há alguns anos ouvi falar pela primeira vez sobre linhas de fuga. foi no meu momento pré-deleuze, o pensador que levou a expressão ao âmbito filosófico. nunca pedi explicação sobre o que significava: a minha cabeça simplesmente fazia um paralelo automático com ponto de fuga, um conceito de arquitetura que me é bastante familiar, posto que papai é perspectivista. estava claro que tinha a ver com seguir em direção a um destino que não está aparente, que ainda não surgiu no mapa. acima de tudo, tinha a ver com movimento e com o desconhecido. ninguém realmente sabe o que existe atrás do horizonte.
de repente descobri que desde muito cedo tinha o hábito de criar linhas de fuga toda vez em que me sentia inadequada ou entediada. isso não significa que eu era inadequada, apenas que me sentia assim, descombinando com o entorno. dentre nós, que tantas vezes nos sentimos ets no meio da perspectiva by-the-book em que a maioria opera sem reclamar, há os que ficam ali e os que fogem, os que vão embora.
fuga é, com alguma razão, o tipo da coisa que se atribui aos fracos de espírito. mas acabei concluindo que seguir uma linha de fuga é o contrário: é seguir o seu próprio caminho em direção a si mesmo. então é tudo ao contrário: não é burrice, é criatividade; não é covardia, é não-conformismo; não é fuga, é encontro.
minhas linhas de fuga são os meus caminhos e meu ponto de fuga é a minha singularidade.
anos mais tarde, com a implantação definitiva da internet, com esses exércitos de pessoas atendendo a todos os estímulos possíveis, correios electrónicos, telemóveis, reprodutores mp3 de passeio diário, messengers, twiters, bate-papos eternos, wifis para estar continuamente ligados, antónio deu-se de conta que a realidade virtual teorizada chegara desde o horizonte, noutros formatos, e que deveríamos tender a infinito de vez, correndo cara um lugar chamado linha de fuga, no horizonte.
segundo josé ramom pichel campos, está ficando cada vez mais fácil compreender o que são linhas de fuga e traçar as próprias.
nas palavras do blog deleuze e parnet,
temos a tendência de dividir a realidade, o mundo, em esquemas dicotômicos, esquemas esses que só separam, não conectam, não partilham, não se partilham... o meio é a potencialidade, é o que existe ou poderá existir entre as duas realidades que são amplamente assumidas. nós no jornalismo temos a mesma tendência do resto do mundo, que é a de dividir a realidade em bom/mau, herói/vilão, rico/pobre, tradição/moderno... e muitas vezes fica tanto por explorar. é por isso que os autores defendem que estes princípios [linhas de fuga] são difíceis de explicar, porque no fundo são apenas potencialidades, são coisas da ordem do possível, não são ideias palpáveis ou que utilizemos todos os dias.
e então completa a idéia com outros dois conceitos fundamentais às linhas de fuga: o devir e o nomadismo.
a ideia de devir é também desta ordem. claire parnet diz a dada altura que devir é devir simplesmente. o devir não tem história, não tem passado nem presente. o devir não tem um princípio ou um fim, são os acidentes de percurso, não apenas nas vidas humanas. são as possibilidades que muitas vezes não se concretizam porque optamos por uma outra possibilidade - às vezes nem optamos porque já temos um plano estipulado (mas mesmo isso é uma opção). o devir é encarado como uma intensidade, como uma velocidade absoluta. e uma velocidade absoluta é diferente de uma velocidade relativa. a velocidade relativa é a velocidade de um movimento de um ponto ao outro, ou seja, com princípio e fim. mas o que importa é o meio, daí a importância da velocidade absoluta.
a velocidade absoluta é uma intensidade que permite traçar uma linha de fuga. por isso é que parnet diz que a velocidade absoluta é a velocidade dos nômades, mesmo quando eles se deslocam lentamente ou quando estão simplesmente parados. uma velocidade absoluta pode ser uma imanência, não é um movimento. e os nômades traçam uma linha de fuga, criam um espaço liso, desterritorializam-se. se bem que eu também acho que acabem por se formar numa comunidade com valores e regras e que acabam por listrar o seu próprio território... mas esta velocidade absoluta do devir não é mensurável, é apenas o modo de estar presente ao espaço.
conclusão:
para deleuze, viver é da ordem do devir e não da ordem da história, viver é experimentar o que está entre, o que está no meio. a potencialidade de deleuze está lá em latência, em potência. parnet dá vários exemplos de como criar linhas de fuga, de como criar novas experiências, de como produzir o novo.
por hoje é tudo o que temos a dizer.