Conforme prometido no post da entrevista com Samir Machado de Machado, editor da Não Editora, resenho aqui as coletâneas Ficção de Polpa 1 e 2, dois bons trabalhos de uma editora que, com menos de um ano de vida, já está sendo reconhecida como a melhor editora gaúcha (com o Prêmio Açorianos) e uma das melhores small presses do Brasil.
Quando publicou a primeira edição do volume 1 da Ficção de Polpa, Samir ainda não tinha editora. O volume saiu pela Fósforo em 2007, e só recentemente ganhou uma reedição, desta vez na casa nova. Talvez por isso, e pelo fato de que havia um desconhecimento da produção de literatura fantástica no resto do Brasil, todos os autores eram gaúchos (com a exceção de Rodrigo Rosp e Rafael Spinelli, ambos nascidos no Rio de Janeiro mas morando desde pequenos no Rio Grande do Sul).
Essa concentração de autores da mesma região acabou gerando um efeito interessante quando a coletânea ficou conhecida fora do estado: tanto a editora e os autores descobriram que existia um universo razoavelmente grande de literatura fantástica fora do estado quanto o resto do Brasil passou a conhecer um punhado de autores até então fora do mapa da produção (de literatura fantástica ou não) no resto do país.
O bom - o excelente - é a qualidade gráfica da coletânea, produzida à maneira das antigas pulp magazines dos anos 1920-1930, mas com todo cuidado para dar aos leitores uma obra durável, ao contrário das revistas daquela época. O projeto gráfico do próprio Samir (com ilustração de Gisele de Oliveira) dá ênfase a aspectos semelhantes a jornais e revistas da época, diagramando o texto em duas colunas, em papel pólen soft ligeiramente amarelado.
São dezesseis contos, mais dois extras: o conto The Hound, de H.P. Lovecraft, e o making-of da capa. A epígrafe do livro, de autoria do mestre dos quadrinhos Alan Moore deixa clara a intenção do editor: "A ficção de horror é o maior totem do século XX."
O primeiro conto, O Homem que Criava Fábulas, de Samir Machado de Machado, parte de uma premissa interessante e atual (a manipulação genética), mas a linguagem rebuscada e as personagens bidimensionais não conseguem compensar o final abrupto, feito para sacudir o leitor. O conto se salva pelo uso pontual e certeiro do humor.
Na segunda história, Carne, Guilherme Smee cria uma atmosfera semelhante aos contos de Clive Barker, com um final que consegue inverter a expectativa do leitor, embora sem deixar de dar pistas ao longo da narrativa (o que só torna a história mais coerente). O uso da primeira pessoa é difícil, mas Smee se desencumbe da tarefa adequadamente.
Lingüista, de Rodrigo Rosp, usa o tema da mulher fatal para construir um suspense sedutor, que leva o leitor pela mão a um destino que ele já sabe qual é desde o começo, mas que não consegue deixar de seguir mesmo assim. Com fortes tintas de Dario Argento, o conto tem o mérito de prender a atenção até o final, que, apesar de clichê, é (para nos mantermos dentro das intenções da história) saboroso.
Marcelo Juchem dá o tom surreal à coletânea em Cosmologia. Com uma narrativa passo-a-passo, bem urdida e com ênfase nas descrições, Juchem lembra Robert Sheckley em sua fase surrealista, entre os anos 1950 e 1960. Uma história de humor - negro, mas de humor mesmo assim.
Em Os Internos, Gustavo Faraon é o primeiro a usar a cidade de Porto Alegre como cenário de sua história. Com uma narrativa lenta e hipnótica, mais ou menos no mesmo tom de Lingüista, Faraon conduz o leitor aos subterrâneos de um sistema educacional paralelo, não muito diferente do retratado por Roger Waters e David Gilmour em The Wall. É um conto assustador, mais pela perspectiva de que, em algum lugar, ele pode ser uma cruel realidade.
Em Dias de Fome, Noites de Cão, Sergio Napp é rápido mas não rasteiro: seu conto muito curto (o que em inglês atualmente é chamado de flash fiction) mostra uma situação cíclica, mas nem por isso menos apavorante. Lembra, pela temática, o recentíssimo conto The Cat From Hell, de Stephen King.
Um dos contos mais instigantes da coletânea é O Homem dos Ratos, de Rafael Spinelli. A frase que abre a narrativa ("Não vou contar a história de Carlos desde o princípio") é enganadoramente simples em sua falsa negação, pois o narrador acaba nos contando a história de uma obsessão, que pode ser muito mais aterrorizante do que qualquer história de terror sobrenatural. As humilhações a que Carlos submete a esposa Marta, por força de sua doença (entregue de bandeja ao leitor já no título e na epígrafe de Freud), lembram os contos de Shirley Jackson.
Tempestade em Coney Island, de Rafael Kasper, é, por outro lado, talvez o conto mais fraco do primeiro volume da Ficção de Polpa. Diálogos fracos e alguns erros de pontuação (o primeiro diálogo logo de cara tem uma vírgula de menos) não compensam as tentativas de humor (o protagonista bebe cerveja Duff, a mesma marca de Homer Simpson).
Em Ventre, Roberta Larini produz uma narrativa convoluta sobre um serial killer (o "Colecionador de Ventres"), alternando narradores, até o final, que não chega a surpreender mas cuja construção é competente.
Outro excelente conto é Funghi, de Luciana Thomé. Também uma flash fiction, Funghi é um exercício lítero-gastronômico concentrado, que lembra The Neglected Garden, de Kathe Koja, considerado um dos precursores do subgênero híbrido New Weird. É um dos melhores da coletânea.
Vãos, de Alessandro Garcia, é a narrativa mais extensa da coletânea. A história, também ambientada no sul, tem um ritmo mais lento, menos apressado. A história de um homem que passa as férias com esposa e filho na casa de fazenda e tenta fazer com que a vida transcorra normalmente, apesar dos problemas e angústias que ficam sempre por ser ditas, num segundo plano perigosamente próximo de virar primeiro, é uma narrativa gótica bem disfarçada. A pretensa influência de um quadro macabro sobre o comportamento do filho, que nunca é explicitada de modo concreto, paira o tempo todo no ar, criando uma ameaça que pode ser sobrenatural ou não - mas será que a origem do mal importa quando ele se faz presente? Ótima narrativa.
A Meia-Noite do Fim do Mundo, de Fernando Mantelli, tinha tudo para ser um dos melhores contos da coletânea, não só pelo título, mas pelo começo da narrativa, que pega o leitor pelo pé. O mundo acaba e ponto final. O interessante é ver o que há depois, se é que há. E há, mas o diálogo de Ana, a última humana, com outro pretenso sobrevivente, é tão ruim que desconstrói a narrativa literária e a transforma em um roteiro de anime. Pena.
Outra história com porteira aberta para o surrealismo é Cabeça-de-Arroz, de Annie Piagetti Müller. A progressão da obsessão de uma senhora humilde, que não consegue parar de comer arroz e somente arroz, deixa o leitor incomodado como se estivesse vendo uma narrativa do tipo de O Anjo Exterminador, de Luís Buñuel. O medo que acomete aquele que lê é o da dúvida: isso poderia acontecer? Talvez não, pero que las hay hay, como diz o antigo ditado.
Falando em comida, O Fígado, de Sílvio Pilau, serve como um bom acompanhamento ao funghi e ao arroz. Mas desta vez com fartas doses de humor. O diálogo de um fígado de tamanho humano com seu dono faz o leitor rir. De nervoso.
O Desvio, de Antônio Xerxenesky, lembra uma história de John Constantine ou do Preacher. Os diálogos começam meio forçados, como se o protagonista quisesse parecer cool demais (o que, vemos logo em seguida, é exatamente o efeito desejado), mas pouco depois começam a ficar mais à vontade, e a história flui tranqüila (bom, tranqüila não é exatamente a palavra, não se você está de carona no meio do deserto com alguém em quem você não confia). O final, com sua pequena porém eficiente virada de plot, é muito bom.
Os contos brasileiros se encerram com Quando Eles Chegaram, de Rafael Bán Jacobsen. A narrativa, que mostra o que acontece com os humanos depois de uma invasão alienígena que os subjuga por completo, já foi bastante explorada pela literatura pulp, além de quadrinhos e séries clássicas como Além da Imaginação. Mas esse clichê (que eu não posso contar sob pena de revelar o final da história) sempre funciona se for bem escrito. E o conto de Jacobsen é bem escrito. Um bom fechamento para a coletânea.
A impressão que tive ao fechar o livro é que os autores, de modo geral, possuem duas características marcantes: 1) Uma cultura literária acima da média, o que é fundamental para quem quer ser escritor; e 2) Um desconhecimento quase completo do que se faz atualmente na ficção de horror, tanto no Brasil quanto fora. Desconhecimento na parte literária, quero dizer: a citação de Alan Moore na epígrafe deixa clara a afiliação do editor com o mundo pop por via dos quadrinhos, e talvez pela via do cinema também. Não da literatura - o que não é pecado nenhum, apenas a constatação de que, não importa em que parte do Brasil você se encontre, os problemas que envolvem a literatura contemporânea em sua interseção com o pop são sempre os mesmos, e podem se resumir à desinformação.
O que faz do primeiro volume de Ficção de Polpa uma coletânea acima da média do que se publica no Brasil atualmente é justamente a primeira característica mencionada. A cultura literária dos autores, mais inclinada na direção dos clássicos (ecos de Lovecraft, Poe, Arthur Machen, Dante, André Breton percorrem as entrelinhas dos contos) é que lhes dá um ar de novidade. Ar que foi ainda mais refrescante com o lançamento do Volume 2, em 2008, e que será a nossa próxima resenha.


Opa! Ótima resenha, Fábio, e fico feliz pelos comentários pontuais sobre os contos. Muito bom ter esse retorno objetivo para ir aos poucos ajustando nos próximos volumes.
O prazer foi meu, Samir. É sempre muito bom conhecer novas iniciativas e novos autores!