Não, esta não é mais uma crítica sobre Brasyl, de Ian McDonald. É uma reflexão (ou melhor, um resumo de reflexão) sobre a nossa condição no contexto da ficção científica mundial, com base na leitura de outros dois livros.
Acabo de ler The Dragon´s Nine Sons, de Chris Roberson, e Crystal Rain, de Tobias Buckell. Dois livros muito diferentes e ao mesmo tempo muito semelhantes. Em que sentido? Explico: são livros escritos por dois autores de língua inglesa que praticamente não apresentam (como Brasyl) personagens de extração anglo-saxônica. Em The Dragon´s..., somos apresentados a um universo alternativo em que os chineses dominaram o mundo a partir do século XV, sendo enfrentados somente pelo Domínio Mexica, de descendentes de astecas. Roberson, que ganhou o Sidewise Award de 2004 de melhor conto de história alternativa com o conto O One (disponível na Web grátis), ambientado no mesmo universo, é americano e vive no Texas, mas tem um interesse especial por história e por civilizações diferentes daquela na qual foi criado.
O mesmo acontece com Tobias Buckell. Nascido no Caribe (em Granada, tendo vivido também nas Ilhas Virgens) e atualmente residindo em Ohio, EUA, Buckell é branco mas tem uma relação quase baiana com a negritude caribenha. Isso se traduz em sua trilogia de space opera que começa com Crystal Rain, e continua com Ragamuffin e Sly Mongoose. Ao contrário da história de Roberson, Buckell escreve sobre o futuro distante e colônias da Terra que foram ocupadas em sua maioria por descendentes de caribenhos (embora vejamos descendentes de europeus também, especialmente franceses, mas que são minoria).
As histórias são cheias de ação e fascinantes: The Dragon´s Nine Sons se passa no equivalente cristão do ano de 2052, em Marte (ou Estrela de Fogo, como os chineses batizaram o quarto planeta do sistema solar), e mostra uma missão suicida levada a cabo por nove soldados e oficiais do Império Celestial condenados à morte. É uma mistura de Os Sete Samurais com Os Doze Condenados com filmes de ação americanos. E sabem do que mais? Funciona maravilhosamente. O livro tem ação (muita), reflexão e nos deixa com vontade de conhecer ainda mais esse universo. Em janeiro teremos mais uma oportunidade, com o lançamento do próximo romance do Império Celestial, Three Unbroken.
Já a trilogia de Buckell também é pródiga em cenas de ação, perseguição e mortes - principalmente cenas de sacrifício dos Azteca, um povo que divide a contragosto o planeta Nanagada com os de origem caribenha. E, quando os Azteca (cujos "deuses" na verdade são alienígenas sedentos de sangue) decidem que está na hora de tomar o planeta, cabe a um homem desmemoriado (alguém aí falou em A Identidade Bourne?) lutar, com a ajuda de um agente duplo Azteca, para salvar seu povo das garras do inimigo.
Várias considerações podem ser feitas a partir de uma leitura superficial dos dois livros. Para começar, a questão dos descendentes dos astecas como guerreiros sangrentos e enlouquecidos - o que, embora seja uma visão interessante para mídias como o cinema e a literatura, pode não ser tão bem visto para os descendentes atuais dos astecas, do quéchuas e outros povos indígenas nativos das Américas Central e do Sul, e do México.
A outra questão é mais interessante e menos focada no politicamente correto: a exemplo de Brasyl, esses livros não estariam representando uma espécie de linha de frente de um mix cultural bastante favorável a todos nós nesses tempos de globalização? Será que não está na hora de nós, brasileiros, aproveitarmos isso e escrevermos mais e melhores histórias sobre nós e nossa condição, extrapolando-a para o futuro ou as estrelas, como Roberson e Buckell estão fazendo de modo brilhante?
Cartas para a redação.





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