Recentemente uma amiga me procurou chateada porque recebeu uma péssima resenha sobre sua mais recente tradução. Entre outras coisas, o jornalista que leu o livro disse que a tradução tinha de ser mais "competente" e "inspirada".
Não vou fazer aqui uma análise do livro, porque, confesso, não o li, nem no original, nem na tradução. Tradutores não são perfeitos; minha colega de ofício e ex-chefe em nossa gestão à frente do Sindicato dos Tradutores, em meados da década de 1990, Lia Wyler, quando interpelada sobre escolhas específicas de determinados termos na série Harry Potter - que ela traduziu com muita eficiência, diga-se de passagem - respondeu mais ou menos o seguinte (cito de cabeça): "cada tradutor traduz o texto de seu jeito, a tradução não é uma ciência exata".
Ela está certa. Desconfiem sempre de quem diz o contrário e vem com fórmulas prontas. Tradução é o famoso mix de arte e técnica, tekhné no melhor sentido grego clássico, e é sempre muito complicado criticar a tradução se o crítico não for ele próprio alguém que labuta nesse ofício.
Quando trabalhei na Encyclopaedia Brittanica (onde traduzi alguns verbetes dos anuários), meu chefe, Donaldson Garschagen, jornalista e tradutor responsável pela primeira versão (e creio que a única até hoje) de A Cidade e as Estrelas, de Arthur C. Clarke, para o português, passou por uma situação ainda mais constrangedora: quando traduziu o clássico Nostromo, de Joseph Conrad, para a Editora Record, um resenhista da Folha de São Paulo decidiu fazer um cotejo (comparação) entre a tradução dele e a do saudoso poeta e ensaísta José Paulo Paes, feita na mesma época e lançada pela Companhia das Letras. Afinal, como a obra de Conrad já caiu há muito em domínio público, qualquer editora pode publicá-la sem problemas.
Pois bem, o resenhista já mostrou qual era seu propósito desde o começo: desacreditar a tradução de Donaldson. Estou sendo parcial porque o sujeito foi meu chefe? Não, e explico porquê: em seu artigo, o jornalista disse que a tradução de Donaldson estava errada (não inadequada, não imprecisa, errada mesmo), e citou um exemplo. Donaldson traduziu a palavra cupidity como cupidez, e não como ganância, que seria o correto - e foi como Paes traduziu.
Acontece que o livro foi escrito em 1905, e qualquer estudante de ginásio que tenha se dado ao trabalho de ler Machado de Assis vai encontrar em seus livros a palavra cupidez, que significa... ganância! A opção de Donaldson foi manter uma linguagem mais antiga, machadiana; a de Paes foi modernizar a linguagem sem descaracterizá-la. Quem está errado? Nem Donaldson, nem Paes: o jornalista errou. Porque cometeu um crime de injúria, calúnia e difamação. Na época, Donaldson escreveu uma carta para o jornal, que não se retratou. Pouco tempo depois, os livreiros começaram a devolver a edição da Record, porque ninguém queria mais comprá-la, alegando que não comprariam uma tradução "cheia de erros".
Voltando à minha amiga: ela me disse ter feito um trabalho competente e inspirado, e estava tendo um retorno muito bom dos fãs, mas que a resenha a havia deixado sem chão. Até pouco tempo atrás, ela estava tentando entrar em contato com o jornalista, não para tirar satisfação, porque ela é uma pessoa educadíssima e tranqüila, mas simplesmente para que ele pudesse esclarecer por que motivos ele achou que a tradução estava ruim (em tempo: ele NÃO DEU NENHUM EXEMPLO de tradução em sua resenha).
Esse é um dos tipos de crítica mais rasteiros que existem. Digo rasteiros não para ofender, mas para criticar mesmo o trabalho do crítico. Como jornalista, sei que nosso espaço no jornal ou na revista e muito pequeno para entrarmos em detalhes, mas uma de nossas primeiras lições de jornalismo (e quem mestres como Perseu e Cláudio Abramo nos ensinaram) é: tenha como provar aquilo que você afirma. Quando não faz isso, o crítico não está apenas colocando na berlinda o trabalho do criticado, mas também o seu próprio.
Não conheço o coleguinha pessoalmente, mas soube por conhecidos que ele é uma boa pessoa, mas um pouco intenso demais em suas críticas. E conheço pessoalmente a tradutora, cujo nome não cito aqui porque ela não me autorizou (e nem acho que seria pertinente, pois o importante aqui é o caso, não os nomes), mas ela traduziu uma das obras mais importantes da literatura dos últimos anos, e o fez com afinco, recebendo elogios de todos os veículos que o resenharam. Portanto, ela não pode ser uma tradutorazinha qualquer.
Moral da história? Seja você tradutor ou não, não se deixe depreciar. Robert A. Heinlein dizia que o crítico literário é o sujeito que não teve competência para ser escritor. Não concordo inteiramente (até porque eu exerço os dois papéis), mas talvez esse possa ser o caso em questão.