
Ok.
Eu sou um cidadão como outro qualquer. Nasci, cresci, tive educação de minha família e do Estado; estudei, encontrei meu caminho, escolhi uma profissão, casei, tive filhos, plantei árvores, escrevi livros... tá bom, não escrevi livros, somente trabalhos científicos, relatórios, artigos em jornais e revistas, blogs e para sites na internet - mas para o ditado dá na mesma.
Mas e daí? O que me faz diferente dos demais?
Pois me sinto diferente. Não sei por que. Até sei, mas a justificativa parece um pouco imbecil - e deveras arrogante: porque tenho consciência do eu e do todo.
Significa que eu ajo para o benefício e a saúde de todos? Não. Significa que me sinto responsável pela tristeza e miséria de todos. E mais: que o menor dos meus piores atos tem conseqüências devastadoras para o universo que faço parte.
Na verdade, acho que a pergunta seria:
- o que nos faz iguais?
Sim, porque devemos repensar o fato de valorizarmos as diferenças sociais, políticas e ambientais no desenvolvimento do ser humano ao invés de darmos atenção ao que nos faz parecidos, ao pequeno detalhe em nossas existências que nos faz singulares porém comuns: a nossa humanidade.
Por isso sinto que sou diferente, porque penso na minha humanidade. Infelizmente, o comum é pensarmos em nós mesmos - nossas vidas, nossas famílias, nossas realizações profissionais e amorosas, nossos recursos financeiros e espirituais. O nosso progresso pessoal deve ser específicamente valorizado, sobre pena de permanecer excluído do mercado competitivo da satisfação pessoal.
Nesse contexto, me sinto realmente um revolucionário.
Claro, como ser humano tenho passado (ou perdido) muito tempo pensando em como atingir meus objetivos pessoais e ser feliz para sempre - como nos contos mais românticos - ao mesmo tempo negando veementemente a influência do sistema político em minhas decisões diárias - "política" aqui não só como as decisões sobre a coisa pública, mas simplesmente como a busca da defesa dos interesses difusos a qual todo ser humano (quiçá todo ser vivo) está sujeito. Mas agora (na verdade, já faz um tempo) tenho por mim mesmo a conclusão de que este caminho é fadado o fracasso e provoco em mim mesmo o esforço de promover o sentido inverso: lutar pelo sucesso do conjunto, mesmo que isso signifique o fracasso pessoal.
Parece um pouco redundante, não é? Qual a diferença entre fracassar no caminho do sucesso e ser bem sucedido no caminho do fracasso?
A diferença está na expectativa. Quem tem esperança pode ser que um dia alcance; quem de nada espera significa que já está lá.
Eu estou agora no meio da serra do mar a caminho da metrópole. Eu sou agora diferente do que era ontem e também do que serei amanhã. Eu sou agora presente, passado e futuro (parece aquela música do Raul Seixas...). tenho em minha mente as eternas questões:
- Como posso estabelecer aqui diretrizes e prioridades para minha ação como cidadão no mundo?
- Como equilibrar minha participação local com a mundial?
- Como levar em consideração minha vida pessoal e minha vida comunitária?
- Como me organizar a ponto de não perder a eficiência de meu trabalho em relação ao tempo?
- Sou apenas um, como posso influenciar muitos?
- Sou um ser comum, como posso ser exemplo para os outros?
Por isso, sou um cidadão planetário. Ironicamente, me sinto um marciano dentro do meu próprio mundo.
Recent Comments