Em casa, curtindo uma gripe que me deixou de cama por alguns dias e ainda bastante baleado (e baleiado também, que me perdoem os colegas do Twitter pelo quase absoluto desaparecimento), aproveitando para descansar, e tentar colocar em dia as leituras e os filmes.
Acabo de rever o fundamental 1984, de Michael Radford, com John Hurt e Richard Burton (foi o último filme deste e uma ótima interpretação dos dois). Bastante fiel ao livro - mais do que a primeira versão, dirigida por Michael Anderson em 1956, mas que não é ruim, ao contrário, ela deveria também ser lançada em DVD para que as pessoas tomassem conhecimento de sua existência - quando comprei o DVD da versão com John Hurt, que não por acaso foi lançada em 1984, me deparei com um casal bem jovem que também estava comprando o filme e que ficou maravilhado ao perceber essa "coincidência" de datas, porque eles nem sequer sabiam da existência do filme; pouco provável que saibam que existe a versão de 1956. (Também existe uma versão feita para a TV em 1954, mas não sejamos puristas a ponto de exigir o lançamento desta em DVD também, ora pipocas.)
O filme não datou nem um pouco. As imagens contundentes ainda ferem o olhar mas o atraem de modo inexorável e um tanto doentio (porque sabemos que tudo vai acabar mal, e quem não sabe intui, mas quer ver assim mesmo), e a trilha sonora, composta em parte por Annie Lennox, é um prazer a parte. O que quase estragou minha fruição do filme foi a legendagem.
Alguém que tenha essa edição recém-lançada consegue me explicar por que usaram a tradução portuguesa de 1984 para referência de legendagem em vez da tradução consagrada de Wilson Velloso para a IBEP Nacional, edição essa que ainda está no mercado? (E é a única que a Companhia das Letras não consegue comprar para seu catálogo de obras completas de George Orwell?)
Este é apenas o mais recente episódio no que está se tornando um problema sério para mim: a dificuldade cada vez maior de ler traduções. Não, isso não tem nada a ver com a qualidade do trabalho dos tradutores. Nem se trata de alguma frescura da minha parte. Talvez uma deformação profissional: após quase 25 anos trabalhando como tradutor (23 ou 24, nunca me lembro ao certo, a memória anda fraca estes dias), lendo diariamente livros em seus idiomas originais (inglês em sua maioria, seguido de português, espanhol, francês, italiano, com um pouco de alemão e catalão, mas só um pouco mesmo e olhe lá), fui lentamente me acostumando à sonoridade da língua própria do autor, do sabor da palavra criada na cabeça, saboreada no palato, e parida na ponta dos dedos do escritor.
Coisas que só quem escreve sabe. Quem traduz, quem apenas traduz (e traduzir já é muito, mas não é a criação em seu estado mais puro, infelizmente), sabe disso por tabela. O tradutor é um co-criador, mas é antes a ama-de-leite da obra que sua gestante. Quem pariu Mateus que o crie, não é o que diz o velho ditado? Pois é, mas chega um ponto em que o tal Mateus sai com seu mochilão mundo afora, e se reinventa, nasce de novo, vira Matthew, Matthäus, Mattia - e aí, quem o cria? É dado ao tradutor esse papel: o de pegar essa criatura e colocá-la numa câmara hiperbárica semiótica, numa câmara de descompressão semântica, para que ela se renove e saia dali como outra. O tradutor também é médico de UTI. Ele pode pegar a palavra que não consegue se comunicar, que não encontre quem a entenda, e lhe fazer uma cirurgia reconstitutiva. Ela não será a mesma - e sabe disso - mas se o trabalho do tradutor for bem feito, poderá comunicar, e comunicar sua intenção inicial, e isso é o que importa.
Meu problema com 1984 não é a qualidade da tradução das legendas. Tampouco tenho dificuldade de entender o belíssimo português que se fala do lado de lá do Atlântico (melhor, em minha humilde opinião, do que o que se fala do lado de cá). Mas sejamos coerentes: se o livro já foi traduzido no Brasil (repito, há décadas) , por que se usou uma tradução portuguesa para um DVD brasileiro? Não entendi.
E isso só fez acirrar minha dificuldade de ler traduções. Depois do triste fim do Caderno Palavra, do Le Monde Diplomatique (que, francamente, não sei porque acabou, se o meu amigo Rodrigo Gurgel ali trabalhava por tão pouco e os resenhistas não ganhavam nada, faziam seu trabalho por amor à literatura), então, não me vi mais obrigado a sequer ler para resenhar. Ainda restam livros, é certo, e livros que não serei capaz de ler em seus idiomas originais, como o genial Os Irmãos Karamázov. A obra-prima de Dostoiévski vocês ainda verão resenhada aqui, bem como alguns (poucos) outros livros daquele tempo. Mas dificilmente verão mais resenhas de livros traduzidos. Porque agora, parafraseando a Turquinha, personagem do clássico Floradas na Serra, um ótimo livro esquecido de Dinah Silveira de Queiroz (apesar de já ter virado um ótimo filme com Cacilda Becker, e duas novelas) e esgotado na editora, eu tenho pressa de viver.

Fábio, que texto lindo sobre a tradução, cara!
Abraço daqui!
Valeu, Bruno! Abraço forte pra ti também de uma manhã paulistana fria pra chuchu! :-)
grandes colocações, fábio!
e boa pergunta - por que não usaram a trad. de wilson velloso? será que nem tentaram? ou será a nacional que não cede, não licencia, nem nada? pode ser isso também...
quanto à edição da cia., a notícia é ótima: quem está fazendo 1984, se é que já não terminou, é nossa queridíssima maravilhosa tradutora heloísa jahn.
aliás, uma coisa assombrosa é a tradução da bibliex: que contrafação mal disfarçada da de wilson velloso! uma hora vou mostrar o cotejo no nãogosto.
mas não deixe de resenhar tradução, não - o panorama já é tão desolador, e aí como é que fica?
abraço
denise
Realmente não entendi nada, Denise. Não há explicação no DVD, como atualmente acontece no cinema, dando os créditos da empresa de tradução e do tradutor.
Quanto à edição da cia., que bela surpresa! Não sabia que estava sendo traduzido - achava que eles não tinham conseguido os direitos. E é a Heloísa Jahn que está fazendo? Puxa, então está aí uma tradução que eu faço QUESTÃO de resenhar, ora! :-)
Eu ia fazer piada com ler Dostoiévski no original, mas você foi mais rápido. :) Nos primórdios eu achava que isso era frescura, sinceramente. Aí o David resolveu me dar Plum Island do Nelson DeMille para ler no original. Era facinho e ele fazia várias brincadeirinhas com a sonoridade das palavras. A partir daí, entendi que de frescura não tinha nada. É verdade que foi um parto ler o primeiro livro em inglês, a preguiça em um ombro e a cultura no outro, os dois soprando forte no ouvido. Mas agora, sempre que possível. A mesma coisa para o espanhol. Como é gostoso ler espanhol no original, sacando as manhas da língua, a cadência de um Javier Marías, de um Carlos Fuentes.
Mas, na verdade o que eu ia dizer é que legendagem paga mal a veras, então perdoarei qualquer equívoco nessa área, até o collant cor de rosa do Wolverine em X-Men I. :)
Abss! Melhoras.
Quando eu era pequena, costumava dizer ao meu pai, responsável pela volumosa biblioteca da família, que só leria Proust e Dostoiévski depois de aprender francês e russo, respectivamente. Uma vez desenganada em minhas pretensões poliglotas, após o árduo, ainda que gratificante aprendizado do alemão, me rendi, recentemente, a uma tradução das Memórias do Subsolo. As notas do tradutor (Boris Schnaiderman) são um manifesto de angústia ante a plurivocidade dos termos. Como escolher, entre tantos significados possíveis e os respectivos subtextos, a palavra definitiva?
Adorei o mote do seu texto, me fez pensar em várias encruzilhadas do verter.
Abraços,
Roberta Mendes
http://www.paraeuparardemedoer.blogspot.com
fábio, você tem razão sobre vários pontos. mas temos que reconhecer que um país sem traduções se torna ilhado, sem condição de aproveitar o conhecimento produzido por autores estrangeiros. publica-se muita porcaria de fora, mas coisas boas também. e as traduções melhoraram muito.