categoria ~ phantasia



segunda-feira, dezembro 01, 2008

não há portas

garanto que ela não vem. se vier, terá dado espaço pro boi dormir e sairá de fininho, escalando a cortina que já na primeira esquina será saia daquelas bufantes, alfinetes no avesso mas um resultado elegante. se vier, entrará com as barras manchadas da sujeira da calçada e ainda assim fará a noite parecer de gala, ciganas gritando nas grades querendo ler sua mão. ela lhes oferecerá um pé e lhes pedirá que relatem as possíveis más sortes, tudo o que vem lutando para que não lhe aconteça não, ó, de novo não. quereria poder depender apenas do outro e que ele não se fizesse um fraco, um infante ou um louco. só um pouco! para que daí ela lhe entregasse a chave e, num entrave, ele abrisse sua janela numa madrugada secreta, e então celebrassem melhor do que eu aqui nessa festa.

garanto que ela não vem, porque muito desejo lhe resta e as trepadeiras da casa são as tranças que o levam até sua cama.



terça-feira, novembro 18, 2008

doo da lah doo. sempre canta desse jeito. acho feio. acho bordão. sabemos que saiu dela mesma e portanto é criativo, sei, mas nem é. é booba lah boosh de divin(h)a americana anos cinqüenta. mas todo mundo cai. e acham-na o supra-sumo do appeal.

outra noite sentei no meio-fio em frente a uma bodeguinha mais humana e então sim, ferocia fierce. bebona na alcova dos cigarros & drinks. bem-feitos os copos em pocilgas assim, quase toda vez. daí nem digo que arrisquei um blood mary, bebida de puta, porque veio bom mesmo. depois trouxeram scotch com licor de menta, bubaloo e o caralho.

fiz bola de chiclete. fierce entoou um superspuma, em seguida outro, uma oitava acima. fierce com o lápis de olho já no queixo, um peito desgarrado quase saindo pela lateral da alça. doidaraça. um garçom ajeitou o casacão de veludo cotelê com gola de penas d´angola sobre seus ombros. fierce calçou o sapato descalçado e saiu enterrando o salto na junção das pedras portuguesas.

descasquei a ponta de meu esmalte preto pra prestar-lhe dignidade



quarta-feira, julho 16, 2008

depeleciativa

passo cola na própria mão e estampo no rosto do papel cartão, agora ele não quer sair, puxo com força sob pena de arrancar as palmas fora, ele não sai e eu bebo as anáguas brancas pelas narinas, quem sabe meus poros não cospem as tramas pra fora e expelem o papel pra longe do meu corpo. das minhas unhas. da minha impressão digital que sempre foi lisa como as mãos dos que portam down, so they say, so i saw my thumb was this-like, i dislike that but no, not really, ich musse zugeben herr geliebt, sem contar que nunca quis deixar provas dos penachos que retiro dos rebites do velho baú.

ou kiss?

lambo o papel das mãos, ele amolece e vira cola, esfrego-as no peito para me livrar dele mas o que acontece?, o que acontece?, você me perdoa? a mão espalmada gruda no seio e quando puxo vem a pele toda, ficou a marca de uma estrela de cinco dedos - uma vitrine para a glândula mamária, algumas costelas e o meu coração batendo ao vivo e às dores.

é a des.colagem perfeita.

essa não vai cicatrizar.



terça-feira, junho 03, 2008

o vento gelado lhe sobe as coxas sob o vestido, mas ela ainda está quentinha. pois os cabelos que ela não tem estão cobertos por uma touca de louça e fios de alabastro que voam como algas japonesas e a embrulham num novelo de sombras, pressentimento e anseio: palpos de aranha.



sexta-feira, março 14, 2008

conto tonal

é o beija-flor da manhã. já me espera empoleirado no espelho da cama. questão de abrir os olhos para que ele me espete a pupila esquerda com o bico laminar. paraliso até que termine de beber toda minha íris verde, até que mude de azul para esmeralda, e saia zumbindo feito besouro pela janela para o canteiro das flores rosadas.

meus gatos não gostam de ver meu olho sem cor. sobra o pingo negro de pupila boiando no resto branco. então a única forma de reviver a íris verde é bebendo clorofila no desjejum. um simples suco de laranja me poria a cor do sol poente de amsterdam, e a gente da rua estranharia muito. talvez se eu fosse david bowie.

noutra manhã bem cedo ouvi um frenesi perto da cerca. meus gatos armaram tocaia contra o vampiro de penas e quase o dentaram. a avezinha se safou e desesperou-se para o meu quarto. foi fácil tomá-lo na mão e duro concluir que ele estava fraco e precisava consumir minha cor. então pensei. abri os botões da camisola branca e trouxe um seio para fora. ele fincou o bico na ponta do mamilo e o bebeu. voltou cor-de-rosa para o canteiro das flores e, camuflado, nunca mais teve problemas com os gatos. eu recuperei o tom do mamilo com um prato de morangos gelados.



segunda-feira, fevereiro 18, 2008

;retro.erotik´amant¨

foi muito difícil escolher o que levar para a fuga. lá dentro se passava um tempo mais antigo e todos eram velhos. precisava roubar-lhes coisas porque eu não pertencia ali e não tinha o que levar. precisava que não me notassem e me permitissem circular como se fosse o meu perfeito lugar, apesar da juventude. desci as ladeiras internas do edifício, cujas paredes eram todas de um tom tão antigo de verde, verde-deiramente adorável, adorável. no trajeto, cruzava com senhores que levavam suas senhoras em carrinhos de supermercado, mais abajures e roupas. passava por quartos já vazios, até que escolhi um, e desejei muito que seus habitantes já tivessem seguido caminho. havia um lustre de vidro fosco. havia duas camas, um guarda-roupa e estantes com poucos livros. abri um diário com todos os segredos sexuais de alguém, recortes burlescos de jornais amarelados e fui pra cama comigo. ninguém poderia entrar ali naquela hora. fortuita, encontrei outros dois livros eróticos e os senti pesadamente. um velho de veste entrou e precisei negociar suas leituras. era o que eu precisava para fugir também. uma velha ruiva de coque e batom vermelho me olhava com severidade. subi as ladeiras de volta e, já quase no último andar, não havia paredes e eu via a praia. ele me aguardava lá, com uma trouxa de roupas. juntei-me a ele e já pressentíamos a chegada da tempestade nas nuvens do céu. me disse que ali ficaríamos bem, que éramos jovens e que não havia necessidade de nos escondermos como os velhos. eu, por outro lado, sentia que poderíamos ficar ali porque confiava assombrosamente nele. o amor me protegeria de qualquer coisa.



quarta-feira, janeiro 23, 2008

- - paralisia infantil -

epílogo: demorou tantos anos para descobrir a cura. mas nem sempre foi moça de muletas. seus gizmos mentais faziam-na acreditar que de nada sofria, e diversos foram os saltos e farfales em camas elásticas e trens-fantasmas. seus gizmos mentais até que foram gênios, apesar de neuropatológicos.

a poliomielite estava lá, mas só agia quando a moça se acreditava deficiente.

stand up, chick. você brilha no escuro, mesmo quando pula numa perna só.



sexta-feira, setembro 21, 2007

{festivilhas mahokvs}

cozinhara na cabeça sem tampo caldalosa sopa de polentas micrinhas, verdumes e tais salsaparrovas, cenouras, grãos-mestre. robvstavam as borbóleas explodintes da superfície - apenas para revelar tão ígnea ganas por narghee-la.

abafou os flus num chambão cristaleira cerzido ao crânio e atachou-lhe rabo oco de aliá. por ali, blublublublblublub, e plastava-se de lado num almofadaço rojón.



segunda-feira, setembro 17, 2007

*blush*

espalmou-lhe um tapa na cara, o bruto.

ela se levanta delicadamente do chão, senta-se na penteadeira e apaga a marca vermelha com demaquilante.



terça-feira, agosto 28, 2007

{anel de cálibos}

usualmente samaria acorda, cata castanhas, cascas de salgueiro e água do poço, empoço de choros represados pela súbita ausência dos meus cortejos. eis o dissabor que deverás reverter a teu favor, mancebo. essamaria só tem coração para mim e não a quero, digo sim a quero - inteira agremiada por rapaz típico e hábil como tu.

verás que a moça tem suas virtudes, outras além da rotina cerimoniosa de toda manhã: é versada em matemáticas e tem gosto por porcelana, com especial simpatia por aparelhos de chá das famílias da colônia.

no entanto, se envaidece ao desfilar maneiras de vagabundo entre os freqüentadores da taberna. crê-se, assim, mais atraente e confiante. isto em si não representa um revés para os objetivos carnais masculinos, o contrário: apenas mostra que samaria está tão disposta a conseguir flertes que prefere fugir de comparações contra moças comuns. mais um sinal a teu favor, já que delata a verdade sobre ela: uma amedrontada, uma fraca.

alguns rapazes cairão pateticamente em seus enredos de rata, acreditando estar diante de mulher inigualável. mas pertenço a uma maçonaria devotada aos ardis das mais caprichosas donzelas e sobre elas tudo sei. sobre samaria hei de ensiná-lo: de seu corpo tiramos o desfrute; dentre seus cabelos um tufo como troféu; e de sua covardia a garantia de que um próximo homem poderá deleitar-se do mesmo que nos deleitamos.

então, quando não mais a quiseres,
tome todo cuidado no preparo do novo pretendente,
como contigo agora faço.

<< 1 2


Este arquivo

Esta página é um arquivo de posts recentes da categoria phantasia.

pôsteres é a categoria anterior.

phobos & deimos é a próxima categoria.

Posts recentes na página principal - ou vá aos arquivos pra ver outros posts.