estava armada a guerra, já êxodos em massa pela estrada repleta, meio do caminho meu pai decretou nossa separação posto que teria eu mais sorte e juventude, jamais ouviria falar dele novamente.
cheguei a pensar que estaria salva no gramado onde desci duas malas entulhadas, que os exércitos inimigos que atracavam no litoral nos respeitariam como a suíça, mas plácidas vimos o furacão chegar, as três gringas abriram sua tenda de lona para nos abrigar, eu, a mensageira e a perdoada mas meu sitar, o sitar antigo havia ficado do lado de fora junto com bagagens abertas e roupas espalhadas, musaranhos me arranquem pedaços, era tudo o que eu tinha então mais nada para o próximo cataclisma levar.
dentro da tenda as coisas não estavam mais tranqüilas, o vento levantava as pontas balançava a lona queria nos chupar dali o sitar de tão sensível quebrou o pescoço, delatou nossos horrores, me era mais uma perda indizível mas no fundo do buraco do nosso poço de pesares pesava o chumbo da sobrevivência mesmo que sobre lâmina usada de barbear rente e macio com o novo max 3 da gillette.
e assim fizemos logo que os raios deixaram de nos atingir as cabeças, patinamos descalças pela navalha que nos levou a uma casa grande, outro time de refugiados já ocupava um dos quartos e enquanto eu tentava ligar para mamãe, precisava saber se ela estava viva e acenar que eu talvez estivesse, o telefone tocou e foi-me dado um aviso de morte, voz de velha com câncer na garganta, certeza absoluta de se concretizar e naquela noite aconteceu, mandaram-nos desocupar o quarto e acampar na sala pois o senhor da guerra chegaria, planejava instalar-se no mesmo caribe que desejava escravizar com aquele seu colar de pérolas de tirania e mentiras.
chegou e já tinha massacrado o governo, eu teria ficado feliz se parasse por ali mas não, ele precisava do temor e paixão do povo enquanto seus aliados desfechavam a quarta guerra mundial pelo resto do mundo, eu envergonhada pela minha habilidade com idiomas que havia me levado a ser sua intérprete involuntária de noite eu lia e ele se aproximou com um livro que havia escrito para mim antes de me conhecer e o declamava romântico, eu apavorava mas sentia a vaidade e a segurança de ter caído nas graças do pior escroque da terra.
dentro de um ônibus estacionado em frente ao jardim ele tinha com os moradores locais que a princípio o saudavam e queriam saber sobre ele, vinha de um país árabe do norte da áfrica, muito próximo ao afeganistão segundo o atlas oficial da história, na seqüência investiguei seus possíveis hábitos de narghee-la - confirmados - mas logo precisei segurar uma puxada de vestido e a pergunta sobre supostos hábitos thc de meus antigos rapazes, imaginei estar muito perto de ser liquidada ali mesmo, de repente os moradores desmascararam o tirano e gritavam e saíam do ônibus, ele sumiu, fez-se noite e mandou um mulato entregar-me em domicílio um carrinho de mão cheio de ossos, era o presente que ele daria ao povo rebelde e para mim uma garrafa de alcoólico perfumado.
nadei junto ao fundo de uma piscina e, quase tocando os ladrilhos do outro lado, vejo-o me seguindo com braçadas ferozes na superfície.