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love beyond life
o jardim da vila. no jardim da vila havia uma máscara mortuária de uma mulher. era apenas uma mulher, mas para ela fizeram uma máscara mortuária, coisa típica de presidentes e reis. seria uma anônima não fosse mercedes, o nome gravado na lápide. essa deve ter feito por merecer. não se sabe de quem veio a ordem de tirar o molde do rosto morto e congelá-lo no bronze dos poderosos. mas se era tão querida, era de alguém.
conheço, no entanto, seu dono póstumo. ele mesmo me contou tudo. trabalhava perto do cemitério e de vez em quando passeava por entre os túmulos. apegou-se ao lugar a ponto de conversar com coveiros e começar a saber da história de alguns defuntos.
certo dia, viu mercedes caída no chão: os parafusos que prendiam a máscara à tumba despencaram de ferrugem. as letras da data de seu nascimento estavam perdidas mas meu confessor acreditava que ela tinha quarenta e dois anos. convicção curiosa; mesmo assim, um pouco menos surpreendente do que a data da morte de mercedes, ainda presente na lápide: quinze de janeiro de 1951. dia e mês do aniversário dele.
naquela noite mercedes o chamou num sonho. ele sentiu como se ela dissesse que estava ali havia muito tempo e desejava uma vida mais interessante. então, no dia seguinte, ele voltou ao cemitério e carregou a máscara para casa.
viveram juntos por alguns anos, até que uma nova mulher fez-se mulher dele. algo intimidada, exigiu que mercedes saísse de casa. ele cedeu, mas no primeiro momento não a abandonou tão longe: encostou-a discretamente no jardim da vila onde morava.
durante meses, de seu esconderijo, mercedes filmou a vida de seu último homem e demais moradores. chegou a aproveitar a chance de assustar uma vizinha que molhava o jardim. depois disso, conta ele, mercedes desapareceu. deve ter pressentido a morbidez da qual no fundo ele ressentia.
hoje elocubro: quem desistiu primeiro de quem?
- to my valentine. :*
amores perros
tamima,
você estava errada. ontem foi o dia do amor bruto. nada daquela paixonite violenta dos doze de junho: ontem foi o dia do amor não lapidado das mães, o mais primevo e irracional. tão definitivo que governa os desejos adultos dos filhos e os condena a uma vida boa ou ruim. ontem foi esse dia.
depois de te deixar, senti ciúmes da sua mãe. enquanto aos poucos as coisas tinham o poder de minar você dos meus afetos, via que nada daquilo seria capaz de corroer o amor que a teresa tem por você. não chegava nem perto nem nunca chegará. me senti muito diminuída porque ao mesmo tempo eu te amo tanto, mas é tudo sempre tão condicional. nesses dias somos tão complexos que sujeitamos o amor a um escrutínio de discriminações, um filtro que acaba tornando muito difícil tolerar algumas humanidades. mas nunca as mães.
ontem eu vi crianças vestidas com moletons novos a correr na calçada sob o olhar da mãe pobre. vi mendigos, muito doentes ou muito velhos, acolhendo uns aos outros nas praças. donos de cães estavam especialmente imersos no mundo inocente de seus animais, as idosas produzidas como catherine deneuve para almoços em restaurantes simples. ontem foi a hora da grande mãe de, ou para, todos.
queria muito compreender você melhor porque queria muito que meu desencanto não tivesse existido. acho que foi pela natureza desse nosso encontro, que simplesmente não teve qualquer dose de amor bruto. queria que o cupido nos tivesse entregue chocolates negros 100% cacau, mas fomos nós que viemos uma para a outra, ao leite e gianduia: adulteradas, adicionadas, suavizadas. fantasio que você ainda estaria intacta em mim se tivéssemos sido sorteadas com uma parte do indissolúvel amor bruto.
não fomos. meu amor é, portanto, uma fraude.
emanuele
lovewriting
minhas primeiras cartas de amor, elas foram escritas numa olivetti valentine 1969. esta frase sozinha diz tudo.
todavia:
a primeiríssima cartinha-declaração, a número um, recebi do sobrinho-neto da dona da escola. levei um choque - mas não tão grande quanto ao receber, em seguida, a segunda cartinha-declaração, dessa vez do meu melhor amiguinho da primeira série. a dele me fez sentir traída: nós nos divertíamos tanto e mortifiquei quando imaginei que enquanto isso ele era a fim de mim. ambos os pedidos foram negados em papel de carta da minha coleção particular, com uma caligrafia pós-alfabetização bem mobral. então não foram cartas de amor e sim de educação-medo-timidezextrema-beijos-joana-ps.imaginário-nunca-mais-fale-comigo. por favor.
em algum momento até meu segundo namorado, aos 13 anos, papai me deu sua olivetti vermelha. e era nela que eu, aí sim, trocava declarações com o rapaz: ele com letra linda em folhas pautadas e eu com a tipografia mais retrô ever, o auge do vintage, num papel sulfite branco. nem eu nem o menino imaginávamos o glamour de uma carta de amor escrita a dedos numa máquina italiana vermelha 1969, passada de pai pra filha, do modelo valentine. valentine! e o namorado zangava, e dizia que máquina de escrever era muito impessoal, e sofria.
na mesma época, tipo sexta série, tinha aula obrigatória de datilografia no colégio. a turma desprezava, eu adorava; e apliquei todas as técnicas no texto que criei para um concurso de redação da revista capricho. aos 14 anos fiquei em 38º lugar entre as oito mil participantes de todo brasil. ganhei um kit da giovanna baby e citação na revista. olha como eu ainda me vanglorio.
com a valentine escrevi pequeninos romances abandonados pela metade e coisas realmente desenfreadas para sebastian, o alemão oficialmente primeira grande paixão adolecente arrasadora.
e um dia eu tava na faculdade e tudo podia ser escrito num computador.
logo saí de casa e as tralhas eram tantas que devolvi minha olivetti para papai.
que então acomodou-a como parte da decoração de sua casa. e agora, dez anos e um punhado de súplicas depois, ela volta para a minha.
afinal papai está saindo da casa dele para morar em outra.
e eu finalmente entendi que, dentre todos os caras que me aconteceram, a maior declaração de amor foi ter herdado uma olivetti vermelha italiana 69 valentine do único intermitente amor que pode existir na vida de uma moça.
salloon
disse que me mandaria um presente
chegou uma caixa de música.
bem quando eu pensava em você,
a surpresa lúdica.
sentada no bar
daquele velho-oeste
eu suava.
e lembrava que,
de todos os príncipes,
só ficou o rei
que há anos beijei
e de quem ainda falava.
chapéu de caubói e cintura fina,
bota de couro e meia com liga;
os outros nem mais olham pro sorriso da mona lisa.
só por sua causa,
e com tanta ira.
pois cada outro que se aproxima
e de ti se conscientiza
leva uma pedra branca na cabeça
e ainda perde o duelo
contra sua barbicha
$*#.@n inconvenient truth <3

carioca, interrompida
lá vem meu avião. vão conectar a sanfoninha à porta, e resmungo por dentro. no almoço falaram sobre apego - coisa que nunca foi muito minha, meus leitores de longa data o digam. mas admito, entre os trapos molhados deste momento: se existe algo que demais me aborrece, esse algo é deixar são paulo. eis a hora em que as memórias do que já vivi aqui ganham vida, ressuscitam para acontecer todas uma em cima da outra novamente. minha fronte se franze como se eu estivesse cancelando uma história ao meio. sempre estou inacabada quando saio daqui. barganhando amor por raízes.
já estive em algumas partes do mundo mas só aqui estou adequada. é a paz da conformidade. no alto-falante eles dizem "...com destino ao riu de janeiro". eu moro é no riu.sou aquelazinha que vive em paz com o cara errado, no aguardo da hora de largar tudo para viver uma paixão de anos. declaradamente. por menos possível que ela seja.
- aeroporto de guarulhos, 20/02/08
;retro.erotik´amant¨
foi muito difícil escolher o que levar para a fuga. lá dentro se passava um tempo mais antigo e todos eram velhos. precisava roubar-lhes coisas porque eu não pertencia ali e não tinha o que levar. precisava que não me notassem e me permitissem circular como se fosse o meu perfeito lugar, apesar da juventude. desci as ladeiras internas do edifício, cujas paredes eram todas de um tom tão antigo de verde, verde-deiramente adorável, adorável. no trajeto, cruzava com senhores que levavam suas senhoras em carrinhos de supermercado, mais abajures e roupas. passava por quartos já vazios, até que escolhi um, e desejei muito que seus habitantes já tivessem seguido caminho. havia um lustre de vidro fosco. havia duas camas, um guarda-roupa e estantes com poucos livros. abri um diário com todos os segredos sexuais de alguém, recortes burlescos de jornais amarelados e fui pra cama comigo. ninguém poderia entrar ali naquela hora. fortuita, encontrei outros dois livros eróticos e os senti pesadamente. um velho de veste entrou e precisei negociar suas leituras. era o que eu precisava para fugir também. uma velha ruiva de coque e batom vermelho me olhava com severidade. subi as ladeiras de volta e, já quase no último andar, não havia paredes e eu via a praia. ele me aguardava lá, com uma trouxa de roupas. juntei-me a ele e já pressentíamos a chegada da tempestade nas nuvens do céu. me disse que ali ficaríamos bem, que éramos jovens e que não havia necessidade de nos escondermos como os velhos. eu, por outro lado, sentia que poderíamos ficar ali porque confiava assombrosamente nele. o amor me protegeria de qualquer coisa.
{love galactika}
para ler sóis-surrando
godspeed dizzy galaxies
just like water ´round the grater
black holes are huge mysteries
worm tunnels do it greater:
through´em you do trip
in space and time and whatsoever
just you go and get a grip
on the milky way - be a bather
with stardust i´m all wet
cozmic embryos, let them mash
my hole body is a nest
of billion sunrises, you can bet
so he comes in bursting light
a supernova, shinning high
from the borders of the sky
he grabs me, "shall we fly?"
now i might believe in tunnels
and those scientific rumors
just look to the night above
it holds the gods that you adore
there´s a he and there´s a she
and they do belong together
for the universe all be
they are uniting forever
THURSDAY´S CHILD BECOMES MONDAY´S VALENTINE

Botão de orquídea saiu da nuca do meu vestido igualmente fúcsia, deu a volta sobre o ombro e desabrochou monstra bem em frente da minha boca. Ninguém mais entendia o que eu dizia e logo também não teria mais importância, porque ao longo da linha superior da minha sobrancelha nasceram gotas viscosas do látex dos meus receios. Uma dentada e arranquei a pétala mais próxima, língua, saliva e lábios graxos trazendo-a para as mastigadas e, uh!, tem até um melado doce no final. O problema é que demais pétalas estavam longe do alcance da minha mandíbula e meus dedos tinham virado folhas. Qualquer articulação em ameaça de dobra quebraria como um caule – nem valia a tentativa, posto que muitas raízes já haviam fixado minha planta dos pés no tapete do salão. Todos foram embora; vegetativa, contemplei-me. Um gafanhoto alojou-se debaixo de minha axila. Uma abelha colheu néctar das minhas narinas. E uma lagarta começou a comer voraz a artéria saltada que levava à minha virilha, perfilando-se como uma premonição ao longo dela. Feels se aproximou, afastou a abelha e me beijou com cuidado. A orquídea balançou e polinizou meus olhos. Só vejo flores em você.
- colagem: iuri kothe e manon
NE TOUCHE PAS MON FRÉRE!
Outro dia deixei um beijo no scrap do meu irmão e céus, ele tem um SÉQÜITO. Não é um séqüito de amigas gatinhas jogando conversa fora, mas de RAPOSAS na INTENÇÃO.
O Daniel personifica TUDO o que não faz meu estilo num homem e eu já disse isso pra ele. É claro que ele não gostou mas também não se abalou - até porque nós dois sabemos que o resto da população feminina acha que o Daniel é O TIPO.
Nem é ele que me conta. Irmãozão é até bastante modesto em relação à SENSAÇÃO que causa. Eu fico sabendo porque, em tentativa audaciosa de LOGRAR A CONQUISTA, as pretendentes mais estratégicas tentam desenvolver amizade comigo e ABREM O VERBO. É até bastante instrutivo porque, sem a ajuda delas, eu desconheceria os limites do ARDIL FEMININO.
O que não significa que eu APRECIE A DESCOBERTA. Primeiro porque ardis são subterfúgios para amadoras interessadas em sedução, não em arrebatamento afetivo real. Segundo porque não tem a menor graça quando a CAÇA é o seu irmão.
As mais diretas já vão me chamando de CUNHADA; as desesperadas chegam logo na nossa MÃE. Não são poucas as que se tornam leitoras desta página; algumas me dão flores.
Teve uma loira que escureceu o cabelo porque sacou que o Daniel gosta de ruivas e morenas. Jogou fora roupas que descobriu que ele não gostava, parou de falar com quem ele não ia com a cara, deixou de freqüentar picos que ele considerava queimação.
Desnecessário dizer que frére TEMEU.
Terça passada foi aniversário dele e surgi para beijá-lo. Quando entrei em seu quarto, ele se despediu de um interlocutor telefônico com "Agora vou nessa, a Primeira Dama chegou".
PRIMEIRA DAMA, minha gente.
E ele é MON AMOUR.
Diz pra mim se eu não sou o próprio LÓTUS desabrochando no meio da LAMA.
A parca luz que reflete
A parca luz que reflete as gotas da profecia depois que você se desdobrou de cinza em prisma - o importante é que não asfaltem a rua, há os medos que se entregam para serem anulados pelo vento e só sobrou lugar para o novo, daqui por diante, gatilho puxado sábado à noite com projétil lunar acertando minha cabeça a quarenta minutos do nascer do sol de hoje. Já estava tudo armado às costas intactas do nascimento, eu desci dos meus sapatos divertidos e disse, e então, terráqueo? Foram dracúleos oceanos de tempo até chegar ao princípio fundamental e eu sempre tão hesitante diante do óbvio, convença-me melhor, que eu saque minha pinça e fira a placenta que me impede, ovo, tétano e qualquer má notícia inerente a uma transcendência. Doméstico, não, domado, jamais; nem precisa, nos deram a lava que ascende e queda bela no auge de uma torre flamboyant.
Tem gente que passa uma vida esperando por isto.
REZA PRA CONTINUAR ABAIXO DOS
REZA PRA CONTINUAR ABAIXO DOS 20
Se tem um lance que ando SONHANDO COM é DERRETER UMA SHISHA no friozinho.
Meu VERME ESTOMACAL não me deixa realizá-lo de imediato, então estou escorando todas as minhas esperanças no findi.

