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é o título de um pequeno texto que escrevi para a Revista Continuum, do Itaú Cultural. Fui solicitado pela revista a escrever um texto sobre o Twitter, que é o meu mais recente objeto de estudo acadêmico.

O texto em questão era para a seção Arena, que propõe uma pergunta a dois entrevistados de opiniões geralmente opostas, podendo ser ou não complementares, para estimular um debate saudável. A pergunta era a seguinte:

As redes sociais, especialmente aquelas dedicadas ao relacionamento interpessoal, servem mais como instrumentos de reforço do caráter egocêntrico da personalidade de seus participantes do que como uma fonte de conteúdos relevantes ou de mobilização e discussão coletiva?

Minha resposta? Leiam aqui. E, abaixo, a da minha colega Raquel Recuero.

Relendo o Bhavagad Gita:

Seja, pois, o motivo das tuas ações e dos teus pensamentos sempre o cumprimento do dever, e faze as tuas obras sem procurares recompensa, sem te preocupares com o teu ganho ou o teu prejuízo pessoal. (Capítulo II, versículo 47)


Pois é.


Conviteblablablogue

Espero vocês lá!

O título do post é de Aldir Blanc, mas o uso de Amigo é Para Essas Coisas, famosa na voz do MPB4, cai como uma luva (prateada reluzente, claro) para este momento. Na morte as diferenças acabam, os problemas são resolvidos (simplesmente porque não há mais o que fazer a respeito deles), toda dor (daquele que foi) se esvai. Nada mais importa agora a não ser um minuto de silêncio. E muitos, mas muitos minutos de música sem parar. Don't stop 'til you get enough, any of you.

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É, caiu a exigência do diploma de jornalista.


Se alguém tivesse pedido minha opinião há uns vinte anos, eu teria sido frontalmente contra. Eu havia acabado de me formar em Comunicação Social, habilitação Jornalismo, fazia pouco tempo, e estava batalhando por um lugar ao sol (apenas força de expressão, claro, porque jornalista que é jornalista trabalha ao sol, na sombra, dentro e fora da redação, à hora que for, não tem escolher: jornalista que é jornalista não trabalha, vive o trabalho, respira o trabalho).

Pouco antes de prestar o Vestibular, meu primeiro trabalho numa redação havia sido no falecido PASQUIM, ainda em sua primeira encarnação, mas não mais em Ipanema, e sim no prédio caindo aos pedaços da Rua da Carioca. Ali eu trabalhei sob a batuta do editor César Tartáglia (hoje no Globo), escrevendo notas (as Dicas, que apareciam no final do hebdomadário - sinônimo de semanário, para os desavisados) e fazendo transcrição de entrevistas. Ganhando uma merreca (claro, senão que graça tinha?) e ralando, mas me divertindo. E aprendendo.

(Um ano depois eu já não estava lá, mas na faculdade de jornalismo, e fazendo frilas para publicações de órgaõs tão díspares quanto a Biblioteca do Exército ou uma empresa de administração de materiais - para esta última, aliás, fui contratado para entrevistar Henry Kissinger, que estava no Rio de Janeiro participando como keynote speaker de um congresso. Não só não consegui como fui sensacionalmente sacaneado por Mr. Kissinger [mas essa história eu conto outro dia].)

Mas o tempo passa.

Se alguém tivesse pedido minha opinião há dez anos, eu não teria dado a menor pelota. Eu estava passando pela crise dos trinta (sim, ela existe - a dos quarenta é mito; a verdadeira é a dos trinta; usando uma metáfora que tem mais a ver com esta geração, se você consegue passar para o próximo nível, há grandes chances de ganhar o jogo, ou pelo menos não perder por muitos pontos) e fazendo minha segunda graduação, em Teatro - Interpretação, na UNI-RIO.

O teatro foi uma experiência maravilhosa, que me enriqueceu incrivelmente e que me ensinou duas coisas: 1) que eu sou um péssimo ator e 2) que meus pais tinham razão quando me proibiram de fazer teatro profissional aos dezoito anos de idade (foi a única coisa na vida que eles me proibiram de fazer, e hoje eu dou a mais total, completa e absoluta razão a eles, porque como eu ganhei mal nesse período, meu Deus - sem contar o que colegas de produção e diretores literalmente me roubaram, mas isto são coisas que um cavalheiro não comenta).

E, enfim, se alguém pedir minha opinião agora (não que alguém tenha pedido), eu só tenho uma coisa a dizer: infelizmente, já não faz a menor diferença.

Reparem que eu disse a palavra infelizmente.

Cinco anos como professor universitário me tiraram qualquer ânimo a respeito de sequer acreditar na possibilidade de redenção para as gerações mais recentes.

Ministrei aulas para alunos de diversos cursos, de Design a Games, passando por Tradução, Comunicação e Informática. É claro que existem as honrosas exceções (e em número suficiente para me fazer continuar na profissão), mas são exceções que confirmam uma regra. E a regra é: o nível médio dos alunos de hoje no Brasil é baixo. Muito baixo.

Não vou encher o saco de vocês, meus fiéis cinco ou seis leitores, reclamando que bons mesmo eram os tempos de antanho, porque não é essa a resposta. Nem quero que um ocasional aluno meu que leia este blog fique achando que eu estou falando mal deste ou aquele, porque também não é isso. O buraco, como diria o Professor Liddenbrock (leiam Viagem ao Centro da Terra, poxa!!), é mais embaixo.

Falta cultura e informação. Coisas que uma universidade ajuda a suprir (e muito) mas não supre completamente. Coisas que, ok, uma universidade nunca supriu completamente, mas que antes, até o início dos anos noventa (e já então era difícil) pelo menos encontrava alunos com disposição para aprender, apreender e registrar.

É complicado ouvir alguns educadores metidos a pós-"mudernos" dizer que o professor tem que se adaptar ao aluno e não ao contrário quando a gente vê o aluno entrar em sala com um skate e nada mais (juro que me dá uma vontade louca de pedir pro cara fazer um handplant ou um burn twist dentro da sala - eu aprovava o cara na hora e pronto, não me enchesse mais o saco), ou, como é mais comum, simplesmente sem nada, sem caderno, sem caneta, sem nem um dispositivo móvel pra gravar ou anotar o que está sendo dito - pô, estamos no século vinte e um, cadê o futuro que me prometeram???

Neste primeiro semestre de 2009, perdi dezenas de horas com uma turma que se sentava, ouvia o que eu dizia (aparentemente, porque olhavam para mim e não fazia bagunça), eu dava uma aula, conversava, procurava trocar idéias (e quem me conhece sabe que minhas aulas são tudo menos monótonas) e ainda perguntava se alguém tinha alguma dúvida. Às vezes alguém tinha uma dúvida. Opa, qual é a dúvida? Vamos lá, então. E toca eu a explicar de novo. Escrevendo na lousa.

E ninguém anotando.

E eu passando exercícios.

E a turma não fazendo. Ou fazendo tudo errado e jurando de pés juntos que eu não havia explicado direito, ou que eu não havia dito nada daquilo. (Lembrando de 1984 e pensando desconsolado que daqui a pouco o professor vai adorar ter uma câmera filmando a aula, só para provar que ele deu a aula.)

Isto é uma reclamação? Claro, ora. Mas também é meu depoimento. São meus dois centavos, como dizem os americanos. É apenas a minha opinião, pessoal e completamente intransferível, de por que acho que discutir sobre diploma hoje não adianta mais. E não é nem porque, como dizem alguns, agora quem tem mérito vai entrar. Quem tem mérito sempre conseguiu entrar - embora nem sempre na hora em que merecia, porque QI (Quem Indica) também sempre existiu, e vai continuar a existir. A merda, meus leitores, é que quase ninguém desta nova geração tem mérito hoje em dia, com ou sem diploma. Infelizmente, repito.

UPDATE DE 25 DE JUNHO: Exausto nesta última semana de aula, sem disposição para postar (aguardem notícias em breve), só tenho uma coisa a acrescentar. Não bastasse o que eu escrevi acima, nesta última segunda-feira fui acusado de mentiroso por um aluno porque supostamente eu não teria explicado direito o trabalho final em grupo (o grupo dele, claro, perdeu dois pontos na avaliação porque não fez direito o exercício). O absolutamente BIZARRO foi que isso aconteceu dentro de sala, onde havia dois alunos de outro grupo que fez corretamente o exercício; chamei os alunos e perguntei sobre o trabalho: ambos testemunharam que eu expliquei tudo - o que era óbvio, porque o trabalho deles estava correto, mas vamos lá, didática é didática, eu precisava mostrar ao aluno a diferença entre o trabalho do grupo dele e o do outro. Pois ele continuou insistindo que eu não havia dito nada daquilo, e afirmou que havia tirado uma foto da lousa. Então eu disse a ele que estava tudo resolvido: era só ele me mostrar a foto e tudo bem, se eu estivesse errado me retrataria e mudaria a nota dele. Aí ele disse que não estava com a foto; eu disse: tudo bem, apareça na quinta (hoje, dia 25) e traga. Resposta dele: ah, eu vou estar viajando, professor. Não apareceu, claro.

Já avisei ao coordenador que não dou mais aula para essa turma. Aliás, se eu chegar a 2010 ainda como professor, podem acender vela que é milagre.

De preferência, num lugar onde não se fale português errado - ou não se fale português algum:

As campanhas do Ford Fusion têm sido muito bacanas e criativas. Mas deixar passar um erro de português desse calibre, me desculpem, é imperdoável. Tomei um susto danado ontem quando vi esse comercial em horário nobre na TV, com atores se passando por executivos e cometendo um erro tão crasso de português (o certo é "daqui a cinco anos" - a elisão, ou "engolimento", do a é típico da gíria paulistana, mas não é coerente com a situação apresentada no comercial.

Não sei exatamente qual foi a agência (segundo uma informação já não tão recente do Portal Imprensa, os comerciais mais recentes são responsabilidade da JWT). Bons tempos aqueles em que bambas como Orígenes Lessa (grande escritor, hoje praticamente esquecido no Brasil, pai de Ivan Lessa, que inteligentemente picou a mula e hoje vive em Londres) trabalhavam para a JWT. Lessa, aliás, para quem não sabe, criou a marca Kibon.

Pessoal da JWT, se forem vocês mesmos os responsáveis por esse filme, pelo amor de Lessa (dos dois): retirem esse acinte áudiovisual do ar e regravem. É a honra e a história de vocês que está em jogo.

Em casa, curtindo uma gripe que me deixou de cama por alguns dias e ainda bastante baleado (e baleiado também, que me perdoem os colegas do Twitter pelo quase absoluto desaparecimento), aproveitando para descansar, e tentar colocar em dia as leituras e os filmes.

Acabo de rever o fundamental 1984, de Michael Radford, com John Hurt e Richard Burton (foi o último filme deste e uma ótima interpretação dos dois). Bastante fiel ao livro - mais do que a primeira versão, dirigida por Michael Anderson em 1956, mas que não é ruim, ao contrário, ela deveria também ser lançada em DVD para que as pessoas tomassem conhecimento de sua existência - quando comprei o DVD da versão com John Hurt, que não por acaso foi lançada em 1984, me deparei com um casal bem jovem que também estava comprando o filme e que ficou maravilhado ao perceber essa "coincidência" de datas, porque eles nem sequer sabiam da existência do filme; pouco provável que saibam que existe a versão de 1956. (Também existe uma versão feita para a TV em 1954, mas não sejamos puristas a ponto de exigir o lançamento desta em DVD também, ora pipocas.)

O filme não datou nem um pouco. As imagens contundentes ainda ferem o olhar mas o atraem de modo inexorável e um tanto doentio (porque sabemos que tudo vai acabar mal, e quem não sabe intui, mas quer ver assim mesmo), e a trilha sonora, composta em parte por Annie Lennox, é um prazer a parte. O que quase estragou minha fruição do filme foi a legendagem.

Alguém que tenha essa edição recém-lançada consegue me explicar por que usaram a tradução portuguesa de 1984 para referência de legendagem em vez da tradução consagrada de Wilson Velloso para a IBEP Nacional, edição essa que ainda está no mercado? (E é a única que a Companhia das Letras não consegue comprar para seu catálogo de obras completas de George Orwell?)

Este é apenas o mais recente episódio no que está se tornando um problema sério para mim: a dificuldade cada vez maior de ler traduções. Não, isso não tem nada a ver com a qualidade do trabalho dos tradutores. Nem se trata de alguma frescura da minha parte. Talvez uma deformação profissional: após quase 25 anos trabalhando como tradutor (23 ou 24, nunca me lembro ao certo, a memória anda fraca estes dias), lendo diariamente livros em seus idiomas originais (inglês em sua maioria, seguido de português, espanhol, francês, italiano, com um pouco de alemão e catalão, mas só um pouco mesmo e olhe lá), fui lentamente me acostumando à sonoridade da língua própria do autor, do sabor da palavra criada na cabeça, saboreada no palato, e parida na ponta dos dedos do escritor.

Coisas que só quem escreve sabe. Quem traduz, quem apenas traduz (e traduzir já é muito, mas não é a criação em seu estado mais puro, infelizmente), sabe disso por tabela. O tradutor é um co-criador, mas é antes a ama-de-leite da obra que sua gestante. Quem pariu Mateus que o crie, não é o que diz o velho ditado? Pois é, mas chega um ponto em que o tal Mateus sai com seu mochilão mundo afora, e se reinventa, nasce de novo, vira Matthew, Matthäus, Mattia - e aí, quem o cria? É dado ao tradutor esse papel: o de pegar essa criatura e colocá-la numa câmara hiperbárica semiótica, numa câmara de descompressão semântica, para que ela se renove e saia dali como outra. O tradutor também é médico de UTI. Ele pode pegar a palavra que não consegue se comunicar, que não encontre quem a entenda, e lhe fazer uma cirurgia reconstitutiva. Ela não será a mesma - e sabe disso - mas se o trabalho do tradutor for bem feito, poderá comunicar, e comunicar sua intenção inicial, e isso é o que importa.

Meu problema com 1984 não é a qualidade da tradução das legendas. Tampouco tenho dificuldade de entender o belíssimo português que se fala do lado de lá do Atlântico (melhor, em minha humilde opinião, do que o que se fala do lado de cá). Mas sejamos coerentes: se o livro já foi traduzido no Brasil (repito, há décadas) , por que se usou uma tradução portuguesa para um DVD brasileiro? Não entendi.

E isso só fez acirrar minha dificuldade de ler traduções. Depois do triste fim do Caderno Palavra, do Le Monde Diplomatique (que, francamente, não sei porque acabou, se o meu amigo Rodrigo Gurgel ali trabalhava por tão pouco e os resenhistas não ganhavam nada, faziam seu trabalho por amor à literatura), então, não me vi mais obrigado a sequer ler para resenhar. Ainda restam livros, é certo, e livros que não serei capaz de ler em seus idiomas originais, como o genial Os Irmãos Karamázov. A obra-prima de Dostoiévski vocês ainda verão resenhada aqui, bem como alguns (poucos) outros livros daquele tempo. Mas dificilmente verão mais resenhas de livros traduzidos. Porque agora, parafraseando a Turquinha, personagem do clássico Floradas na Serra, um ótimo livro esquecido de Dinah Silveira de Queiroz (apesar de já ter virado um ótimo filme com Cacilda Becker, e duas novelas) e esgotado na editora, eu tenho pressa de viver.

Direto do blog da Ana Maria Bahiana, confiram as duas imagens abaixo, dos artistas conceituais Dylan Cole (responsável por matte paintings em A Bússola Dourada, A Múmia 3 e arte conceitual para o universo do game Halo) e Ryan Church (é ele o "culpado" pelo design da impressionante nave de Spock no Star Trek de J.J.Abrams):


AvatarArt1


AvatarArt2


O filme só estréia em 18 de dezembro. Se for tão bom quanto as imagens, vamos fechar o ano bem.

Para A.

Mande notícias
Do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço
Venha me apertar
Tô chegando

Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega prá ficar
Tem gente que vai
Prá nunca mais

Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai, quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem
Da partida

A hora do encontro
É também, despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

(Encontros e Despedidas, Milton Nascimento)

Foi em 6 de junho de 1984 que Alexey Pajitnov criou o que viria a se tornar um dos jogos mais populares da história ATÉ HOJE - e um dos poucos dos meus tempos de imediatamente-pós-adolescente (sim, eu tinha acabado de completar dezoito anos quando o jogo foi criado) que eu ainda jogo volta e meia, e com muito prazer.

Aqui na Wired, um excelente artigo sobre o Tetris. E com licença que eu vou dar uma jogadinha ali e já volto.


googletetris
A homenagem do Google em sua home hoje

Vinte anos esta noite. Deus, como o tempo passa.


CERTA vez -- há muitos anos -- quando de volta de Bagdá, aonde fora vender uma grande partida de peles e tapetes, encontrei num caravançará, perto de Damasco, velho árabe de Hedjaz que me chamou de certo modo a atenção. Falava agitado com os mercadores e peregrinos, gesticulando e praguejando sem cessar; fumava constantemente uma mistura forte de fumo e haxixe e quando ouvia de um dos companheiros uma censura qualquer, exclamava, apertando entre as mãos, o turbante esfarrapado:

-- Mac Allah! Ó muçulmanos! Eu já fui poderoso! Eu já tive o Destino nesta mão! -- É um pobre diabo -- diziam. -- Não regula bem do miolo! Alá que o proteja!

Eu, porém - confesso -- sentia irresistível atração pelo desconhecido do turbante esfarrapado. Procurei aproximar-me dele discretamente, falei-lhe várias vezes com brandura e ao fim de algumas horas já lhe havia captado inteiramente a confiança.

-- Os homens da caravana me tomam por doido -- ele me disse uma noite quando cavaqueamos a sós. -- Não querem acreditar que já tive nas mãos o destino da humanidade inteira. Sim, senhor: o destino do gênero humano!

Esbugalhei os olhos assombrado. Aquela afirmação insistente de que havia sido senhor do Destino era característica do seu pobre estado de demência.

O desconhecido, porém, que parecia não perceber os meus sustos e desconfianças, continuou:

-- Segundo ensina o Alcorão -- o livro de Alá -- a vida de todos nós está escrita -- maktub! no grande "Livro do Destino". Cada homem tem lá a sua página com tudo o que de bom ou de mau lhe vai acontecer. Todos os fatos que ocorrem na terra, desde o cair de uma folha seca, até à morte de um califa, estão escritos -- estão fatalmente escritos -- no Livro do Destino!

E sem esperar que eu o interrogasse narrou-me o seguinte:

-- Em viagem pelo deserto sonhei, certa vez, com um velho feiticeiro que ia ser enforcado. Esse feiticeiro, em sinal de gratidão, deu-me um talismã raríssimo que possuía. E essa pedra maravilhosa permitia a entrada livre na famosa Gruta da Fatalidade, onde se acha -- pela vontade de Alá -- o Livro do Destino. Viajei dois anos a fim de chegar à gruta encantada. Um djinn -- gênio bondoso que estava de sentinela à porta -- deixou-me entrar, avisando-me, porém, de que só poderia permanecer na gruta por espaço de poucos minutos. Era minha intenção alterar o que estava escrito na página da minha vida e fazer de mim um homem rico e feliz. Bastava acrescentar com a pena que eu já levava. -- "Terá muito dinheiro!" Lembrei-me, porém, dos meus inimigos. Poderia, naquele momento, fazer grande mal a todos eles. Movido pela idéia única do ódio e da vingança, abri a página de Ali Ben-Homed, o mercador. Li o que ia acontecer a esse meu rival! e acrescentei em baixo, sem hesitar, cheio de rancor: -- "Morrerá pobre, sofrendo os maiores tormentos!" Na página de Zalfah-el-Abarj escrevi, impiedoso, alterando-lhe a vida inteira: -- "Perderá todos os haveres; ficará cego e morrerá de fome e sede no deserto!"
-- E, assim, sem piedade, arrasei, feri, retalhei a todos os meus desafetos! -- E na tua vida? -- indaguei, curioso. -- Que fizeste, ó muçulmano, na página em que estava escrita a tua própria existência? -- Ah! meu amigo! prosseguiu o desconhecido, cheio de mágoa. -- Nada fiz em meu favor. Preocupado em lazer o mal aos outros esqueci-me de fazer o bem a mim mesmo. Agi como um miserável. Semeei largamente o infortúnio e a dor, e não colhi a menor parcela de felicidade. Quando me lembrei de mim, quando pensei em tornar feliz a minha vida, estava terminado o meu tempo. Sem que eu esperasse, surgiu-me pela frente um efrite -- gênio feroz -- que me agarrou fortemente e, depois de arrancar-me das mãos o talismã, me atirou fora da gruta. Caí entre as pedras e com a violência do choque perdi os sentidos. Quando recuperei a razão, achei-me ferido e faminto, muito longe da gruta, junto a pequeno oásis do deserto de Omã. Sem o talismã precioso, nunca mais pude descobrir o tortuoso caminho da Gruta do Destino. E concluiu, entre suspiros. numa atitude de profundo e irremediável desalento:

-- Perdi a única oportunidade que tive de ser rico e feliz!

Seria verdadeira essa estranha aventura?

Até hoje ignoro. O certo é que o triste caso do velho árabe de Hedjaz encerrava grande e precioso ensinamento. Quantos homens há, no mundo, que preocupados em levar o mal a seus semelhantes, se esquecem do bem que poderiam fazer a si próprios...

(este é um dos meus contos preferidos do Professor Júlio César de Melo e Sousa, mais conhecido como o fabuloso Malba Tahan, autor de diversos livros, dos quais o mais famoso é O Homem que Calculava. A história acima está no livro O Céu de Allah, 13º Edição (1963), da Editora Conquista, até onde sei não reeditado (embora este conto tenha saído numa edição de bolso há alguns anos por outra editora, mas não possuo mais o exemplar para confirmar a informação). A história, que eu procurava há esse mesmo número de anos e só agora encontrei, tomei a liberdade de reproduzir do Blog do Saïd Dïb, a quem agradeço profunda e profusamente. Salaam aleikum!)

Recebi um e-mail da Ana Rüsche avisando que no blog superbonitinho dela, o Contrabandistas de Peluche, podem ser encontradas algumas fotos do SUCESSO que foi o lançamento do livro Blablablogue na Livraria Martins Fontes no sábado. Estava quase todo mundo lá: Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Claudio Brites (que mandou fazer uma camiseta com a ilustração da capa e da qual cobrarei uma idêntica - para gordos, claro - até o fim dos meus dias, porque ficou do cacete), Marcelo Maluf, Laura Fuentes, Marília Kubota, Andréa del Fuego e Ivana Arruda Leite, e estes foram apenas os com quem tive o prazer e o deleite de bater um papo e tomar um café (estou não-alcoólico, e quem disse que eu quero me livrar do vício do café?).

Peço licença pra Ana e reproduzo abaixo três das fotos:

blabla_fabio
eu

blabla_andrea_ivana
Andréa del Fuego e Ivana Arruda Leite

blabla_nelson_alan
Nelson de Oliveira, nosso editor e mentor, e Alan


O lugar lotou rapidamente e assim permaneceu durante todo o horário do evento, das 15:30 às 18:30h. E nem todos os amigos e colegas que esperávamos apareceram; se isso tivesse acontecido, não caberia no espaço já bem grande que é a Martins Fontes dos Jardins.

Próxima etapa? Rio de Janeiro, nos aguarde!

Já está rolando na Web há alguns dias: o Google divulgou a desenvolvedores uma versão prévia do Wave, ferramenta de colaboração que consolida funções semelhantes às dos e-mails, comunicadores instantâneos, blogs, wikis e compartilhamento de documentos. Segundo matéria do IDG Now, o Wave, que vem sendo desenvolvido há dois anos, "tem potencial para atrair usuários de serviços próprios do Google, como Gmail, Docs, Picasa e Blogger, assim como ferramentas dos rivais Microsoft, AOL e Yahoo."

Dêem só uma olhadela na interface básica do bicho:


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A natureza (humana) abomina o vácuo. Não existe uma ferramenta que agrade a todos os usuários da Web ao mesmo tempo. Quando o Orkut começou a bombar, surgiu o MySpace. Quando o MySpace começou a dar no saco, pintou o Facebook na área. Agora é a vez do Twitter. Todas essas ferramentas / redes sociais coexistem e ainda são bastante usadas, e é provável que continuem sendo por muito tempo ainda. Mas estava demorando para surgir algo que juntasse as funcionalidades delas e de outros serviços. Daqui a pouco vamos poder conferir o Google Wave. E menos de um ano depois outra ferramenta melhor ainda, claro.

UPDATE: Um fã que prefere não se identificar (explico: é um velho amigo, famoso e modesto) me deu um puxão de orelha em PVT, explicando que o MySpace surgiu antes do Orkut. My bad, meu amigo, mea culpa! Tens toda razão! Erro corrigido! O que, claro, não invalida nada do que eu disse no parágrafo acima, porque como diz meu velho e sábio pai (este sim um verdadeiro cara inteligente, porque olha muito, fala pouco e não tem blog), a ordem dos tratores não altera o pão duro. Obrigado!


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    por Fábio Fernandes

  • Jornalista, tradutor. Escritor, roteirista e dramaturgo. Pesquisador de cibercultura e professor do cursos de Tecnologia e Mídias Digitais e Jogos Digitais da PUC-SP. Interesses de pesquisa: comunicação e cibercultura, semiótica, teoria literária, ficção científica, tribos e subculturas, novas mídias, games.
  • foto: Pisco del Gaiso


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