Pois é. Depois de meses e meses alternando com livros diversos por diversão e por dever de ofício, ontem à noite acabei de ler uma das maiores e melhores sagas já escritas. Estou falando, como vocês já viram pelo título do post, de A Torre Negra, de Stephen King.
Li tudo em inglês, como é de meu costume. Para quem não manja o idioma bretão, não há problema: os livros já saíram todos no Brasil. Folheei as traduções da Editora Objetiva, e, até onde pude ver, elas são muito boas e podem ser lidas sem susto. Só não gostei das capas, para ser sincero, porque parecem feitas para um público infanto-juvenil, e, embora possamos usar o velho clichê de que Stephen King é para todas as idades, definitivamente A Torre Negra é uma saga escrita em grande parte para adultos, por toda a complexidade emocional e referencial que abrange.
Meu testemunho é o de um sujeito que lê até bula de remédio dentro de elevador só para não ficar sem ter o que ler (não riam, isso já me aconteceu e de vez em quando ainda rola) e carrega sempre dois livros dentro da bolsa a tiracolo por medo absoluto de um deles acabar no meio de uma viagem de ônibus ou metrô - e como é que eu fico, hein, hein? Um leitor contumaz, que se pudesse leria andando no meio da rua. E no entanto, acreditem: eu não lia Stephen King há cerca de vinte anos.
O que é estranho, porque gostei do pouco que li. Pela ordem, segundo me lembro: O Iluminado, Zona Morta, vários contos e novelas das coletâneas Skeleton Crew e Different Seasons - e creio que só. Aí, um dia, diria algum abusado cínico, eu cresci e perdi o gosto por esse tipo de literatura.
Cinismo ao qual respondo com o famoso Axioma de Miguel Falabella: "você pode tirar a pessoa da Tijuca, mas não tira a Tijuca da pessoa". Isso vale para qualquer coisa no mundo. Eu me afastei da literatura de ficção científica, fantasia e horror por um tempo, mas certas coisas não morrem no nosso coração. (Principalmente se você for um vampiro ou um zumbi, mas aí já é outra história.)
Um dia, motivado por um amigo carioca que decidiu comprar os sete volumes de uma tacada para ler e havia gostado muito, eu acabei cedendo. Aproveitei um grande desconto na Cultura e encomendei todos - não de uma tacada, mas de três, o que já foi chato para o bolso, mas era acessível. E não me arrependi nem um pouco.
A Torre Negra é uma das obras mais bem-escritas de King e uma das maiores sagas de FC/Fantasia/Horror de todos os tempos.
Não vou dar spoilers aqui; digo apenas que todos os sete volumes são fundamentais. O primeiro, The Gunslinger, é de se ler de um fôlego só, é pura ação. (Mas não descuida da narrativa. Já tem gente apostando que a primeira frase, "The man in black fled across the desert, and the gunslinger followed" vai entrar para a história da literatura como uma das aberturas mais fortes de um livro. (Eu concordo.)
O segundo, The Drawing of the Three, é assustador - não me tirou o sono, mas tive pesadelos (coisa que livros e filmes não fazem comigo desde The Day After, em 1980, pra vocês verem). O terceiro, The Waste Lands, assusta mais é mais instigante: tem ecos de livros anteriores de King, como Christine e Cujo. Aliás, o grande barato da saga da Torre Negra é sua intertextualidade, para usar um termo acadêmico: Stephen King cria o que Michael Moorcock batizou de Multiverso, ou seja, um ponto central do qual partem múltiplos universos paralelos. E ele se aproveita desse multiverso para salpicar ao longo da história cenários e situações de vários de seus livros, de Salem´s Lot e The Stand a It e Hearts in Atlantis. King não tem dó nem piedade, nem dos personagens nem dos leitores.
Um exemplo disso é o quarto volume, Wizard and Glass, que conta um episódio da vida anterior do Pistoleiro. Esse livro é o que menos apresenta referências de outros livros e mais nos conta sobre a história única de Roland Deschain, o último pistoleiro, descendente de Arthur, da casa de Eld, em sua peregrinação para chegar à Torre Negra e tentar fazer com que o universo (cujos feixes são sustentados pela torre, e estão sendo destruídos pouco a pouco) não seja destruído. E é o segundo livro mais comovente da saga. É onde se vê a construção do personagem, e descobrimos quem ele é e o que o motiva.
A esta altura todo mundo sabe que os três últimos volumes, escritos já neste milênio (o primeiro livro é, pasmem, de 1970, quando King estava começando a escrever), foram feitos após o acidente que quase matou o escritor, Um aviso aos mais pessimistas: eles são tão bons quanto o resto - mas certamente teriam sido escritos bem diferente se ele não tivesse sido atropelado, porque...
(hm, menti, vou ter que contar um SPOILER!)
...ele incorpora à trama o próprio acidente de que foi vítima e acaba virando um personagem importante para a narrativa. Mas se justifica no posfácio do último volume, e concordei inteiramente com ele.
O quinto, Wolves of the Calla, é um dos melhores por causa da ação quase ininterrupta, um ou dois momentos de humor, de sensualidade e onde ficamos sabendo mais detalhes da história total da saga. As homenagens a clássicos do western provam definitivamente (para quem ainda não acreditava) que é mais do que possível mesclar elementos fantásticos à cultura pop, e ao folclore de uma determinada região. (Nem só de celtas vive a fantasia...)
O sexto, Song of Susannah, para mim foi o único que cansou um pouco, mas atribuo isso ao fato de que, do número três em diante, li todos os livros direto, sem dar um intervalo de repouso que talvez fosse necessário para uma saga tão densa e conturbada. Mesmo assim, gostei, porque da metade para o final a construção do suspense é impecável.
E o sétimo... bem, o sétimo é TUDO ISSO e mais um pouco. A Torre Negra é comovente, cheio de ação, amor, morte, violência, cenários assustadores e um final (aliás, são praticamente três finais) que dá a entender que deixa coisas em aberto, mas para mim fechou e fechou de maneira mítica, seguindo o modelo grego básico mesmo de tragédia, de profecias que se cumprem mas não como as desejamos, e onde quase tudo termina bem - mas não para todos.
Senhores e senhoras, eu não lia King há vinte anos anos e tinha preconceito, confesso. Não mais. Adorei e voltei a ser fã de Stephen King. E, como escritor, aprendi que é possível escrever um faroeste arturiano. O que me faz pensar (mas este post está longo demais, aguardem pensamentos mais elaborados para os próximos dias): o que nos impede de escrever uma vaquejada merovíngia? (e não, não estou brincando.)


Sete livros, né? Ai meu bolso...
Pois é, eu tive de pagar a perdeeeeeer de vista...
:-(
Tenho o primeiro volume na versão pocket e descobri que a biblioteca municipal recentemente adquiriu os dois volumes seguintes :)
Tá vendo? As pessoas costumam reclamar de Stephen King, tal e coisa, mas ele é um dos poucos autores que sempre acabam chegando às bibliotecas! ;-)
E a bibliotecária grita: THE KING´S IN THE BUILDING!!!
"The man in black fled across the desert, and the gunslinger followed"
Tenho um amigo que é fascinado nesta série, o mesmo sempre comenta que esta frase foi a melhor maneira de começar um filme que ele já leu.
Também comenta sobre os sonhos e pesadelos que o livro causa, realmente instigante e interessante.
A Torre Negra já esta nos meus planos futuros de leitura.
[Achado no InterNey]
Vale a pena, Henrique. Mas se prepare mentalmente, porque não dá pra ler essa série quando estiver deprê (principalmente no livro 2).
Hum, mais um (na verdade, sete) na minha lista de compras! Depois de ler o seu post eu fiquei mesmo babando... aiai. Vai demorar para eu ver, já que estou economizando recursos para os lançamentos vindouros da Aleph.
Giseli, vale a pena economizar para isso tudo. ;-)
O caso é que 2008 e 2009 serão anos muito propícios para a FC no Brasil. Falando nisso, você irá lá no evento da Cultura?