... a dinâmica da moda:
comandada pela lógica da teatralidade, a moda é um sistema inseparável do excesso, da desmedida, do exagero. o destino da moda é ser inexoravelmente arrebatada pela escalada de acréscimos, de exagerações de volume, de amplificação de forma fazendo pouco do ridículo. nada pôde impedir os elegantes e as elegantes de "fazer mais do que é preciso", de aumentar um ponto em relação ao que "se faz", de rivalizar em excessos de ostentação formal e luxuosa (...)
contudo, a escalada das amplidões não é ilimitada: a partir de um certo momento, o processo brutalmente faz uma reviravolta, inverte-se, renega a tendência passada, mas é impulsionada pela mesma lógica do jogo, pelo mesmo movimento caprichoso. na moda, o mínimo e o máximo, o sóbrio e a lantejoula, a voga e a reação que provoca são da mesma essência, quaisquer que sejam os efeitos estéticos opostos que suscitem: sempre se trata do império do capricho, sustentado pela mesma paixão de novidade e de alarde. o reino da fantasia não significa apenas escalada aos extremos, mas também reviravolta e contrariedade: a voga da simplicidade e da natureza, que se estabelece por volta de 1780, não foi menos teatral, artificial, lúdica do que o luxo de refinamento precioso anterior.
se é verdade que as modificações da cultura e do espírito do tempo estão na base das variações de moda, não podem jamais por si só explicar o novo e a moda, seu aleatório irredutível, suas inúmeras metamorfoses sem razão nem necessidade. isso porque a moda não pode ser destacada da lógica da fantasia pura, do espírito de gratuidade e de jogo que acompanham inelutavelmente a promoção do individualimo mundano e o fim do universo imutável, prefixado, das formas da aparência tradicional.
"o império do efêmero - a moda e seus destinos nas sociedades modernas", companhia das letras.




