categoria ~ zeitgeist



quinta-feira, janeiro 07, 2010

tá tudo condenado mermo

uma das coisas que mais contribui para a sensação de que vivemos o fim dos tempos é o simples fato de que a ciência está cada vez mais apta a mostrar que a continuidade da vida no planeta sofre muito mais ameaças do que um ataque nuclear. as pessoas esquecem que a idéia de uma hecatombe iminente está intimamente ligada à crescente consciência sobre asteróides, mudanças climáticas e outros riscos que sempre existiram.

logo, pra quê se preocupar?

a última novidade armagedônica é uma estrela, relativamente próxima ao sistema solar, que pode enveredar para o destino de uma supernova num futuro próximo. caso isso aconteça, a explosão seria capaz de liquidar a camada de ozônio da terra, e todos estaríamos fritos (vale lembrar, no entanto, que o futuro próximo em escala cósmica é bastante longo).

bem, who cares. tá todo mundo cansado de saber que, na melhor das hipóteses, o sol vai derreter a gente daqui a alguns bilhões de anos.

o lance é sidivertir.

via bindi.



terça-feira, janeiro 05, 2010

nova tentativa de retrospectiva

o grito ficou com os melhores, mas nem apenas de bons momentos se faz uma década. o ny times publicou uma tabela sensacional com os principais acontecimentos de cada ano. eis os highlights*:

2000: carrie & mr. big, florida recount


2001: 9/11, anthrax, wikipedia

2002: al jazeera, patriots, "to download"

2003: iraq, myspace

2004: camera phones, demi moore & ashton kutcher

2005: katrina, tom cruise & oprah winfrey, "to google"

2006: watching tv on computers, tsunami, china, avian flu, "to text"

2007: baby boom, brangelina & family, crocs

2008: moms on facebook, michael phelps, obama, hope

2009: swine flu, lady gaga, vampires


* hightlights de forma alguma dispensam a divertidíssima representação gráfica de cada item mostrado na tabela.



quinta-feira, dezembro 31, 2009

os melhores da década

com exceção da minha casa, meu trabalho e escrever, não sou consistentemente aficcionada em nada por mais de dois anos. vim com pouco poder de fixação. eu jamais poderia ter nascido laquê.

e já que uma década tem dez, não estou apta para elaborar, com justiça, listas das x melhores músicas, y melhores filmes, z melhores livros ou o que quer que seja que aconteceu na década 00. mas a estonteante equipe de colaboradores do grito está. eles acabam de levar ao ar um deslumbrante ranking dos últimos dez anos em filmes, álbuns, músicas, clipes e quadrinhos. e eu participei não com uma lista, mas com aquele texto retrospectivo sobre... moda!

enjoy, you guys. and have a marvelous 2010!



sexta-feira, dezembro 11, 2009

tala madani

tala_madani_braided_beard

conheça a pintora iraniano-americana tala madani e seu tocante discurso sobre as identidades cultural e sexual masculinas. o site da saatchi gallery traz uma maravilhosa curadoria da artista, desenvolvendo brilhantemente as questões presentes em sua obra. sobre o "braided beard" que você vê acima:

madani's cloistered gatherings of men are humorously imagined through an ironic portrayal of girl-culture, their clubby skullduggery emasculated against the background of female rituals such as sleepovers, spa treatments, and bake-offs. in braided beard madani envisions a barber shop as a setting for camped up erotica, with a hirsute bear-type getting a pampering session he didn't bargain for. madani replicates this melodramatic fussiness using her loose painting style as a key component of her epicene narrative: the elaborately patterned carpet and the man's hairy legs point to a feminine eye for detail and decoration and the hamfisted clumsiness of its male approximation.

a abordagem da masculinidade de madani é, ao meu ver, uma das maiores verdades do nosso tempo.

via i´m revolting.



sexta-feira, dezembro 11, 2009

brain trivia: informação como nunca antes consumida

como vimos ontem, a internet administra uma quantidade monstruosa de dados diariamente. e quanto ao ser humano? qual o volume de informações com os quais lidamos em diferentes períodos? o global information industry center trouxe alguns resultados embasbacantes. segura na minha mãozinha porque...

. se transcrevêssemos todas as palavras que uma pessoa em média pronuncia numa semana, daria um livro mais longo que "guerra e paz"

. apesar do índice de leitura de mídia impressa estar caindo, lemos cerca de três vezes mais que os alfabetizados dos anos 80 - graças a computadores em geral e à internet em particular

. a população dos estados unidos consumiu cerca de 3,6 zettabytes em 2008 (um zetta equivale a um bilhão de terabytes, ókêy? pedi ajuda ao pessoal de tecnologia & desenvolvimento do trabalho para traduzir isso pra vocês. também foi dada a opção dez elevada a vigésima primeira potência de byte. ambas explicam melhor que a wiki)

. traduzindo o item anterior: o cérebro do estadunidense médio processa cerca de 34 gigas diariamente. isso equivale a 4.72mbps, o que significa que eles recebem informação mais rápido do que muitas conexões de banda larga são capazes.

. 55% dos dados absorvidos nos lares ianques correspondem aos videogames, pelo simples fato de que seus gráficos são altamente detalhados

e vamos parar por aqui senão a postagem vai dar pau.

via geeks are sexy.



sexta-feira, dezembro 04, 2009

leiturinha amiga para o final de semana

. have we forgotten not to forget? remembering not to remember in an age of unlimited memory

. o photoshop da discórdia: mais lenha no debate sobre o projeto de lei francês que obriga revistas a informar o uso de photoshop sobre fotos digitalmente alteradas

. quase uma crônica: a história da pink lady of malibu



sexta-feira, novembro 13, 2009

linhas de fuga

discohá alguns anos ouvi falar pela primeira vez sobre linhas de fuga. foi no meu momento pré-deleuze, o pensador que levou a expressão ao âmbito filosófico. nunca pedi explicação sobre o que significava: a minha cabeça simplesmente fazia um paralelo automático com ponto de fuga, um conceito de arquitetura que me é bastante familiar, posto que papai é perspectivista. estava claro que tinha a ver com seguir em direção a um destino que não está aparente, que ainda não surgiu no mapa. acima de tudo, tinha a ver com movimento e com o desconhecido. ninguém realmente sabe o que existe atrás do horizonte.

de repente descobri que desde muito cedo tinha o hábito de criar linhas de fuga toda vez em que me sentia inadequada ou entediada. isso não significa que eu era inadequada, apenas que me sentia assim, descombinando com o entorno. dentre nós, que tantas vezes nos sentimos ets no meio da perspectiva by-the-book em que a maioria opera sem reclamar, há os que ficam ali e os que fogem, os que vão embora.

fuga é, com alguma razão, o tipo da coisa que se atribui aos fracos de espírito. mas acabei concluindo que seguir uma linha de fuga é o contrário: é seguir o seu próprio caminho em direção a si mesmo. então é tudo ao contrário: não é burrice, é criatividade; não é covardia, é não-conformismo; não é fuga, é encontro.

minhas linhas de fuga são os meus caminhos e meu ponto de fuga é a minha singularidade.

anos mais tarde, com a implantação definitiva da internet, com esses exércitos de pessoas atendendo a todos os estímulos possíveis, correios electrónicos, telemóveis, reprodutores mp3 de passeio diário, messengers, twiters, bate-papos eternos, wifis para estar continuamente ligados, antónio deu-se de conta que a realidade virtual teorizada chegara desde o horizonte, noutros formatos, e que deveríamos tender a infinito de vez, correndo cara um lugar chamado linha de fuga, no horizonte.

segundo josé ramom pichel campos, está ficando cada vez mais fácil compreender o que são linhas de fuga e traçar as próprias.

nas palavras do blog deleuze e parnet,

temos a tendência de dividir a realidade, o mundo, em esquemas dicotômicos, esquemas esses que só separam, não conectam, não partilham, não se partilham... o meio é a potencialidade, é o que existe ou poderá existir entre as duas realidades que são amplamente assumidas. nós no jornalismo temos a mesma tendência do resto do mundo, que é a de dividir a realidade em bom/mau, herói/vilão, rico/pobre, tradição/moderno... e muitas vezes fica tanto por explorar. é por isso que os autores defendem que estes princípios [linhas de fuga] são difíceis de explicar, porque no fundo são apenas potencialidades, são coisas da ordem do possível, não são ideias palpáveis ou que utilizemos todos os dias.

e então completa a idéia com outros dois conceitos fundamentais às linhas de fuga: o devir e o nomadismo.

a ideia de devir é também desta ordem. claire parnet diz a dada altura que devir é devir simplesmente. o devir não tem história, não tem passado nem presente. o devir não tem um princípio ou um fim, são os acidentes de percurso, não apenas nas vidas humanas. são as possibilidades que muitas vezes não se concretizam porque optamos por uma outra possibilidade - às vezes nem optamos porque já temos um plano estipulado (mas mesmo isso é uma opção). o devir é encarado como uma intensidade, como uma velocidade absoluta. e uma velocidade absoluta é diferente de uma velocidade relativa. a velocidade relativa é a velocidade de um movimento de um ponto ao outro, ou seja, com princípio e fim. mas o que importa é o meio, daí a importância da velocidade absoluta.


a velocidade absoluta é uma intensidade que permite traçar uma linha de fuga. por isso é que parnet diz que a velocidade absoluta é a velocidade dos nômades, mesmo quando eles se deslocam lentamente ou quando estão simplesmente parados. uma velocidade absoluta pode ser uma imanência, não é um movimento. e os nômades traçam uma linha de fuga, criam um espaço liso, desterritorializam-se. se bem que eu também acho que acabem por se formar numa comunidade com valores e regras e que acabam por listrar o seu próprio território... mas esta velocidade absoluta do devir não é mensurável, é apenas o modo de estar presente ao espaço.

conclusão:

para deleuze, viver é da ordem do devir e não da ordem da história, viver é experimentar o que está entre, o que está no meio. a potencialidade de deleuze está lá em latência, em potência. parnet dá vários exemplos de como criar linhas de fuga, de como criar novas experiências, de como produzir o novo.

por hoje é tudo o que temos a dizer.



segunda-feira, novembro 09, 2009

hoje faz vinte anos desde a queda do muro de berlim.

além de todas as coisas legais que o programa "sem fronteiras" da globonews tem para contar sobre o assunto, nós aprendemos que:

. nem todo mundo curtiu a notícia. eija-riitta berliner-mauer, uma sueca de 54 anos, por exemplo, ficou arrasada com a queda do muro. ela era casada com ele havia 29 anos e pediu o divórcio no ano passado. é sério. ela sofre de uma doença chamada sexualidade-objectum, que permite que se afeiçoe romanticamente a coisas.

. cobrir um acontecimento histórico para o telejornal de maior destaque do país, como na ocasião fez pedro bial para o jornal nacional, não garante que o repórter será para sempre lembrado com dignidade e respeito.



terça-feira, outubro 13, 2009

mais singularidade

aconteceu uma convenção sobre singularidade em nova york e ninguém nem me chamou! eu nem fui convidada. mas podemos ter um gostinho das expectativas dos participantes através do "povo fala" que o pop sci organizou:

what brings you to the singularity summit?


"a friend gave me a lot of sci-fi to read. now, i'm a transhumanist."
- idem aqui amiga suzanne gildert, cientista quântica na university of birmingham, inglaterra

what about the singularity are you looking forward to?

"my personal dream is the day when i don't need a clunky device to link to ambient information. if i have a question, i want to be able to surf the air for it."
- sofya yampolsky, estudante

"being of a certain age, i'm all over the body replacement thing."
- lisa arden, uma mulher comum

is there anything about the singularity that worries you?

"no, i'm more worried that human kind will squander this opportunity to reach their higher potential."
- michael pinkney, md, "life style potentiator" e cabeça do radical human

"i'm worried that the things that make us human, the differences and suffering that makes great art, will be lost."
- sofya yampolsky (boa resposta)

"no. we're totally surrounded by unfriendly governments, unfriendly religions, unfriendly viruses, why should we worry more about unfriendly machines? we're already doing this. i don't know why people are freaking out."
- lorenzo albanello, pesquisador da fundação strategies for engineered negligible senescence (oi?)

"nope. the congress scares me more than this stuff."
- lisa arden, a mulher comum

"just that we don't know what's going to happen. but that happens all the time"
- grabrielle ewall, caloura do cold spring harbor high school, filha de lisa

confesso que tenho achado este blog um pouco geek demais ultimamente, mas este final de semana minhas preocupações em relação à popularidade do assunto foram aliviadas: eu e a família despendemos vários minutos trocando impressões sobre robôs e trans-humanismo ao redor da piscina. quando o bizarro chega ao seu momento de lazer familiar é porque já não é ficção científica.



quarta-feira, agosto 19, 2009

alta literatura da semana: manifestos estéticos

um delicioso apanhado desde 1883. meus trechos favoritos:

manifesto futurista (itália, 1909)

"we intend to sing the love of danger, the habit of energy and fearlessness"

"except in struggle, there is no more beauty. no work without an aggressive character can be a masterpiece"

"why should we look back, when what we want is to break down the mysterious doors of the impossible? time and space died yesterday. we already live in the absolute, because we have created eternal, omnipresent speed"

manifesto da arquitetura futurista (itália, 1914)

"that futurist architecture is the architecture of calculation, of audacious temerity and of simplicity; the architecture of reinforced concrete, of steel, glass, cardboard, textile fiber, and of all those substitutes for wood, stone and brick that enable us to obtain maximum elasticity and lightness"

"that by the term architecture is meant the endeavor to harmonize the environment with man with freedom and great audacity, that is to transform the world of things into a direct projection of the world of the spirit"

manifesto bauhaus (alemanha, 1919)

"architects, painters, sculptors, we must all return to crafts! for there is no such thing as "professional art". there is no essential difference between the artist and the craftsman. the artist is an exalted craftsman"

topography of tipography (alemanha, 1923)

"the words on the printed surface are taken in by seeing, not by hearing (...) economy of expression: optics, not phonetics"

"the hygiene of the optical, the health of the visible is slowly filtering through"

good design manifesto (alemanha, 1987)

"good design is as little design as possible: back to purity, back to simplicity"

people´s communication charter (unesco, 1998)

"all people have a right to universal access to and equitable use of cyberspace. their rights to free and open communities in cyberspace, their freedom of electronic expression, and their freedom from electronic surveillance and intrusion, should be protected"

designers agains monoculture (eua, 2001)

"we refuse to create design that furthers the creation of a global corporate monoculture"

manifesto for agile software development (eua, 2001)

"individuals and interactions over processes and tools
working software over comprehensive documentation
customer collaboration over contract negotiation
responding to change over following a plan"

white night before a manifesto (eua, 2008)

"communicative (active) surface, or screen, is classified by its capacity to reveal and open up doorways to virtual worlds. in the absence of message, it maintains a system of placeholders and default images. mobile phones - which physically resemble minimalist jewellery - are inhabited by complex worlds appearing on the surface of their screens. in fact a phone is no longer a phone, as it performs the functions of an email tool, a web browser, an agenda, a calculator, an alarm clock, a video player, a camera and a game console. there is no principal difference between the 'phone-as-surface' with its inherent capacities to organize information and social relations, and the 'credit card-as-surface' with its capacity to order concierges and butlers"

"active surfaces are inhabited by worlds in worlds. this is a matter of calculus and inner complexity; mobile phones have surpassed the threshold between a dedicated machine (designed to perform a single task or series of tasks) and a machine which appropriates the functions and tasks previously assigned to other machines, resulting in the emptying out of the objects that were formerly machines (like the wristwatch). the system which inhabits the object with the most active surface - the more informational, complex, all-inclusive one - has surpassed a degree of complexity, so that the tasks it performs can no longer be related to its size, its form or its weight"

manifesto of the future of attention (eua, 2009)

"in 1971, the oft-quoted political scientist herbert simon predicted that in an information age, cultural producers (that's designers, but also filmmakers, theater types, musicians, artists) would quickly face a shortage of attention. 'what information consumes is rather obvious: it consumes the attention of its recipients,' he wrote. the more information, the less attention, and 'the need to allocate that attention efficiently among the overabundance of information sources that might consume it.' (...) making something 'free' is obviously an allocation strategy. 'free' attracts attention. making things brief is an allocation strategy as well. the problem is that free isn't sustainable, and that brief is underpriced."

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