Post para um jovem escritor (2)

Terminei ontem de ler um livro que foi uma grata surpresa: On Writing, de Stephen King. Como eu havia dito há algum tempo num post especial sobre a saga da Torre Negra, antes de começar a ler o primeiro volume, The Gunslinger, eu não lia o chamado mestre do terror há cerca de vinte anos.

Perdi o preconceito - preconceito que, aliás, me foi instilado por anos e anos de leituras de livros da dita Literatura com L maiúsculo e, principalmente, pela influência de pessoas (bacanas e bem-intencionadas, faço questão de ressaltar; nenhuma delas é um arauto do mal) que sinceramente acreditavam que King era uma leitura menor. Acabei seguindo o mesmo caminho. Não de forma pró-ativa, como se diz hoje; eu não fazia campanha contra Stephen King. Simplesmente perdi todo o interesse em ler seus livros e em ver seus filmes, coisa que começou a acabar quando vi o excelente The Shawshank Redemption, com Tim Robbins e Morgan Freeman (que, por curiosidade, completa hoje 71 anos de idade).

(agora, pensando bem, fiz uma exceção nesse longo hiato de leituras de King justamente para ler a novela que deu origem ao filme, Rita Hayworth and The Shawshank Redemption, que está na coletânea Different Seasons - mas, ao que me lembre agora, foi a única exceção MESMO em vinte anos.)

Depois da saga da Torre Negra, entrei num processo de, digamos, uma saudável (na minha opinião, pelo menos) Kingmania: comecei a comprar todos os livros de King que eu podia encontrar. (tudo em pockets, claro, que atualmente saem muito mais barato que brochuras em inglês ou em qualquer livro traduzido).

A última aquisição foi justamente On Writing. Mas confesso que, teimoso como sou, eu ainda tinha um preconceito contra King. Acreditava que esse livro não me ensinaria muito, não porque eu seja um grande escritor (porque não sou nem considero como tal), mas porque o estilo do King é tão direto-ao-ponto que eu achava que ele não faria muito mais do que, a exemplo de alguns mestres como Isaac Asimov, descer a marreta em autores mais focados no estilo e privilegiar exclusivamente a narrativa.

Não posso dizer que ele não faz isso de certa forma, mas com uma elegância e uma cultura que a escrita franca e direta de King muitas vezes esconde. Em suma, On Writing me deixou chapado: devorei o livro como quem lê uma história de ficção, daquelas das quais você não consegue desgrudar o olho (e nem dormir) até chegar à última página - e depois ainda fica acometido de uma certa melancolia, pois o livro acabou e não tem mais.

King dá um show de bola nesse livro, e também muitas lições de humildade para quem está começando no ofício. A primeira delas, e com a qual eu mais me identifiquei, foi: um escritor precisa ler muito e escrever muito. Sempre, o tempo todo. Fiquei feliz ao saber que pelo menos uma coisa eu e o mestre temos em comum: nunca saímos de casa sem um livro (eu, com minha paranóia costumeira, sempre levo dois na algibeira; e se eu acabo o primeiro no meio da viagem de ônibus ou metrô?) e lemos um livro em qualquer situação, seja numa fila até mesmo esperando o elevador. E escrever? Bem, King tem uma disciplina férrea, coisa que eu ainda não consigo ter, mas pelo menos eu já consigo escrever todos os dias, o que até pouco tempo atrás para mim era impensável.

Outra coisa que King ensina é não descuidar nunca de pelo menos três pontos: vocabulário, gramática e narrativa. Resumindo muito: conheça bem a sua língua e aprenda a contar uma história. Dá mais trabalho do que parece, mas no fim compensa.

Resolvi escrever este post justamente para dar força aos colegas de ofício que adoram ler mas parecem nunca ter tempo, devido ao estudo, ao trabalho ou à família. Evoé, pessoal!! Ânimo! Ler é gostoso, e faz bem não só à alma como também à carreira literária. Parar de ler é suicídio literário. Quem descobrir que não gosta tanto assim de ler talvez deva repensar as ambições literárias (não estou me referindo aqui a quem escreve RPGs ou roteiros para animes, por exemplo, pelos quais tenho o maior respeito - embora cultura seja igualmente importante para quem escreve em todas as mídias, aqui estou voltando meu foco para quem deseja escrever livros).

E escrever? Cuidado com a ambição desmedida da "trilogia" logo de cara - sem ter escrito pelo menos uns vinte ou trinta contos. Como diz o velho ditado, uma jornada começa com o primeiro passo. E o primeiro passo, no caso da literatura, costuma ser um conto (nem que esse conto fique na gaveta, ou numa pasta de seu computador). Mas nunca façam como uma conhecida minha, que um dia me confidenciou: "gostaria de ter mais tempo para escrever; mas eu trabalho durante o dia e toda noite sou convidada para uma balada, uma noite de autógrafos, um evento... Não tenho tempo algum." (Acho que não preciso dizer nada, não é? ;-)

Pra fechar: não desistam do sonho. Para a maioria das pessoas, ele vai demorar a se realizar. Mas é importante definir o caminho a seguir e ir em frente, sem deixar que nada ou ninguém atrapalhe (mas ao mesmo tempo sabendo ouvir conselhos e dicas, e sabendo também fazer pitstops para respirar fundo, aceitar críticas, reler com olhar desapaixonado as próprias histórias e revisá-las impiedosamente). Tudo vai dar certo no final. Como dizia o saudoso Fernando Sabino, se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim. E boa sorte para todos nós, que precisamos e merecemos.

7 Comments

Mais uma vez, um belo texto, Fábio, embora eu ache as vezes o grande problema do Stephen King seja que ele escreve DEMAIS as vezes, podendo ser mais resumido em certas horas. Acho que sigo os conselhos do Jorge Luiz Borges que diz no prefácio de seu livro Ficções "Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas páginas um idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário." Ou mesmo do bem humorado Douglas Adams, em seu livro Até Mais e Obrigado pelos Peixes "(...)De fato produz aqueles grossos volumes dos quais o mercado americano vive." Ou mesmo porque eu não tenho mais paciência em ler grossos volumes. Porque penso que poderia ler 3 outros livros no mesmo tempo. Digo isso quando vejo alguns livros do Stephen King, como A Coisa que ocupavam o volumoso espaço de DOIS volumes pesadíssimos!
Eu sempre brinco dizendo que acho que Stenphen King escreve bem quando escreve pouco. Pode ser implicância minha mas senti o mesmo quando li Tolkien. Acho que pertenço a categoria das pessoas que nunca saíram da casa de Tom Bombadil. Em comparação com Robert E. Howard, achei que esse ultimo é bem mais objetivo, sintético e não menos eficiente.
Mas isso é só uma opinião minha, é claro. O que não invalida seu belo post. Mais uma vez, parabéns pelo belo texto e obrigado pelos conselhos.

Silvio, ninguém é perfeito. Mas, do ponto de vista tanto do leitor quanto do escritor (desconfio, entretanto, que estou falando mais como este último), não vejo problema no tamanho, mas sim em como o autor lida com o tamanho. King não acerta a mão em todas, mas na maioria das vezes ele consegue. Mas comparar ele ao Borges é de uma grande injustiça para o pobre King: acho que até ele mesmo concordaria que perderia de longe nos contos. Mas como Borges nunca se aventurou no território pantanoso do romance, jamais saberemos se uma pretensa competição não poderia pender mais para o lado do velho Steve num caso desses. ;-)

Obrigado pela leitura deste escriba e um grande abraço!

Belo post, Fábio! Depois de ler, já estou me sentindo um pouco mais animada a tentar :D
Eu só não consigo uma coisa, ter um livro sempre a tiracolo, nunca tenho fila de leitura :( Ufs.. mas isso será resolvido um dia, espero!
Obrigada pelas palavras!

Gosto de King apesar de concordar que ele erra a mão algumas vezes no recheio da linguiça. Houve livros que li entusiasmado, sem pestanejar, houve os que li pestanejando sem parar, querendo dormir. King é hoje um nome único no terror e no fantástico pra quem gosta de mãos se arrastando, cabeças de aliens explodindo, carros "vivos" matando pessoas, casas mal assombradas e outros que tais. Um nome que já faz parte dos anais dos grandes autores da história, sem nenhum demérito à literatura mainstream.

Excelente texto!
Li "On Writing" faz um tempo e gostei muito, ainda que não concorde com tudo que King escreveu ali. Mas ele tem ótimas sacadas, como aquela de descobrir a história a ser contada como se fosse um arqueólogo.
Acho que uma pessoa - principalmente a do tipo que tem preconceito com a literatura de gênero - pode até não gostar do King, mas depois de ler "On Writing", não tem como não se tornar um admirador do trabalho dele.

Sabe que eu nunca li. Fico sempre muito curiosa, mas uma pontinha de preconceito sempre me pega e penso: tem tanta coisa melhor para ler, não vou perder tempo. Talvez esteja na hora de ultrapassar esta barreira!

"[...]que adoram ler mas parecem nunca ter tempo, devido ao estudo, ao trabalho ou à família."

Eu lia e escrevia muito mais antes de bancar a metida e entrar para a universidade. Textos técnicos e didáticos não só acabaram com meu português como também fizeram com que o gosto pela leitura se dispersasse um pouco (outrora, entre sair e ler, eu escolheria o segundo). Nada de subjetividade - diz a academia - e obedecemos sorrindo, a ciência a tudo justifica.
Por outro lado, a universidade mostrou a hipocrisia existente no “eu AMO ler” que gostamos de proferir por aí a torto e direito. “Adoro ler romances”, digo agora, porque ainda não atingi o nível racional de leitura – nem pretendo.

Parabéns pelo blog, adorei.

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Esta página contém um post de Fábio Fernandes publicado em June 1, 2008 11:36 AM.

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