Cheguei perto de um DERRAME CEREBRAL quando mirei os hindus da banda de John McLaughlin arrumando os instrumentos no palco do TIM Festival. Foi a primeira vez que vi músicos indianos de verdade.
Vi, aliás, bem de perto: larguei a galera na mesa e fui lá pra frente com o Iuri. Tirei o sapato, a exemplo dos discípulos de Sarasvati, e fiquei em pé na lateral da platéia, balançando de um lado pro outro. O frenesi não permitia acomodar-me de outra forma.
Mesmo assim estranhei um bocado no começo do show. Ora, vamos lá. Vamos admitir que eu estava mesmo sendo PURA em achar que sairia cem por cento satisfeita de uma fusion entre jazz e música clássica indiana sem cítara (também conhecida aqui no narghee-la como O INSTRUMENTO MAIS ENCANTADO DO MUNDO).
Só que, se encaixassem uma cítara ali, John McLaughlin, comprovadamente o menos proeminente dos músicos, seria ANULADO. Por outro lado, o concerto ficaria capenga sem as representações formais das cordas indianas. A questão foi equacionada com U. Shrinivas, que transplantou fielmente para o bandolim elétrico pallavis, charanams e demais estruturas originárias da cítara.
De alguma forma muito misteriosa (quem sabe um artifício de autopreservação criado nas profundezas do meu desapontamento), cada nota de Shrinivas era traduzida simultaneamente para cítara dentro da minha cabeça - tipo uma rede de neurônios SAP musicais. Mas todas as grandes diferenças entre ambos instrumentos não escapavam aos meus ouvidos tendenciosos.
Eis então que as imperiosas forças da GANDHARVA abençoaram o espetáculo com a única chance de salvação total: Zakir Russain, talvez o maior tablista vivo. Seus quinze minutinhos de solo desviaram-me irremediavelmente para o apelo percussivo do show. Talas pra que te quero.
E quero muito.
Escoltado por V. Selvaganesh, que manejava ghatam, kanjira e marethangham, as batidas foram o AUGE. Dava para imaginar a GÊNESE SEGUNDO O MAHABHARATA.
Havia ainda o canto de Shankar Mahadevan, que eventualmente nos levava a fazer piruetas sobrenaturais no éter.

O fim do show foi seguido por uma rápida operação de fuga do apavorante Village em direção à casa, onde pouco tempo depois deu-se minha primeira jam com instrumento ocidental: eu na cítara e João Henrique no piano.
Fui breve e meio assim, mas já conta.