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professordebotanica

Um homem em busca de um passado que não viveu e de um futuro breve porém brilhante. Vocês já leram isso muitas vezes. Entre outros autores, os alemães Patrick Süskind e Thomas Bernhard escreveram narrativas densas e tristes a respeito (o tragicômico O Contrabaixo, de Süskind, e o fúnebre Extinção, de Bernhard, são bons exemplos disso).

No Brasil, acaba de ser lançado um romance que, sem imitar os alemães, segue no mesmo tom: é O Professor de Botânica, de Samir Machado de Machado (Não Editora).

O livro quase lembra Thomas Bernhard, com a diferença fundamental da juventude. Bernhard era irônico, cínico e cruel (até consigo mesmo). Samir não consegue (e isso é bom): ele é jovem, tem a maturidade "além de seus anos", como alguém já disse, mas o frescor de sua escrita não dá margem aos sofrimentos (fake ou não) tão comuns à sua geração, que começou em blogs e se agarrou desesperadamente a uma tentativa (vã) de se tornarem grandes escritores falando apenas do que sabiam, como mandavam Hemingway e Faulkner (e Bukowski e Fante obedeciam). A diferença é que esses jovens escritores não tinham a maturidade e a experiência nem de Bukowski nem de Fante (e muito menos de Hemingway ou Faulkner).

Samir também não tem. Mas O Professor de Botânica não trata de jovens que bebem, se drogam, fazem sexo e vivem noites vazias que Walter Hugo Khoury já havia explorado muito melhor num (ótimo) filme de quarenta anos atrás. O Professor... é uma extrapolação para o futuro: Samir olha para a velhice e suas conseqüências.

O protagonista é Eduardo Rotgeller, um professor universitário na casa dos sessenta anos, viúvo e sem filhos, e que só tem suas flores e sua cadeira na universidade como referência de vida. Uma referência que pode estar prestes a acabar por causa de manobras políticas dentro da universidade, e da intrusão de uma nova figura no jogo acadêmico: o mais jovem e politicamente bem-relacionado Rogério Mourão (nenhuma relação com o famoso astrônomo carioca).

A única pessoa que o acompanha (mas não o entende) é seu bolsista Guilherme, abertamente inspirado no amigo e sócio de Samir, Guilherme Smee. Guilherme não narra o livro, mas é através de suas observações mentais que ficamos sabendo como o mundo vê Rotgeller - e não é com bons olhos.

No entanto, a vida segue para os dois e para o resto do mundo. E numa dessas viradas que o mundo acadêmico dá (e quem o habita sabe), Rotgeller é obrigado a dividir uma pesquisa com Mourão - pesquisa essa que ele vem fazendo há anos, e que tem certeza de que o acadêmico mais jovem plagiou, embora não possa prová-lo. Juntos, os dois (com seus respectivos bolsistas, Guilherme e uma garota cujo nome não sabemos) viajam até uma reserva florestal no interior do Rio Grande do Sul, onde coletarão plantas para a pesquisa. E lá, entre vegetação densa (a descrição do território da floresta onde Rotgeller e seus companheiros penetram é precisa e seca - e por isso mesmo mais perigosa) e uma chuva súbita e violenta, Rotgeller e Mourão confrontarão um ao outro.
O Professor de Botânica adentra pouco o território do estereótipo - é difícil trabalhar um personagem muito mais velho, com um histórico diferente. Mas não é este o objetivo da ficção? Sair de você e buscar um outro?

É o que Samir faz com seu protagonista. Ao contrário de Flaubert com sua Madame Bovary, Eduardo Rotgeller não é Samir Machado. Mas um ponto que não foi totalmente solucionado está nos diálogos, que em vários momentos soam artificiais, principalmente no começo. Mas, no decorrer da narrativa, no calor dos acontecimentos, Samir vai se soltando, dando às personagens suas devidas vozes, e eles tomam as rédeas.
Até chegar a um dos momentos mais memoráveis do livro, a frase que Rotgeller profere no confronto entre Rotgeller e sua nêmese, o professor Mourão:

"Eu tenho exata noção da minha mediocridade."


Essa frase é o ponto de convergência de todos os conflitos que se assumem como tais a partir daí, mudando o ritmo do romance a uma velocidade vertiginosa, ou tão vertiginosa quanto a densidade daquele trecho de Mata Atlântica permite. Rotgeller tem a exata noção de sua mediocridade, e é isso o que o motiva a um último gesto dentro da reserva, um gesto que não o redime da tragédia que virá em seguida.

O Professor de Botânica é um romance de estréia que se lê de uma sentada - até porque não resta alternativa para o leitor, que se percebe tão emaranhado nas lianas e raízes da narrativa como as personagens que se perdem na reserva florestal. Samir é um escritor que prende a atenção, e só isso é motivo de sobra para se prestar atenção nele no futuro.

Acabo de chegar do Rio (onde não achei um puto de um cybercafé funcionando ontem) e vejo na minha caixa postal um e-mail do Jeff Vandermeer, me dando a triste notícia: J. G. Ballard morreu. Foi ontem, de câncer na próstata, aos 78 anos, segundo a Reuters.

Mais sobre isso nos próximos dias. Ainda em choque e muito, muito triste. Para quem não sabia, o primeiro header deste blog continha a cabeça do próprio Ballard, com o devido corte epistemológico:

cabeca_ballard

E meu conto O Corredor Infinito, que vai sair na Ficção de Polpa 3, a ser lançada oficialmente no dia 13 de maio em Porto Alegre, é uma homenagem a Ballard, inclusive com uma dedicatória a ele no final.

Capa-Ficção-de-Polpa-3


Descanse em paz, mestre.

A dica é da Adriana Amaral:

A tese do pesquisador Mirko Tobias Schaefer da Utrecht University está disponível em pdf e se chama Bastard Culture! User Participation and the extension of Cultural Industries e deve interessar a todos que pesquisam questões relativas à cultura participatória e a questão dos fãs-usuários.

Schaefer é Professor Assistente do Departamento de Mídia e Estudos Culturais da universidade de Utrecht, na Holanda. Baixei a tese dele (em inglês) e já comecei a ler. Muito, muito interessante. Vale a pena.

A literatura ficou mais pobre hoje: morreu John Updike, autor da série Coelho e do clássico As Bruxas de Eastwick (que aqui saiu com o título de Sabá das Feiticeiras).

Tenho aqui comigo um de seus últimos livros, se não o último: a continuação das Bruxas, The Widows of Eastwick. Aguardem resenha em breve no Fantasy Book Critic.

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Como dizia Freud, às vezes um charuto é apenas um charuto. Isso, claro, não precisa ser levado sempre ao pé da letra: o livro de estréia de Antônio Xerxenesky, Areia nos Dentes, não é apenas um charuto. Como também não é um cachimbo, aliás (a escolha de logomarca da Não Editora foi pra lá de metalinguística).

No evento Invisibilidades, promovido pelo Instituto Itaú Cultural no ano passado, o escritor Octavio Aragão levantou a possibilidade (para Octavio uma certeza) de que Areia nos Dentes era ficção científica: afinal, tinha zumbis - que, ao contrário do que pensam os insignes frequentadores de cinema, não são criação de filmes de horror, mas sim da ficção científica; os zumbis modernos (não estamos falando aqui da tradição do folclore haitiano, pesquisada por Wade Davis e publicado em seu hoje clássico A Serpente e o Arco-Iris, que virou um bom filme dirigido por Wes Craven em 1988) são criaturas da paranóia nuclear, fruto de mutações geradas pela radiação das bombas atômicas, ou, como na série de games e de filmes Resident Evil, por um vírus (o livro Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson, também trata disso - esqueçam a péssima versão para o cinema estrelada por Will Smith).

Octavio aceitou o livro como ele veio - como uma narrativa passada no Velho Oeste (no caso específico, a fronteira dos EUA com o México, em fins do século 19), envolvendo amor, morte, tiros e zumbis. Não que ele não tenha podido ou querido ler algo mais nessa narrativa; ele simplesmente fez a leitura mais evidente e mais impactante de Areia... - que é necessariamente a primeira leitura que se faz de um livro. E a leitura que mais lhe agradou.

Em sua entrevista para o Pós-Estranho, Xerxenesky nega: para ele, um charuto nem sempre é apenas um charuto. Areia... é mais do que isso, aliás, Areia... nem é isso:

Seria minha história um faroeste com zumbis? Duvido muito. Claro que tem esses elementos aos montes, claro que trabalha com toda essa carga cultural que me inspirou desde a adolescência, mas a verdade é que uso o termo "faroeste com zumbis" mais como método de despertar o interesse do leitor. Sempre acho que escrevi um romance sobre o ato de escrever, sobre como a literatura não pode corrigir ou alterar a realidade, mas como ela é uma boa maneira de aliviar o seu peso.

Peço licença para discordar.

É claro que Areia nos Dentes pode ter diversas leituras. Ele pode ser lido como a busca do pai, ele pode ser lido como uma experiência formal inovadora para os padrões brasileiros, tão acostumados à falta de storytelling e a uma estrutura narrativa mais próxima da literatura francesa e sua tradição de contes philosophiques, muito mais interessados na forma como a situação e o sentimento dos personagens se desenrolam do que na história propriamente dita, muitas vezes considerada secundária ou até mesmo um obstáculo indesejável (com as honrosas exceções de Raymond Queneau, Georges Perec e o grupo OuLiPo, que buscou e conseguiu um equilíbrio entre forma e conteúdo, e das novissimas gerações, representadas por Michel Houllebecq).

E pode também ser lido como um western com zumbis.

Isso não é absolutamente nenhum demérito para Areia nos Dentes nem para Antônio Xerxenesky, pelo contrário. Xerxenesky parece seguir, voluntariamente ou não, os passos de um grande escritor gaúcho que não tinha medo da narrativa: Érico Veríssimo. Em sua saga O Tempo e o Vento, Veríssimo explora a história do Sul do Brasil ao longo de séculos, numa narrativa mais influenciada pelas sagas épicas anglo-americanas que pela textualidade francesa, então em voga no Brasil.

O próprio Xerxenesky assume essa ligação com a narratividade contemporânea ligada aos EUA:

Somente depois de ler Cormac McCarthy que vi que era possível uma literatura que rompesse a obviedade e as limitações de trabalhar-se com o gênero faroeste. A mescla com o horror (no caso, os filmes de zumbis) também veio por meio dessas paixões naturais.

Então percebemos que um charuto é um charuto - além de ser também muito mais que um charuto.

Leiam Areia nos Dentes sem medo de enfrentar uma narrativa intelectualizada ao extremo. Xerxenesky é um intelectual de primeira água, mas está muito longe de ser chato, tanto pessoalmente quanto em seus escritos (aliás, faríamos muito bem se abandonássemos de vez essa visão preconceituosa do intelectual-como-chato e do papo-cabeça-como-algo-incompreensível. Não é nada disso, meus leitores e leitoras, não é por aí que a banda toca). Xerxenesky segue, ainda que apenas em parte, a estratégia narrativa de Ricardo Piglia: conta uma história na superfície e outra no fundo. Embora ele pareça gostar mais da narrativa de fundo (e é um direito dele como criador, foi o que o motivou), os leitores poderão perfeitamente se identificar com a narrativa da superfície (que não é superficial, prestem bem atenção). E se divertir com um livro que entretém sem ser raso. E que faz pensar sem ser didático.

Mas o mais importante mesmo (e, para mim, a principal razão pela qual vocês devem ler este livro correndo) é que Areia nos Dentes é um livro bom. Um livro bem escrito. Um livro que respeita a inteligência do leitor. Um livro que atesta a inteligência de seu autor.

Xerxenesky está apenas no começo: há muito que ler, muito que conhecer, muita estrada para percorrer. Mas que começo brilhante.

Antônio_Xerxenesky

Ele foi um dos finalistas ao Prêmio Açorianos de Melhor Romance do Ano em 2008 com seu livro de estréia, Areia nos Dentes. É um dos editores da gaúcha Não Editora, que em um ano de vida ganhou o Prêmio Açorianos e, com seus romances e as coletâneas de literatura fantástica Ficção de Polpa, tem tudo para se firmar em 2009 como uma das melhores editoras brasileiras quando o assunto é a nova literatura que se faz aqui hoje. O Pós-Estranho saúda o ano que se inicia apresentando uma entrevista inédita e exclusiva com Antônio Xerxenesky.


Pós-Estranho: Primeiro, as perguntas de lei: como foi que você se interessou pela escrita? O que é que te motivou? E quando você começou a escrever?

Antônio Xerxenesky: Pois, como a maioria de escritores, me interessei pela escrita porque lia muito. A pergunta que deve vir antes é: por que eu lia muito? Bom, minha mãe é formada em crítica literária, e nossa casa sempre portou uma grande biblioteca. Pode-se dizer que sou um cara de sorte por isso. Comecei a escrever com 16 anos, embora só tenha escrito com um mínimo de seriedade a partir dos 18. Fui motivado por duas coisas: o livro Dentes Guardados, do Daniel Galera, que me provou que um garoto jovem podia escrever uma literatura interessante, e o livro Bestiário, de Julio Cortázar, que foi uma verdadeira aula de contos. O engraçado é que hoje em dia, por mais que eu continue gostando desses escritores, os dois livros que mencionei não me dizem muito.

PE: Quais são suas influências literárias? O que é que você gosta de ler e o que é que você sente que te inspira? Quando você escreve, pensa em que escritor ou escritores, se é que pensa?

AX: Claro que penso em outros autores quando escrevo. Não sofro a tal da angústia da influência, nem acredito em criação pura. Uma produção literária carrega dentro de si todo um mosaico de outros textos digeridos, carrega todas as minhas leituras. Sendo assim, admito sem medo que sou fã dos escritores ditos "pós-modernistas" norte-americanos e ingleses, como Thomas Pynchon, Ian McEwan e Cormac McCarthy. Eles foram as principais influências do meu romance Areia nos Dentes. Entretanto, recentemente tenho lido muito Enrique Vila-Matas, Roberto Bolaño, Alan Pauls, e acho que meu próximo livro refletirá essa "mudança de gosto".
Não listei clássicos, mas sou entusiasta dos mais óbvios: Moby Dick, Dom Quixote, Ulisses, Memórias Póstumas de Brás Cubas...

PE: O personagem do conto On/Off (FdP 2) assume que sempre teve "uma queda por ficção científica e bula de remédio". E você? Antônio Xerxenesky tem essa queda? (tanto pela FC quanto por bula de remédio)? O que você leu ou lê em termos de FC?

AX: Embora o conto On/Off tenha sido publicado só agora, escrevi o texto há alguns anos atrás. Quando escrevi, lia muito mais ficção-científica do que leio agora. Era obcecado especialmente por Philip K. Dick, devo ter lido mais de metade de sua obra. Também era apaixonado pela série Rama, do Arthur C. Clarke, pelos contos do Ray Bradbury e por alguns livros do Gibson, como Idoru. Ainda tenho um grande carinho por esses autores, mas confesso que estou um tanto defasado em termos de produção contemporânea de sci-fi (embora tenha coletado várias dicas com o pessoal do Invisibilidades para reparar esse problema). Não obstante, o tema, a ambientação, as idéias da ficção-científica sempre me atraíram e continuarão me atraindo.
Agora, se formos pensar em ficção-científica em termos mais abrangentes, para além dos clássicos, continuo lendo muita coisa interessante. O já-citado Pynchon, por exemplo, e um livrinho maravilhoso do David Mitchell chamado Cloud Atlas (que tem dois segmentos que podem ser chamados de ficção-científica brincando). Se fosse para dizer "que tipo de sci-fi eu gosto hoje", diria que gosto daquele que transcende os conceitos do próprio gênero.
E quanto às bulas de remédio... bom... o que eu posso dizer? Já tive meu passado hipocondríaco...


PE: Areia nos Dentes: como surgiu esse livro?

AX: Essas perguntas de "origem" sempre me detonam. Como surgiu? O que leva alguém a escrever um "faroeste com zumbis"? Não sei. O western sempre foi uma grande paixão minha. Sergio Leone é meu diretor favorito desde que me conheço como cinéfilo. O desejo de escrever algo do gênero sempre me interessou, mas somente depois de ler Cormac McCarthy que vi que era possível uma literatura que rompesse a obviedade e as limitações de trabalhar-se com o gênero faroeste. A mescla com o horror (no caso, os filmes de zumbis) também veio por meio dessas paixões naturais.
Mas isso é pensar apenas nos temas. A vontade de escrever Areia nos Dentes veio de outras fontes. Eu queria trabalhar, em especial, com a idéia de "necessidade de matar o pai" da qual Freud tanto fala. Somei isso à noção central da pós-modernidade de mesclar alta e baixa cultura: ou seja, tentei colocar Freud no Velho Oeste, um Oeste construído, artificial e mitificado. E mais, experimentei com o desejo de romper com um realismo estéril: usei um narrador mentiroso, nada confiável, que pode ficar embriagado, que pode esquecer detalhes, que pode fingir. Um verdadeiro manipulador. Lição que tirei de Pynchon.
Seria minha história um faroeste com zumbis? Duvido muito. Claro que tem esses elementos aos montes, claro que trabalha com toda essa carga cultural que me inspirou desde a adolescência, mas a verdade é que uso o termo "faroeste com zumbis" mais como método de despertar o interesse do leitor. Sempre acho que escrevi um romance sobre o ato de escrever, sobre como a literatura não pode corrigir ou alterar a realidade, mas como ela é uma boa maneira de aliviar o seu peso. Se não conseguimos matar o pai (metaforicamente) na vida real, devemos tentar por meio da arte. O narrador pode fracassar, mas escrever é esse tentar constante. E os leitores mais atentos perceberão que até a dedicatória antes do livro ajuda a compor essa visão da escrita.

PE: Você se considera um escritor pop?

AX: O que é um escritor pop? Na minha cabeça, penso na prosa de Nick Hornby, autor de "Alta Fidelidade", ou, nacionalmente, em Clarah Averbuck. Não sei, acho que meu estilo é bem diferente. Admito que um "faroeste com zumbis", com todo seu exagero, sua mitificação, seja uma premissa bem digna de Quentin Tarantino ou Robert Rodriguez. Mas, ao mesmo tempo, tento visitar "lugares discursivos" que eles não freqüentam. A verdade é que não sei responder essa pergunta. Pop é popular. Eu, pessoalmente, não acho que meu livro agrade a todos, ou a um grande público. Quem me dera agradasse, estaria com a carteira cheia de grana. Porém, como não estou nessa para ganhar dinheiro ou fazer carreira, me dou o luxo de ser um tanto esquisito e complicado. Acho (talvez seja otimista demais) que meu livro tem vários níveis de leitura, e múltiplas possibilidades de interpretação. Se lido simplesmente como um pastiche de western, talvez sim, seja um livro pop.

PE: Qual é o teu próximo projeto? Ou projetos?

AX: Já reescrevi cinco vezes um primeiro capítulo do meu novo romance. Estou com uma caderneta lotada de idéias que não vão a lugar nenhum e com a cabeça mais cheia ainda de planos. Alguma hora desencalho, e então sai meu novo romance. A única coisa que é certa é que o próximo livro será uma narrativa longa. E acho que o enredo vai se passar no futuro, talvez em 2022. Como eu disse antes, as referências apontarão mais para os novos escritores latino-americanos, como Bolaño, Pauls e Fresán. Enquanto isso, os leitores terão acesso ao meu conto que será publicado no Ficção de Polpa 3, um texto do gênero fantástico que trabalha com a figura do duplo, bem inspirado em William Wilson do Poe.

Esta lista fecha minha série de 2008. Nela, ao contrário dos contos, novelas e noveletas, misturo brasileiros e estrangeiros com alegria e prazer, porque foi um ano muito rico para todos nós.


Joe Abercrombie, The Blade Itself


Jonathan Carroll, The Ghost in Love


Jeff Carlson, Plague Year


Michael Chabon, Gentlemen of the Road


Michael Chabon, The Yiddish Policemen´s Union


David Louis Edelman, Infoquake


David Louis Edelman, Multireal


Neil Gaiman, The Graveyard Book


William Gibson, Spook Country


Otis Adelbert Kline, The Swordsman of Mars


Ian McDonald, Brasyl


Flávio Medeiros, Quintessência (infelizmente, não encontrei o livro no sites da Cultura, da Saraiva, da FNAC e da Amazon)


Patrick Ness, The Knife of Never Letting Go


Chris Roberson, End of the Century


Chris Roberson, The Dragon´s Nine Sons


John Scalzi, Old Man´s War


Ekaterina Sedia, The Secret History of Moscow


Ekaterina Sedia, The Alchemy of Stone


Liam Sharp, God Killers


Antônio Xerxenesky, Areia nos Dentes

Acabo de chegar de viagem. Terminando de ler um dos MELHORES LIVROS de 2009 - não, eu *ainda* não estou maluco, é que recebi uma Advance Review Copy de um livro que só será publicado em janeiro do ano que vem: End of the Century, de Chris Roberson. Esse cara está virando um dos meus autores prediletos. Depois de ter lido diversas histórias dele, entre as quais o conto ganhador do Sidewise Awards de 2003, O One (que, por uma grande injustiça, esqueci de acrescentar à minha lista dos melhores contos lidos em 2008 - mas fica aqui o acréscimo) e The Dragon´s Nine Sons, eu me rendi à categoria desse texano que está criando um multiverso (chamado por ele de Miríade) do mesmo nível literário e criativo do de Michael Moorcock em suas histórias do Eternal Champion. Aguardem em 2009 um conto dele na TERRA INCOGNITA. E, antes do fim de 2008, uma mini-resenha de End of the Century e de outros livros considerados YA nos EUA mas que podem ser lidos por leitores de todas as idades sem medo.

pkd


Se vivo fosse, Philip K. Dick estaria completando 80 turbulentas primaveras hoje. A amiga e colega Adriana Amaral está promovendo em seu blog a Semana PKD. Cada dia um post, não deixem de conferir!!

Airman

Airman, de Eoin Colfer - Um livro steampunk do criador da série Artemis Fowl, que por sua vez também não é absolutamente nada do que eu esperava.

Para ser sincero, eu não esperava nada dessa série, porque não havia me interessado em lê-la até agora - mas, depois de começar a ler Airman e navegar um pouco pela Web para conhecer um pouco da história da série premiada de Coifer, agora fiquei com vontade. 2008 foi um ano fundamental para detonar de vez meus preconceitos contra a literatura dita infanto-juvenil.

Ele conseguiu o que só Henrique V. Flory havia conseguido: publicar dois livros seguidos em dois anos. (E, se vocês, meus leitores, não sabem quem é Henrique V. Flory, não os culpo, pois ele parou de escrever FC e hoje escreve livros de Administração, mas mesmo assim vocês perderam uma parte importante da história da FCB dos anos 1980/1990).

Estamos falando de Tibor Moricz, um dos autores mais comentados dos últimos tempos na comunidade de ficção científica brasileira. Depois de lançar Síndrome de Cérbero no começo de 2007, Tibor encerra 2008 com fome, ou melhor, com FOME, seu livro mais recente. Abaixo, uma entrevista inédita que Tibor concedeu exclusivamente para este blog, por e-mail.



Pós-Estranho - Para os leitores que não o conhecem: quem é Tibor Moricz? Fale um pouco de você.

Tibor Moricz - Nasci em São Paulo e morei aqui até os 14 anos, quando minha família se mudou para Araçatuba. Ficamos por lá até que eu fizesse 20 anos, viemos então para o Litoral de São Paulo, onde meus avós tinham uma pensão. Até hoje alterno momentos em Sampa e no Litoral. Mas minha residência fixa, hoje, é em Solemar na Praia Grande.
Sou um otimista por definição. Acredito que coisas boas virão (espero sempre que venham, espero... espe...ro...zzzzz) (risos).
Sou confiante, resoluto e firme nas minhas convicções. Sou um cara em constante mutação. Fica difícil ter um registro de mim mesmo nessas circunstâncias. Me adapto ao ambiente, sou camaleônico.


PE - Qual é o seu método? Você tem alguma disciplina para escrever?

TM - Sou completamente indisciplinado.
Escrevo quando me dá na telha e geralmente sem nenhuma idéia pré-concebida, nem argumento, nem roteiro, nem porra nenhuma. Simplesmente sento e começo a bater no teclado. Romances exigem um pouco mais de disciplina e para eles dedico algum tempo construindo um esqueleto que servirá sempre para firmar o capítulo seguinte (jamais a história toda).


PE - O que você acha da FC aqui e lá fora?

TM - Lá fora tenho muito pouco para achar. Meu inglês é bom para navegar pela Internet sem tropeços, mas fraco para a literatura. Além dos clássicos não conheço ninguém, fora o pouco que é traduzido aqui no país.
Me sirvo então do cardápio variado que a FC brasileira me oferece. Temos excelentes autores e um mercado que vai se abrindo ao gênero gradativamente.
Cada vez mais títulos vão sendo despejados, não só de FC, mas também de Fantasia. Tem muita coisa ruim, mas também muita coisa boa. Destaque para a Christie com seu excelente Fábulas do tempo e da eternidade.


PE - Quais são seus autores preferidos (tanto de FC quanto de qualquer outro gênero)?

TM - Não tenho autores preferidos. O melhor é aquele que está na leitura da vez. Sou um leitor atípico, não me prendo a autores, nem gêneros. Não conseguiria elaborar uma lista de preferências.

PE - Que autores influenciam sua escrita?

TM - Se sofro influências, elas vem de uma sopa primitiva, formada pela leitura de vários autores desde minha adolescência. Não consigo definir isso, não conseguem definir isso.


PE - Quais são seus próximos projetos literários?

TM - Sou um escritor indisciplinado, um leitor atípico e um péssimo projetista. Não faço projetos. Tenho um romance em avaliação numa importante editora em regime de exclusividade e outra obra em andamento; um romance que mistura discos voadores e aparições religiosas. Além disso, apenas um quadro negro, alguns gizes e muita disposição. Mas cada coisa a seu tempo. Não projeto nada para o futuro. Cada obra, seja conto ou romance, nasce ao sabor do acaso.


PE - Você tem fome de quê?

TM - De ver a literatura de gênero receber no país a importância que deveria ter. De encontrar colunas nas mídias mais importantes, discutindo o gênero. De ver a boa literatura vencer e a má definhar, vencida pelas engrenagens de mercado. De ver excelentes autores como você, Fábio, e outros, publicados e fazendo o sucesso que tanto merecem.

Além de Síndrome de Cérbero e Fome, Tibor terá um conto inédito publicado no número três da revista TERRA INCOGNITA, que estará online ainda esta semana.

A primeira semana de dezembro tem tudo para fechar o que já chamei (e continuo chamando) de Annus Mirabilis da Ficção Científica Brasileira com chave de ouro, platina, adamantium, escolham o metal. Anotem as datas dos eventos que vão sacudir São Paulo nos próximos dias:

3 de dezembro:

LANÇAMENTO DO LIVRO TEMPO FECHADO (HEAVY WEATHER), DE BRUCE STERLING

Local: FNAC Pinheiros - 3º andar
Praça dos Omaguás 34 - Pinheiros - S.Paulo - SP
Horário: 19h
Debate sobre o Tema: Mudanças climáticas - Ficção e realidade no futuro da humanidade
convidados:
Profa. Dra. Rita Yuri Ynoue (Doutora em meteorologia com expeeriência em Geociências - química da atmosfera atuando com: poluição urbana, modelagem fotoquimica, ozônio, aerossol urbano e distribuição de tamanho do material particulado.

Profa. Dra. Leila M. Vespoli de Carvalho (coordenadora do GEM no IAG / USP) com experiência em climatologia nos temas: oscilações infra-sazonais, extremos climáticos da Antártica; oscilação antártica e mudanças climáticas.

Prof. Dr. Fábio Fernandes - Doutor em Comunicação e Semiótica, jornalista, tradutor e escritor, autor dos livros Interface com o Vampiro (Writers, 2000) e A Construção do Imaginário Cyber (Anhembi Morumbi, 2006), criador dos blogs Pós-Estranho, em português, e Post-Weird Thoughts, com Jacques Barcia, em inglês.

Mediador: Douglas Quinta Reis editor da Devir Livraria

4 de dezembro:


LANÇAMENTO DO LIVRO FOME, DE TIBOR MORICZ

convite_fome


5 de dezembro:


LANÇAMENTO DO PORTAL NEUROMANCER


Convite_Portal_Neuromancer


UPDATE: No dia 6 é provável que tenhamos um outro lançamento, desta vez virtual - aguardem aqui confirmação, junto com hora e local (mas será em São Paulo, assim como todos os eventos acima)

Quem me cantou a pedra (ou no caso, os ossos e as ataduras, take your pick), foi o mestre Octavio Aragão, criador do sensacional universo da Intempol:

Graças ao auxílio luxuoso de Fernando Trevisan, a webcomic A Mortífera Maldição da Múmia, uma produção da equipe Calango Produktado baseada no conto homônimo de Carlos Orsi, publicado originalmente na antologia Intempol (Ano Luz, 2000), organizada por mim, ressuscitou e passa bem.

http://www.mortiferamaldicaodamumia.site40.net/mmm/

Vão lá e curtam!

Estão esperando o quê? Pedido de Octavio Aragão é ordem! :-)

tempo_fechado

Chegou outro dia mas só agora estou lendo (em português, porque eu já havia lido o original há alguns anos): Tempo Fechado, do mentor cyberpunk Bruce Sterling.

Sterling tem pouca coisa publicada no Brasil, e a maioria já está esgotada. Portanto, esse lançamento é uma excelente iniciativa da Devir, que aplaudo. O livro terá lançamento no próximo dia 3 de dezembro, na FNAC Pinheiros, com a participação deste humilde escriba (mais detalhes na seqüência). Obrigado à assessoria de imprensa da Devir pelo envio. Aguardem resenha em breve aqui.

Em tempo: Bruce Sterling cedeu generosamente um conto para publicação no número 4 da TERRA INCOGNITA. A edição estará disponível no final de dezembro.

Eu não disse no meu último post sobre leituras, mas o caso é que ando me apaixonando pela literatura infanto-juvenil - ou o que dizem que é literatura infanto-juvenil, ou YA (young adult), pelo menos nos países de língua inglesa. E que eu não acho que seja tão infanto assim - ou, melhor, que já deixou de ser faz tempo.

Não vou escrever nenhum ensaio aqui agora, mas o caso é que eu recentemente publiquei no Fantasy Book Critic (e em breve também no Post-Weird) uma resenha do EXCELENTE e IMPERDÍVEL livro The Knife of Never Letting Go, do inglês Patrick Ness.

Tendo acabado de ler também outra pequena pérola (ok, eu sei que é clichê, mas o que é que eu possa fazer se é verdade?), The Graveyard Book, da dupla Neil Gaiman/Dave McKean, e também lendo agora Un Lun Dun, o infanto-juvenil do mestre da New Weird, China Miéville (quem ainda não leu a GRANDE entrevista que meu amigo e sócio Jacques Barcia fez com ele, faça o favor de clicar aqui, ora pipocas).

E ainda tenho mais um livro na fila (End of the Century, de Chris Roberson, que tem um conto escalado para uma edição futura da TERRA INCOGNITA). Enfim, é livro que não acaba mais.

Mas o que todos esses livros têm em comum? Todos (com talvez a exceção do livro de Neil Gaiman) apresentam adolescentes que fogem aos estereótipos nos quais os adultos (ou seja, nós, estes ex-adolescentes que vêem essa fase da vida como se pertencesse a outra era geológica, e não há uma ou duas décadas, tão pouco tempo na vida do nosso universo) os tentam enquadrar. Os livros são pé-na-cara, pé-em-deus-e-fé-na-taba, com histórias sobre ritos de passagem, onde os protagonistas sofrem, amam, têm desilusões, mas conseguem se virar no mundo sem os adultos (bom, talvez com a little help de vez em quando), e saem de suas experiências com outro olhar sobre o mundo, outra visão, outro Weltanschaaung, como se diz em filosofia e psicanálise.

Aguardem em breve resenhas desses livros e mais considerações sobre essa nova literatura para jovens que serve, hoje mais do que nunca, para adultos.

UPDATE: A resenha de The Graveyard Book que fiz para o Fantasy Book Critic acabou de sair, aqui.



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  • Jornalista, tradutor. Escritor, roteirista e dramaturgo. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Pesquisador de cibercultura e professor do cursos de Tecnologia e Mídias Digitais e Jogos Digitais da PUC-SP. Interesses de pesquisa: comunicação e cibercultura, semiótica, teoria literária, ficção científica, tribos e subculturas, novas mídias, games.
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