Coisa de duas semanas recebi e-mail de interlocutor inteiramente desconhecido me informando que aquele instrumento que apareço tocando no álbum do Orkut não é uma cítara e sim um sitar.
Respondo que cítara é a palavra da língua portuguesa para sitar; e ele rebate dizendo que, a rigor, a cítara é uma evolução da lira grega e que sitar já é, sim, encontrado nas edições mais modernas do Aurélio.
Contentou-me saber que, ao contrário do que meu corretor ortográfico indica, sitar já não é estrangeirismo para o instrumento mais maravilhoso do mundo, e imediatamente aposentei cítara. Em contrapartida, a questão da definição começou a tomar nuances INGLÓRIAS. Acompanhem-me.
É aceito que cítara foi "emprestada" para denominar o sitar na época em que sitar não constava no dicionário da língua portuguesa. Além disso, googlando, descobri que a palavra também batizou diferentes instrumentos em diferentes tempos e culturas do mundo. Uma espécie de Casa da Mãe Joana musical-vocabular.
Diversos textos, sobretudo das décadas de 60 e 70, usavam cítara para se referir a arte de Ravi Shankar (então uma revelação para o ocidente) e imediações da música indiana. Ignoro quanto tempo se passou até que finalmente Aurélio e cia incorporassem sitar ao saguão de verbetes portugueses. Todavia, um primeiro mistério assombra a questão: dois dos melhores dicionários de Portugal, Priberam e Porto Editora, ignoram o termo sitar .
Tipo, NÃO ENTENDI.
Não deveria haver um alinhamento entre dicionários de língua portuguesa de Brasil e Portugal, sobretudo quando o termo é usado para denominar algo tão objetivo quanto um sitar? Sem contar que Portugal já teve Macau como colônia.
Mistério número dois reside na definição de sitar, conforme informada pelo interlocutor desconhecido que me escreveu: "instrumento hindu, de braço longo, montado com três ou quatro cordas dedilháveis" (Aurélio); e "instrumento de cordas originado da Índia, da família do alaúde, com forma de pêra e braço longo, us. para solo ou em conjuntos" (Houasiss).
equívoco letra a) "hindu" é impróprio porque se refere a religião, e não à nacionalidade, que ambos os dicionários sugerem ser indiana;
equívoco letra b) as cordas dedilháveis são de seis a sete. "Três a quatro" seria a rudra vina, outro instrumento oriental parecido com um sitar. Na real, o número de cordas do sitar chega a 19 ou 21, porque também existem cordas de ressonância por baixo. Ou seja, a definição não só está ERRADA como é VAGA.
equívoco letra c), e o PIOR: o sitar NÃO FOI originado na Índia, mas na Pérsia. Com as famosas invasões árabes na Índia, o sitar foi introduzido e acabou se popularizando por lá, tornando-se sinônimo de música indiana - mais ou menos como a história do macarrão que foi inventado pelos chineses mas que virou sinônimo de culinária italiana. Este detalhe me havia sido revelado pelo afegão Mohammed e o Sandro confirmou.
Donde se concluir que, a rigor, não há palavra certa para classificar um sitar. Mas ficamos com sitar porque é a mais cheia de BOA INTENÇÃO.