Não, eu não estou falando de Barack Obama - ao menos não por enquanto. Para quem conhece bem a obra de Monteiro Lobato, o título é claro: é de um de seus livros, publicado originalmente em 1926, portanto há 82 anos (e curiosamente no mesmo ano em que Hugo Gernsback iniciou a publicação de Amazing Stories e cunhou a palavra scientifiction), o que faz todo o sentido do mundo, porque é o livro adulto de Lobato mais "science-fiction" que ele escreveu.

O Presidente Negro, que acabou de ser relançado, é também a história mais polêmica de Lobato, que nos anos 1960 foi acusado de racismo por ela. Injustamente.

Não vou entrar em detalhes agora, porque acabei de comprar o livro e vou começar a relê-lo depois de mais de vinte anos. Mas foi interessante perceber, ao entrar na livraria, que, ao contrário dos demais livros de Lobato que a Editora Globo está relançando, O Presidente Negro é o único que não está exposto à vista de todos, mas enfiado envergonhadamente no fundo de uma prateleira da seção de Literatura Brasileira. Será que os livreiros brasileiros têm vergonha desse livro de Lobato? E será que isso é um reflexo de uma suposta "vergonha" que os brasileiros teriam? Mais sobre isso muito em breve.

15 Comments

Injustamente, não foi. Monteiro Lobato, com toda sua doçura, foi um dos fundadores da Sociedade Paulista de Eugenia, pioneira no Brasil, em 1918, junto com o Dr. Arnaldo (da USP) e o Franco da Rocha (da cadeia-hospicio)

É estranho ver o Lobatinho por essa ótica, que normalmente serve a criminosos. Mas ele é um típico exemplo da hipocrisia da elite intelectual brasileira, que tem nojo da nossa miséria e vergonha do povo, mesmo se orgulhando deles.

Sugiro dar uma olha em: http://www.ufrgs.br/bioetica/eugenia.htm
e http://bravonline.abril.com.br/indices/livros/livrosmateria_277385.shtml

"O Presidente Negro mostra como as idéias da eugenia influenciaram o criador do Sítio do Picapau Amarelo e toda uma geração de intelectuais do país".

Abs.

Roger, eu sei disso. A questão é contextualizar - coisa que farei em um artigo. Ele defendia a eugenia mas não o extermínio de judeus na Segunda Guerra.

A eugenia, naquela época, infelizmente, era tida como uma ciência até interessante. Não estou defendendo Lobato não, mas que tal pensarmos com os olhos de 1918, e não de 2008? Afinal, é tão fácil chutar cachorro morto...

Concordo com a contextualização, Fabio. Monteiro Lobato, como qualquer pessoa, teve de lidar com algumas contradições. Nasceu em 1882, e a abolição da escravatura aconteceu somente em 1888. "Produto" de uma sociedade escravagista, foi formado sob os valores dessa sociedade. Porém, não era um homem burro. Estudou, viajou, faliu, foi preso, viveu. Se envolveu em polêmicas ruidosas com modernistas e políticos, foi corajoso ao defender as próprias opiniões. Mudou a própria maneira de pensar. Lobato era fruto de sua época, mas tinha os olhos no futuro. Nunca teve vergonha de mudar de opinião. Não creio que seja nobre nem justo "passar a régua" e definir o caleidoscópico Lobato com um único adjetivo, qualquer que seja ele. Ele, como todos nós, teve, sim, suas incoerências, mas foi um brasileiro que prestou uma riquíssima contribuição a este país.

Ele merece a devida responsabilidade por ser parte da elite que construiu o caráter segregário do país. A segregação do ser humano não é, e nunca será interessante, meu caro. Seja no nazismo, seja no capitalismo, no dadaísmo, ou em qualquer outro ísmo que encontrar por aí. Quando houver alguém dizendo que alguns são naturalmente melhores do que outros por motivos de cor, sexo e tal, sim, ele merece ser responsabilizado. O resto de sua obra aliviará. Todos aqueles que defenderam a eugenia em vida merecem um cuspida na cara antes de serem sepultados. Ele defendia o extermínio de negros, e de todas a raças que maculavam a imagem do brasileiro, com seu conceito europeu de homem "civilizado'.

Só entendendo essa perspectiva é que poderemos ver o motivo de Lobato ter pintado o caboclo brasileiro com tanto desdém e raiva. O caipira do Monteiro Lobato é um homem doente, prequiçoso e ruim. A tia anastácia sempre será a negra empregada. O tio barnabé será o eterno negro que vive de favor nas dependências da dona benta.

Devotar Monteiro Lobato me lembra o Galvão Bueno torcendo para o Brasil. Pouco importa se somos um dos países mais injustos do mundo. Pouco importa como essa injustiça nasceu. O que importa é que minha bandeira é verde, e o pica pau é amarelo.

Roger, como é interessante que isso sempre provoca respostas inflamadas das pessoas. Não vou responder isso aqui porque me parece uma provocação. Sugiro apenas que você releia as obras dele, em ordem cronológica, para ver que essas acusações não só não podem ser feitas fora do contexto histórico como o próprio Lobato mudou de opinião ao longo de sua vida. Mas, quando a gente fica irritado e começa a levar para o pessoal, o melhor mesmo é deixar de lado.

Não vou falar mais disso aqui não, fique sossegado. Muito menos "devotar" Monteiro Lobato (acho que você usou o verbo errado, não entendi bem o que você quis dizer, mas Lobato não é santo para mim, por isso não me proponho em momento algum a devotá-lo). Queria apenas resgatar um lado crítico de Monteiro Lobato que não é nazista nem fascista - mas, se a simples menção à possibilidade de que ele não seja aquilo no qual você (e muitos brasileiros movidos por um triste senso comum) desejam encaixá-lo deixa vocÊ irritado e até zangado comigo (embora não nos conheçamos pessoalmente, veja você como são as coisas na Web), então não me pronunciarei mais sobre o assunto neste blog. Fica melhor assim para você?

Abraço forte.

Assisti (e participei) recentemente de uma discussão igual a essa com relação ao Gumercindo Rocha Dórea... mudam as figuras mas não os argumentos.

Não estou triste e zangado com você, meu caro. Não me sinto ofendido. Só acho que é necessário desmontar ícones das figurinhas nacionais, como Lobato, que pregava o expurgo dos negros da nossa sociedade, a fim de purificá-la. E quanto ao devotar, é senso comum. Aprende-se na escola que ele é exemplo de patriotismo e repositorio de valores morais a ser seguido. Olha o post da Aurora e vai entender.

Talvez você possa refrescar minha memória e indicar onde é que ele se redimiu de tamanha afronta ao ser humano. Não consta, em nenhum de seus trabalhos, que tenha sentido remorso ou se desculpado por ter participado de um movimento tão mesquinho quanto o Eugênico. Conhece algum?

Quanto ao clichê colocado aqui pelo Tibor como monólogo impactante: Mudam-se as gerações, fica o conformismo diante das injustiças.

Igual a essa, Tibor? Talvez seja, já que muitos tentavam o mesmo olhar crítico do Fábio em relação ao Lobato naquela discussão, contextualizando autor/editor e obra e muitos não queriam debater, apenas estabelecer seus dogmas e pensamentos do jeito que eles devem ser.

As figuras até mudam, os vaselinas são sempre os mesmos.

A discussão realmente até tem pontos em comum, afinal o que se tentou fazer ali, por parte de algumas pessoas, foi analisar criticamente como o Fábio fez a relação editor/obra/contexto, sem partir de verdades a priori como 'O fato dele ser assim não tem nada a ver' ou 'O fato de se produzir um determinado tipo de literatura isenta a pessoa de ser analisada criticamente'.

Tem gente que usa esse tipo de argumentação para condenar os produtores culturais, tem outros que a usa para os endeusar e não permitir a análise crítica. É esse tipo de pensamento que engessa a produção e que faz com que surjam absurdos como o crítico que usa pseudônimos...

OH! Punks por aqui. Cusparadas. Ótimo.
Detonar o dadaísmo é mesmo uma atitude dadá.
Detonar qualquer coisa é atitude dadá.
Congratulações ao Roger, dadaísta de primeira, punk de segunda.

Congratulações aos corajosos homens da internet. O mundo precisa muito de gente com sacadinhas tão geniais assim. Aposto que sua patotinha te adora.

Dadá
Eu não tenho esquema. A juíza me absolveu e eu não preciso ter a última palavra. Última palavra é coisa para gente boa e inteligente.
Passo a última palavra para você, Rogê, a única pessoa boa e inteligente por aqui. E vou descansar em paz. Adeus pra sempre.


Aristóteles defendia a escravidão, acho que devemos jogar toda a obra dele no lixo também.

Vale como consulta, um pensamento de Ortega Y Gasset no seu livro A Rebelião das Massas:

“Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor.”

Agradeço ao Fabio por nos ceder espaço para debater (coloco aqui a palavra "debate" no melhor dos sentidos). Vou tentar colocar meu pensamento sem qualquer intenção de inflamar ânimos ou provocar flame wars, pois não quero bagunçar a casa alheia.
Tenho horror ao período histórico em que houve escravidão no Brasil. Não concordo com preconceitos, fundamentalismos e segregação de quaisquer tipos.
Estudo há pelo menos 40 anos e procuro entender o que estudo. Tenho lido a vida toda. Monteiro Lobato é um dos autores do qual li toda a obra - e a li fora da "escola" (essa instituição que costuma cultuar o "senso comum"). Jamais encontrei nela qualquer menção à segregação, muito menos ao extermínio de negros. Reitero: Lobato era fruto da época e da sociedade na qual nasceu e viveu.
Concordo com a totalidade dos pensamentos expressos em sua obra? NÃO.
Acredito que Lobato era "perfeito", "ideal"? NÃO.
Como disse o Lupo, assim como não podemos jogar no lixo a obra de Aristóteles, vamos colocar na balança o que há de bom na obra e na vida de Lobato.
Nós, brasileiros, adoramos reconhecer e apontar nossos próprios defeitos. Quando passaremos, com lucidez e bom senso, a reconhecer com seriedade nossas qualidades?
Qual de nós nunca cometeu um equívoco? Quem entre nós jamais fez uma grande bobagem? Quando observamos a complexidade humana desse ponto de vista, fica mais fácil compreender que a pessoa possui a estatura que construiu para si, descontando na altura suas qualidades e seus defeitos.
Por favor, não vamos reduzir a um adjetivo pejorativo a complexidade de um de nossos grandes personagens históricos.
Peço desculpas, mas creio que o caso colocado aqui pelo Fabio não é o de "desmontar" nada, mas sim provocar a reflexão.
Creio que o Tibor captou bem o espírito da coisa quando cita a irônica passagem de Ortega y Gasset.
Agradeço pela paciência de todos.

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Esta página contém um post de Fábio Fernandes publicado em May 17, 2008 11:13 AM.

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