foram num ritual xamãnico e eram ateus.
no chão, em frente à esteira onde sentaram, armaram apenas um altar para os dois, com fotos da família dela, suas conchas chilenas, sua santa, sua pedra branca, um pedaço de camurça maia, pena de pavão e uma pequena baleia de plástico com o anel dele pendurado na cauda. duas velas e duas flores brancas.
a madrugada penteava vento na copa das árvores e a fogueira no centro da roda modelava cachos de fogo pro céu. os trabalhos do xamã já batiam quatro horas, ao longo das quais benzeu, cantigou, chacoalhou penas e cuspiu as pedras da maldade que os participantes trouxeram sem saber.
tudo se passava em perfeita calma até que a moça deparou-se com a mais debochada cena de sua vida: uma barata sobre a foto daquele que com ela havia parado de falar. olhou melhor para saber se era verdade ou peça pregada pelas sombras. noutro ritual disseram que o xamã tirara lacraia viva de uma menina que teria sido alvo de magia negra. de repente uma barata sobre seu desafeto?
chamaram o xamã. ele disse que não significava nada. mas ela, mesmo cética, gargalhava por dentro: além do sujeito da foto, uma barata no altar dos prováveis únicos e secretos ateus do encontro era uma piada cósmica. de descrente passou a acreditar nisto. e simplesmente não parava rir.
pediu para o namorado se livrar da barata. ele o fez com pouca convicção: o bicho deu voltas e não saiu. pediu para o amigo ao lado tentar. a barata se retirou para refugiar-se num altar cujo buda era fabulosamente cercado por plumagem branca. o dono não deixou e quase incinerou o inseto com sua vela. então a barata volta para o altar ateu e desta vez instala-se junto às pétalas de uma das gérberas brancas. era literalmente um mal-me-quer.
foi quando o xamã ordenou que todos se levantassem e segurassem suas flores. ele benzeria a planta e - surpresa - a pessoa deveria beijá-la na seqüência. em pânico, a moça suplica ao namorado que livre a gérbera do raio da barata. o namorado se inclina, pega a outra flor e sorri. ela desespera e implora ao amigo ao lado para ajudá-la. muito chacoalhos e em cima da hora a flor é liberada. em segundos a moça recebe um passe e beija o recém abandonado reduto da cascuda.
sádico, o namorado pegunta, "fez as pazes com a sua flor?". do rosto dela escorriam lágrimas de tanto rir. então sentou-se, abraçou os joelhos com os braços e enfiou a cabeça no meio. ficou assim por quase meia hora, sem parar de gargalhar.
refeita, volta a participar normalmente do ritual. longos minutos se passaram até que o inacreditável acontece: a barata regressa ao altar. já é a terceira de suas presenças indesejáveis. a mesma barata - e desta vez há um desafiante: um grilo verde avança pelas conchas até o oeste do gueto, onde se apresenta para a luta. os dois competem. o grilo dá a primeira investida, a barata recua na velocidade da luz e o encurrala por trás. eles hesitam. o grilo dá um pulinho, a barata corta caminho por baixo de uma foto e o encara do outro lado. o flexível grilo se afasta e tenta a coexistência pacífica. a barata considera, mas no final sente que o altar é pequeno demais para os dois. então desloca-se sub-repticiamente e, num golpe súbito, expulsa o invasor para o altar do amigo ao lado. ali, ao amanhecer, o valente verde conheceria uma bela mariposa rosada sobre uma carta de tarô.
em momento rei leão, a barata corre os quatro cantos de seu reduto e comemora o triunfo sobre seus domínios.
conformada, a cética assistia aos rugidos da glória do ortóptero highlander.




