Eu estava tentando me lembrar onde mais já havia lido alguma coisa semelhante ao que está acontecendo nestes últimos dias em São Paulo (sim, porque uma das REGRAS FUNDAMENTAIS DA FICÇÃO CIENTÍFICA é: TUDO já foi abordado - nosso único problema nas discussões e nos posts de blogs é descobrir em que livro), e aí lembrei: há anos, quando eu trabalhei na Tribuna da Imprensa, fui solicitado a resenhar um livro de um coleguinha que na época trabalhava no Jornal do Brasil, Mário Pontes.
Nã-nã-ni-na-não, senhores e senhoras, não foi jabá-tipo-revista-Veja (encontrado por intermédio do Pedro Dória: final dos anos 1990, jornal pequeno (embora já tenha sido de grande influência no passado distante, com um breve retorno à glória em 1982, quando Brizola se candidatou para o governo do Rio - e foi bem antes do meu tempo lá, portanto vocês vêem que eu também não tive nada a ver com isso), a editora do caderno Tribuna BIS na época dava a nós, repórteres, total liberdade para escrever (ou não) sobre o livro ou CD que quiséssemos. Eu havia recebido uma pilha de livros e entre eles estava o fino livro de contos Andante com Morte, do Mário, lançado pela Bertrand.
Quando peguei o livro, não me pareceu uma grande obra, mas os contos eram bem escritos. Apenas um, entretanto, ficou na minha memória (o que é mais do que eu posso dizer de muitos outros que li ou resenhei naquela época): A Nova Rota da Seda. Este conto é ambientado em meados do século XXI, e mostra um mundo que entrou em colapso graças à escassez dos recursos naturais. Esse mundo revertido a um estado tribal-global (no pior dos sentidos) tem um grande símbolos, que foi aliás o primeiro grande sintoma de que havia alguma coisa muito errada no sistema: o colapso total da malha rodoviária das grandes cidades.
O tipo de situação que Mário escreveu nesse conto já tinha sido abordado por autores como o nunca pouco mencionado J.G.Ballard, além de Kurt Vonnegut e Robert Silverberg, entre uma infinidade de outros dos quais não vou me lembrar agora (mas give me time). O que me chamou a atenção foi um brasileiro fazer isso e ser publicado por uma grande editora. Nem é preciso dizer que elogiei o livro, claro, com foco nesse conto.
E não é o que está acontecendo agora? Eu não acredito que escritores de ficção científica sejam profetas - o que acontece é que de vez em quando eles sintonizam outras realidades. Como o Mário, que nem costuma escrever nada desse gênero, acabou fazendo. Para quem quer saber um pouco mais sobre ele, uma entrevista concedida no ano passado para a ABI.
UPDATE 21:06h - às 19h, 222 km de lentidão em São Paulo.


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