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segunda-feira, outubro 10, 2005

A QUESTÃO INDÍGENA

Tinha esse barbante separando o camping da área do Puxirum no Chamado.

Armamos nossas barracas bem na fronteira, onde havia uma sombra de árvore - que vale ouro quando a umidade do ar está em 20%. Rápido o camping encheu; quando a Carol chegou, perto da gente e com sombra decente só tinha lugar ali, logo do outro lado do BARBANTE DE BERLIM.

Na Rainbow Family não havia demarcação de áreas e para nós o esquema do Chamado era um absurdo total. Ao contrário da Rainbow, que repousa tradicionalmente na benevolência, intuição e independência dos participantes, o Chamado apostou na ignorância e partiu do princípio que tudo ali precisava ser patrulhado. Eu e Carol acreditávamos que a ocasião não poderia ser melhor para defender nossos valores e praticar saudável "desobediência civil" em nome da vontade de integração geral.

Como enquanto armávamos a barraca Juan, um índio quéchua, se aproximou, apresentou-se amistosamente e nos ofereceu ajuda dentro daquela que seria a área de seu povo, interpretamos como boas-vindas, e sossegamos.

Contudo não tardou para que uma espanhola com maneiras de fada Sininho totalitária perguntasse se conhecíamos o sujeito que havia erguido a barraca ali. Carol não estava e respondi que sim. Ela disse que a barraca estava na área particular indígena e eu argumentei que aquela demarcação de território era a própria propriedade privada que todos tanto execravam. Fada Sininho se irritou e disse que eram as regras, eu contra-argumentei que aquelas regras feriam a integração que nós desejávamos e que não obedeceríamos. Sininho disse que os índios precisavam de privacidade e contei sobre a receptividade de nosso amigo Juan, sugerindo em seguida que organizássemos um círculo de debates com os próprios índios para resolvermos o impasse. Sem mais o que dizer, ela se foi.

Três dias depois eu me preparava para seguir para São Jorge e Carol decidiu vir comigo, mais Folopo e Vivian. Ajudava-a a desarmar sua barraca quando um espanhol chegou com sorriso doce e agradeceu por estarmos nos retirando da área do Puxirum. Imediatamente esclareci que desarmávamos a barraca para ir embora de um encontro que primou pela verticalidade e intolerância, e que se tivéssemos resolvido permanecer, só retiraríamos a barraca caso os próprios índios solicitassem. Nosso interlocutor levantou a voz e apresentou-se como CHEFE DO PUXIRUM e que aquelas eram as regras. Eu levantei a voz igual e disse que a diferença entre ele e um engravatado da Babilônia era ZERO; e que um espanhol tomando conta do espaço dos índios me remetia a 500 anos atrás.

Carol tentou harmonizar as coisas alegando que, para nós, brasileiros, a maioria com índios na ascendência, era muito difícil convencer que aquele Puxirum não era um pouco nosso também. Era o caso dela, de avó índia.

O maluco ainda apelou pro badabauê e disse que o Puxirum - que até então não tinha uma parede em pé e, fui saber, jamais chegou a ter - havia sido projetado para funcionar como uma ANTENA ENERGÉTICA e que não poderia haver INTERFERÊNCIAS. Eu rasguei um sorrisinho e vomitei a discriminação pungente: então nós, os participantes, éramos o vibrião potencialmente causador de interferências na santitude ameríndia! Com isso levei o CORONEL às tapas do sangue quente; e ele bateu em retirada.

Miolos fervidos também estavam os meus; ao avistar Valdez, o índio amazonense que conhecemos dias antes em Alto Paraíso, senti-me no dever de revelar o episódio, para que ficasse bem claro o que caras-pálidas andavam fazendo em nome dos pele-vermelhas.

Valdez ficou lívido, desculpou-se pela fada Sininho e pelo coronel e disse que os índios jamais reivindicaram delimitação de espaço próprio durante o evento. Chorei um pouco, eu e Carol expressamos a alegria de tê-lo conhecido e nos despedimos com um longo abraço.

Aguardávamos o ônibus para São Jorge na rodoviária de Alto Paraíso quando nos deparamos com Valdez, também recém-despedido do Chamado: depois que fomos embora, ele discutiu com o espanhol sobre o caso da barraca; além disso, não havia abrigo nem alimentação adequada para sua gente. Arrumou suas coisas, ligou para a FUNAI e SUSPENDEU A IDA DOS 80 ÍNDIOS que aguardavam seu parecer sobre o evento. Não havia condição.

Daí arrebentou a primeira chuvarada da Chapada em três meses.

Em SAINT GOURGEOUS a viagem recomeçou como se absolutamente nada tivesse acontecido.



quinta-feira, outubro 06, 2005

DEVOTA DE SÃO JORGE

Sao Jorge.jpg

Oito dias em zero freqüência: de tanto que desejei virou realidade e, sem programar, entrei em rota de encontro com ela. Me diga há quantos anos eu sonho em ficar perdida no nada-para-fazer de um povoado que nem existe no mapa? Se o Chamado serviu para alguma coisa (bem porque foi um fiasco ele serviu para muitas), uma delas foi pra me botar bonitinha no ônibus para São Jorge. É uma pracinha bem pequena com nem duas dezenas de ruas esquadrinhadas ao redor, não tem jornal nem correio nem internet nem muito do que a gente conhece. Pelo menos não como a gente conhece: a farmácia, por exemplo, divide seus oito metros quadrados com a sorveteria.

Fez crunch feito o chocolate quando desci do ônibus porque lá não tem rodoviária e largam a gente no meio da rua principal mesmo. Fez crunch porque o asfalto ainda não chegou e o solo é todo feito de tritura de cristal branco e rosa. Dá até pra escolher e levar pra casa. De noite a iluminação é fraca ou dá blecaute (a eletricidade chegou tem só dez anos) e quando a lanterna bate no chão os cacos brilham feito olho de gato. Vai que é por causa da energia em crise que os vagalumes são tão grandes e luminosos, e tão rápidos!, anoiteceu e faltou luz e pareciam naves de filme de ficção, as crianças correndo em bandos atrás deles no escuro.

Antes mesmo da gente assentar as barracas no quintal do Pelé eu catei um telefone público, muito saltitante por ter um ali tão facinho, e liguei pra ma Feels pra contar que todo o meu sonho de ficar vendo a vida passar em lugar nenhum estava se realizando, e mesmo com este post vocês jamais me entenderão como ele me entendeu naquela ligação. Se existe uma criatura que tinha que estar lá comigo era ele, e não só porque ele é o meu tudo, mas porque compartilhamos igual encanto pela doçura da roça.

As coisas de Brasil que ele me ensina estavam nas paredes naïf das casas, no chão da pracinha...

naif e diabinho.jpg

... na minha constante saudade de Vitor Ramil, Quinteto da Paraíba e dos outros. E tudo o que eu desejo agora é que eu nunca mais fique tão longe dele, posto que é sofrido, e que se for pra ir só se for junto - de preferência pra Canudos, deserto do Jabotão ou qualquer lugar que rendesse um cordel bem gracioso.


E QUE NEM EM PENSAMENTO ELES POSSAM ME FAZER MAL

Estátua de São Jorge, o santo, eu já tive duas e as duas danaram. A primeira eu cheguei em casa e encontrei carbonizada, a vela votiva incendiou misteriosamente e a parede ficou preta até o teto. A cera derretida misturou com o vermelho da capa do santo queimado e pareceu sangue. Vai que, se não fosse ele, teria sido minha casa toda.

A segunda era maiorzinha um pouco. Ficava no aparador junto com outras antenas místicas e bela noite Calvin derrubou no chão. Era pra ter quebrado em caquinhos, mas nada: ficou inteiriço, não tivesse partido bem no pescoço do santo. A cabeça de gesso pendurada tal qual saída de nove décimos de guilhotinagem.

Vai que, se não fosse a dele, teria sido a minha.



quarta-feira, outubro 05, 2005

NOVA BABILÔNIA ou YOU MAY SAY I´M A DREAMER

Não aceito nada menos que igualdade radical na prática de qualquer proposta ecológica ou socialista (no sentido apolítico do termo). Eu levo a coisa a sério, vocês sabem. Então fica explicado o choque que sofri nos quatro dias que durei no Chamado do Beija-Flor: não passou de uma metrópole neurótica de pau-a-pique, com todo tipo de discriminação, panelas de poder vertical borbulhando egos aviltantes, desprezo retrógrado pelas boas tecnologias e grande amadorismo no planejamento do básico do bem-estar.

Era pra ser um exemplo de ecovila auto-sustentável, mas os recursos clássicos deste tipo de organização não estavam a serviço dos participantes. Pior: escapou à filosofia que seres humanos devem ser os primeiros a ser ecologicamente geridos. No primeiro dia de encontro, muita gente já adoecia de staphilococus e bactérias gástricas; os organizadores rebatiam com palavrório tipo essas pessoas estão se purificando através da doença ou o staphilococus existe na sua cabeça.

Vão tomar no cu BIG TIME.

Ao invés de ser investido numa infra que realmente respeitasse as pessoas, a grana da entrada - que, em nome da inclusão, deveria ter sido abolida - foi para a gráfica, que cuspia babaquices como bolsinhas do Chamado e tíquetes de alimentação em consonância com o kin de cada dia. Enquanto isso, a cozinha oficial naufragava e os hare krishnas do Alimentos Para a Vida se despencavam de São Paulo para salvar o jantar, até então entregue às moscas - literalmente, as que voavam diariamente do lixão que existia a 10 quilômetros da área.

As palestras ou não aconteciam ou rolavam aleatoriamente. Era quase impossível saber o que, quando e onde estava sendo apresentado. Temas abordados com relativo sucesso foram a Carta da Terra e Agenda 21 - mas nada que não tivesse sido amplamente dissecado no último Fórum Social Mundial. Fontes confirmaram que, ao final do evento, a maior parte dos espaços temáticos não havia sequer sido erguida. O caso mais bizarro foi o Puxirum, do qual os índios dependeriam para se abrigar e realizar suas assembléias.

Todos eram discriminados em participantes, facilitadores ou voluntários e tinham diretos e tratamentos diferentes. Tal qual propriedades privadas, as áreas físicas eram demarcadas por barbantes e possuíam coordenadores com poderes deliberados de mando e desmando -coronelismo style.

O embate de egos era tão acirrado que o Jardim Elétrico precisava pedir desculpas aos não-adeptos da eletrônica para funcionar. Na maior parte das vezes malabaristas e percussionistas eram os únicos promotores da diversão noturna ao redor da fogueira.

Visitei encontros verdadeiramente radicais, sem células formais de regência, mínima movimentação de dinheiro e pessoas muito mais heterogêneas e numerosas e acreditei que o esquema não seria tão diferente - até porque apenas com bom nível de horizontalidade é possível criar unidade a partir das diferenças. Mas o que tivemos foi o totalitarismo de uma União Soviética em seus early days, onde uma minoria de experts julgava-se sabedora do que era melhor para a maioria restante e mantinha cabresto curto.

Desnecessário dizer que EU NÃO ME PRESTEI A ISSO.

Ao cabo do primeiro dia, eu era uma metralhadora giratória insuportável e me isolei integralmente das atividades, no melhor estilo lobo solitário. Driblava a badtrip tomando banho de rio com meus queridos e me refugiando no Moinho, o vilarejo nearby. À noite, voltava ao camping para gargalhar das mazelas locais com a galera e dormir.

No quarto dia comuniquei que estava indo embora para o povoado de São Jorge onde, ao longo dos oito dias restantes, vivenciei, inesperadamente, idílios secretamente acalentados por anos. Folopo, Carol e Vivian, também fartos da pantomima, decidiram vir comigo; Letstellar, Joana, Tainá e Letícia chegaram quatro dias depois.

Parti, mas não sem antes causar grande mal-estar junto aos imbecis espanhóis que coordenavam um Puxirum colonialista. O desfecho foi surpreendente e merece um post à parte.



segunda-feira, outubro 03, 2005

REGRESSORA

Espelho. Paredes. Asfalto. Travesseiro.

Ainda esta semana, um breve rosnar sobre o Chamado - aquele que não completou a ligação.

Na seqüência, maravilhamentos rurais no povoado de São Jorge e o sonho que se tornou realidade.

Mas tudo assim, meio resumido.

O site de papai está a caminho e não há tempo para longos retrospectos.

Apenas Feels detém com exclusividade os posts quase diários escritos à tinta.


FEAR AND DEPRESSION

Esses xadrezes de ruas. Essa afronta de carros. Essas almas flageladas. Esse andar apressado. Esse monte de lixo. Esse ar de irrespiro. Essa conversa tediosa. Esses decibéis impunes. Esse perigo iminente. Esse sabor artificial de morango. Esse celular impaciente. Esses modos distantes. Essa vigilância constante.

Esse caminhão de concreto passando por cima.

Esse colete à prova de urbe.



quinta-feira, setembro 15, 2005

SÉPHORA

Amanhã vôo com Vini e Letícia para Brasília e de lá mastigamos quatro horas de chão até Alto Paraíso; no sábado caminhamos cerca de 11 quilômetros mais mochilões até o pico exato do Chamado do Beija-Flor, onde armamos acampamento junto a Iuri, Folopo, Letstellar, Joana, Tainá e Vivian.

Uma vez nos domínios do evento desvendarei grande gama de incertezas sobre a comunicabilidade com o mundo exterior. Falam em estações de internet na área de Mídia Independente, mas tudo está sendo erguido a partir de doações então não há garantias. No começo de agosto, quando troquei e-mail com a organização, festejavam a cessão de computadores mas ainda lutavam por conexões.

Lindo porque a prática está em estrito acordo com a filosofia do encontro e eu não me satisfaria com menos.

Mas ficar lá sem contato com Feels será a AMARGA MISÉRIA.

Em observância à praxe familiar aplicada às ocasiões em que me dirijo a destinos remotos, mamãe ofereceu-me seu celular até o último minuto. Por Feels eu ignoraria meu desprezo pela telefonia móvel e sustentaria, feliz, o ridículo de carregar um para domínios rurais, mas as chances de ter sinal são praticamente inexistentes e menores ainda são as de disponibilizarem fonte para carregadores de bateria.

Em último caso percorrerei periodicamente as milhas necessárias até o primeiro telefone público dos arredores.

Enquanto isso seguirei sonhando secretamente em estar de novo com meu GRANDE AMOR.

Se as passagens não tivessem sido arranjadas pré-Feels, honestamente não sei se estaria indo. Porém.

1.
Pense num cruzamento entre Rainbow Family e Fórum Social Mundial, onde uma comunidade horizontal e auto-sustentável se engaja em agendas diversas: área de Mídia Independente, movimento do software livre, permacultura e meio-ambiente.

A cozinha é vegetariana só que um pouco mais radical, a idéia é que quase nenhum alimento seja levado ao fogo. Dia 22 será proposto jejum coletivo.

De São Paulo chega o Jardim Elétrico - pico da eletrônica de baixa moção -, onde assistiremos o dignificante duo Ethno Lyserge e Ethno Breath de belos harmônicos e efeitinhos.

Mas será no Puxirum indígena que minhas horas ociosas transmutar-se-ão em inesquecíveis.

E estou levando a KALIMBA.

Coisas não tão legais mas passáveis: excessivo credo no Calendário Maia (usar relógio pode ser perigoso); ausência de narguilés (uma prova de fogo).

2.
Se por glória divina os participantes tiverem livre acesso à internet, narghee-la será atualizado live from High Paradaise. Mas é mais provável que as atividades permaneçam suspensas até a primeira semana de outubro.

3.
Que Alto me eleve.



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