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terça-feira, junho 17, 2008

os furiosos trovões da magia se partem com humor sobre o crânio dos penetras descrentes

foram num ritual xamãnico e eram ateus.

no chão, em frente à esteira onde sentaram, armaram apenas um altar para os dois, com fotos da família dela, suas conchas chilenas, sua santa, sua pedra branca, um pedaço de camurça maia, pena de pavão e uma pequena baleia de plástico com o anel dele pendurado na cauda. duas velas e duas flores brancas.

a madrugada penteava vento na copa das árvores e a fogueira no centro da roda modelava cachos de fogo pro céu. os trabalhos do xamã já batiam quatro horas, ao longo das quais benzeu, cantigou, chacoalhou penas e cuspiu as pedras da maldade que os participantes trouxeram sem saber.

tudo se passava em perfeita calma até que a moça deparou-se com a mais debochada cena de sua vida: uma barata sobre a foto daquele que com ela havia parado de falar. olhou melhor para saber se era verdade ou peça pregada pelas sombras. noutro ritual disseram que o xamã tirara lacraia viva de uma menina que teria sido alvo de magia negra. de repente uma barata sobre seu desafeto?

chamaram o xamã. ele disse que não significava nada. mas ela, mesmo cética, gargalhava por dentro: além do sujeito da foto, uma barata no altar dos prováveis únicos e secretos ateus do encontro era uma piada cósmica. de descrente passou a acreditar nisto. e simplesmente não parava rir.

pediu para o namorado se livrar da barata. ele o fez com pouca convicção: o bicho deu voltas e não saiu. pediu para o amigo ao lado tentar. a barata se retirou para refugiar-se num altar cujo buda era fabulosamente cercado por plumagem branca. o dono não deixou e quase incinerou o inseto com sua vela. então a barata volta para o altar ateu e desta vez instala-se junto às pétalas de uma das gérberas brancas. era literalmente um mal-me-quer.

foi quando o xamã ordenou que todos se levantassem e segurassem suas flores. ele benzeria a planta e - surpresa - a pessoa deveria beijá-la na seqüência. em pânico, a moça suplica ao namorado que livre a gérbera do raio da barata. o namorado se inclina, pega a outra flor e sorri. ela desespera e implora ao amigo ao lado para ajudá-la. muito chacoalhos e em cima da hora a flor é liberada. em segundos a moça recebe um passe e beija o recém abandonado reduto da cascuda.

sádico, o namorado pegunta, "fez as pazes com a sua flor?". do rosto dela escorriam lágrimas de tanto rir. então sentou-se, abraçou os joelhos com os braços e enfiou a cabeça no meio. ficou assim por quase meia hora, sem parar de gargalhar.

refeita, volta a participar normalmente do ritual. longos minutos se passaram até que o inacreditável acontece: a barata regressa ao altar. já é a terceira de suas presenças indesejáveis. a mesma barata - e desta vez há um desafiante: um grilo verde avança pelas conchas até o oeste do gueto, onde se apresenta para a luta. os dois competem. o grilo dá a primeira investida, a barata recua na velocidade da luz e o encurrala por trás. eles hesitam. o grilo dá um pulinho, a barata corta caminho por baixo de uma foto e o encara do outro lado. o flexível grilo se afasta e tenta a coexistência pacífica. a barata considera, mas no final sente que o altar é pequeno demais para os dois. então desloca-se sub-repticiamente e, num golpe súbito, expulsa o invasor para o altar do amigo ao lado. ali, ao amanhecer, o valente verde conheceria uma bela mariposa rosada sobre uma carta de tarô.

em momento rei leão, a barata corre os quatro cantos de seu reduto e comemora o triunfo sobre seus domínios.

conformada, a cética assistia aos rugidos da glória do ortóptero highlander.



quinta-feira, maio 29, 2008

rima pobre do sol-pode

ode to the sunera limo até a manhã de outro dia. pela areia fez travessia e é mesmo!, no rio a praia nunca é tardia.

faz questão de não pisar na areia durante o verão. violência de luz e radiação e calor e multidão - é pros normais, pra ela não.

em maio tudo é passado: dourou de prazer no sábado. mesmo com filtro 35 à prova d´água, o biquíni deixou um rastro.

nenhum jornal nenhuma música: o tinto fofoqueiro na escuta. tanta conversa baratinha dos banhistas ao redor! e a gaivota no céu, recorte de matisse, era ainda melhor.

um mergulho, um mate. o corpo morno em dilate.

não tem cadeira nem barraca: sai, mofo! pois esta é estação onde o sol não se destaca.

moda verão é pros normais. na baixa estação, a praia é muito mais.



segunda-feira, maio 12, 2008

cool.l´age

driveo corte da tesoura no papel da revista: prazer próximo à crocância palatável. desde pré-adolecente, quando eu mutilava elles de mamãe atrás de imagens que pudessem ilustrar os fatos pueris que eu relatava na minha agenda. agendas estavam para diários assim como blogs estão para agendas nowadays.

eu era boa na escolha das fotos. na precisão dos cortes de contornos e na colagem da imagem na página. tinha que estar dentro das proporções e ainda dar espaço pro que eu precisava contar. eu tinha uma pastinha com recortes guardados - todos os que achava dignos das minhas perspectivas românticas. às vezes sentia vontade de fazer determinadas coisas só porque a história daria um layout killer na agenda. não fazia. pelo menos os recortes conseguiam dramatizar emoções que eu não podia expressar melhor do que precariamente.

o próximo contato que eu teria com collage foi na casa de uma moça que deu pernoite ao pedra branca (eu a tiracolo) em paranapiacaba, 2003. ela criou uma situação ótima com fotografias de amigos. quando voltei pra casa, fiz o mesmo. hoje as colagens de fotografias do povo dividem-se em cinco quadros diferentes no meu corredor.

então houve a retumbância da arte-colagem perfeita: primeiras horas de 2005 no sohaclara. várias molduras com trabalhos do iuri nas paredes e eu plasmando em frente a cada um. "eu preciso levar essa", pensei. cadê o iuri? tava passando o fim de ano em brasília. dez dias depois ele chegou. pedi um preço, porque para mim valia muito. hoje é a peça central da minha parede de art-collage - a relíquia, a peça primordial.

aqui estão as colagens que comecei a fazer de um mês pra cá. a maior parte delas ficará ao redor da ilha de lesbos do iuri porque esse é o top parâmetro que tenho para a linguagem da colagem, são as lesbos grande-mães.

o que determina uma colagem são as revistas que se dispõe, as imagens que se escolhe, a historinha que você cria na hora de montar. é folear, cortar, recortar, montar e colar. em algum ponto desse processo você sem querer deixa sua assinatura, aquilo que diferencia você dos outros artistas que têm um estilo parecido.

a minha analista está adorando.



segunda-feira, maio 12, 2008

check manystuff



segunda-feira, abril 28, 2008

água rasa

finally a beverage specifically marketed to models. skinny water comes packed with metabolism boosters and appetite suppressers such as super citrimax®, chromemate®, and egcg. basically, it's vitamin water without any calories, and instead of flavors like "focus" or "revive," skinny water comes in "crave control," "xxx-detox," and "shape".

risos.

reconheço. sou uga-buga em algumas coisas, e uma delas é: que merda é essa de água aromatizada, non-fat water e segmentações afins?

quando é que se perdeu o tesão por um simples e delicioso copo de água normal?

e, mesmo água normal, como é que um sujeito a princípio engajado como madonna-mãe-de-bebê-africano entrou nessa peruíce de beber água sagrada da cabala, e apenas água sagrada da cabala?

ok. eu tenho uma fissurinha numa marca de água que custa R$9 a garrafa de meio litro. é a panna italiana, a coisa mais etérea del mondo. mas só bebo quando estou na itália, onde ela é muito comum, ou num restaurante raíz em são paulo. é um fetichezinho ocasional para divertir ocasiões especiais. porque, em massa e no cotidiano, o sensato seria simplificar as coisas e beber o que existe de mais perfeito no mundo que é água natural sem gás e ponto. tento imaginar o grau de tédio em que as pessoas se afundaram que até um troço tão básico quanto água precisa de gás, corzinha, sabor ou bênção para agradar.

outro dia eu parei num pé sujo de copacabana e pedi uma garrafinha d´água. o rapaz do balcão, "água ou h2o?". eu sorri, "água de verdade, amigo".

quando a escassez de água nos atingir, a hoje desprezada água padrão será vendida em delicatessen e vai ser o fim dessa babaquice. you bet, folks.



terça-feira, abril 22, 2008

não meta o seu nariz

os laços entre olfato e memória: no momento estão dedetizando o edifício dela, o que lhe trouxe a lembrança de um desgosto. ela teve um namorado. na maioria das vezes ele usava um perfume bom, às vezes ele usava um perfume ruim. num dia em que usou o bom, ela o elogiou. elogiou muito, como se fosse a última palavra em fragrância pour homme. quem sabe ele não desistia de usar o perfume ruim. mas não foi o que aconteceu: pelo resto dos dias que se seguiram, até o gato subir no telhado, ele só usou o perfume ruim.

por algum tempo ela pensou se não havia se enganado e tinha feito os elogios no dia do perfume ruim. pensou que o cara poderia ter ficado ofendido (o tão frágil ego masculino) e tava de retaliação (sempre beligerantes); ou que não tivesse ficado ofendido, mas inconscientemente trocou os perfumes para castigá-la pelo fato dela não acreditar em deus e debochar livremente da bíblia (o cara era crente barra-pesada). ela chegou a supor que sua membrana olfativa tinha enlouquecido e passara a rejeitar o perfume bom, levando-a a acreditar que era o ruim. mas não, era de verdade o perfume ruim.

esse não foi exatamente o motivo do fim do namoro, mas influenciou negativamente suas sensibilidades em relação ao rapaz. ela não tinho como controlar isso. era uma moça muito cinco sentidos.

lembrou dessa história porque o perfume ruim cheirava a dedetização, meus amigos. remédio de matar barata. parecia que o cara tava ali do lado dela enquanto escrevia sobre o raio do perfume dele.

*

mas para ela essas coisas não são cartesianas: sua experiência levou-a a concluir que os homens que se perfumam com estilo sempre acabam na coluna do meio de suas lembranças - aquele balaio-padrão onde todos se confundem entre si.

o fato é que quem a encantou inexoravelmente foi um homem cujo desodorante não equacionava seus odores axilares. algumas pessoas perguntavam como ela agüentava, quando na verdade aquilo a atraía.

para ela faz todo sentido. poucas coisas lhe são tão íntimas e exclusivas quanto o cheiro natural de um homem. ela chega a broxar quando os amantes se desculpam por seus suores - ah, se eles soubessem. a ligação olfafetiva lhe é tão forte que fica ridiculamente tímida quando se trata de um simples amigo ou um estranho.

é como ter acesso a segredos dos quais ela não quer saber.

don´t stand so close to me.



quarta-feira, abril 09, 2008

no futuro não haverá humanos porque não teremos mais filhos

newbirth.jpg e as máquinas irão governar. e as máquinas serão nós.

é o tipo de cinismo frio que nos acomete ao escutar de uma mulher que ela não deseja filhos. conheci uma dessas anteontem, na cadeira de responsabilidade corporativa - a bonita da professora. revolta com o desperdício das classes altas, com teístas que se negam a apoiar contracepção, com a dissolução da terra em pó. terrorismo poético, contra-propaganda. flash mobs.

professora, você é vegetariana? e depois que todo mundo foi embora, professora, você acha que tem jeito? e ela, exatamente como a gisele comentou sobre o parecer dos acadêmicos científicos europeus: não dá mais pra reverter nada não.

e é por isso que eu e meu marido não tivemos filhos.

e há tempos eu também acho que já era. e para mim ter ou não ter um bebê são duas opções igualmente plausíveis. e não sofro mais com a perspectiva dos horrores inevitáveis porque deus não existe e a vida é muito boa para mim. hoje, aqui e agora.

e então me olham como se eu fosse um cyborg, uma criatura transhumana. qual o sentido do sensível, da curva, da maciez e umidade de uma mulher se ela é indiferente sobre gerar uma criança?

muito pós-tudo pro sujeito médio aceitar. sei lá se para mim também, caso um dia eu engravide e ache que o sumo do feminino está em parir.

porque todos sabem, só os idiotas não mudam de idéia; mas também só os argutos aderem para sempre às práticas mais incomuns.



segunda-feira, abril 07, 2008

lovewriting

minhas primeiras cartas de amor, elas foram escritas numa olivetti valentine 1969. esta frase sozinha diz tudo.

todavia:

a primeiríssima cartinha-declaração, a número um, recebi do sobrinho-neto da dona da escola. levei um choque - mas não tão grande quanto ao receber, em seguida, a segunda cartinha-declaração, dessa vez do meu melhor amiguinho da primeira série. a dele me fez sentir traída: nós nos divertíamos tanto e mortifiquei quando imaginei que enquanto isso ele era a fim de mim. ambos os pedidos foram negados em papel de carta da minha coleção particular, com uma caligrafia pós-alfabetização bem mobral. então não foram cartas de amor e sim de educação-medo-timidezextrema-beijos-joana-ps.imaginário-nunca-mais-fale-comigo. por favor.

em algum momento até meu segundo namorado, aos 13 anos, papai me deu sua olivetti vermelha. e era nela que eu, aí sim, trocava declarações com o rapaz: ele com letra linda em folhas pautadas e eu com a tipografia mais retrô ever, o auge do vintage, num papel sulfite branco. nem eu nem o menino imaginávamos o glamour de uma carta de amor escrita a dedos numa máquina italiana vermelha 1969, passada de pai pra filha, do modelo valentine. valentine! e o namorado zangava, e dizia que máquina de escrever era muito impessoal, e sofria.

na mesma época, tipo sexta série, tinha aula obrigatória de datilografia no colégio. a turma desprezava, eu adorava; e apliquei todas as técnicas no texto que criei para um concurso de redação da revista capricho. aos 14 anos fiquei em 38º lugar entre as oito mil participantes de todo brasil. ganhei um kit da giovanna baby e citação na revista. olha como eu ainda me vanglorio.

com a valentine escrevi pequeninos romances abandonados pela metade e coisas realmente desenfreadas para sebastian, o alemão oficialmente primeira grande paixão adolecente arrasadora.

e um dia eu tava na faculdade e tudo podia ser escrito num computador.

logo saí de casa e as tralhas eram tantas que devolvi minha olivetti para papai.

que então acomodou-a como parte da decoração de sua casa. e agora, dez anos e um punhado de súplicas depois, ela volta para a minha.

afinal papai está saindo da casa dele para morar em outra.

e eu finalmente entendi que, dentre todos os caras que me aconteceram, a maior declaração de amor foi ter herdado uma olivetti vermelha italiana 69 valentine do único intermitente amor que pode existir na vida de uma moça.



segunda-feira, março 10, 2008

dreamer.gif

posso demorar muito tempo até comprar alguma coisa que preciso. levei onze meses até encontrar um sapato cor da pele com salto vírgula e design invulgar.

a última saga foi com o chaveiro. estava há séculos apenas com a rodela e as chaves. então comecei a investigar chaveiros toy art. havia alguns na tok stok, mas os bonequinhos eram um pouco do mal, tinha um respingado de sangue pink e outro com cicatriz no meio da cara.

por fim vi o sonhador aí do lado e fechei com ele. é um dos bonequinhos toy art mais malucos do mundo. ele tem um olhão fechado na frente e outro aberto atrás. e tá aí, na coleção kidults da imaginarium. a caixa parece com aqueles saquinhos de minichiclets coloridos da adam´s.

o primeiro toy art que eu tive foi o gato do tom yorke, desses de plush. ele era o meu quindim - até que ferdinando (ex petit) o capturou no alto da prateleira da sala e deu-lhe uma surra. tom yorke ficou meio avariado, um dente descosturado e o feltro do olho esgarçado. irrecuperável. então desapeguei e mercedes e eugênia terminaram o serviço, transformando o gato no sloth, dos goonies.



quarta-feira, março 05, 2008

tem futuro

picasso dizia que todo mundo nasce artista e que o problema era continuar sendo artista depois de crescer. como alguns de vocês sabem, papai é artista até hoje, às vésperas de completar 60.

sábado passado ele abriu seus arquivos mais antigos para que eu escolhesse tudo o que quisesse. ficamos espalhados entre quadros, ilustrações, perspectivas, estudos e logomarcas, e juntei muita coisa que sempre havia sonhado ter. travei, inclusive, esta pérola, que acabei publicando no theblog weemade - um espaço para postagem de arte infantil.

a princípio achei que era uma lâmpada mágica. nem papai entendia direito o que era. daí ele palpitou que talvez fosse um e.t., e ficou por isso mesmo. vai que o desenho puxou memórias recalcadas, sei lá.

não sei se é meu complicadíssimo lado edipiano falando, mas achei a pintura bem sofisticadinha para um pirralho de sete anos em 1955. ele conseguiu fazer matizes com a tinta guache tosca; as bandeirinhas esvoaçantes têm movimento; por maior que seja a cabeça do e.t., existe uma proporção ilógica, mas harmônica - bem cartoon - com o corpo, os braços e as perninhas. se escrevessem miró ali no cantinho, ia ter nêgo botando fé.

(não enchendo a bola de papai; na verdade, observo as referências infantis do traço de juanito, reconhecidas por muitos apreciadores de sua arte)

de qualquer forma o que mais me diverte na pintura é minha impressão de que o e.t. está numa pista de pouso, orientando alegremente a descida de uma nave.

ou a descida do super-homem, que era a paixão do meu artista inesquecível.

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