Um homem em busca de um passado que não viveu e de um futuro breve porém brilhante. Vocês já leram isso muitas vezes. Entre outros autores, os alemães Patrick Süskind e Thomas Bernhard escreveram narrativas densas e tristes a respeito (o tragicômico O Contrabaixo, de Süskind, e o fúnebre Extinção, de Bernhard, são bons exemplos disso).
No Brasil, acaba de ser lançado um romance que, sem imitar os alemães, segue no mesmo tom: é O Professor de Botânica, de Samir Machado de Machado (Não Editora).
O livro quase lembra Thomas Bernhard, com a diferença fundamental da juventude. Bernhard era irônico, cínico e cruel (até consigo mesmo). Samir não consegue (e isso é bom): ele é jovem, tem a maturidade "além de seus anos", como alguém já disse, mas o frescor de sua escrita não dá margem aos sofrimentos (fake ou não) tão comuns à sua geração, que começou em blogs e se agarrou desesperadamente a uma tentativa (vã) de se tornarem grandes escritores falando apenas do que sabiam, como mandavam Hemingway e Faulkner (e Bukowski e Fante obedeciam). A diferença é que esses jovens escritores não tinham a maturidade e a experiência nem de Bukowski nem de Fante (e muito menos de Hemingway ou Faulkner).
Samir também não tem. Mas O Professor de Botânica não trata de jovens que bebem, se drogam, fazem sexo e vivem noites vazias que Walter Hugo Khoury já havia explorado muito melhor num (ótimo) filme de quarenta anos atrás. O Professor... é uma extrapolação para o futuro: Samir olha para a velhice e suas conseqüências.
O protagonista é Eduardo Rotgeller, um professor universitário na casa dos sessenta anos, viúvo e sem filhos, e que só tem suas flores e sua cadeira na universidade como referência de vida. Uma referência que pode estar prestes a acabar por causa de manobras políticas dentro da universidade, e da intrusão de uma nova figura no jogo acadêmico: o mais jovem e politicamente bem-relacionado Rogério Mourão (nenhuma relação com o famoso astrônomo carioca).
A única pessoa que o acompanha (mas não o entende) é seu bolsista Guilherme, abertamente inspirado no amigo e sócio de Samir, Guilherme Smee. Guilherme não narra o livro, mas é através de suas observações mentais que ficamos sabendo como o mundo vê Rotgeller - e não é com bons olhos.
No entanto, a vida segue para os dois e para o resto do mundo. E numa dessas viradas que o mundo acadêmico dá (e quem o habita sabe), Rotgeller é obrigado a dividir uma pesquisa com Mourão - pesquisa essa que ele vem fazendo há anos, e que tem certeza de que o acadêmico mais jovem plagiou, embora não possa prová-lo. Juntos, os dois (com seus respectivos bolsistas, Guilherme e uma garota cujo nome não sabemos) viajam até uma reserva florestal no interior do Rio Grande do Sul, onde coletarão plantas para a pesquisa. E lá, entre vegetação densa (a descrição do território da floresta onde Rotgeller e seus companheiros penetram é precisa e seca - e por isso mesmo mais perigosa) e uma chuva súbita e violenta, Rotgeller e Mourão confrontarão um ao outro.
O Professor de Botânica adentra pouco o território do estereótipo - é difícil trabalhar um personagem muito mais velho, com um histórico diferente. Mas não é este o objetivo da ficção? Sair de você e buscar um outro?
É o que Samir faz com seu protagonista. Ao contrário de Flaubert com sua Madame Bovary, Eduardo Rotgeller não é Samir Machado. Mas um ponto que não foi totalmente solucionado está nos diálogos, que em vários momentos soam artificiais, principalmente no começo. Mas, no decorrer da narrativa, no calor dos acontecimentos, Samir vai se soltando, dando às personagens suas devidas vozes, e eles tomam as rédeas.
Até chegar a um dos momentos mais memoráveis do livro, a frase que Rotgeller profere no confronto entre Rotgeller e sua nêmese, o professor Mourão:
"Eu tenho exata noção da minha mediocridade."
Essa frase é o ponto de convergência de todos os conflitos que se assumem como tais a partir daí, mudando o ritmo do romance a uma velocidade vertiginosa, ou tão vertiginosa quanto a densidade daquele trecho de Mata Atlântica permite. Rotgeller tem a exata noção de sua mediocridade, e é isso o que o motiva a um último gesto dentro da reserva, um gesto que não o redime da tragédia que virá em seguida.
O Professor de Botânica é um romance de estréia que se lê de uma sentada - até porque não resta alternativa para o leitor, que se percebe tão emaranhado nas lianas e raízes da narrativa como as personagens que se perdem na reserva florestal. Samir é um escritor que prende a atenção, e só isso é motivo de sobra para se prestar atenção nele no futuro.










