Acabo de ler a coletânea comemorativa de 30 anos da Asimov´s Science Fiction Magazine, que saiu no ano passado pela Tachyon Publications. A original americana, é claro, que continua circulando mensalmente até hoje. Sua versão brasileira durou apenas 25 edições.
A edição é grande, mas sua seleção, embora muito boa, deixa o leitor com um gosto de quero mais: afinal, nesses trinta anos de publicação, milhares de histórias foram publicadas, e, como a própria editora Sheila Williams disse no prefácio, seriam necessários vários volumes só para publicar uma seleta contendo a melhor história de cada mês. A coletânea, que contém 17 histórias, não tem sequer a melhor de cada ano.
Mas que isso não desanime o leitor curioso, pois o nível dessas dezessete histórias (quase todas contos, com uma ou outra noveleta - Williams deixou as novelas de fora por uma questão de tamanho) é de primeira água; algumas delas receberam prêmios, como Speech Sounds, de Octavia Butler, mas este não foi o principal critério de seleção das histórias. A escolha parece ter sido feita por representatividade, e esse mérito a antologia possui.
Ela começa com Air Raid, de John Varley, que depois se transformaria no começo do livro Millenium, um grande livro de Varley que não foi publicado no Brasil (mas que chegou a virar um filme fraco com Kris Kristofferson e Cheryl Ladd em 1989). Em seguida, uma história de Robert Silverberg ambientada no universo das Crônicas de Majipoor. Dinner in Audoghast, a primeira história de Bruce Sterling vendida para a Asimov, também está presente, com seu ar exótico e nada cyberpunk; o já clássico Robot Dreams, do Bom Doutor Isaac Asimov; Glacier, de Kim Stanley Robinson, e Cibola, de Connie Willis, ambos publicados na versão brasileira da revista.
A extinta edição brasileira não publicou muitas das histórias que estão neste volume. Para começar, porque ela acabou no início de 1991, e portanto não poderia mesmo ter publicado a maioria dessas histórias. Além das histórias citadas logo acima, Speech Sounds também foi publicada no Brasil. O conto de Asimov saiu numa de suas coletâneas. E mais nada.
As demais histórias constituem um panorama bastante abrangente do melhor que a ficção científica e fantasia americanas têm a oferecer, desde o quase-mainstream Ether OR, de Ursula K. LeGuin, de 1995, até o assustador The Happy Man, de Jonathan Lethem (um dos poucos autores consistentemente publicados por aqui, pela Companhia das Letras). As histórias de 2000 para cá estão entre as melhores, inclusive Lobsters, de Charles Stross, que depois se tornaria a primeira história do livro Accelerando (atualmente disponível para download grátis aqui), bem como o terrível e estranho Children of Time, de Stephen Baxter, de 2005, ambientado num futuro extremamente distante, e o irônico Eight Episodes, de Robert Reed, de 2006, que brinca com o poder da mídia e das séries de TV. É um panorama que dá muito o que pensar.
E, como não poderia deixar de ser, traz sempre uma pergunta à mente (pelo menos à minha mente): e se a Asimov tivesse continuado a ser publicada no Brasil?
Não me entendam mal: este definitivamente não é um post saudosista. Mas a pergunta de fato surge em momentos como esse, e não é só comigo: periodicamente perguntas sobre a Asimov brasileira despontam em listas de discussão e comunidades de Web, e esse tópico acaba sempre se tornando muito cansativo e repetitivo, pois sempre se repetem as mesmas coisas: a primeira delas é a pergunta óbvia mas necessária: por que ela acabou? E em seguida outras perguntas, como qual era a tiragem da revista? Ou: por que a Record ou outra editora não publica a Asimov hoje?
Até algum tempo atrás, eu fazia parte do grupo de ex-colaboradores da revista (traduzi contos e escrevi um artigo para ela) que procurava sempre responder essas perguntas para as pessoas. Hoje não acho mais que isso seja importante. Talvez algum dia alguém possa ou queira escrever uma biografia da Asimov brasileira, contando detalhes sobre como ela começou a ser publicada aqui, e tudo o que aconteceu até o seu fim. Eu não. O que não quer dizer que não possa fazer aqui uma pequena reflexão.
Nos anos 1960, uma peça fez muito sucesso na Broadway e também no Brasil: Os filhos de Kennedy, de Robert Patrick, que abordava a desilusão da juventude americana após a morte de John Kennedy e a Guerra do Vietnã. Alguns anos depois, o tradutor da peça, o cartunista e humorista Millôr Fernandes, não perdoaria a referência e escreveria ele próprio uma espécie de paródia dessa peça, intitulada Os Órfãos de Jânio - mostrando, por puro contraste entre as duas situações, que cada país tem a família que merece.
O que nos leva a uma pergunta fundamental dentro da esfera da ficção científica brasileira: somos filhos ou órfãos da Isaac Asimov Magazine brasileira? (esta pergunta se aplica também a fanzines ou qualquer outra publicação do gênero - o exemplo da Asimov é usado aqui por ser o mais emblemático). O que somos nós? Onde nos encaixamos, se é que existe encaixe ou nicho?
Esta é uma pergunta que não costuma ser muito feita por quem consome ou escreve ficção científica no Brasil, mas que talvez deva ser feita se quisermos nos conhecer um pouco mais e sair do que aparentemente é uma situação-ouroboros, ou seja, a cobra que morde o próprio rabo, gira, gira e não sai do lugar.
Quem somos nós? Somos nós mesmos ou o desejo de alguma outra coisa que nunca vem? Somos um fragmento do passado ou uma vontade de futuro?
Entre passado e futuro, outra pergunta se faz essencial: por que não somos o presente?
Estamos na Web. Temos espaço para todos. Segundo Richard Feynman em sua famosa palestra de 1959, there´s plenty of room at the bottom : há muito espaço no fundo... e em cima e no alto também. A Web não tem direção, é um rizoma, no melhor sentido deleuziano. O que nos levaria também a perguntar: somos deleuzianos, foucaltianos, carnavalescos ou somos apenas nós mesmos?
O que queremos?
Não posso falar por outros. Este blog é meu espaço, onde faço a minha reflexão, e convido os que me lêem a fazerem as suas próprias reflexões, seja aqui nos comentários, seja em seus próprios blogs ou sites. Mas o que posso fazer é falar por mim.
Eu sei o que eu quero. Quero ler e quero escrever. Quero publicar - mas já não sei se em papel. Não sei se esse espaço ainda existe ou se já nos foi fechado. Mas Deus fecha uma porta e abre uma janela, não é esse o ditado? (como diria Nelson Rodrigues, se não é devia ser). Toda vez que uma possibilidade se acaba, vamos para o próximo sonho.
E os meus sonhos irão se realizar. O bom da Internet é que ela permite essa abertura de janelas para o mundo. Hoje podemos ter muito mais revistas que tínhamos naquela época. Tivemos o Magazine de Ficção Científica da Editora Globo no começo da década de 1970 - e mais nada durante e muito tempo depois. Depois, a Asimov brasileira - e mais nada durante e muito tempo depois. Hoje, o que temos?
Na Web, temos a Black Rocket, o retorno do Somnium, agora definitivamente em formato digital no site do Clube de Leitores de Ficção Científica, a revista de fantasia Kaliopes estreando em breve... e vários sites e blogs que publicam periodicamente contos de FC.
Talvez seja preciso uma profissionalização dos editores e dos escritores? Talvez. Mas o mais importante num primeiro momento é - como sempre foi - a qualidade dos trabalhos. Primeiro é preciso escrever. E isso já tem muita gente boa fazendo. Neste momento existem pelo menos mais dois projetos relacionados à FC sendo preparados para lançamento no segundo semestre, Se esses projetos acontecerem, teremos ainda mais espaço, e mais possibilidades.
Mas que não fique nisso. Agora é a hora de todo mundo se juntar e fazer o que estiver a fim, do jeito que quiser - a Internet está aí para isso. O futuro já chegou, já passou e agora estamos vivendo o long now, o longo agora, um eterno presente - que não precisa virar um eterno retorno, uma eterna reclamação do que passou. Agora quer dizer agora, e existe muito espaço a ser ocupado. E vamos ocupá-los todos.
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