categoria ~ pós-humanós



quinta-feira, outubro 02, 2008

gente não como a gente

embora não seja esteticamente digno de um post do narghee-la (hehe), este jpg amealhado na rede gerou loops nas tripinhas do meu cérebro.

"tecnologia é o que nos faz humanos". fato. nos diferenciamos de outras criaturas pela capacidade de transformar o ambiente em função de nossas próprias necessidades. pela criação de técnicas e utensílios em nome da sobrevivência. básico.

mais: o que nos faz ainda mais humanos é a capacidade de transformar o ambiente também em função de nossos próprios desejos. e isso joga lenha na sempre chamuscante fogueira do pós humano. se hoje, por um lado, desejamos longevidade e juventude, por outro a ciência, a medicina e a indústria cosmética nos permite modificar nossos próprios corpos.

phobos, deimos. a intuição geral é a de que, se eu resolvo instalar um gadget na minha medula óssea, um plug no meu ouvido, estou me tornando menos gente. talvez não. se tecnologia é o que nos faz humanos, por mais que tenha dado um passo na direção de me parecer com um robô, eu não estaria me distanciando do que me faz gente. pelo contrário: estaria afirmando minha condição de gente. a diferença é que, na prática, eu não seria mais uma humana clássica e sim uma pós-humana; conceitualmente, contudo, eu seria ainda mais humana.

essa racionália me desloca para uma cornolho há anos atrás, quando eu via no transhumano o final dos tempos. meu interlocutor, estudante de medicina, questionava: "mas será que a ação do futuro sobre as coisas não implica que tudo simplesmente se transforme? será que para o homem, tão intimamente ligado à criação de técnicas desde o começo, um futuro pós-humano não seja parte original de sua natureza?"

wise. fiquei um bom tempo perturbada com o argumento.

talvez um dia um corpo humano clássico não dê mais conta de um ambiente tão tecnologicamente saturado ou tão poluído. então não será mais questão de transformar o ambiente em função de nossos desejos, mas transformar nossos corpos em função de nossas necessidades.

pelo menos há opções disponíveis. ainda que por enquanto, e em grande parte na teoria.



terça-feira, agosto 26, 2008

cérebros remodelados pela internet: pós-humanos mentais

embora ainda não seja uma nova totalmente difundida, sim, neurônios se reproduzem. e a psiquiatria começa a embasar as razões que levam diferentes tipo de psicoterapia a dar resultado: sugerindo, repetidamente, outra forma de o paciente enxergar um problema, remodela-se o caminho que as correntes elétricas percorrem em seu cérebro. conclusão: aos poucos, as aflições se dissipam e o paciente se transforma. em outras palavras: change the thought and the feeling must go.

a neurocientista susan greenfield estuda de que forma o imediatismo e a empolgação de curto prazo trazidos pela interação internética está lesando nossas habilidades de seguir uma narrativa linear e entender contextos.

é foda. tenho três livros empilhados na minha cabeceira - lendo todos ao mesmo tempo. uma leitura começa a dar sono e eu pulo para outra, quase tão rápido como um clique no mouse. há também o drama de ler páginas e não ter lido nada, nenhuma informação absorvida.

o escritor nicholas carr reclama da mesma coisa:

immersing myself in a book or a lengthy article used to be easy. my mind would get caught up in the narrative or the turns of the argument, and i'd spend hours strolling through long stretches of prose. that's rarely the case anymore. now my concentration often starts to drift after two or three pages.


(...)

the net seems to be...chipping away my capacity for concentration and contemplation. my mind now expects to take in information the way the net distributes it: in a swiftly moving stream of particles. once i was a scuba diver in the sea of words. now i zip along the surface like a guy on a jet ski.

íntegra no research digest blog, com further links.

ah, sim. no mesmo blog, artigo sobre pcu - pathological computer use: cada vez mais perto de se tornar oficialmente reconhecido como doença que exige tratamento:

computer use must be excessive (taking context into account); there must be signs of tolerance (a need to spend more time on a computer or games console to achieve the same level of satisfaction); the computer use must be mood altering; and finally and most importantly, the computer use must have led to problems, for example with relationships.

ui. pós-humanos começam a se formar na frente do computador!



segunda-feira, julho 21, 2008

não haverá outro homem de lata porque o homem de lata somos nós

até o trans/pós-humanismo sugerir possibilidades tão reais como excêntricas, a fábula era desfiada na contramão: o drama das máquinas que queriam ser humanas. o homem de lata na terra de oz, pinóquio, eduardo mãos-de-tesoura - todos produtos da vontade de criação do filho perfeito, desenhado para atender aos anseios de seu criador. mesmo no passado restritivo não era possível escravizar totalmente o desejo da prole adulta. o próprio frankenstein, feito de matéria orgânica, é um invento tecnológico. mesmo a ele faltava um elemento de emancipação real do pai inventor.

o pós-humano é a relação criador-criatura do it yorself: o desejo de criar um filho que supra necessidades é possível no próprio pai. é um arquétipo implantado à era do individualismo tecnicista. a tendência é enxertar tecnologia nos próprios corpos, de modo a estender as chances de satisfazer um desejo - mesmo o de eternidade, tão flagrante na cultura das dietas e vitaminas e exercícios, além do jamais superado pavor da morte.

no pós-modernismo, quando a eternidade existe enquanto o corpo dura; com a supremacia do eu em detrimento do outro; e com a possibilidade de nos transhumanizarmos, filhos podem se tornar cada vez menos necessários para o êxtase de felicidade que passamos a acreditar ser o sentido da vida.

dos homens, pelo menos. as mulheres seguem desafiadas pelas pulsões naturais. ainda assim elas andam resistindo bem melhor que antigamente.



segunda-feira, junho 09, 2008

pós-humano é o futuro III

transhuman

brian walker mostra mais aqui.



terça-feira, maio 27, 2008

pós-humano é o futuro II

technogoth

transhumanos. cyborgs, singularitanos, biopunks - transexuais ou não: tecnoterráqueos.



terça-feira, maio 27, 2008

pós-humano é o futuro

bit

é como as vinte mil léguas submarinas: na época, todos acharam que jamais passaria de ficção para se tornar científico. ou seja, as coisas estão ficando sérias. a edição especial pós-humano da caros amigos e esta matéria da wired sobre singularidade contam tudo.

estremecei.



quarta-feira, abril 09, 2008

no futuro não haverá humanos porque não teremos mais filhos

newbirth.jpg e as máquinas irão governar. e as máquinas serão nós.

é o tipo de cinismo frio que nos acomete ao escutar de uma mulher que ela não deseja filhos. conheci uma dessas anteontem, na cadeira de responsabilidade corporativa - a bonita da professora. revolta com o desperdício das classes altas, com teístas que se negam a apoiar contracepção, com a dissolução da terra em pó. terrorismo poético, contra-propaganda. flash mobs.

professora, você é vegetariana? e depois que todo mundo foi embora, professora, você acha que tem jeito? e ela, exatamente como a gisele comentou sobre o parecer dos acadêmicos científicos europeus: não dá mais pra reverter nada não.

e é por isso que eu e meu marido não tivemos filhos.

e há tempos eu também acho que já era. e para mim ter ou não ter um bebê são duas opções igualmente plausíveis. e não sofro mais com a perspectiva dos horrores inevitáveis porque deus não existe e a vida é muito boa para mim. hoje, aqui e agora.

e então me olham como se eu fosse um cyborg, uma criatura transhumana. qual o sentido do sensível, da curva, da maciez e umidade de uma mulher se ela é indiferente sobre gerar uma criança?

muito pós-tudo pro sujeito médio aceitar. sei lá se para mim também, caso um dia eu engravide e ache que o sumo do feminino está em parir.

porque todos sabem, só os idiotas não mudam de idéia; mas também só os argutos aderem para sempre às práticas mais incomuns.



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