ao lado de la beauté est dans la rue (a beleza está nas ruas), sous les pavés, la plage! (sob as pedras da calçada, a praia!) é a máxima situacionista que mais aprecio. o artista português vhils se inspirou nela para batizar seu mais recente trabalho nas ruas de lisboa, "scratching the surface", que gerou um filminho-arte e um manifesto que fez crescer flores no meu peito sonhador. o original, em inglês, está aqui; abaixo, a tradução freestyle:
arranhando a superfície
"sous les pavés, la plage!" (debaixo das pedras da rua, a praia!) - graffiti anônimo, paris 1968.
paris, maio de 1968. quando os enragés começaram a arrancar os paralelepípedos do boulevard st. michel para usá-los como armas contra as forças da velha ordem, se depararam com a areia que existia debaixo deles. a terra. debaixo do concreto, a terra. debaixo do ambiente urbano, natureza. debaixo do artificial, vida.
por trás de todas essas paredes de tijolo e concreto, essas duras, cinzentas superfícies que condicionam nossa existência, por trás de todas essas cidades, existe vida. existem indivíduos, existe natureza. "arranhando a superfície" é um ato de criação tirado de formas sem vida. é a subversão das formas sem vida. o ato de gravar a idéia de vida num muro, de criar a imagem de um indivíduo, uma peça iconográfica de simbolismo representativo que vai durar. como se torná-lo eterno ao trazê-lo à vida onde a vida não poderia existir. ao extraí-lo daquilo que é natimorto por sua própria natureza, por seu design.
então até a concessão de todos os muros que separam, impõem, que condicionam, um sistema social que esmaga com o intuito de controlar e perpetuar as costuras existentes nas divisões existentes nessa eterna divisão e mantém os indivíduos em seus lugares, será mais e mais fácil esquecer quem nós somos, de onde viemos e do que se trata a natureza. como é fácil perder a noção do que se trata nossa própria natureza quando somos pegos nesse ambiente saturado e inorgânico.
ainda por cima amei o emprego do termo indivíduo no lugar de pessoas ou homem ou ser humano. muito michel onfray.
via wooster collective.