Arthur C. Clarke - Livros para um tributo ao mestre

O Persegonha me pediu uma relação de bons livros de Arthur C. Clarke para ler, principalmente para um impenitente como ele, que nunca leu nada do mestre. Como tributo a Clarke, segue uma lista de livros: livros que me marcaram pessoalmente e que foram importantes para minha geração.

O Fim da Infância - Para mim, o melhor livro de Clarke. Conta a história do primeiro contato entre os humanos e uma civilização alienígena tão superior a nós tecnológica e moralmente que a humanidade é obrigada a mudar totalmente seus conceitos... e bem mais que isso. É um livro belo e terrível, como diria outro inglês ilustre, William Blake.

A Cidade e as Estrelas - Um belo precursor de Matrix. Uma história passada nada menos que um milhão de anos no futuro, quando a humanidade foi reduzida a uma única cidade gigantesca, Diaspar, onde os humanos que a habitam são "reencarnados" depois de mortos, de modo a manter sempre o mesmo número de habitantes, e vivem num mundo perfeitamente criado para eles. Até que nasce Alvin, o primeiro ser inteiramente original desde a criação de Diaspar, e começa a questionar o porquê dessa existência tão protegida, e se pergunta: o que há além das fronteiras da cidade?


2001, Uma Odisséia no Espaço - Ao contrário do que muita gente pensa, 2001 foi escrito ao mesmo tempo em que o filme de Kubrick foi feito. Stanley Kubrick pensou em adaptar O Fim da Infância, mas acabou desistindo e lhe foi sugerido que adaptasse The Sentinel, um conto curto mas muito instigante. O conto acabou entrando no filme indiretamente: é a parte em que aparece o monolito escavado na lua e, ao ser tocado, emite um ruído ensurdecedor - o aviso para seus criadores de que a raça que ocupava a Terra finalmente conseguiu sair do planeta. Apesar disso, há algumas diferenças entre livro e filme. A maior delas é que Clarke considerava mais lógico que a Discovery fosse explorar Saturno, ao passo que Kubrick acabou achando que Júpiter era mais interessante visualmente. Não importa: este é um dos poucos casos em que livro e filme estão certos e são ótimos.


2010. Uma Odisséia no Espaço II - Esse livro ainda mantém o frescor e o sense of wonder de 2001. Uma curiosidade: Clarke sempre afirmou que jamais escreveria uma continuação - mas isso foi até ele receber uma carta de um carioca chamado Jorge Luis Calife, que lhe enviou um conto chamado "2002" e dando ao mestre todos os direitos sobre a história. Clarke nunca assumiu diretamente a influência de Calife, mas o agradece ao final de 2010. E várias das premissas de 2002 estão presentes em 2010, como a participação do Dr. Chandra, criador do computador HAL, para analisar o que deu errado na missão original, e as "viagens" do ex-astronauta Dave Bowman, agora mais que humano, pela Terra. O filme de Peter Hyams não é ruim, mas não chega aos pés do filme de Kubrick; vale pela diversão.


Encontro com Rama - O melhor livro de Clarke junto com O Fim da Infância. É um dos livros mais instigantes de Clarke, pois mostra a visita de um asteróide gigantesco ao sistema solar e uma expedição que vai explorá-lo... e descobre que ele possui um imenso maquinário alienígena em seu interior. A expedição é curta (como o livro, um dos menores romances de Clarke) e de uma lucidez impressionante, pois mostra uma possibilidade que poucos escritores (como Stanislaw Lem em Solaris) mostraram: a sensação de frustração perante o incompreensível de uma mente alienígena.
Um dos sonhos da vida do ator americano Morgan Freeman é fazer a adaptação deste livro para o cinema. Esperemos que agora ele saia (mas com um gostinho amargo na boca, pois infelizmente o velho mestre não o verá).

Existem muitos outros livros bons do mestre, mas estes foram os que mais me marcaram. E contos excelentes, como Os Nove Bilhões de Nomes de Deus e A Meeting with Medusa (uma novela excelente que comecei a reler ontem, em homenagem a Clarke).

E vocês? Quais foram as histórias de Clarke que mais os marcaram?

4 Comments

Esses livros que você listou são mesmo maravilhosos. Além desses, eu colocaria alguns contos do "O Vento Solar".
Triste perda para a FC :(

Não gosto muito de O Vento Solar, Giseli, mas hoje acho que foi algum problema na tradução. Lembro que havia um conto excelente, em que os humanos que haviam inicialmente "semeado" a Terra retornavam e comentavam uns com os outros algo do tipo: é, os humanos que deixamos ali até que evoluíram, tal e coisa, mas desenvolveram um pequeno probleminha genético: muitos ficaram brancos (porque a raça original era toda negra - foi uma bela sacaneada nos racistas!)
;-)

Gosto muito de '2010', às vezes o releio, até. Há uma 'humanizada' na história, exatamente por agora não se depender de um protagonista e sua solidão. Gerou um filme do Peter Hyams, em geral tido como marromenos. O chato é a comparação com o do Kubrick, mas segundo Hyams, o próprio Kubrick teria lhe dito, 'eles vão falar, de qquer maneira. Apenas faça o seu filme.' À sua maneira ou de qquer forma, o filme então foi feito. Tem coisas ali que simplesmente desgosto, como o climinha guerra fria que simplesmente não há, no livro original, apesar da III GM estar batendo à porta.

'As Fontes do Paraíso' tem um que de ode aos engenheiros, mas ainda é um bom livro, creio. É curioso ver como em 'Os Náufragos do Seleme' ele larga a grandiloquência e se foca em um drama localizado, digamos. Achei curioso como nunca adaptaram aquilo.

As duas coletâneas que eu conheço são 'Do Outro Lado do Céu' e 'Contos da Taverna'. 'Os 9 Bilhões de Nomes de Deus' consta na primeira, além de outros ótimos contos. A segunda coletânea vale à pena por ser um Clarke pouco comum: ele larga propositalmente a seriedade de suas obras e abre mão dos grandes eventos cósmicos para contar "histórias de pescador da ficção-científica". O resultado é ótimo.

Infelizmente, a Nova Fronteira, que publicou a maioria dos livros do Clarke, foi assimilada pela Ediouro, e até onde sei não há planos de novas edições. Espero que isto seja temporário.

Desonesto dizer "qual o melhor" quando li poucos. Então, vamos definir de que universo estou falando (quais li): 2001, 2010, 2061, 3001, As canções da Terra distante, Childhood's End, The Sentinel (conto), Encounter in the Dawn (conto) e Disque F para Frankenstein (conto).

Desses, o de que gostei mais foi 2010, pelas descrições do espaço, pelo sentimento de imensidão desconhecida, de ordem perfeita e de balé cósmico. No espaço, tudo é matematicamente calculável com toda a precisão e a Natureza é tão previsível e, mesmo assim, cheia de mistérios. Para navegar, basta aplicar um foguetinho no momento certo e a gravidade faz todo o resto, por maior que seja sua inércia e por mais que o efeito só se faça sentir meses depois. Gostei também das descrições minuciosas e realistas do ambiente das naves espaciais.

Mas o que mais me marcou foi As canções da Terra distante, que me trouxe uma preocupação clássica: durante milênios, a humanidade acumulou história, cultura, ciência e arte. Esse patrimônio é o que temos de mais valioso. Se um dia a Terra se acabar, o que faremos para não perdê-lo? Como selecionar os livros corretos para serem salvos? E isso acontece nas primeiras páginas. O resto do romance é o choque entre os últimos homens nascidos na Terra e os primeiros filhos de uma nave colonizadora do espaço, que tiveram de começar tudo quase do zero e nada sabem de sua herança. É de uma melancolia, de uma tristeza sobre o inevitável, como só vemos (e tanto vemos) na ficção científica em geral e em Clarke em particular.

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Este post

Esta página contém um post de Fábio Fernandes publicado em March 19, 2008 7:24 AM.

Morreu Arthur C. Clarke é a postagem anterior.

Mais um blog amigo que chega para a folia! é a próxima postagem.

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