Ficção Científica Brasileira - Um Encontro Feliz

mesaredonda4.jpgmesaredonda3.jpgmesaredonda1.jpgEu estava devendo um relato da já famosa e quiçá clássica Mesa Redonda sobre FC brasileira em São Paulo, organizada pelo Horácio Corral, argentino radicado no Brasil que é o maior conhecedor de ficção científica da Livraria Cultura e organizou lindamente o evento, que aconteceu na loja do Shopping Market Place no último sábado, dia 29 de março.

A mesa tinha como tema Os novos rumos da Ficção Científica Brasileira. A mediação ficou por conta de Ana Cristina Rodrigues, atual presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica - CLFC, do qual já fui membro e que me proporcionou a possibilidade de abrir a mente para o que se fazia de ficção científica no mundo então (estou falando da década de 1980 - entrei para o clube em 1987 e saí em 2000). Os participantes eram os escritores Roberto Causo, Cristina Lasaitis, Carlos Orsi, Richard Diegues, Clinton Davisson, Gerson Lodi-Ribeiro e este que vos digita.

Antes, alguns de nós se encontraram para almoçar e conversar com mais calma antes do evento. Tive o prazer de rever o Gerson Lodi-Ribeiro depois de alguns anos, e pudemos conversar sobre família, cabelos brancos e livros, não necessariamente nessa ordem. Revi o Carlos Orsi, com quem havia me encontrado algumas semanas antes, e fui apresentado ao Clinton (autor de Hegemonia), ao Richard (escritor e editor da Tarja Editorial, que publicou Visões de São Paulo) e a Cristina (autora de alguns contos comoventes, como Hibakusha, e que em breve lançará sua primeira coletânea), além da nossa moderadora, Ana Cristina, escritora e mentora do grupo Fábrica dos Sonhos, que lançou a ótima revista online Black Rocket.

O papo foi animado, regado a um bom vinho escolhido pelo enólogo da mesa, Gerson (e do qual eu infelizmente não desfrutei, pois estou proibido de beber pelo médico), e se prolongou quase até a hora do evento. Numa caravana de táxis, partimos para o Market Place, onde chegamos ainda a tempo de tomar um café com tranqüilidade...

...e encontrar uma boa parte do público já nos aguardando do lado de fora do auditório. Nomes conhecidos da comunidade de ficção científica brasileira, como Sílvio Alexandre e Marcello Simão Branco, membros da Fábrica de Sonhos, como Aguinaldo Peres, e colegas da comunidade Ficção Científica do Orkut (fundada por mim em 2004 e atualmente moderada por Ana Cristina), como Vinícius e Huguinho, além da presença luxuosa e mais que bem-vinda de outros escritores, como Tibor Moricz (Síndrome de Cérbero) e André Vianco (Os Sete)

Dos cerca de 100 lugares do auditório da Cultura do Market Place, mais da metade estavam ocupados, um excelente resultado para um evento desse tipo e que há tanto tempo não acontecia. Quanto à mesa, Ana Cristina conduziu os trabalhos com graça e rigor: cada um dos membros teve cinco minutos para falar um pouco sobre seus trabalhos e sobre o tema em questão. Pareceu pouco no começo, mas não foi; após essa abertura, todos tiveram mais tempo para debater, conversar uns com os outros e responder a perguntas do público, que não foram poucas.

Discutiu-se de tudo um pouco: cyberpunk, New Weird, feminismo na FC brasileira atual, o papel do meio acadêmico na disseminação do gênero (é importante ressaltar que na mesa havia dois pesquisadores acadêmicos de ficção científica: Roberto Causo e este que vos digita, ambos com livros publicados na área), a validade de distribuir gratuitamente obras na Web, à maneira de Cory Doctorow, e os rumos de projetos multimídia como o do game Taikodom, cujo universo foi criado e está sendo capitaneado por Gerson Lodi-Ribeiro, que, além de seu emprego convencional, praticamente vive de escrever livros para o projeto atualmente.

Após a parte dita oficial, houve uma longa e agradabilíssima confraternização entre todos os presentes, da qual fez parte uma apresentação feita por convidados-surpresa: Adriano Piazzi e Delfin, respectivamente publisher e coordenador editorial da Editora Aleph, que mostraram as capas de trilogia do Sprawl, de William Gibson (da qual a nova tradução de Neuromancer foi feita por este que vos digita) e Snow Crash, de Neal Stephenson. Bons augúrios para fãs, leitores e profissionais da área.

Resumo da space opera: foi um dos grandes momentos da ficção científica brasileira nos últimos anos. Pouca formalidade, muito papo, muita discussão relevante, muito interesse de se conhecer as pessoas que fazem a FC brasileira hoje. Não foi a toa que eu, num artigo no começo do ano no Webinsider, declarei 2008 como o Annus Mirabilis da FCB. Já está sendo. Parabéns para todos nós.

PS: Eu sou tão incompetente com o Movable Type que não sei legendar as fotos. Por enquanto, então, faço o trabalho analogicamente:

foto 1: Carlos Orsi, Gerson Lodi-Ribeiro, Cristina Lasaitis e Ana Cristina Rodrigues
foto 2: eu, Richard Diegues, Clinton Davisson e Roberto Causo
foto 3: Cristina, Ana, eu com o microfone, Richard, Clinton e o pé de Causo

As fotos foram tiradas com a máquina da Cristina Lasaitis e tomei a liberdade de colocar algumas delas aqui para compartilhar com os leitores do blog. Meu obrigado à Cris.

28 Comments

Mais um ótimo relato! Ainda mais porque pouca gente se dispôs a escrever um relatório detalhado... Ainda sinto falta do relatório do almoço, como o tipo de molho usado, as massas, seus recheios, etc. :P O preço eu já sei quanto ficou, não precisa falar não, hehehe. Preciso 'provar' o Taikodom ainda!
[]'s!

Nossa, como você é rápida! Eu estava acabando de fazer as últimas alterações no post... :-)

Sabe a sensação de ter perdido o bonde? Aquele, da história. Fico imensamente feliz pelo encontro ter dado certo e infinitamente triste de não ter podido participar.

Acho que a Aleph e o CLFC deviam reeditar a conversa, ou propor outro tema, durante a bienal de SP. Aí dá tempo preu juntar uns trocados e ir.:)

Pois é, foi um verdadeiro "Bonde do Tigrão" da história. Pegou um pegou geral! Não sobrou pedra sobre pedra! :-)

Agora, falando sério, seria muito interessante mesmo que a Aleph se juntasse à comunidade de FC em geral (não só o CLFC) para promover esse tipo de encontro. Será que alguém da Aleph lê os nossos blogs?

Eu fui! Muito bom resumo, Fábio. Pra quem estava na platéia o tempo passou rápido demais, sinal de que foi instigante e divertido.
Obrigada pelo autógrafo com dedicatória!

De nada, Fábio :-)

Beijos!

Concordo com a Ludimila: o tempo voou para quem estava na pláteia. Foi um evento excelente, sem dúvida.

Fiquei com a mesma sensação de frustração que o Jacques. Pior ainda, porque eu já intuía que ia ser um evento muito significativo, e não pude participar simplesmente porque já tinha um compromisso de viagem agendado há mais tempo (coisa rara, mas caiu exatamente no dia!).
Bom, fico inscrito pro próximo...rs*
Obrigado, Fábio,e parabéns pelo ótimo (e auspicioso) relato.

Ludi, quem te agradece sou eu por você ter ido e por ter participado. Foi muito bom te conhecer pessoalmente. Agora a gente só precisa encontrar um tempo praquelas aulas de japonês! :-)

Obrigado mais uma vez, Cris!! :-D

Marcelo, pelo menos eu e você ainda pegamos um táxi juntos no final e estendemos um pouco mais o papo, né? Precisamos marcar um café por aqui em breve!

Ô, Flávio, também foi falta de organização do evento não terem te chamado pra mesa, né? Da próxima o autor de Quintessência tem que estar lá no palco, uai!! E eu faço questão de estar presente!
:-)

Fábio!

Também fiquei muito feliz.

Em primeiro lugar pela oportunidade de revê-lo e, em segundo lugar, por considerar que tivemos realmente um "Encontro Feliz", como você muito bem colocou no título desta matéria.

Já durante a mesa-redonda, eu e o Martinho concordamos enfaticamente quando você definiu 2008 como o Annus Mirabilis da FCB. Espero, esperamos e torcemos todos, que você esteja certo!

Um único reparo, não chego a enólogo, sou apenas "enófilo", ou seja, um metido a entender de vinhos. ;-)))

Abraços & Beijos,
Gerson.

Gerson, eu também fiquei muito feliz, acredite. Fiquei com pena de não ter podido ficar mais - mas cumprirei a promessa empenhada a você: da próxima vez em que eu for ao Rio, avisarei, que é para a gente se encontrar e eu poder desfrutar da sua enofilia (meninos, não pensem maldade!! :-)

Beijão!!

Eu já dei a idéia: a Aleph podia fazer uma reedição desse encontro na Bienal. Quem tiver o contato mais próximo podia dar uma reforçada, né? Vocês acham uma boa e viável?

Eu acho que seria bárbaro! O que é que vocês acham?

Façamos uma campanha de email. Vamos encher a caixa postal da Aleph e quem sabe sejamos ouvidos (lidos, melhor dizendo).

apoiado!!!

Olha... Só posso dizer que foi um imenso prazer conhecer você Fábio.
Espero que em próximas oportunidades tenhamos mais tempo para conversar.

E realmente, o tempo passou muito rápido!
Quando a Ana encerrou a Mesa Redonda eu olhei para o relogio e disse: "Já?"

Tomara que muitas outras oportunidades apareçam!
Grande abraço!
:-)

Huguinho, o prazer foi meu! É muito bom saber que as pessoas que a gente gosta no Orkut são tão legais quanto ou mais até na vida real!
Você pode me mandar em PVT as suas fotos, por favor? Particularmente as da tietagem (nunca fui tão tietado! :-D

O melhor tradutor de William Gibson de todos os tempos.

William Gibson que não é traduzido por Fábio Fernandes é menos William Gibson que qualquer William Gibson - inclusive o original.

Tá bom assim de tietagem pra você?

É sério! Grande Trabalho, Sr. Fernandes. E eu tenho vontade de me dar um tiro na cabeça cada vez que sei dessas coisas acontecendo em SP e eu não estou aí.

menos, Belly, menos... :-)

Afinal, eu não sou o único tradutor do Gibson. Count Zero e Mona Lisa Overdrive foram traduzidas por outros profissionais, supercompetentes.

Mas adorei a tietagem! :-)

Parábens pelo relato do evento. E junto-me ao coro de vocês, o evento realmente passou rápido. E olha que foram quase 3hs de bate-boca. Todos os presentes estão de parábens... :)

Peço desculpas, mais uma vez pelo "lost slide", Fábio. Ainda mais com você que é um dos caras que mais admiro e escuto, pode não parecer, as vezes, quando o tema é literatura ou comunicação.

Tenho elocubrado com o Sr.Delfin últimamente, estamos com alguns planos. Eu vou "cantar" essa idéia de mesa redonda na Bienal para ele, e ver se lhe apetece. Imagino que sim... :)

De qualquer maneira, nada impede, a realização de uma nova Mesa Redonda de FCB mas próxima do final do ano para fazer uma retrospectiva do acontecido.

Bom... Abraços!!

Horacio, nós é que temos de agradecer a você. E não precisa pedir desculpas por nada. O evento foi 100 por cento perfeito, fiquei muito feliz.

E ficamos aguardando um resultado bacana de suas elocubrações com o Sr. Delfin. ;-)

Fábio, fiquei tri chateada por ter perdido esse evento, mas tu sabe que estou atolada de trabalho e não tinha possibilidade de eu viajar naquele dia até SP. Mas espero mesmo que num próximo eu possa ir. bjao e tudo de bom por ai.. o relato só me deixou com mais vontade de que tenha um próximo.

ô, Adri, também senti sua falta - mas você foi lembrada quando falamos da FC na academia, viu? ;-)

Agora é só organizarmos outro evento. Será que não rola um na Cultura de Porto Alegre? Sei que você está em Curitiba, mas poderia ser interessante, você não acha?

Pô, Fábio, Delfin não tem sobrenome, hehehehehe. O K é uma referência emeilar(!) à minha antiga editora, a Edições K, que já publicou sci-fi (Velhas Fezes - Patrick Brock) em 2004, no contexto da nova cena literária brasileira, tendo sido muito bem aceita na época.

E, quanto a reeditar o papo na Bienal, estamos vendo isso! Aguardem!

Salve, Delfin!

Vou fazer a correção! :-)
Abraço!

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Esta página contém um post de Fábio Fernandes publicado em April 3, 2008 8:53 AM.

A Nova Fronteira - uma bela surpresa é a postagem anterior.

Book Received: Tales From The White Hart, by Arthur C. Clarke é a próxima postagem.

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