"Um rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se dizem violentas as margens que o oprimem"
- Bertold Brecht
BADERNA MIDIÁTICA
Quem abriu a página da rádio CBN nesta terça-feira leu os tópicos: "Servidor é internado em estado grave/ Grupo deixa rastro de destruição/ PT investiga ação de membro da executiva/ Preso diz que violência foi espontânea/ Polícia detém centenas de manifestantes/ Aldo exige prisões para ler reivindicações/ Alckmin culpa Lula por invasão e Lúcia Hippólito: Democracia não é baderna".
Para Lúcia Hippólito, "chegou a hora da gente parar de confundir democracia com baderna. Isso é vandalismo puro e simples". Durante todo o dia as rádios CBN e Bandnews acentuaram o tom na repressão verbal ao protesto dos camponeses do MLST. "Um absurdo total", dizia um dos âncoras, que apenas uma hora após o incidente entrevistava, ao vivo, o presidente da União Democrática Ruralista (UDR).
Eu lamento muito pelos seguranças feridos ao defender um Parlamento que não faz por merecer seu empenho. Mas lamento também pelo descaso desse governo com a Reforma Agrária. Lamento pelas condições desumanas em que vivem milhares de camponeses pobres. Lamento pelos que são obrigados a viver em acampamentos, sem a mínima infra-estrutura. Lamento pela concentração fundiária no Brasil, onde 1% dos proprietários possui 48% das terras agricultáveis do país.
E lamento mais ainda a mídia reacionária, oficialista, entreguista e oportunista que existe no Brasil. O único - repito, único - veículo a dar voz aos manifestantes foi a Radiobrás. Lá era possível ao menos escutar a versão do MLST, enquanto os demais noticiários desciam o cacete em cima dos camponeses, do socialismo, da revolução, do Planalto, do Lula, assim mesmo, tudo misturado. Dizia a radiobras.gov.br que os manifestantes alegaram terem sido agredidos pelos seguranças antes de iniciarem a invasão à Câmara dos Deputados.
No final da noite, a CBN teve a felicidade de entrevistar o presidente da Comissão Pastoral da Terra, Dom Tomás Balduíno, que deixou a entrevistadora incomodada. Além de criticar a imprensa por criminalizar os movimentos sociais, Dom Tomás não vacilou: "Acho que os camponeses bateram na porta certa". Mas não seria melhor uma manifestação pacífica?, quis saber a moça. "Sim, e eles fariam o quê? Entregariam uma carta? Um protocolo? Se fosse assim, o destino seria o lixo, como sempre foi". Enquanto tentava prosseguir a aula sobre conflito no campo, a entrevistadora o interrompeu querendo saber se ele estava justificando a violência. "Não, mas acho uma violência infinitamente maior o que está sendo feito com um milhão de camponeses pobres no campo brasileiro".
Quem ouviu a entrevista, ouviu. Quem não ouviu, não vai ouvir mais. Isso porque entre os itens acerca do protesto que a CBN destaca em sua página só há opiniões contrárias aos manifestantes. E não adianta digitar "Dom Tomás Balduíno" no campo de pesquisa. O último link sobre o presidente da Comissão Pastoral da Terra é um comentário debochado de Arnaldo Jabor em 21 de abril de 2004. Os demais veículos da mídia colombina seguiram o mesmo caminho; assustados com a vulnerabilidade da Casa corrupta, de que tanto se beneficiam, viram seu bezerro de ouro ameaçado.
Curioso, mas não se nota a mesma indignação da trupe com os ladrões que superfaturam ambulâncias.
PS: Se confirmada a versão divulgada pela Radiobrás, o fato terá sido parecido com o protesto contra os crimes da globalização, em Seattle, 1999. Enquanto o Centro de Mídia Independente exibia pela internet a manifestação pacífica e as agressões da polícia, as agências noticiosas apenas começaram a transmitir quando os manifestantes reagiram. E as únicas imagens publicadas pela mídia grande, aqui no Brasil, foram essas últimas.
- Marcelo Salles quebrando tudo no CMI