the true face of god

a verdadeira face de deus é um sorriso de mãos amarradas em posição de lótus. um mosaico de quases. a dialética canina do fingir a morte. os vislumbres entalados na garganta. o suor que não sacia a Vontade. arquejos & espasmos, estado de vigilância, angústia que cega a língua, deforma os olhos e te sussurra calmamente ao pé do ouvido:

"nada importa."

doppelgängers

bastou pisar na XV ali pelas 18h30, luminárias verde-amarelas dando tons estranhos à noite recém chegada, para que eu cruzasse, num intervalo de algumas poucas quadras, com nada menos que OITO duplos: verdadeiros CLONES de conhecidos vindo em minha direção ou passando pelo outro lado da rua - até mesmo um improvável casal de CÓPIAS, abraçado, que eu sequer imaginava que se conheciam. e é provável que realmente não se conheçam.

experimentei cumprimentar um duplo e ele retribuiu o gesto.

aconselhamento 01

eis um MÉTODO para você se lembrar, em detalhes, de TODAS as suas transas: vá fazer um exame de HIV.

mesmo que você SAIBA que não tem o vírus passeando no teu sangue ou afogado naquelas fartas GOZADAS, a falta de CERTEZA ABSOLUTA ou ausência de COMPROVAÇÃO laboratorial funciona como um perfeito GATILHO para memória: nos cerca de 40 minutos de espera, entre coleta & resultado, é inevitável TREPAR MENTALMENTE com todas aquelas garotas de novo.

porém, com certa ANGÚSTIA.

pois uma coisa é - por preocupação ou ESPORTE - COGITAR a hipótese de ser soropositivo. outra, e BEM diferente, é de fato ir emprestar umas gotas de sangue pra quem ENTENDE do assunto e... aguardar.

vou te dizer: chega uma hora que você se CANSA delas. "já trepei contigo umas 17 vezes nos últimos CINCO SEGUNDOS." e é algo ANÁLOGO àquele arrependimento do DIA SEGUINTE - dezessete vezes pior. mas aí você se pega pensando em outra - AQUELA - e se sente tão bem quanto aquele outro dia seguinte, no bar. no entanto, sem as cervejas & na dúvida de estar INFECTADO.

além disso, pensando em alguns amigos pouco pacientes, algo neuróticos, alguns até meio hipocondríacos, entendi, por contraste, o ZEN BUDISMO. creio ter TANGENCIADO O NIRVANA no corredor do COA nos instantes anteriores à idéia de investir em sexo tântrico. já me meti em cada buraco...

a psicóloga, uma polaca loira, alta & sotaque grave da COLÔNIA, interrompendo minha associação de idéias, passa pra lá & volta com uns papeis. é difícil decifrar a expressão facial de quem deve estar acostumado a comunicar diagnósticos positivos como quem diz bom dia. chamou-me de volta à salinha antisséptica com o mesmo entusiasmo com que eu me levantei para entrar lá.

"deu negativo."
"que bom."
"quantas relações você teve no último ano?"
"poucas."
"quantas?"
"poucas."
"costuma beber?"
"sim."
"drogas?"
"sim."
"..."
"..."
"cocaína aspirada?"
"não."
"maconha de vez em quando?"
"claro."
"injetáveis?"
"nunca."
"quer levar uns preservativos?"
"pode ser."

deu-me doze. enfiei no bolso da jaqueta. olhei novamente o papel: NEGATIVO. achei que sentiria um alívio maior ou coisa assim. É CLARO que daria negativo. como pude ter dúvidas? ou melhor, angústias. poucas. talvez eu só quisesse uma confirmação OFICIAL. um carimbo institucional afirmando que sou um indivíduo LIMPO & que não há problema algum em trepar comigo sem cuidados - quero dizer, com esses doze preservativos, gata.

o sexo tântrico foi extinto da minha mente quando deixei o local & fui esperar o elevador: duas garotas loirinhas, talvez GÊMEAS, algo judiadas pela VIDA BANDIDA, uma delas com a inscrição JUNKIE tatuada nas costas.

OH MY.

"ESTOU LIMPO VAMOS LÁ EM CASA USAR DROGAS GOZAR PRA CARALHO SEXO SELVAGEM EM TODOS OS CÔMODOS OLHA MEU EXAME AQUI."

pensei.

vou fazer um exame de SÍFILIS.

please don't take away my highway shoes

ainda não me sinto muito à vontade para PONDERAR minhas idas e vindas dos últimos - vá lá - trinta e poucos dias. no entanto, é fato que sobre as noites de deslizes pela augusta & seus puteiros, as cervejas com os comparsas, as cachaças vagabundas & os cerca de 1600km que percorri em duas semanas - incluso um PERNOITE no mato & dança nas montanhas - eu teria MUITO o que dizer; e se fosse querer contar todas as histórias que o álcool não apagou, ficaria uns três dias exercitando os dedos & cansando os olhos. se fosse contar apenas coisa ou outra, cometeria injustiças & sacrilégios.

pois bem, não tenho nenhuma restrição moral para com injustiças & sacrilégios. pelo contrário, até. mas devo confessar que tenho FORTE a sensação de que algo mudou.

eu, no caso.

saí dia 26 de janeiro para San Paolo, de lá para Londrina, de lá para Tigabi, Guartelá, de volta pra Tibagi, Castro, Ponta Grossa, Curitiba, San Paolo & dia 11 - cumpleaños #23 - estava de volta ao meu ponto de partida: queimado de sol, algo febril, algo BARBUDO, algo... impaciente.

tenho a lembrança de ter escrito um post onde meti um mapa do Paraná & desejei PERAMBULÁ-LO de um jeito qualquer. não pude encontrá-lo, talvez nem o tenha publicado, mas quis, desde então, percorrer o estado de forma, ahn, mais ÍNTIMA. não digo que o fiz (e nem é algo que se faça de uma única vez), mas muito me satisfez ter percorrido o eixo Londrina-Curitiba em dois dias - parte de carro, parte de ônibus, e um tanto a pé & até a NADO - do jeito que fizemos. quer dizer, de Tibagi eu segui sozinho pra capital, mas isso pouco importa. o que importa é que o céu do Guartelá é TRINTA vezes mais brilhante & estrelado que qualquer outro céu que eu já tenha visto. e isso acabou comigo, de certa forma. gritar a plenos pulmões enquanto se enfrenta uma queda d'água de peito aberto, até fôlego & resistência acabarem: isso me ANIQUILOU completamente. DANÇAR, como já disse, nas montanhas: passos rápidos & calculados, pedra sobre pedra para além das trilhas idiotas do IAP, para as margens de cachoeiras & verdadeiros penhascos, para deslizar entre fendas & esgueirar-se discreto de volta ao mirante dos turistas. afinal, crime ambiental é a SYNGENTA ter fazendas de soja & milho À BEIRA dum CANYON, não é mesmo?

enfim, ainda não sei ponderar isso tudo. não sei exatamente o que pensar dos símbolos que me foram postos em Londrina, dos livros que li nesse período, das INFINITAS cervejas que tomei, do nascer do sol na estrada, da névoa, das plantações à 170 quilômetros por hora; também não sei - e esta é outra VIAGEM - o que pensar das PUTAS, das conversas sobre trabalho & trajetória, das doses de whisky vagabundo, das figuras & andanças mais improváveis.

impossível, portanto, ser o mesmo após tantos puteiros & TANTOS quilômetros rodados. após tanta gente & tanta bebida. após voltar & sentir falta de continuar andando por aí.

~

mas acontece que vim mais pelo HIATO que outra coisa: vim mais pra não-dizer, pra começar reflexão minha, que pra pôr em palavras qualquer pé que eu tenha posto em COVA. também é verdade que voltei do MATO com impulsos LUDDITAS, de puxar cabos & destruir coisas sociáveis demais; com vontade de falar pouco ou nada & fumar despretensioso junto aos livros & garrafas. e é o que tentarei praticar plenamente até o fim do mês.

~

doeu-me mais a porrada dos 23 que a mudança radical dos 22. talvez tenham sido os exageros memoráveis de 2009, o excesso de tudo ao mesmo tempo agora que finalmente pesou-me nos ombros. um aviso de que nem sempre será FÁCIL.

BUT I LIKE IT.

e de outro jeito não teria graça.

deus como jesus

no bom e velho BURACO, subi num palco graças a JAYME LONDRINA & uma babaquice que ACORDAMOS. interlúdio da banda e, após quantidades CONSIDERÁVEIS de cerveja, cachaça & cigarros, me vi murmurando "filho da puta" ao amigo antes de me posicionar, regular o microfone & pedir por uma BASE BLUES àqueles caras que eu nem conhecia.

isso, dois dias atrás. mas essa porra toda vem de antes, mais de ano, sei lá; de um CD da revista TRIP do já distante ano 2000, coletânea CEP 20.000, indicação de el_rey. acabei decorando & recitando algumas coisas em mesas de bar por aí, mas nunca com um microfone ligado & platéia maior que meia dúzia.

mas daí começou o BLUES, e então eu disse pra todo mundo o que me acontece quando fico de pau duro. gracias, CAZÉ PECCINI.

EPIC SHIT.

witchcult

[dia 29/12: "um surrealista escreveu no meu pau"]

JIMMY tirou da mochila um vidro com líquido ROXO embalado numa sacola plástica laranja: chá de cogumelos. com suco de uva. pouco mais de meio copo para cada um. aí nos mandamos pra rua, pra trégua da chuva, pra uma pracinha calma pra discutir - entre outras coisas - TARÔ.

nada muito mais forte que um bem estar & gargalhadas fáceis, no entanto. o misticismo do carteado tornou-se EXISTENCIALISMO NIILISTA e aí a única saída foi procurar um boteco pra tomar uma dose. eram umas quatro da tarde: cervejas, doses, histórias que acabavam nos induzindo TRANSES & dilatação temporal; doses, cervejas, conversas & nos mandados sem rumo.

esta é uma bela cidade. sensação constante de "quinze anos atrás". as fachadas antigas descascando e as novas, de mau gosto irônico. tudo muito calmo, tímido, CASTO. alcoólicos anônimos sob a igreja do rosário, entrada na lateral, reunião às 20h; entramos. um ex-alcoólatra cuidava do local & nos explicou como a coisa toda funcionava. o rosto magro & seco me chamou a atenção. assinei como DOUTOR SAX num livro aberto (A.A., pois não?). aí viramos a esquina pra entrar na igreja, pra sentarmos nos bancos, pra sussurar feito reza o CUT-UP que fiz com o folheto das cantorias que nos entregaram. para sermos massacrados pela poluição visual daquele EXCESSO de simbolismo. entramos para poder sair.

perambulações & CACHAÇA ao anoitecer.
íngrime decadência psicoativa
pelas ladeiras inevitáveis,
pelo silêncio provinciano
no qual fincávamos o CAJADO
repleto de frases & registos:
um cilindro de papelão maculado
pela esferográfica azul;
ESTANDARTE ÁGUA-ARDENTE.
embriaguez eminente.
FÁCIL.

e então eu estava completamente bêbado, chato, riscando o verso do papel da igreja com palavras ilegíveis, rabiscos de catarse falsa & estúpida; torcendo pano seco. aquela merda que se faz quando você acha que pode forçar alguma espontaneidade. não pode. nunca pode. ao menos, no dia seguinte, não compreendi grande coisa do que rascunhei ali. tanto melhor. nos separamos e fui sozinho subir um morro, depois outro, e mais um: praça central, bancos vazios & um sujeito me observava desconfiado da janela de seu sobrado, envolto numa penumbra que julguei densa demais.

perdi a consciência enquanto o encarava.
adormeci profundamente no banco da praça.
[lacuna temporal indeterminável.]
voltei pra casa.

~

[dia 30/12: bohemian polka]

THIAGO surgiu fumando depois da chuva.
carro aberto, três junkies adentro.
um fardo de cervejas naquela praça
onde tudo começa.
eterno retorno.

a erva rolou pela esquerda.
duas voltas.
e a cerveja,
até acabar.

bebemos mais, margeando o lago, depois de comer uns lanches por um preço pouco razoável. e àquela hora a única opção possível era a inevitável CERVEJA COM FORRÓ. acatamos. CONSPIRA-SE em qualquer ambiente com o ADVENTO de bebidas alcoólicas & na companhia de grandes comparsas, que era o caso.

uma grande noite, portanto.

~

[dia 31/12: so what]

vinho & champagne.
e mais vinho.
2010.

~

[dia 01/01: sorriso]

noite deserta.
tudo fechado.
cerveja cara.
outra rodada de conversas memoráveis.
bebemos as sete últimas garrafas do bar.
aí nos mandaram embora.

~

[dias 02 & 03/01: simbolismos; dia 04/01: madrugada]

"pero que las hay, las hay."

balanço

2009: EPIC.

[...]

sem mais.

the dada machine: dead dog blues

pela primeira vez estou fazendo uso SÉRIO de uma série de scripts que vim escrevendo para emular CUT-UPS, randomizar algumas coisas & ADUBAR idéias. é uma experiência muito interessante, mesmo sendo pouco produtiva (por motivos óbvios).

mas, antes disso, a motivação me surgiu do acaso, de um monte (muitas mesmo) de linhas desconexas que fui vomitando ao longo do mês de novembro enquanto CACHIMBAVA uma certa planta & ingeria álcool até diluir toda minha coordenação motora - desnecessário dizer que o resultado disso é uma grandessíssima merda, completamente ilegível, mas estamos aqui falando de INSPIRAÇÃO e não de "versões finais" ou etc.

agora, junte todas essas milhares de frases aleatórias & aplique algumas doses de dadaísmo.

DEAD DOG BLUES: imagens & passagens curtas, flashes diversos, trechos de músicas e até mesmo alguns traços de personagens. tenho a impressão de que, pela diversidade do INPUT, o output daria um ROTEIRO melhor que um CONTO. e cheguei a rascunhar algo híbrido, ou melhor, tentei encadear - de modo não-linear - tudo o que pude extrair e por ora estou quebrando a cabeça com este MONSTRO que criei.

também já retalhei a maioria dos meus textos em busca de mais INSUMOS & escrevi um outro script para buscar imagens (flickr & google imagens) com base nas palavras-chave que extraí com outro pequeno script. é algo bastante trabalhoso, mas amplia teu horizonte de referências, nem que seja para descartá-las depois. o verdadeiro trabalho braçal, no entanto, é reler tudo (sempre), escrever pra caralho, pescar o que presta & voltar a escrever.

não sei no que vai dar, mas algo sai.

compartilho despues.

haikai #6: santo forte

voam garrafas.
chove cachaça.
graças a deus.

steiner #5

eu devo ficar totalmente só no mundo, apenas eu, Steiner, e nenhuma outra coisa viva. sem sol, sem cultura; eu mesmo, nu em uma rocha nas alturas, sem tempestades, sem neve, sem barreiras, sem dinheiro, sem tempo, sem respiração. então, ao menos, eu não teria medo.

melhor documentário.

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