É, caiu a exigência do diploma de jornalista.
Se alguém tivesse pedido minha opinião há uns vinte anos, eu teria sido frontalmente contra. Eu havia acabado de me formar em Comunicação Social, habilitação Jornalismo, fazia pouco tempo, e estava batalhando por um lugar ao sol (apenas força de expressão, claro, porque jornalista que é jornalista trabalha ao sol, na sombra, dentro e fora da redação, à hora que for, não tem escolher: jornalista que é jornalista não trabalha, vive o trabalho, respira o trabalho).
Pouco antes de prestar o Vestibular, meu primeiro trabalho numa redação havia sido no falecido PASQUIM, ainda em sua primeira encarnação, mas não mais em Ipanema, e sim no prédio caindo aos pedaços da Rua da Carioca. Ali eu trabalhei sob a batuta do editor César Tartáglia (hoje no Globo), escrevendo notas (as Dicas, que apareciam no final do hebdomadário - sinônimo de semanário, para os desavisados) e fazendo transcrição de entrevistas. Ganhando uma merreca (claro, senão que graça tinha?) e ralando, mas me divertindo. E aprendendo.
(Um ano depois eu já não estava lá, mas na faculdade de jornalismo, e fazendo frilas para publicações de órgaõs tão díspares quanto a Biblioteca do Exército ou uma empresa de administração de materiais - para esta última, aliás, fui contratado para entrevistar Henry Kissinger, que estava no Rio de Janeiro participando como keynote speaker de um congresso. Não só não consegui como fui sensacionalmente sacaneado por Mr. Kissinger [mas essa história eu conto outro dia].)
Mas o tempo passa.
Se alguém tivesse pedido minha opinião há dez anos, eu não teria dado a menor pelota. Eu estava passando pela crise dos trinta (sim, ela existe - a dos quarenta é mito; a verdadeira é a dos trinta; usando uma metáfora que tem mais a ver com esta geração, se você consegue passar para o próximo nível, há grandes chances de ganhar o jogo, ou pelo menos não perder por muitos pontos) e fazendo minha segunda graduação, em Teatro - Interpretação, na UNI-RIO.
O teatro foi uma experiência maravilhosa, que me enriqueceu incrivelmente e que me ensinou duas coisas: 1) que eu sou um péssimo ator e 2) que meus pais tinham razão quando me proibiram de fazer teatro profissional aos dezoito anos de idade (foi a única coisa na vida que eles me proibiram de fazer, e hoje eu dou a mais total, completa e absoluta razão a eles, porque como eu ganhei mal nesse período, meu Deus - sem contar o que colegas de produção e diretores literalmente me roubaram, mas isto são coisas que um cavalheiro não comenta).
E, enfim, se alguém pedir minha opinião agora (não que alguém tenha pedido), eu só tenho uma coisa a dizer: infelizmente, já não faz a menor diferença.
Reparem que eu disse a palavra infelizmente.
Cinco anos como professor universitário me tiraram qualquer ânimo a respeito de sequer acreditar na possibilidade de redenção para as gerações mais recentes.
Ministrei aulas para alunos de diversos cursos, de Design a Games, passando por Tradução, Comunicação e Informática. É claro que existem as honrosas exceções (e em número suficiente para me fazer continuar na profissão), mas são exceções que confirmam uma regra. E a regra é: o nível médio dos alunos de hoje no Brasil é baixo. Muito baixo.
Não vou encher o saco de vocês, meus fiéis cinco ou seis leitores, reclamando que bons mesmo eram os tempos de antanho, porque não é essa a resposta. Nem quero que um ocasional aluno meu que leia este blog fique achando que eu estou falando mal deste ou aquele, porque também não é isso. O buraco, como diria o Professor Liddenbrock (leiam Viagem ao Centro da Terra, poxa!!), é mais embaixo.
Falta cultura e informação. Coisas que uma universidade ajuda a suprir (e muito) mas não supre completamente. Coisas que, ok, uma universidade nunca supriu completamente, mas que antes, até o início dos anos noventa (e já então era difícil) pelo menos encontrava alunos com disposição para aprender, apreender e registrar.
É complicado ouvir alguns educadores metidos a pós-"mudernos" dizer que o professor tem que se adaptar ao aluno e não ao contrário quando a gente vê o aluno entrar em sala com um skate e nada mais (juro que me dá uma vontade louca de pedir pro cara fazer um handplant ou um burn twist dentro da sala - eu aprovava o cara na hora e pronto, não me enchesse mais o saco), ou, como é mais comum, simplesmente sem nada, sem caderno, sem caneta, sem nem um dispositivo móvel pra gravar ou anotar o que está sendo dito - pô, estamos no século vinte e um, cadê o futuro que me prometeram???
Neste primeiro semestre de 2009, perdi dezenas de horas com uma turma que se sentava, ouvia o que eu dizia (aparentemente, porque olhavam para mim e não fazia bagunça), eu dava uma aula, conversava, procurava trocar idéias (e quem me conhece sabe que minhas aulas são tudo menos monótonas) e ainda perguntava se alguém tinha alguma dúvida. Às vezes alguém tinha uma dúvida. Opa, qual é a dúvida? Vamos lá, então. E toca eu a explicar de novo. Escrevendo na lousa.
E ninguém anotando.
E eu passando exercícios.
E a turma não fazendo. Ou fazendo tudo errado e jurando de pés juntos que eu não havia explicado direito, ou que eu não havia dito nada daquilo. (Lembrando de 1984 e pensando desconsolado que daqui a pouco o professor vai adorar ter uma câmera filmando a aula, só para provar que ele deu a aula.)
Isto é uma reclamação? Claro, ora. Mas também é meu depoimento. São meus dois centavos, como dizem os americanos. É apenas a minha opinião, pessoal e completamente intransferível, de por que acho que discutir sobre diploma hoje não adianta mais. E não é nem porque, como dizem alguns, agora quem tem mérito vai entrar. Quem tem mérito sempre conseguiu entrar - embora nem sempre na hora em que merecia, porque QI (Quem Indica) também sempre existiu, e vai continuar a existir. A merda, meus leitores, é que quase ninguém desta nova geração tem mérito hoje em dia, com ou sem diploma. Infelizmente, repito.
UPDATE DE 25 DE JUNHO: Exausto nesta última semana de aula, sem disposição para postar (aguardem notícias em breve), só tenho uma coisa a acrescentar. Não bastasse o que eu escrevi acima, nesta última segunda-feira fui acusado de mentiroso por um aluno porque supostamente eu não teria explicado direito o trabalho final em grupo (o grupo dele, claro, perdeu dois pontos na avaliação porque não fez direito o exercício). O absolutamente BIZARRO foi que isso aconteceu dentro de sala, onde havia dois alunos de outro grupo que fez corretamente o exercício; chamei os alunos e perguntei sobre o trabalho: ambos testemunharam que eu expliquei tudo - o que era óbvio, porque o trabalho deles estava correto, mas vamos lá, didática é didática, eu precisava mostrar ao aluno a diferença entre o trabalho do grupo dele e o do outro. Pois ele continuou insistindo que eu não havia dito nada daquilo, e afirmou que havia tirado uma foto da lousa. Então eu disse a ele que estava tudo resolvido: era só ele me mostrar a foto e tudo bem, se eu estivesse errado me retrataria e mudaria a nota dele. Aí ele disse que não estava com a foto; eu disse: tudo bem, apareça na quinta (hoje, dia 25) e traga. Resposta dele: ah, eu vou estar viajando, professor. Não apareceu, claro.
Já avisei ao coordenador que não dou mais aula para essa turma. Aliás, se eu chegar a 2010 ainda como professor, podem acender vela que é milagre.

Fábio, cada vez menos eu tendo a falar para os alunos ouvirem ou dar aula. Acredito cada vez mais que um dos caminhos é "aprender fazendo", ou seja, os alunos precisam produzir e construir alguma coisa, durante as aulas e durante um curso, e a nossa função é acompanhar esse processo, porque aí surgem várias dúvidas e, o principal, ocorre um aprendizado mais intenso.
Muito bem sacado, João. O negócio é que eu também faço isso (não comentei porque senão o post ia ficar imenso, e eu estou meio sem tempo hoje - mas desconfio que ainda escreverei mais sobre o assunto. ;-)
É claro que, como eu disse, tenho alunos ótimos com os quais essa metodologia funciona. Mas não com a maioria. Com a maioria nada funciona. Nem conversar, nem o "aprender fazendo". E é isso o que me entristece. Mas talvez eu não sirva para ser professor. Aliás, há uma boa possibilidade de que seja esta a resposta.
Assino em baixo, como estudante de Jornalismo que olha ao lado para os colegas e tem vontade de chorar.
É, Daniel, desta vez fico triste por concordarmos...
Complicado, cara =/
Pior é que não é só em jornalismo a gente vê isso (claro, sei que tu também disse com relação aos outros cursos universitários), mesmo em engenharia vemos isso. Onde estudei, vi todo tipo de gente, inclusive pessoal que fica uns 9 anos por lá (o normal é 5 anos), fazendo no nono ano matéria do primeiro ano. Isso não é dificuldade, é falta de empenho! =( E o cara entrou lá para quê? Para ir nas festas.... E boa parte só se preocupava em passar na matéria, nada mais, depois esquecia o que aprendeu. É claro que também tem gente boa que vai além do que aprendeu na matéria.
Fico mesmo triste com o estado atual das coisas, onde boa parte se preocupa em ter diploma não para contribuir com ideias interessantas ou whatever, mas sim para ganhar bem.
Tô curiosa a respeito dessa história do Kissinger =D Agora você me deve duas histórias, a do mosteiro e a do Kissinger =P
Gi, enquanto você não tomar comigo aquele café que está me devendo há mais tempo ainda, não conto, não conto, não conto. :-D
Fábio, esse post reforça uma impressão que ando tendo ultimamente, a de que o mundo anda emburrecendo em progressão geométrica. As pessoas em geral não estão com vontade de aprender, não possuem curiosidade. E quem quer aprender é visto como um estranho... E não é que antigamente fosse melhor, pelo contrário, a informação hoje é muito mais fácil de se obter.
Ou vai ver estou na tal crise dos 30 e não me dei conta :-)
Grande Fábio.
Sim, infelizmente o acesso á informação não se torna Cultura ou Conhecimento, acho até que diminui.
Olha, nas minhas aulas de 3as. e 5as. também vejo uma rapaziada que não dá pra acreditar (ao contrário do refrão da música).... totalmente sem ambição e só esperando o tempo passar, pegar o diploma e, pra grande maioria, continuar as vidinhas monótinas, mas daí com as noites livres.
Como já discutimos antes em nossos almoços de sábado: vamos trabalhar até morrer !!!!
Como o João, eu também andei passando uns Estudos de Caso, pra debater em grupo, e as coisas melhoraram um pouco... o duro é ver que só com muito estímulo eles agem.
Não tem jeito, passam anos e anos no colégio, de qualquer jeito e sendo mimados, não vai se rna faculdade que vão acordar para a vida de adulto.
No Brasil falta gente qualificada, mesmo onde trabalho contratar (pagando salário de mercado) demora, só aparece gente ruim e mal-formada.
Todas as Guerras, no www.hugovera.com.br
:-)
Fabio,
De fato, apesar de você jurar de pés juntos que não, senti uma inevitável nostalgia nessas suas palavras. Normal. Engraçado ler isso no ano que tive minha primeira experiência como professora universitária. Eu, Viktor e Thiago demos aula junto com um professor da ECO/UFRJ. A experiência foi bem melhor do que eu imaginava. Há um tédio geral estampado na cara dos alunos, uma coisa pós-adolescência, mas as coisas fluíram. Nunca me imaginei como professora e foi uma novidade boa para mim.
Adorei esse teu depoimento, apesar do pessimismo, porque é o primeiro que leio que trata da questão do diploma de uma maneira muito mais profunda do velho discurso corporativista que tenho visto por aí. O buraco é definitivamente mais embaixo.
Beijos
Pardon me for writing in English (Fábio knows that this is like my fourth or fifth-best language and that I understand Portuguese only through knowing some Spanish), but wow, that's such an universal problem. I seem to recall it was Einstein (or maybe someone else) who once said that there are two infinite things in the universe, space and stupidity, and that he wasn't for sure about the first.
Your students at least can locate the seven continents and four oceans, right? A good many of mine can't...and they can't even spell correctly words they are copying from a book. I sometimes wonder if the whole population is becoming dumber by the second...
Olá Fábio,
ontem tivesse essa mesma conversa com uma coordenadora do cuso de Engenharia de Software da PUC do Rio de Janeiro, uma instituição de ensino para os filhos das classes mais abastadas e o panorama que ela me descreveu sobre os alunos que ela tem nos cursos de graduação não difere muito do cenário que você descreveu...
Parece que o excesso de informação, a facilidade de se obter informação, criou uma geração intelectualmente preguiçosa, no sentido de não querer se esforçar para elaborar um raciocício, analisar informação, pesquisar os fatos..
Eu dou aula também e as vezes os olhares vazios que percebo nessa geração mais nova me perturbam muito...
Abraços,