categoria ~ leevros



quarta-feira, dezembro 30, 2009

gilles lipovetsky sobre...

... a dinâmica da moda:

comandada pela lógica da teatralidade, a moda é um sistema inseparável do excesso, da desmedida, do exagero. o destino da moda é ser inexoravelmente arrebatada pela escalada de acréscimos, de exagerações de volume, de amplificação de forma fazendo pouco do ridículo. nada pôde impedir os elegantes e as elegantes de "fazer mais do que é preciso", de aumentar um ponto em relação ao que "se faz", de rivalizar em excessos de ostentação formal e luxuosa (...)

contudo, a escalada das amplidões não é ilimitada: a partir de um certo momento, o processo brutalmente faz uma reviravolta, inverte-se, renega a tendência passada, mas é impulsionada pela mesma lógica do jogo, pelo mesmo movimento caprichoso. na moda, o mínimo e o máximo, o sóbrio e a lantejoula, a voga e a reação que provoca são da mesma essência, quaisquer que sejam os efeitos estéticos opostos que suscitem: sempre se trata do império do capricho, sustentado pela mesma paixão de novidade e de alarde. o reino da fantasia não significa apenas escalada aos extremos, mas também reviravolta e contrariedade: a voga da simplicidade e da natureza, que se estabelece por volta de 1780, não foi menos teatral, artificial, lúdica do que o luxo de refinamento precioso anterior.

se é verdade que as modificações da cultura e do espírito do tempo estão na base das variações de moda, não podem jamais por si só explicar o novo e a moda, seu aleatório irredutível, suas inúmeras metamorfoses sem razão nem necessidade. isso porque a moda não pode ser destacada da lógica da fantasia pura, do espírito de gratuidade e de jogo que acompanham inelutavelmente a promoção do individualimo mundano e o fim do universo imutável, prefixado, das formas da aparência tradicional.

"o império do efêmero - a moda e seus destinos nas sociedades modernas", companhia das letras.



terça-feira, dezembro 22, 2009

gilles lipovetsky sobre...

... a dignidade conceitual da moda:

o reino da moda generalizada leva a seu ponto culminante o enigma do ser em conjunto próprio à era democrática. trata-se de compreender como uma sociedade fundada na forma moda pode fazer coexistir os homens entre si. como pode ela instaurar um elo de sociedade quando não cessa de ampliar a esfera da autonomia subjetiva, de multiplicar as diferenças individuais, de esvaziar os rincípios sociais reguladores de sua substância transcendente, de dissolver a unidade dos modos de vida e das opiniões? (...)


para g. de tarde, a moda é essencialmente uma forma de relação entre os seres, um laço social caracterizado pela imitação dos contemporâneos e pelo amor das novidades estrangeiras. não há sociedade senão por um fundo de idéias e de desejos comuns; é a semelhança entre os seres que institui o elo de sociedade, a ponto de ele afirmar que "a sociedade é a imitação". a moda e o costume são as duas grandes formas de imitatividade que permitem a assimilação social das pessoas. quando a influência dos ancestrais cede o passo para a submissão às sugestões dos inovadores, as eras de costume dão lugar às eras de moda. (...)

a moda é uma lógica social independente dos conteúdos (...)

"o império do efêmero - a moda e seus destinos nas sociedades modernas", companhia das letras.



quarta-feira, novembro 11, 2009

livro



terça-feira, julho 21, 2009

meu destino é ser onça

my sarah federico erra

todavia sumé está no céu.

e, para vingar os parentes mortos no rio, sumé se transforma em onça e persegue jaci.
quando, no fim das chuvas, aparece uma estrela muito vermelha, chamada jaguar, é sumé transformado em onça, sujo com o sangue de jaci.
jaci, quando reaparece assim sangrando, corre o risco de morrer para sempre.
e os homens batem no chão com seus cajados e, para assustar a onça, gritam eicobé xeramói! eicobé xeramói güé! - "viva, meu avô".
e jaci, então se regenera - porque é um grande caraíba.
os covardes choram, porque sabem que se o mundo acabar a angüera deles será devorada por anhanga.
mas nós somos fortes e não tememos.
por isso continuamos matando e comendo nossos inimigos.
enquanto a onça não comer a lua.

- mito tupinambá por alberto mussa

a foto é sarah, do translumbrante federico erra.



quarta-feira, abril 29, 2009

"it has become ever more evident that our understanding of bodies needs new explanations and theories"

caí numa entrevista com a psicanalista susie orbach na tevê e resolvi saber mais a respeito de suas idéias sobre o corpo. o que encontrei nesta entrevista concedida a times online foi um desfile de algumas hipóteses que já haviam passado pela minha cabeça, e outras bem elaboradas sobre a relação que todos nós, homens, mulheres e até crianças, estabelecemos com nossos próprios corpos e com os dos outros no começo do milênio. estou fascinada. seu novo livro, "bodies", não vai me passar em brancas nuvens - sobretudo porque atualiza vários approaches de michel onfray sobre a fisiologia e o indivíduo.



terça-feira, março 31, 2009

the fiercest woman ever

yokode uma elegância ímpar a minibio de yoko no capítulo dezenove de "john lennon". é tão pouca gente que lhe faz justiça que eu não consigo evitar a reação emo.

lamentável que tantas pessoas ainda estejam tão atoladas em ignorâncias a respeito de yoko, sempre com o maldito mantra mas foi ela quem separou os beatles. lixo. ovelhas torpes. a genialidade de lennon teria se limitado ao âmbito da música se yoko não tivesse aparecido.

da última vez em que estive em paris comprei o livro "imagine yoko" no beauboug. ele traz algumas de suas instalações mais importantes, inclusive a que fez lennon se apaixonar por ela. que era uma escada com uma lupa pendurada e uma palavra pequenininha escrita num cartão colado no teto. o sujeito subia a escada e lia yes através da lupa. então, e para horror da opinião pública, pouco depois lennon deixou a loira alta britânica cynthia para ficar com a japa baixinha desgrenhada. até morrer.

"imagine yoko" traz também alguns haikais fabulosos do livro "grapefruit" (ono, 1964):

travel piece

make a key.
find a lock that fits.
if you find it, burn the house
that is attached to ir.

yoko pertencia a aristocracia japonesa; no início dos anos 60, tornou-se uma princesa rebelde que brilhava intensamente no círculo avant-garde anti-arte fluxus, nova york. ela ejetou lennon para décadas adiante. com sean, o filho que tiveram juntos, lennon se livrou do padrão do pai ausente que tivera - e repetira com julian, seu primogênito com cyn - para ser a figura principal nos primeiros anos de vida do caçula, a ponto de deixar a música em segundo plano. casar-se dentro de um embrulho branco, o bagism, bed-in pela paz na holanda e canadá: coisas inimagináveis se yoko não surgisse na história. "mother", "mind games", "watching the weels", "woman", "imagine": nada disso teria sido composto sem influência dela, que desde a infância brincava de imaginação. não teria existido a campanha war is over/ if you want it, o primeiro terrorismo poético de grande repercussão do mundo.

o legado de lennon estaria muito mais embotado.

as relações entre homens e mulheres, causas humanitárias, arte - tudo teria sido tão diferente.



terça-feira, março 31, 2009

can´t help it

embora esteja há meses enredada com "a política do rebelde" e "outsiders", creio que, ao contrário de minhas previsões, não serei capaz de escapar a "john lennon", de philip norman.

estive com o volume nas mãos e foi irresistível.

admito que metade do meu fascínio por lennon está em sua relação com yoko, a mulher mais espetaculosa do universo. após ler a quarta capa do livro, abri exatamente no início do capítulo 19, que fala do primeiro encontro do então beatle com a artista plástica japonesa.

meu ceticismo não me permite acreditar em sinais, mas fiquei realmente surpresa com a coincidência. de modo que começarei a ler a biografia a partir dali, e ainda haverá muito das 851 páginas. toda a infância de lennon é revisitada em sua interação com yoko; de certa forma, não terei deixado de saber da relação com a mãe que o abandonou, o pai ausente e com tia mimi por tomar a história pela metade.

na bravo! de fevereiro, um excitante artigo sobre o livro.

na playboy de janeiro de 81, uma entrevista épica com lennon e yoko, realizada dois meses antes da morte do mito.



sexta-feira, março 27, 2009

a mulher que não consegue esquecer

jill price é uma evidência de que absolutamente tudo o que vivenciamos está guardado em algum lugar das nossas mentes para sempre. a diferença entre ela e nós é que ela é capaz de acessar esse lugar e buscar a informação que quiser a qualquer momento - inclusive as memórias tristes de sua vida pessoal, como se tivessem acabado de acontecer.

uau, isso é um handcap. como recomeçar uma vida depois do fim de uma relação se você não consegue esquecer? como perdoar alguém que te fez mal, como aprender com os próprios erros se você continua lembrando daquilo com riqueza de detalhes? se para muitos de nós já é difícil elaborar positivamente as emoções mesmo quando as más memórias se tornam distantes, imagina quando elas nunca vão embora.

jill price conta tudo no livro "the woman who can´t forget". a wired traz aspectos surpreendentes do que sua memória ray man é capaz.



sexta-feira, março 20, 2009

livro alivia vontade de graffiti para leigos

(porque os profissionais se jogam nas ruas)

wallbook

walls notebook: variadas superfícies de nova york para rabiscar.



segunda-feira, janeiro 26, 2009

superprank

lemure

eis uma capa que eu gostaria de encontrar em meio aos lançamentos do mercado editorial. queria um livro que simplesmente descrevesse, com suculentos detalhes, viagens de drogas que valem a trip. tipo um confissões de um comedor de ópio do de quincey, só que menos miserável. a passagem de christiane f. morrendo de rir em lsd menos a heroína, os pais idiotas ou a prostituição. a riqueza das sessões terapêuticas de fauze arap sem os pormenores técnicos. sem dúvida o flashbacks de timmy leary é imbatível no quesito descrições sensacionais de highs inesquecíveis. precisávamos de mais livros desses, de mais parágrafos sobre loucuras afirmativas, construtivas, artísticas.

enquanto isso rimos do fato de que o autor do livro fake ao lado é na verdade um professor de programação de computador e técnico em edição onláini. o fantástico lêmure on acid saiu emprestado de uma de suas prolíferas publicações, unix in a nutshell. deve ser muito relevante para minha vida de pessoa internética, mas foge de meus ramos de atividade direta. a versão alternativa sugerida a esquerda me seria de maior serventia.

e não é bem porque eu apóio a legalização e o uso recreativo de psilocibínicos ou emedês-emeáticos, mas porque o mainstream segue em sua sufocante falta de imaginação, e vivo parte de minha vida nele. queria encontrar mais homens usando esmalte de unha. mais mulheres de chapéu aramado. automóveis grafitados. menos medo do ridículo. e que essa coisa invadisse o underground dos falsos loucos, dessa gente que se diz criativa e na verdade vive da mesma modorra pequeno burguesa da superfície.

enfim, me revoltei à antiga e quero um livro do lemurezinho doidão pra mandar anonimamente pra casa das pessoas. é menos garantido que uma infusão de cogumelos nos compartimentos de água da cidade, mas é o que está ao alcance de um terrorista poético comum.

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