Quando recebi esse livro, confesso que não sabia o que esperar. Não conhecia David Thorpe. Por outro lado, eu havia acabado de ler The Knife of Never Letting Go, de Patrick Ness, já comentado de passagem aqui.
Logo, esse livro me pegou num momento ótimo da minha carreira de crítico/resenhista, porque (sejamos bíblicos hoje) "caíram-se-me as escamas dos olhos", como disse Saulo/Paulo no caminho para Damasco, e eu hoje sei que a literatura dita infanto-juvenil, ou Young Adult, como é conhecida nos países anglos, é muito mais bacana do que a mídia e o senso comum nos fazem pensar.
Híbridos segue uma linha que poderíamos chamar de tipicamente britânica: a da distopia política. Claro, vocês vão me perguntar: afinal, toda distopia não é essencialmente política? E eu responderei: sim, evidente, está aí titio Fredric Jameson que não me deixa mentir, com suas excelentes análises sobre o cyberpunk.
A questão é que literatura infanto-juvenil de modo geral lida com ritos de passagem do adolescente (seja a passagem da infância para a adolescência, seja da adolescência para a fase adulta). Na Inglaterra, porém, esse rito de passagem quase nunca se dá sem um profundo envolvimento político - e Híbridos coloca de cara a política no cerne da questão.
O protagonista é Johnny Online, um dos tais híbridos - humanos que, subitamente, passaram a apresentar mutações nas quais seus corpos começam a "produzir" aparelhos eletrônicos. Esses aparelham brotam da pele (acarretando infecções e inflamações, para as quais quase nenhum medicamento resolve) e se fundem com o corpo dos infectados. O caso de Johnny - blogueiro que escreveu, num momento de angústia e raiva, a Declaração dos Direitos dos Híbridos, que passa a ser seguida como uma bíblia pelos híbridos - é um dos mais bizarros: seu rosto virou um monitor de computador, com caixas de som, microfone, teclado e câmera embutidos. Ele só consegue se alimentar por uma sonda, mas tirando isso (como se isso fosse pouco) o resto de seu corpo é normal.
A história começa quando ele é abordado por uma jovem rica, Kestrella Chu, que pede ajuda para procurar sua mãe desaparecida. Tanto Kestrella quanto a mãe pegaram o vírus Sinistro, responsável pela hibridização. O efeito colateral de Kestrella não é muito grande - sua mão direita virou um telefone celular - mas foi o suficiente para que ela fosse afastada da escola e perdesse quase todos os amigos. Pois ser um Híbrido é anátema; é ser infecto, ser sujo - e até mesmo o governo da Inglaterra vê as coisas assim. O slogan do governo inglês para a ser "Mantenham a Inglaterra Limpa!" Isso lembra alguma coisa?
1984, por exemplo. Ou V de Vingança misturado com o vírus da AIDS. Preconceito e intolerância que se tornam justificativa para a criação de um estado fascista, que identifica e prende os híbridos. Isso não torna nem um pouco fácil a missão de Johnny, que não só conseguiu até aquele momento se manter um "cinza" (híbrido que não recebeu identificação oficial e que, portanto, não pode ser rastreado nem preso com facilidade), como agora precisa arriscar sua liberdade para encontrar Kestrella - e correr o risco maior ainda de não se apaixonar por ela.
A narrativa de Híbridos é um pós-cyberpunk para todas as idades: tem alta tecnologia, tem hibridização e sucateamento de material, tem personagem em fuga. E tem inteligência. A história alterna capítulos com os pontos de vista de Johnny e de Kestrella, mostrando que uma situação pode ser bem mais complexa do que aparenta quando envolve seres humanos e suas emoções (e os personagens de Thorpe são bem convincentes para seres bidimensionais).
O cuidado com Híbridos envolve um trabalho metalingüístico muito atraente para o leitor, a começar pela embalagem do livro, lacrada como se fosse um produto altamente perigoso de manipular:
Além disso, a história é feita para crianças, jovens e adultos - aliás, fico me perguntando até que ponto esse tipo de distinção ainda é válido. A história é boa e funciona. E dá vontade de ler mais: será que essa história é a primeira de uma trilogia (apesar de ter um fim, ok? Quem não gosta de trilogias não precisa se preocupar)? Thorpe faz alusões a clássicos cyberpunks como Neuromancer, de William Gibson, e Synners, de Pat Cadigan. É uma história veloz, furiosa, assustadora e com um final não necessariamente feliz, mas muito interessante (mais do que isso e eu estrago a leitura de vocês. ;-) Altamente recomendado.
Em tempo: Johnny Online tem um blog em português também. É bem bacaninha. Check it out.




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