antes que me mandem e-mails cheios de antrax, quero esclarecer que me orgulho em ter visto madonna desabrochar como a própria rosa de hiroshima na primeira metade dos anos 80. no dia de seu quinquagésimo cumpleaños, em 16 de agosto último, fiz maratona de seus dois devedezes de clipes, idiotizada diante da tevê. madonna é, sim!, o expoente máximo do pop: a mais vibrante, sagaz, divertida, estonteante, etc. cantora, bailarina, atriz, performer, etc. que já existiu no mundo. amo madonna e a defendo de qualquer ataque que tente tirar-lhe a realeza.
no entanto:
alguém por favor me diga que madonna não está ficando gagá. que ela gravou seu último álbum com uma pistola apontada para a cabeça e que está sofrendo de uma rara doença degenerativa que lhe sugou toda a feminilidade do corpo e paralizou os músculos da face.
é muito duro para mim concluir que maddie cometeu tudo isso em livre arbítrio. e aqui minha voz desaparece em meio a toda uma ecatombe midiática que considera sua total falta de dignidade musical, o físico acromegalia e o rosto plasticina algo a se celebrar como um grande modelo para a mulher contemporânea de cinqüenta anos.
as pessoas se admiram com o visual de madonna quando o mais razoável seria sentir uma leve estranheza. não porque ela tem meio século com cara de um quarto, mas porque esse um quarto é tudo, menos autêntico. é um braço duro com uma mão que aparenta a de uma senhora de setenta na extremidade; é um corpo enxuto e elástico, mas que não mais se movimenta com o vigor e espontaneidade que dele se esperaria; é um rosto liso, mas com poucas expressões que remetem à marotice e escândalo da cerebral, linda, velha madonna da juventude. isto não deveria se perder com o passar dos anos, sobretudo quando se teve uma vida lotada de glórias.
não seria mais legal se madonna tivesse a esperteza de usar o appeal dos mulherões de sua própria idade? porque, ao contrário do que todos enxergam, estou vendo madonna envelhecer mal. a verdade é que ela tem a sorte de contar com os melhores experts em cosméticos e cirurgias do planeta, e se salva da pecha de coroa que quer parecer garotinha que tanto ridicularizamos por aí.
então os pró-madonna bizarra defendem: oh, mas se ela não fizesse nada disso, não continuaria atraente. ora, cá pra nós. conhecemos mulheres de meia-idade absolutamente deslumbrantes já lá atrás, na época em que madonna lançava seu primeiro single: tina turner, ioná magalhães. tempos pré ácido retinóico, botox e cirurgias estéticas avançadas. sem chorumelas, pessoal.
jogo com a hipótese mental: essa coisa da cabala, de declarar publicamente que num passado reencarnacionista teria sido uma rainha chamada esther e começar a assinar esther, não fica lá muito longe da psicose cientológica de tom cruise. seus pequenos delírios de glamouroso histórico espiritual não devem ser os únicos sintomas de que anda faltando bom senso à material girl. e sua trajetória brilhante e carisma monumental nos confudem o bom julgamento, arrancando um amém a todas essas suas esquisitices.
não, madonna não está ok. não, não quero ir a seu show. fui em 93 e testemunhei com meus próprios olhos o colosso que ela era, e como merece a majestade que lhe é atribuída - apesar da decadência que pouquíssimos conseguem ver.