única solução possível

interromper o antibiótico depois de cinco dias.

quinta-feira: porre homérico.

sexta-feira: festa numa floresta, fogueira, álcool, ácido & longas caminhadas. todos estirados numa esquina pra ver o sol nascer.

sábado pela manhã: acordados pela polícia num parque.


à merda, pois, os comprimidos. a garganta ainda falha, mas segue funcionando.

é necessário.

macumba

poderia iniciar rotulando por CURIOSA a coincidência entre fatos, mas não é o caso. apenas coincidiu de uma gripe relâmpago-fulminante me derrubar impiedosamente na mesma terça-feira que fui num terreiro de umbanda. começou de tarde, com uns calafrios. aí veio um cochilo pseudo-restaurador num sofá do centro acadêmico para que eu acordasse um pouco pior, com mais calafrios, dores no corpo e um princípio febril. ainda bebi umas cervejas, depois um copo de suca de laranja, na esperança de amenizar a MAZELA, mas aí eu já estava no ônibus com uns amigos em direção ao terreiro.

assim como a jojo, que coincidentemente ressuscitou um relato semelhante por esses dias, fui pra lá pela curiosidade antropológica. tinha interesse em ver um ritual daqueles e na semana anterior não tinha rolado. meu amigo, que começou a freqüentar o local, brincou: "deve ser o terreiro mais POLACO do Brasil." não tive dúvidas: um prédio heptagonal - grande porém discreto - do outro lado da rua de um cemitério, e um estacionamento com uns tantos carros importados. muita gente de branco ali do lado de fora e uma criançada chata saltando pra lá e pra cá.

me explicaram sobre os ourixás e essas coisas todas, mas eu tinha febre e pouco entendi. às 20h entramos todos e lotamos o heptágono em volta de uma grande roda marcada por uma cerca de corda e troncos. imagens de exus, jesus cristo e sei lá mais quem num altarzinho, atabaques do lado direito e a polacada fazendo fila pra pegar a senha da consulta. por insistência do amigo, peguei uma também. número 96.

começa a música e umas pessoas de branco com fitas das cores dos ourixás entram na roda e cantam junto. depois rezam um pai nosso com uns 3 versos trocados - perdoai as nossas DÍVIDAS assim como nós perdoamos alguma coisa que esqueci; termina com um "que assim seja" em vez do "amém". sincretismo curioso.

minha febre aumentava a cada nova música que eles cantavam. o lugar estava lotado - chuto que devia ter umas 300 pessoas ali. perdi a paciência e arranjei um cantinho pra sentar. seriam QUATRO HORAS de culto e eu sabia disso. a assistência, isto é, quem fica do lado de fora da roda, entra descalça na roda num dado momento. eu também fui. as pessoas de branco, supostamente encarnadas, ficam perambulando por entre nós até escolherem alguém: param diante do sujeito, fazem movimentos com as mãos, qualquer coisa com energia, e depois se mandam com um saravá. me explicaram depois que o SANTO pode descer em você dessa maneira - uma mulher acabou soltando um grito; tinha encarnado.

duas mulheres e um cara desses de branco vieram fazer essa coisa da energia comigo. não senti porra nenhuma.

depois vem uma música e você tem que esfregar as mãos no corpo pra tirar os males. estava decepcionado e não o fiz. aí a assistência sai da roda e tem-se mais músicas e tal. dessa vez o pessoal de branco ENCARNA FORTE e moças começam a rodar e rodar e rodar até cair no chão - literalmente. era roda de exu e pomba-gira. os que encarnam os exus começam a se manifestar e logo são trazidos os KIT-MACUMBA (com facas, velas, chaturos, garrafinhas de pinga e conhaque, pimenta, etc) e uns banquinhos. os exus se sentam na frente de uma tábua posta no chão, kit ao lado, bancos vagos na frente e ao lado. a música não pára. um cara começa a chamar as senhas. número 1 ao 5 pra dentro da roda e um guia leva os sujeitos até o exu ou pomba-gira em questão. o visitante senta de frente pra entidade; o guia, ao lado. aí rola a interação com muita fumaça e velas e doses e vozes forçadas.

eu ardia em febre num canto. estava quente ali, eu sentia que estava bem quente, mas tremia de frio. iam chamando os números e o pessoal ia entrando, se consultando, toda aquela coisa. sempre com música, o que abafava as conversas e garantia certa privacidade. número 90 ao 95 pra dentro da roda e meu amigo vem me dizer que é quase minha vez. digo que não vou. fica puto comigo. 96 ao 100. meu corpo doía todo e eu não tinha a menor vontade de me levantar. no mais, também não tinha nada pra perguntar. fiquei pensando nisso desde a hora que assinei meu nome ao lado do número. nada. poderia pedir um conselho, mas estava com a cabeça tranqüila demais pra essas coisas - terminara, até, relações com uma garota naquele mesmo dia, e me sentia em PAZ. 101 ao 105. fodam-se, vou agonizar por aqui.

passava das 23h30 quando os números acabaram e começaram o encerramento. arranjaram carona pra gente só porque eu estava mal. a coisa acabou com o pai nosso estranho e entramos em quatro pessoas no banco de trás do carrão de uma das moças de branco. foram falando de umbanda e das próximas giras. tudo aquilo tinha me parecido falso demais, plástico demais, certinho demais. tinha uma visão muito mais ROOTS de um terreiro e espero apenas ter ir ido no terreiro errado - ainda que não pense em ir de novo. queria chegar logo em casa e dormir.

dormi e o dia amanheceu e dormi até o dia seguinte sem ter comido nada. gripe filha da puta. na quinta-feira fui pra aula, dor de garganta insuportável. na sexta, prometi pra mim mesmo que não iria fumar. depois do primeiro maço, no entanto, mandei tudo à merda, bebi mais outra dose de cachaça e fumei mais um ou dois maços ao longo da noite cheia de cervejas, duas meses de sinuca, três bares e mais cachaça - que, ao contrário da cerveja, não me irritava a garganta e nem me doía para engolir, apenas ALIVIAVA o sofrimento e me deixava BEM.

terminamos numa república cheia de gente que não conheço e bebemos mais e aí mais um boteco pra finalizar. cinco e pouco da manhã e fazia muito frio e minha garganta já era - tinha visto antes: amídalas quase que VOLUPTUOSAMENTE inchaçadas, como se fossem fechar o canal, cheias de placas brancas gigantescas, como milhares de aftas em seu ápice. saquei o tamanho da merda ali. não ia melhorar sozinho, como melhorara a gripe.

apenas no sábado fui me consultar. não com um médico, nem com uma entidade - mas com a farmacêutica aqui da esquina. e sem mostrar o estado das amídalas, só explicando vagamente o que acabei de explicar e acabei levando uns comprimidos.

antibióticos.

UMA SEMANA SEM BEBER.

uma semana sem beber, cara, é muito mais tempo que o maior intervalo abstêmico-voluntário ao qual me submeti nos últimos tantos meses. tenho bebido TODOS os dias, religiosamente, desde março.

e a porra de uma amidalite surgida OUT OF THE BLUE quebrou minha rotina.

não traço paralelo entre a umbanda e essa merda toda, claro, mas foi exatamente o que aconteceu. e acredito em coincidências.

agora tenho um monte de tempo livre e não sei o que fazer.

faz um frio do cacete e quero encher a cara de vinho.

vou contando nos dedos.


"olá, meu nome é bruno e eu não bebo desde sábado."

merda.

eu

faroeste em três cenas

Nós somos um terrível pistoleiro. Estamos num bar de uma pequena cidade do Texas. O ano é 1880. Tomamos uísque a pequenos goles. Nós temos um olhar soturno. Em nosso passado há muitas mortes. Temos remorsos. Por isto bebemos.

punho como arma:

a)

the lie

b)

the truth

Entramos no hotel, subimos ao quarto, deitamo-nos vestido, de botas. Ficamos olhando o teto, fumando. Suspiramos. Temos remorsos.

agora arma como arma. limpa.

Fazemos a inspeção de rotina em nossos revólveres.

ou isso.

Já é manhã.

é sempre tarde.

Levantamo-nos.

CORTA-


cena 2 - EXT. COPACABANA - NOITE

ela colocou o turista marginal no seu fusca quatro portas rosa choque
e o levou para seu ap quitinete,
que de dia é depósito de taxímetros falsificados
por taxi drivers alucinados,
mas de noite é refúgio de taxi girls, pistoleiras.

nipo-taxi girls pistoleiras em shortinhos curtos, pernas longas, coldre, blusinha xadrez apertada. rindo.

sombreros.

(clichê, but WORKS.)

erotismos diversos & inverossímeis. faroeste sado-maso em flashes de disparos, balaços estroboscópicos.

A filha mais velha se tornará prostituta.

puta pistoleira.


cena 3 - (APOTEOSE) - EXT. VILAREJO MEXICANO - FIM DE TARDE

A rua está deserta, mas por trás das cortinas corridas adivinhamos os olhos da população fitos em nós. O vento sopra, levantando pequenos redemoinhos de poeira.

à direta, um inferninho mexicano com nome asteca, um boteco, um cavalo figurante qualquer. à esquerda, um cavalo cenográfico - menor, falso, tosco - cercado por amplificadores: William Tell com guitarras distorcidas, metais retorcidos; fanfarra funeral. no hay banda.

tiros.

alguém morre.

os outros bebem e adulteram taxímetros.

FADE OUT.


(na real, eu só queria recomendar o conto do Moacyr Scliar e não sabia como.)

cigarros infinitos

"um santo chamado doutor sax vai destruí-la com ervas secretas que está preparando neste exato instante em seu barraco subterrâneo num canto qualquer da américa. mas também é possível que se descubra que a serpente é apenas o disfarce escolhido pelas pombas; quando ela morrer, nuvens enormes de pombos seminais-cinzentos em revoada trarão novidades apaziguadoras para o mundo inteiro." eu estava fora de mim, faminto e amargurado.

(on the road, pg. 215)

e os cigarros eram longos demais e intermináveis. você fumava, e ia fumando, aí tinha de largá-lo no chão porque ainda havia muito fumo e todas aquelas substâncias simplesmente continuavam queimando. você tinha que se livrar daquilo ou senão ia durar pra sempre.

muitos pés dançantes pisoteando latas vazias numa dança ritual embalada por palmas e garotas rebolando, sambando enquanto o chão afundava aos poucos, suavemente; o ambiente era todo preto e parecia cada vez maior, com mais espaços livres e mais gente. o tempo era caudaloso. mais garotas beijando umas as outras e dançando com todos nós.

o chão ia afundando e eu dançava. mais um cigarro gigantesco - eles voltaram ao normal agora que eu realmente precisava de algo assim. depois foram aquelas escadas, cara: uma marcha de bêbados cambaleantes e chapados de tudo quanto é coisa descendo interminavelmente até o inferno por aquelas escadas que iam nos jogando cada vez mais pra baixo e gritávamos todos que íamos para uma praça. eu fui. eu e uns amigos.

abri uma cerveja às sete da manhã pra brindar essa merda toda ali no meio da rua enquanto voltava pra casa. manhã fria de sábado. tudo vazio.

depois sei que estava tomando vinho branco vagabundo deitado ali no canto com uns livros na mão, lendo coisas soltas e abrindo nas páginas aleatoriamente certas que nunca li ou naquelas que ainda me lembrava vagamente.

um santo chamado doutor sax.

essas coisas.


e ainda agora, é desta garrafa que tenho cá ao lado que bebo ânimo. pra continuar seguindo e não perder o ritmo. um mar de vinho, pois.

e porque a noite vem caindo, cara, e eu simplesmente preciso estar por lá.

JLH >

overdose

estive em bares por todas essas noites de março. só, em bando, ou bem acompanhado por uns poucos. senão por lá, em casa, com destilados ou vinhos vagabundos. e senão cá, por aí, qualquer lugar, procurando um boteco ou mercado pra beber meus trocados e depois continuar procurando - porque sim.

daí que, talvez, carregar whiskey numa garrafa térmica oculta na mochila tornou-se uma solução natural. ou que DESJEJUAR vodka com um biscoito da sorte de duas semanas atrás, também. dormir mais no sofá do que na cama, pela comodidade do baque e simplicidade do ato, diz mais do que parece dizer. ou ainda, como hoje, dormir na rua, passando frio, deitado sobre um monumento em homenagem a Bento Munhoz da Rocha - seja lá quem tenha sido -, diante do Palácio Iguaçu, pouco antes do amanhecer.

mas: overdose. acho que cansei - ou estou começando a me cansar. boas coisas aconteceram, poucos problemas, tudo muito bem. mas quando a fuga vira rotina, é hora de sair correndo de novo, pra mais longe, pra algum lugar diferente, e aguardar. procurar novos excessos pra tropeçar um pouco mais e aprender algumas coisas. e arranjar novas fugas paras essas novas rotinas.

mas, por ora, limito-me ao vinho de garrafa de plástico com boa música - como eu costumava fazer.

oito onças

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

Bukowski estava certo, mas de nada adianta ter como referência as PRATAS de três décadas atrás. houve inflação.

portanto, hoje em dia, saiba que nenhum rabo no mundo vale mais do que CENTO E SETENTA pratas.

ou uns quatrocentos reais.

teto alto, mas verdade absoluta.

anote aí.

três anos

faz pouco mais de uma semana que voltei de fato e, na verdade, noutro post, já disse quase tudo do que eu pretendia dizer neste:

curitiba, março de 2006: me mudei para um kitnet com cama e mais nada. nem mesa, nem cadeiras, nem fogão - quer dizer: fogão, geladeira, pia e armário num pequeno móvel/amálgama metálico de uns vinte anos; usava uma prateleira do guarda-roupas sobre as duas bocas do fogão pra improvisar uma mesa e fazia o contrapeso com caixas de leite ou garrafas. comia de joelhos ou na cama. hm. aí umas semanas depois arranjei uma televisão, 14 polegas, porque não dava pra ficar lendo o tempo todo - até tentei. troca-se facilmente a dignidade para se livrar do tédio.

porque cheguei a 6 de março de 2006.

e porque tenho essa sensação toda vez que estou pra voltar.

não amo, nem odeio. simplesmente gosto daqui.

é o bastante.

melhores conversas

blog serve mesmo é pra encontrar pessoas com quem você gostaria de dividir uma mesa de bar.

eu encontrei um monte. esses putos.

vocês são fodas.

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