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Não, esta não é mais uma crítica sobre Brasyl, de Ian McDonald. É uma reflexão (ou melhor, um resumo de reflexão) sobre a nossa condição no contexto da ficção científica mundial, com base na leitura de outros dois livros.

Acabo de ler The Dragon´s Nine Sons, de Chris Roberson, e Crystal Rain, de Tobias Buckell. Dois livros muito diferentes e ao mesmo tempo muito semelhantes. Em que sentido? Explico: são livros escritos por dois autores de língua inglesa que praticamente não apresentam (como Brasyl) personagens de extração anglo-saxônica. Em The Dragon´s..., somos apresentados a um universo alternativo em que os chineses dominaram o mundo a partir do século XV, sendo enfrentados somente pelo Domínio Mexica, de descendentes de astecas. Roberson, que ganhou o Sidewise Award de 2004 de melhor conto de história alternativa com o conto O One (disponível na Web grátis), ambientado no mesmo universo, é americano e vive no Texas, mas tem um interesse especial por história e por civilizações diferentes daquela na qual foi criado.

O mesmo acontece com Tobias Buckell. Nascido no Caribe (em Granada, tendo vivido também nas Ilhas Virgens) e atualmente residindo em Ohio, EUA, Buckell é branco mas tem uma relação quase baiana com a negritude caribenha. Isso se traduz em sua trilogia de space opera que começa com Crystal Rain, e continua com Ragamuffin e Sly Mongoose. Ao contrário da história de Roberson, Buckell escreve sobre o futuro distante e colônias da Terra que foram ocupadas em sua maioria por descendentes de caribenhos (embora vejamos descendentes de europeus também, especialmente franceses, mas que são minoria).

As histórias são cheias de ação e fascinantes: The Dragon´s Nine Sons se passa no equivalente cristão do ano de 2052, em Marte (ou Estrela de Fogo, como os chineses batizaram o quarto planeta do sistema solar), e mostra uma missão suicida levada a cabo por nove soldados e oficiais do Império Celestial condenados à morte. É uma mistura de Os Sete Samurais com Os Doze Condenados com filmes de ação americanos. E sabem do que mais? Funciona maravilhosamente. O livro tem ação (muita), reflexão e nos deixa com vontade de conhecer ainda mais esse universo. Em janeiro teremos mais uma oportunidade, com o lançamento do próximo romance do Império Celestial, Three Unbroken.

Já a trilogia de Buckell também é pródiga em cenas de ação, perseguição e mortes - principalmente cenas de sacrifício dos Azteca, um povo que divide a contragosto o planeta Nanagada com os de origem caribenha. E, quando os Azteca (cujos "deuses" na verdade são alienígenas sedentos de sangue) decidem que está na hora de tomar o planeta, cabe a um homem desmemoriado (alguém aí falou em A Identidade Bourne?) lutar, com a ajuda de um agente duplo Azteca, para salvar seu povo das garras do inimigo.

Várias considerações podem ser feitas a partir de uma leitura superficial dos dois livros. Para começar, a questão dos descendentes dos astecas como guerreiros sangrentos e enlouquecidos - o que, embora seja uma visão interessante para mídias como o cinema e a literatura, pode não ser tão bem visto para os descendentes atuais dos astecas, do quéchuas e outros povos indígenas nativos das Américas Central e do Sul, e do México.

A outra questão é mais interessante e menos focada no politicamente correto: a exemplo de Brasyl, esses livros não estariam representando uma espécie de linha de frente de um mix cultural bastante favorável a todos nós nesses tempos de globalização? Será que não está na hora de nós, brasileiros, aproveitarmos isso e escrevermos mais e melhores histórias sobre nós e nossa condição, extrapolando-a para o futuro ou as estrelas, como Roberson e Buckell estão fazendo de modo brilhante?

Cartas para a redação.

Quem avisa é o amigo Rodolfo Londero, da UFMS:

Acabou de sair o mais novo número da revista acadêmica "Literatura e Autoritarismo", organizada pelos professores Rosani Umbach e João Ourique, além de mim. Nela encontram-se dois artigos sobre ficção científica:

Um de minha autoria, intitulado "E se Hitler escrevesse uma ficção científica?: uma análise de O SONHO DE FERRO, de Norman Spinrad":

http://w3.ufsm.br/grpesqla/revista/num12/art_10.php

E outro de Ramiro Giroldo, intitulado "Higienismo na ficção científica brasileira: da utopia à distopia":

http://w3.ufsm.br/grpesqla/revista/num12/art_09.php

Boa leitura a quem interessar!

E como interessa! Bons artigos, sintonizados com a produção crítica mais recente de FC daqui e lá de fora. Altamente recomendados.

Já se passou quase uma semana e eu não falei nada aqui da alegria que foi participar da Fantasticon. Sem dúvida até o momento o melhor evento da área de FC e Fantasia do ano, a Fantasticon, organizada pelo Sílvio Alexandre, se tornou referência na área já em sua segunda edição. De Jorge Luiz Calife a Bráulio Tavares, passando por Guilherme Kujawski, Ana Cristina Rodrigues e Jacques Barcia, incluindo este que vos digita e escritores da novíssima safra como Cristina Lasaitis, Clinton Davisson e Tibor Moricz, estava todo mundo lá.

Foram tantas emoções (mesmo) que não dá para resumir tudo - ainda mais que eu, infelizmente, só pude ir no domingo, e o sábado reservou agradavéis momentos para quem foi. Um dos que foram nos dois dias e escreveu nada menos que TRÊS artigos sobre o evento foi o Fernando Trevisan, que, com olho analítico de jornalista, escreveu tanto e tão bem que qualquer coisa que eu diga se torna desnecessária. Deixo vocês, portanto, com os links para os textos deliciosos do Fernando, a saber:

Parte Um: Chegada a SP e primeiras impressões

Parte Dois: As mesas do sábado

Parte Três: As mesas do domingo.

Espero que gostem - e animem a ir ao próximo evento, em 2009!

Agora já posso contar: fui convidado para integrar a equipe do Le Monde Diplomatique online como colaborador mensal. Todo mês, um artigo, uma resenha ou uma crítica. Hoje, uma crítica sobre um livro que provocou muita polêmica aqui mesmo neste blog. No mês que vem, um livro de Vladimir Nabokov. Depois, provavelmente literatura fantástica. E la nave va: o Altíssimo (Chuck Norris, claro) fecha uma porta (com um soco) e abre uma janela (com um roundhouse kick). Muito obrigado ao Rodrigo Gurgel pelo convite. E aguardo vocês por lá também, para críticas e comentários.


O convite é da inglesa Victoria Hoyle, que faz parte do coletivo de escritoras do blog Eve´s Alexandria: uma leitura coletiva de Ulysses, de James Joyce, a começar em 16 de junho, no chamado Bloomsday (pra quem não sabe, a data que consta do próprio livro, o dia em que se passa a ação da história).

Ela não chegou a estabelecer nenhuma regra específica, mas pediu que todo mundo que quiser participar escreva um post no dia 16, dando suas primeiras impressões, e depois vá postando em seus blogs periodicamente, do jeito e na freqüência que achar mais conveniente.

Estendo o convite para meus conterrâneos, o que quer dizer: está valendo tanto ler no original quanto em tradução. O importante é ler. E comentar.

Alguém me acompanha nessa?

Recentemente uma amiga me procurou chateada porque recebeu uma péssima resenha sobre sua mais recente tradução. Entre outras coisas, o jornalista que leu o livro disse que a tradução tinha de ser mais "competente" e "inspirada".

Não vou fazer aqui uma análise do livro, porque, confesso, não o li, nem no original, nem na tradução. Tradutores não são perfeitos; minha colega de ofício e ex-chefe em nossa gestão à frente do Sindicato dos Tradutores, em meados da década de 1990, Lia Wyler, quando interpelada sobre escolhas específicas de determinados termos na série Harry Potter - que ela traduziu com muita eficiência, diga-se de passagem - respondeu mais ou menos o seguinte (cito de cabeça): "cada tradutor traduz o texto de seu jeito, a tradução não é uma ciência exata".

Ela está certa. Desconfiem sempre de quem diz o contrário e vem com fórmulas prontas. Tradução é o famoso mix de arte e técnica, tekhné no melhor sentido grego clássico, e é sempre muito complicado criticar a tradução se o crítico não for ele próprio alguém que labuta nesse ofício.

Quando trabalhei na Encyclopaedia Brittanica (onde traduzi alguns verbetes dos anuários), meu chefe, Donaldson Garschagen, jornalista e tradutor responsável pela primeira versão (e creio que a única até hoje) de A Cidade e as Estrelas, de Arthur C. Clarke, para o português, passou por uma situação ainda mais constrangedora: quando traduziu o clássico Nostromo, de Joseph Conrad, para a Editora Record, um resenhista da Folha de São Paulo decidiu fazer um cotejo (comparação) entre a tradução dele e a do saudoso poeta e ensaísta José Paulo Paes, feita na mesma época e lançada pela Companhia das Letras. Afinal, como a obra de Conrad já caiu há muito em domínio público, qualquer editora pode publicá-la sem problemas.

Pois bem, o resenhista já mostrou qual era seu propósito desde o começo: desacreditar a tradução de Donaldson. Estou sendo parcial porque o sujeito foi meu chefe? Não, e explico porquê: em seu artigo, o jornalista disse que a tradução de Donaldson estava errada (não inadequada, não imprecisa, errada mesmo), e citou um exemplo. Donaldson traduziu a palavra cupidity como cupidez, e não como ganância, que seria o correto - e foi como Paes traduziu.

Acontece que o livro foi escrito em 1905, e qualquer estudante de ginásio que tenha se dado ao trabalho de ler Machado de Assis vai encontrar em seus livros a palavra cupidez, que significa... ganância! A opção de Donaldson foi manter uma linguagem mais antiga, machadiana; a de Paes foi modernizar a linguagem sem descaracterizá-la. Quem está errado? Nem Donaldson, nem Paes: o jornalista errou. Porque cometeu um crime de injúria, calúnia e difamação. Na época, Donaldson escreveu uma carta para o jornal, que não se retratou. Pouco tempo depois, os livreiros começaram a devolver a edição da Record, porque ninguém queria mais comprá-la, alegando que não comprariam uma tradução "cheia de erros".

Voltando à minha amiga: ela me disse ter feito um trabalho competente e inspirado, e estava tendo um retorno muito bom dos fãs, mas que a resenha a havia deixado sem chão. Até pouco tempo atrás, ela estava tentando entrar em contato com o jornalista, não para tirar satisfação, porque ela é uma pessoa educadíssima e tranqüila, mas simplesmente para que ele pudesse esclarecer por que motivos ele achou que a tradução estava ruim (em tempo: ele NÃO DEU NENHUM EXEMPLO de tradução em sua resenha).

Esse é um dos tipos de crítica mais rasteiros que existem. Digo rasteiros não para ofender, mas para criticar mesmo o trabalho do crítico. Como jornalista, sei que nosso espaço no jornal ou na revista e muito pequeno para entrarmos em detalhes, mas uma de nossas primeiras lições de jornalismo (e quem mestres como Perseu e Cláudio Abramo nos ensinaram) é: tenha como provar aquilo que você afirma. Quando não faz isso, o crítico não está apenas colocando na berlinda o trabalho do criticado, mas também o seu próprio.

Não conheço o coleguinha pessoalmente, mas soube por conhecidos que ele é uma boa pessoa, mas um pouco intenso demais em suas críticas. E conheço pessoalmente a tradutora, cujo nome não cito aqui porque ela não me autorizou (e nem acho que seria pertinente, pois o importante aqui é o caso, não os nomes), mas ela traduziu uma das obras mais importantes da literatura dos últimos anos, e o fez com afinco, recebendo elogios de todos os veículos que o resenharam. Portanto, ela não pode ser uma tradutorazinha qualquer.

Moral da história? Seja você tradutor ou não, não se deixe depreciar. Robert A. Heinlein dizia que o crítico literário é o sujeito que não teve competência para ser escritor. Não concordo inteiramente (até porque eu exerço os dois papéis), mas talvez esse possa ser o caso em questão.

Acabo de ser informado, por mestre Guilherme Kujawski, editor do site Cibercultura, do Instituto Itaú Cultural, que minha resenha sobre a coletânea The New Weird, editada por Ann e Jeff VanderMeer, acaba de ser publicada. Vocês podem conferir aqui.

Três semanas atrás, divulguei aqui a publicação, na edição online do jornal Le Monde Diplomatique (versão brasileira), de um artigo de minha autoria sobre ficção científica. Agora foi publicado um segundo artigo, tratando especificamente de FC brasileira. Não é nenhum tratado, e portanto não tem a menor pretensão de ser um artigo definitivo sobre o tema, mas poderá interessar a quem não conhece muito sobre o que se fez no Brasil nos últimos sessenta anos. Aguardem mais material nos próximos tempos. Obrigado mais uma vez ao editor do caderno Palavra do Diplô, Rodrigo Gurgel, pelo espaço.

Não, eu não estou falando de Barack Obama - ao menos não por enquanto. Para quem conhece bem a obra de Monteiro Lobato, o título é claro: é de um de seus livros, publicado originalmente em 1926, portanto há 82 anos (e curiosamente no mesmo ano em que Hugo Gernsback iniciou a publicação de Amazing Stories e cunhou a palavra scientifiction), o que faz todo o sentido do mundo, porque é o livro adulto de Lobato mais "science-fiction" que ele escreveu.

O Presidente Negro, que acabou de ser relançado, é também a história mais polêmica de Lobato, que nos anos 1960 foi acusado de racismo por ela. Injustamente.

Não vou entrar em detalhes agora, porque acabei de comprar o livro e vou começar a relê-lo depois de mais de vinte anos. Mas foi interessante perceber, ao entrar na livraria, que, ao contrário dos demais livros de Lobato que a Editora Globo está relançando, O Presidente Negro é o único que não está exposto à vista de todos, mas enfiado envergonhadamente no fundo de uma prateleira da seção de Literatura Brasileira. Será que os livreiros brasileiros têm vergonha desse livro de Lobato? E será que isso é um reflexo de uma suposta "vergonha" que os brasileiros teriam? Mais sobre isso muito em breve.

Pedindo licença aos meus fiéis leitores para este marketing pessoal descarado, aviso que acabo de publicar um artigo na versão online do jornal Le Monde Diplomatique. Este artigo é a primeira parte. No máximo em duas semanas sai a próxima, e em breve um conto inédito.

Muito obrigado ao Rodrigo Gurgel pela honra e pela excelente oportunidade de contribuir para uma interlocução sobre a ficção científica como uma literatura sobre a qual vale a pena conversar e debater.

O pequeno post que coloquei aqui anteontem, logo depois do tremor de terra que assustou um bocado de gente em São Paulo, me inspirou a escrever um pequeno artigo para o Webinsider. Vocês podem ler aqui.

yiddish.jpgThings are pretty hectic right now here, with translations, reviews and no less than two books of my own in the making (a novel and my doctorate thesis), so I find it easier to write more in Portuguese than I already had planned. Thing is, I read mostly in English, and, even though I find it really necessary to show to my Brazilian friends (and publishers) the treasure trove of books that they are missing, I also consider fundamental keeping a window wide open, a little something that may bridge the gap between our cultures.

This preamble is quite adequate for the book I just finished reading. Michael Chabon´s The Yiddish Policemen´s Union is, with Ian McDonald´s Brasyl, a strong candidate to both Hugo and Nebula Awards.

I already wrote a review about Brasyl here (in Portuguese, sorry), a book that I enjoyed reading -- but not as much as I liked to read The Yiddish Policemen´s Union.

The plot is a clever one, mixing elements of roman noir and espionage thriller: a man is murdered in a trashy hotel and a wasted, insomniac detective who lives in the same place ends up taking the case. It would be a run-of-the-mill detective novel... if it happened in our universe.

But it all happens in an alternate Earth, where the Jewish community was forced to get away from Israel em 1948 and accept to settle down in Alaska. As if this situation was not enough, the agreement with the U.S. was only temporary - and the murder happens less than two months to the Reversion, the return to American control. It´s a time of uncertainty, and no one can be trusted.

The atmosphere is noir, due to the cold, and perhaps tradition, everybody seems to dress like the Forties, but the year is 2008 -- exactly sixty years after the creation of the District of Sitka, where millions of Jews live now. There is the Internet, and cellphones (called Shoyfers, apparently a yiddish mobile phone brand), and, aside from this massive geographical dislocation, there are several tips pointing to other changes in that world - for instance, when Meyer Landsman, the detective, remembers a night at the movies with his ex-wife to see a Orson Wells´ classic flick -- Heart of Darkness, the famous aborted project of Wells which lead him to make Citizen Kane instead.

The dialogues are written in the best tradition of Raymond Chandler, which is to be expected but nonetheless gives the fans of detective stories a cozy, homely feeling. The story also follows a similar thread, convolute, intricate, which (specially in the end) grab us by the balls. And, boy, that can be cold in Alaska.

But not this book. Chabon did the same kind of superb job he did in The Amazing Adventures of Kavalier & Clay. My vote (if only symbolically) goes to him. In both awards.

cibertextualidades2.jpgAcabei de receber do Prof. Rui Torres o número 2 da revista Cibertextualidades, publicada pela Universidade Fernando Pessoa, da cidade do Porto, em Portugal.

Esta edição é dedicada ao projeto AlletSator, ópera quântica e interativa criada pelos professores Pedro Barbosa e Luís Carlos Petry, e contém em anexo um CD-ROM com essa hipermídia para navegação. O projeto, que levou cerca de quatro anos para ficar pronto (mas, como toda boa hipermídia, não fica pronta nunca, está sempre aberta a acréscimos e novas possibilidades), é uma parceria Portugal/Brasil, que pode ser melhor compreendida por intermédio dos artigos dessa revista, escritos por seus participantes. Eu tive o prazer e a honra de fazer parte da equipe de pesquisa, e escrevi um pequeno artigo sobre as possibilidades da literatura combinatória dentro do projeto.

Para os interessados em hipermídia e cibercultura, vale a pena comprar um exemplar: Portugal está à frente do Brasil nessa área do conhecimento, e está sendo muito bom aprender com eles.

CalifeBook.jpgEu havia mencionado no post sobre Arthur C. Clarke o nome de Jorge Luis Calife, mas não disse (imperdoável) que o Calife é um dos nomes mais importantes da ficção científica brasileira. Foi praticamente o único escritor a publicar FC por uma grande editora nos anos 1980, e fez sucesso. Aqui, neste artigo para o JB, ele dá um depoimento emocionado sobre o velho mestre e anuncia o relançamento, em breve, de sua trilogia Padrões de Contato, um marco na FCB.

Eu já havia cantado a pedra num post anterior sobre os finalistas do Arthur C. Clarke Award. Agora, foram indicados os finalistas dos maiores prêmios da ficção científica de língua inglesa: o Hugo e o Nebula.

Os finalistas do Hugo nas categorias impressas são:


Melhor Romance

The Yiddish Policemen's Union, de Michael Chabon (HarperCollins; Fourth Estate)

Brasyl, de Ian McDonald (Gollancz; Pyr)

Rollback, de Robert J. Sawyer (Tor; Analog Oct. 2006-Jan/Feb. 2007)

The Last Colony, de John Scalzi (Tor)

Halting State, de Charles Stross (Ace)

Melhor Novela

"The Fountain of Age", de Nancy Kress (Asimov's July 2007)

"Recovering Apollo 8", de Kristine Kathryn Rusch (Asimov's Feb. 2007)

"Stars Seen Through Stone", de Lucius Shepard (F&SF July 2007)

"All Seated on the Ground",de Connie Willis (Asimov's Dec. 2007; Subterranean Press)

"Memorare", de Gene Wolfe (F&SF April 2007)

Melhor Noveleta

"The Cambist and Lord Iron: a Fairytale of Economics", de Daniel Abraham (Logorrhea ed. John Klima, BantamSpectra)

"The Merchant and the Alchemist's Gate", de Ted Chiang (Subterranean Press; F&SF Sept. 2007)

"Dark Integers", de Greg Egan (Asimov's Oct./Nov. 2007)

"Glory", de Greg Egan (The New Space Opera, ed. Gardner Dozois & Jonathan Strahan, HarperCollins/Eos)

"Finisterra", de David Moles (F&SF Dec. 2007)


Melhor Conto

"Last Contact", de Stephen Baxter (The Solaris Book of New Science Fiction, ed. George Mann, Solaris Books)

"Tideline", de Elizabeth Bear (Asimov's June 2007)

"Who's Afraid of Wolf 359?", de Ken MacLeod (The New Space Opera, ed. Gardner Dozois and Jonathan Strahan, HarperCollins/Eos)

"Distant Replay", de Mike Resnick (Asimov's April/May 2007)

"A Small Room in Koboldtown", de Michael Swanwick (Asimov's April/May 2007; The Dog Said Bow-Wow, Tachyon Publications)

E os finalistas do Nebula:

Romances


Ragamuffin,de Tobias Buckell (Tor, Jun07)

The Yiddish Policemen's Union, de Michael Chabon (HarperCollins, May07)

The Accidental Time Machine, de Joe Haldeman (Ace, Aug07)

The New Moon's Arms, de Nalo Hopkinson (Warner Books, Feb07)

Odyssey, de Jack McDevitt (Ace, Nov06)

Melhor Novela

"Awakening", de Judith Berman (Black Gate 10, Spr07)

"The Helper and His Hero", de Matt Hughes (F&SF, Mar07 (Feb07 & Mar07))

"Fountain of Age", de Nancy Kress (Asimov's, Jul07)

"Stars Seen Through Stone", de Lucius Shepard (F&SF, Jul07)

"Kiosk", de Bruce Sterling (F&SF, Jan07)

"Memorare", de Gene Wolfe (F&SF, Apr07)

Melhor Noveleta

"The Children's Crusade", de Robin Wayne Bailey (Heroes in Training, Martin H. Greenberg and Jim C. Hines, Ed., DAW, Sep07)

"Child, Maiden, Woman, Crone", de Terry Bramlett (Jim Baen's Universe 7, June 2007)

"The Merchant and the Alchemist's Gate", deTed Chiang (F&SF, Sep07)

"The Evolution of Trickster Stories Among the Dogs Of North Park After the Change", de Kij Johnson (Coyote Road, Trickster Tales, Ellen Datlow and Terri Windling, Ed., Viking Juvenile, Jul07)

"Safeguard", by Nancy Kress (Asimov's, Jan07)

"Pol Pot's Beautiful Daughter", de Geoff Ryman (F&SF, Nov06)

"The Fiddler of Bayou Teche", de Delia Sherman (Coyote Road, Trickster Tales, Ellen Datlow and Terri Windling, Ed., Viking Juvenile, Jul07)


Melhor Conto

"Unique Chicken Goes In Reverse", de Andy Duncan (Eclipse 1: New Science Fiction And Fantasy, Jonathan Strahan, Ed., Night Shade Books, Oct07)

"Always", de Karen Joy Fowler (Asimov's, May07 (Apr/May07 issue))

"Titanium Mike Saves the Day", de David D. Levine (F&SF, Apr07)

"The Story of Love", de Vera Nazarian (Salt of the Air, Prime Books, Sep06)

"Captive Girl", de Jennifer Pelland (Helix: A Speculative Fiction Quarterly, WS & LWE, Ed., Oct06 (Fall06 issue -- #2))

"Pride", de Mary Turzillo (Fast Forward 1, Pyr, Feb07)

Como vocês devem ter visto, alguns dos contos e novelas podem ser acessados de graça na Web (os links estão nos títulos). Como em prêmios mais famosos (digamos, Golden Globe e Oscar), alguns títulos se repetem na preferência dos eleitores (o Hugo é votado por todos os participantes da convenção mundial de FC, que este ano será realizado em Denver, Colorado, em agosto - mesmo não sendo afiliado a nenhum grupo de língua inglesa, eu votei no Hugo quando fui à WorldCon de 1995, em Glasgow, na Escócia; já o Nebula é restrito aos membros da Science Fiction and Fantasy Writers of America).

Não li todos os livros e contos acima, mas segue abaixo uma brevíssima avaliação dos que tive a oportunidade de ler até agora (aguardem nas próximas semanas mais dicas):

Brasyl, de Ian McDonald - fiz uma resenha sobre ele na revista Cibercultura do Itaú Cultural. Gostei; talvez seja a primeira vez que um autor de língua inglesa escreve uma história onde 99 por cento dos personagens são brasileiros, e não fica no estereótipo. Há alguns erros conceituais, mas na maior parte das vezes McDonald acerta, e a história é instigante (já imaginaram um acelerador de partículas na USP criando acidentalmente um portal para universos paralelos? Pois é, o cara imaginou).

"Glory", de Greg Egan - este eu li ontem mesmo, na coletânea The New Space Opera, editada por Gardner Dozois e Jonathan Strahan. Egan às vezes pode ser difícil de ler (talvez por uma deformação profissional - Egan é matemático), mas a leitura sempre compensa. Neste conto, entretanto, ele deixa de lado os cálculos e especulações densas para contar o que acontece quando uma avançada civilização galáctica decide fazer o primeiro contato com uma espécie hostil.

Estou lendo The Yiddish Policemen's Union, de Michael Chabon (que, pelo que tenho lido em alguns sites especializados, é o franco favorito, com Brasyl logo atrás). Aguardem em breve comentários aqui. Os contos online vêm em seguida. Mas fiquem de olho nos nomes: vários deles tinham aparecido em listas que fiz aqui de autores que precisam ser lidos e publicados no Brasil urgentemente. São nomes que têm algo a dizer. Leiam.


Quem conhece bem o cantor e compositor Bráulio Tavares, parceiro de Lenine, Elba Ramalho e muitos outros grandes nomes da MPB, sabe que ele também pertence, de fato e de direito, ao outro movimento, não tão importante quanto mas igualmente charmoso: a FCB (Ficção Científica Brasileira). Entre projetos de discos, livros e roteiros de séries de TV, Bráulio ainda têm fôlego para escrever uma crônica por dia para o Jornal da Paraíba. Já são mais de mil e quinhentas crônicas sobre praticamente todos os assuntos que vocês puderem imaginar, de cinema europeu ao cordel nordestino, passando por - claro - ficção científica.

Qual não foi minha surpresa ao chegar em casa e receber um e-mail de mestre Bráulio, dizendo o seguinte:

Caros amigos,

Meus artigos estão sendo postos à disposição num Blog, com a vantagem adicional da busca através de "tags", ou marcadores, por assuntos específicos. O endereço é:

http://mundofantasmo.blogspot.com/
.

O nome do blog é uma referência direta a um dos livros mais conhecidos de Bráulio, autor, entre outros, do excelente A Espinha Dorsal da Memória e uma homenagem a Guimarães Rosa, que usa essa expressão em Grande Sertão: Veredas), A Máquina Voadora e co-roteirista da minissérie A Pedra do Reino, baseada no livro de Ariano Suassuna.

Agora Bráulio nos brinda com um repositório de todas as suas crônicas, que são uma das coisas mais inteligentes e divertidas de se ler na Web brasileira atualmente. Seja bem-vindo ao mundo-nada-fantasmo dos blogs, BT! Quem ganha somos nós, os leitores, com o prazer de sua prosa!

O Persegonha me pediu uma relação de bons livros de Arthur C. Clarke para ler, principalmente para um impenitente como ele, que nunca leu nada do mestre. Como tributo a Clarke, segue uma lista de livros: livros que me marcaram pessoalmente e que foram importantes para minha geração.

O Fim da Infância - Para mim, o melhor livro de Clarke. Conta a história do primeiro contato entre os humanos e uma civilização alienígena tão superior a nós tecnológica e moralmente que a humanidade é obrigada a mudar totalmente seus conceitos... e bem mais que isso. É um livro belo e terrível, como diria outro inglês ilustre, William Blake.

A Cidade e as Estrelas - Um belo precursor de Matrix. Uma história passada nada menos que um milhão de anos no futuro, quando a humanidade foi reduzida a uma única cidade gigantesca, Diaspar, onde os humanos que a habitam são "reencarnados" depois de mortos, de modo a manter sempre o mesmo número de habitantes, e vivem num mundo perfeitamente criado para eles. Até que nasce Alvin, o primeiro ser inteiramente original desde a criação de Diaspar, e começa a questionar o porquê dessa existência tão protegida, e se pergunta: o que há além das fronteiras da cidade?


2001, Uma Odisséia no Espaço - Ao contrário do que muita gente pensa, 2001 foi escrito ao mesmo tempo em que o filme de Kubrick foi feito. Stanley Kubrick pensou em adaptar O Fim da Infância, mas acabou desistindo e lhe foi sugerido que adaptasse The Sentinel, um conto curto mas muito instigante. O conto acabou entrando no filme indiretamente: é a parte em que aparece o monolito escavado na lua e, ao ser tocado, emite um ruído ensurdecedor - o aviso para seus criadores de que a raça que ocupava a Terra finalmente conseguiu sair do planeta. Apesar disso, há algumas diferenças entre livro e filme. A maior delas é que Clarke considerava mais lógico que a Discovery fosse explorar Saturno, ao passo que Kubrick acabou achando que Júpiter era mais interessante visualmente. Não importa: este é um dos poucos casos em que livro e filme estão certos e são ótimos.


2010. Uma Odisséia no Espaço II - Esse livro ainda mantém o frescor e o sense of wonder de 2001. Uma curiosidade: Clarke sempre afirmou que jamais escreveria uma continuação - mas isso foi até ele receber uma carta de um carioca chamado Jorge Luis Calife, que lhe enviou um conto chamado "2002" e dando ao mestre todos os direitos sobre a história. Clarke nunca assumiu diretamente a influência de Calife, mas o agradece ao final de 2010. E várias das premissas de 2002 estão presentes em 2010, como a participação do Dr. Chandra, criador do computador HAL, para analisar o que deu errado na missão original, e as "viagens" do ex-astronauta Dave Bowman, agora mais que humano, pela Terra. O filme de Peter Hyams não é ruim, mas não chega aos pés do filme de Kubrick; vale pela diversão.


Encontro com Rama - O melhor livro de Clarke junto com O Fim da Infância. É um dos livros mais instigantes de Clarke, pois mostra a visita de um asteróide gigantesco ao sistema solar e uma expedição que vai explorá-lo... e descobre que ele possui um imenso maquinário alienígena em seu interior. A expedição é curta (como o livro, um dos menores romances de Clarke) e de uma lucidez impressionante, pois mostra uma possibilidade que poucos escritores (como Stanislaw Lem em Solaris) mostraram: a sensação de frustração perante o incompreensível de uma mente alienígena.
Um dos sonhos da vida do ator americano Morgan Freeman é fazer a adaptação deste livro para o cinema. Esperemos que agora ele saia (mas com um gostinho amargo na boca, pois infelizmente o velho mestre não o verá).

Existem muitos outros livros bons do mestre, mas estes foram os que mais me marcaram. E contos excelentes, como Os Nove Bilhões de Nomes de Deus e A Meeting with Medusa (uma novela excelente que comecei a reler ontem, em homenagem a Clarke).

E vocês? Quais foram as histórias de Clarke que mais os marcaram?

Post bilíngüe: recebi os livros O Tempo que o Tempo Tem - Por que o ano tem 12 meses e outras curiosidades sobre o calendário, de Alexandre Cherman e Fernando Vieira e De Cabeça Aberta - conhecendo o cérebro para entender a personalidade humana, um dos mais recentes livros de Steven Johnson, de quem já resenhei seu livro Emergence aqui. Obrigado a Daniela Name e Lívia, da TRILHA Comunicação & Conteúdo, que fazem a assessoria de imprensa da Jorge Zahar Editora, pelo envio dos livros. Aguardem resenhas em breve no Webinsider.

And now, for something not completely different: I just got from Night Shade Books two very nice books, which seem to be a real treat: The Best SF and Fantasy of the Year Vol. 2, edited by Jonathan Strahan, and Pump Six and Other Stories, by Paolo Bacigalupi, one of the recent names of the New Weird. Thanks to J.J.Adams, publicist for Night Shade, for having the books sent to me. Expect reviews soon.

Eu estava tentando me lembrar onde mais já havia lido alguma coisa semelhante ao que está acontecendo nestes últimos dias em São Paulo (sim, porque uma das REGRAS FUNDAMENTAIS DA FICÇÃO CIENTÍFICA é: TUDO já foi abordado - nosso único problema nas discussões e nos posts de blogs é descobrir em que livro), e aí lembrei: há anos, quando eu trabalhei na Tribuna da Imprensa, fui solicitado a resenhar um livro de um coleguinha que na época trabalhava no Jornal do Brasil, Mário Pontes.

Nã-nã-ni-na-não, senhores e senhoras, não foi jabá-tipo-revista-Veja (encontrado por intermédio do Pedro Dória: final dos anos 1990, jornal pequeno (embora já tenha sido de grande influência no passado distante, com um breve retorno à glória em 1982, quando Brizola se candidatou para o governo do Rio - e foi bem antes do meu tempo lá, portanto vocês vêem que eu também não tive nada a ver com isso), a editora do caderno Tribuna BIS na época dava a nós, repórteres, total liberdade para escrever (ou não) sobre o livro ou CD que quiséssemos. Eu havia recebido uma pilha de livros e entre eles estava o fino livro de contos Andante com Morte, do Mário, lançado pela Bertrand.

Quando peguei o livro, não me pareceu uma grande obra, mas os contos eram bem escritos. Apenas um, entretanto, ficou na minha memória (o que é mais do que eu posso dizer de muitos outros que li ou resenhei naquela época): A Nova Rota da Seda. Este conto é ambientado em meados do século XXI, e mostra um mundo que entrou em colapso graças à escassez dos recursos naturais. Esse mundo revertido a um estado tribal-global (no pior dos sentidos) tem um grande símbolos, que foi aliás o primeiro grande sintoma de que havia alguma coisa muito errada no sistema: o colapso total da malha rodoviária das grandes cidades.

O tipo de situação que Mário escreveu nesse conto já tinha sido abordado por autores como o nunca pouco mencionado J.G.Ballard, além de Kurt Vonnegut e Robert Silverberg, entre uma infinidade de outros dos quais não vou me lembrar agora (mas give me time). O que me chamou a atenção foi um brasileiro fazer isso e ser publicado por uma grande editora. Nem é preciso dizer que elogiei o livro, claro, com foco nesse conto.

E não é o que está acontecendo agora? Eu não acredito que escritores de ficção científica sejam profetas - o que acontece é que de vez em quando eles sintonizam outras realidades. Como o Mário, que nem costuma escrever nada desse gênero, acabou fazendo. Para quem quer saber um pouco mais sobre ele, uma entrevista concedida no ano passado para a ABI.

UPDATE 21:06h - às 19h, 222 km de lentidão em São Paulo.

...mais uma ótima notícia para os fãs: a Night Shade Books está oferecendo uma série de e-books para download grátis. São três histórias: um conto de Andy Duncan, um conto de Garth Nix e um romance de Richard Kadrey.

Dncan e Nix são autores relativamente novos, que valem a pena ser lidos. Mas Kadrey me chamou a atenção na hora: afinal, ele foi um autor associado à primeira onda cyberpunk. Um de seus contos chegou a ser publicado na falecida edição brasileira da Isaac Asimov Magazine.

A dica foi do Larry, do OF Blog of the Fallen.

(aliás, o Larry é um cara extremamente culto, leitor de Borges no original, e há poucos dias lançou uma questão sobre a forma do épico segundo Borges e Bioy Casares que deu muito o que falar: esse post gerou uma belíssima ponderação/provocação de Hal Duncan, um dos autores da onda New Weird . Pedi permissão a Mr. Duncan para traduzir esse belíssimo texto, mas como ele é muito grande, peço que esperem alguns dias, pois aqui o tempo ruge, como diz meu pai. São muitas coisas a traduzir. Mas espero que se divirtam com o livro de Kadrey e reflitam com os posts de Larry e Hal Duncan.

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