o que vai ganhar com isso.

Vocês leram alguns desses contos? Se não leram, corram atrás; se já leram, leiam de novo urgentemente. Faz bem a leitores e a escritores.

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Ars longa, vita brevis. O ditado latino Arte Longa, Vida Breve cabe como uma luva na vida de Edgar Allan Poe. Morto aos quarenta anos de idade (embora sua última foto, o daguerreótipo mostrado no post anterior, mostre um homem com aspecto mais envelhecido), o jornalista, editor, escritor e poeta teve uma vida intensa, uma morte terrível e um reconhecimento muito além do que seus contemporâneos acreditavam possível.

Pensemos no contexto da época: Poe viveu nos Estados Unidos na primeira metade do século XIX, antes mesmo da colonização maciça do Oeste. Nascido em Boston em 19 de janeiro de 1809, filho de pais atores itinerantes, foi mandado para a casa dos avós imediatamente após o nascimento.

A casa de Elizabeth e do "General" Poe ( o avô de Edgar havia participado da Guerra de Independência, mas as aspas vão porque o posto não era exatamente um título militar - ele era um oficial responsável pelo abastecimento de alimentos da cidade) ficava em Baltimore, sul dos EUA. Cercado por escravos, Poe era conservador e defensor da escravidão, embora não se tenha notícia de que tivesse algum dia maltratado um escravo - ao contrário de seus amigos, que sofreram muito em suas mãos. Na verdade, gostava de ouvir as histórias de fantasmas contadas pelos escravos.

Órfão de pai e mãe ainda criança, foi adotado pelo comerciante John Allan e sua esposa, que o levaram para a Inglaterra, onde viveu parte da infância. Cinco anos mais tarde, a família de criação voltaria aos EUA, onde Poe, já no college (uma espécie de pré-universidade nos EUA, sem equivalente no Brasil - embora o curso tivesse sido feito na Universidade da Virgínia), aos dezoito anos, começou a demonstrar um gênio irascível, o vício pelo jogo e o alcoolismo. Isso o levaria a uma espiral descendente que só teria momentos breves de felicidade com a publicação de algumas de suas obras - mas a descoberta da vocação literária não o salvaria da miséria nem da morte trágica e precoce.

Em Poe, a Life Cut Short, a mais recente biografia do autor de O Corvo e de The Narrative of Arthur Gordon Pim, o inglês Peter Ackroyd (famoso também pelas biografias de James Joyce, Shakespeare, Thomas More e até da cidade de Londres e do Rio Tâmisa!) ilumina não só os dados mais conhecidos da vida de Edgar Allan Poe (para o público brasileiro, praticamente nenhum) como desmistifica o que o senso comum e o ouvir-dizer nos passou acerca desse grande poeta americano.

O livro pertence à série Ackroyd Brief Lives, uma coleção publicada pela Random House em que Ackroyd traça o que aqui costumamos chamar de perfis, dado o tamanho curto dos livros (200-250 páginas no máximo), e dos quais já publicou a vida de Isaac Newton e de Geoffrey Chaucer. Mas, no caso de Ackroyd, não dá para dizer que é um mero perfil. 200 páginas de Ackroyd dão de dez a zero em 560 de muito biógrafo brasileiro.

Ackroyd começa o livro contando os últimos dias de Poe, bêbado, doente, desmemoriado, provavelmente sofrendo de delirium tremens, perdido, usando roupas que não eram as suas e sem ninguém de sua já tão escassa família por perto.

Os dois irmãos há muito viviam longe, com suas próprias famílias; seu primo não queria contato com ele; sua prima e esposa, Virgínia, morrera dois anos antes, depois de um longo sofrimento provocado pela tuberculose. Só lhe restava sua tia e sogra, Maria Clemm, a única a ainda se preocupar com ele. Mas ela não chegou a tempo de sua morte ou de seu enterro.

Poe era precoce. Diziam que era capaz de recitar poemas, dançar e se comportar como um perfeito cavalheiro aos três anos de idade. Durante seu tempo na Inglaterra, era sempre um dos melhores alunos da classe. Demonstrava um grande amor pelo conhecimento, tendo aprendido latim e alemão até a adolescência, e era bom também em corrida e ginástica!

Mas, mesmo tendo nascido muito antes de Sigmund Freud, Poe daria pano para manga (várias mangas): a morte da mãe quando ele ainda não contava três anos e o desaparecimento do pai o marcaram profundamente. Ele jamais assumiu isso, mas seus contos são uma psicanálise invejável: não é qualquer escritor que rasga seu coração com a sinceridade absoluta e desavergonhada de Edgar Allan Poe.

A Queda da Casa de Usher, Ligéia, Berenice, The Tell-Tale Heart são apenas alguns dos contos mais famosos que tratam de morte, esse grande tema que é a espinha dorsal da obra de Poe.

Além disso, quem não se lembra dos contos mais tenebrosos, como The Pit and The Pendulum, The Masque of The Red Death, The Black Cat, ou The Cask of Amontillado?

Mas Poe não escreveu apenas contos desesperados; escreveu também muita prosa satírica, em histórias como A Tale of Jerusalem ou The Duc de L´Omelette, que décadas depois influenciaria fortemente Machado de Assis em seus contos irônicos.

Ele também poderia ser considerado santo padroeiro da mídia tática: fez publicar sua noveleta The Unparalleled Adventure of One Hans Pfall como uma história verídica na revista mensal Southern Literary Messenger - em 1835!! A história de Hans Pfall, que viaja de balão até a Lua, é considerada por estudiosos da ficção científica como a inspiração para Da Terra à Lua, de Jules Verne.

A Poe também é creditada a invenção da história de detetive, com a trilogia de contos apresentando o investigador francês C. Auguste Dupin e seu método de ratiocination: The Murders in the Rue Morgue, The Mystery of Marie Rogêt e The Purloined Letter.

Querem mais? Pois não: que tal Four Beasts in One - the Homo-Camelopard, que bem pode ter inspirado Jorge Luis Borges em seu Livro dos Seres Imaginários? Ou The Imp of the Perverse, que se não influenciou Freud em alguma coisa deveria ter influenciado?

Como se diz nos EUA, há muito mais de onde vieram esses - só a prosa ficcional de Poe dá 955 páginas de um volume saboroso com páginas de entrelinhamento pequeno e fonte idem. E nem falamos de ensaios como Filosofia da Composição ou os poemas, como Eureka e O Corvo (mas sobre eles eu falarei mais adiante).

Em 1996, foi divulgado que Poe poderia ter morrido não de problemas relativos à bebida, mas de raiva humana. Contudo, isso jamais foi provado - o que só faz aumentar a curiosidade sobre o homem e o mito.

Ackroyd nos mata um pouco dessa curiosidade, mostrando um Poe voluntarioso, que se dizia sem amigos ao mesmo tempo em que afastava de sua vida os poucos que efetivamente tinha (e aos quais sempre voltava a recorrer quando perdia o dinheiro no jogo ou quando bebia demais e era roubado) e era de uma carência afetiva descomunal.

Prova disso é ter se casado com Virginia Clemm quando esta tinha treze anos de idade (Ackroyd explica que, embora isso não fosse incomum naquela época, mesmo assim não era aceito com bons olhos - mas ele se apressa a explicar que aparentemente não houve sexo entre eles, pelo menos nos primeiros anos do casamento) e, após a morte dela, alternado suas atenções entre nada menos que três viúvas com as quais flertara na adolescência.

Mas a esta altura vocês estão se perguntando: e daí?

É verdade: e daí? Poe sofreu porque era humano. Tinha problemas? Claro, e imensos. Mas foi um bom jornalista, um grande editor e um escritor maior ainda, reconhecido e aclamado ainda em vida. Logo depois da morte, foi alvo de críticas covardes de contemporâneos que sabiam que não receberiam mais respostas - porque Poe nunca fugiu de uma boa briga (a maioria das quais ele mesmo começava, às vezes sem motivo).

Por outro lado, Baudelaire o traduziu e o publicou na França, e o considerou o pai dos Simbolistas. Chegou a ser considerado "um escritor francês nascido por engano nos Estados Unidos".

Hoje, duzentos anos de seu nascimento. Um homem medíocre não teria influenciado tanto a cultura em todos os seus espectros - desde os filmes deliciosamente camp de Roger Corman com Vincent Price até romances como The Poe Shadow, de Matthew Pearl, e a recentíssima coletânea de contos inéditos Poe, editada por Ellen Datlow (que serão resenhados aqui também). Junto com Mary Shelley, Robert Louis Stevenson e Bram Stoker, Poe criou algumas das imagens mais marcantes da literatura, que ainda reverberam por corações e mentes, atormentados, acachapados, loucos ou simplesmente (como se isso fosse simples) criativos.

Perdoem o trocadilho mais do que usado, mas é tão inescapável quanto o Mäelstrom: um criador como Edgar Allan Poe, nunca mais. Nunca mais.


UPDATE 20 / 01: Fiz algumas correções no texto acima, escrito ontem no fim da noite depois de um dia atribulado. Afinal, quandoque bonus dormitat Homerus (numa tradução aproximada, Homero é bom mas não é perfeito... ;-)



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    por Fábio Fernandes

  • Jornalista, tradutor. Escritor, roteirista e dramaturgo. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Pesquisador de cibercultura e professor do cursos de Tecnologia e Mídias Digitais e Jogos Digitais da PUC-SP. Interesses de pesquisa: comunicação e cibercultura, semiótica, teoria literária, ficção científica, tribos e subculturas, novas mídias, games.
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